No último domingo, dia 3 de agosto, “Graveto” e eu liberamos a via Caranguejo Rock’n Roll na Pedra Alto Santa Maria em Itarana.
Essa via foi conquistada por mim e o “Chuck” em setembro de 2022 após duas investidas.

Em 2023, voltei a via com o “Guiza” para tentar liberar a via, mas acabamos fracassando.

Naquela ocasião, entendi que para liberar a enfiada crux, a sétima, o ideal seria quebrar a enfiada em 2 partes, isolando o último trecho de uns 5m do restante, mas para isso, seria necessário bater uma chapa extra para duplicar a proteção.
No ano passado, comprei uma furadeira super compacta que iria cair como uma luva para um projeto desses. Com isso, a ideia de voltar à via voltou a ganhar forma.
No entanto, era preciso achar alguém disposto à encarar uma empreitada. Nessas horas, sempre é bom pegar um desavisado, tipo o Graveto que no início da semana falou que estava disposto a fazer uma conquista ou repetir uma tradi, sem entrar em detalhes.
Meio que copiei a estratégia de 2023. Saída de Vitória às 6h e café da manhã em Santa Teresa. Ao lado da padaria onde sempre tomamos o café da manhã, tem uma farmácia com termômetro que sempre dou uma olhadinha. Nesse dia, estava marcando 11oc Célsius, um recorde. Acho que nunca vi um dia tão frio em Santa Teresa a essa hora da manhã. Temperatura baixa significa pedra colando e isso era tudo que estávamos precisando para o projeto do dia, pois o crux não liberado é uma travessia de agarras pequenas!
Chegamos à base da via por volta das 9h e às 9h15 iniciamos a escalada. A temperatura estava perfeita, céu nublado e com vento. Já sabíamos que à tarde a parede entraria na sombra, bem na hora em que estaríamos passando pelo crux.
O Graveto tocou as 3 primeiras sob o olhar atento de uma dúzia de cabras que ficavam andando de um lado ao outro no platô da P3.
Assim que chegamos à P3 vimos o estrago que esses bichos estavam fazendo no platô. Nos anos anteriores, esse platô era cheio de vegetação, mas agora as cabras comeram o mato e ficam pisoteando o solo frágil.
A partir da quarta enfiada, peguei a ponta da corda. A quarta enfiada foi decotada pelo Guiza que deu V grau em 2023, mas ainda acho que essa enfiada é um V SUP.

A 5a enfiada também tomou um decote do Guiza, mas repetindo novamente, acho que VI seja mais coerente do que um V SUP.
Na 6a enfiada, passei um sufoco em dois lances. Essas vias que exigem muito trabalho de pé, às vezes, o fato de entrar com o pé errado num lance te leva para uma sunuca de bico que faz um mero V virar um VI.
Cheguei na P6 cansado, preocupado e receoso devido ao couro que tomei. Lembro que em 2023 passei bem nessa enfiada. Enquanto esperava o Graveto subir limpando a enfiada, comecei a achar que não iria conseguir liberar o lance, pois estava escalando pior do que há dois anos.
Fizemos uma pausa na P6 e comecei a sexta enfiada com a missão de encadenar a travessia, já que na última investida tomei um voo no slab final. Dessa vez, fiz bem melhor o crux das faquinhas e me senti animado para fazer a travessia. Passei a travessia com muito mais consistência e segui até a próxima proteção, onde tinha pensando em duplicar para dividir a enfiada.
Puxei a furadeira e dupliquei rapidamente com uma chapa, estabelecendo ali a nova P7. Agora estava faltando um gap de 5m até chegar no grande arco que passamos na conquista em A0 e não consegui liberar em 2023.

A princípio, tinha pensando em abrir uma nova variante, por cima, para ganhar um platô de mato, pois achava a linha original muito lisa, mas a linha por cima era mais lisa e vertical, então a opção menos ruim seria pelo traçado original mesmo.
Em 2023, nesse lance, enquanto o Guiza vinha subindo, uma das chapeletas desparafusou e acabou caindo, ficando somente o bolt. Então, antes de mais nada, tive que repor a chapeleta. Depois, dei uma bela escovada em toda e qualquer saliência. Em seguida, isolei todos os lances, meio que de primeira. Uma sensação de êxtase tomou conta de mim. A essa altura, eu já não estava mais acreditando que era possível passar em livre e, de repente, tudo saiu de uma forma muito pura e orgânica.
Voltei para P7, descansei um pouco e fui para cadena. Mais uma vez, a escalada fluiu e em menos de um minuto havia liberado o último trecho que faltava.

Quanto ao grau da enfiada, comparando com alguns boulders de slab de Yosemite, acho que VII (V3) seja bem adequado.

Depois disso, foi só alegria. A nona enfiada do arco foi um grande desfrute e a 1oa enfiada, um protocolo para fazer o cume.
Chegamos ao cume às 15h30. Diferentemente das outras vezes, o sol estava agradável e conseguimos aproveitar um pouco a vista incrível de toda a região, mas como havíamos deixado os lanches na P3, tratamos de descer logo, pois a fome estava grande.

O rapel transcorreu sem problemas e às 17h15 já estávamos de volta ao carro para iniciar o longo caminho de volta até Vitória.

Imagino que essa via não terá muitas repetições, mas para mim é a melhor via de Itarana e sem dúvida uma das clássicas do Estado pelos estilos envolvidos, a verticalidade e pelos desafios técnicos impostos pela parede.
Por fim, preciso agradecer ao Graveto por topar nessa empreitada épica! O menino cansou!
2 respostas em “Caranguejo Free”
Legal que vcs voltaram lá! aquele crux de slab da travessia parece muito duro! vc é sinistro, mister Arima
As aventuras são melhores quando a gente entra sem fazer muitas perguntas !! Dica para as próximas repetições é não deixar o lancha/tênis na P3