No ano passado, fiz um “acordo” com o escalador André “Tesourinho” de Aracruz. Ele me auxiliaria na finalização da via “Via Sacra”, em Montserrat, Aracruz e eu o ajudaria num projeto que ele e o Fred “Ibiraçu”começaram numa pedra ao lado da Pedra Alegre em Itarana.
A parte dele, ele fez. Agora, faltava a minha parte. No início do mês, o Tesourinho mandou uma mensagem falando que estaria de férias e disponível para a empreitada. Conheço bem a região e sabia onde eles estavam abrindo essa via. Também sabia que o bagulho era gigante, algo como 600m de via, mas ele insistia em falar que a escalada estava tranquila.
Confesso que tentei esquivar, mas trato é trato. Então, reservamos o último final de semana para a empreitada.
Combinamos de nos encontrar em Santa Teresa, cidade perto de Itarana para nós três irmos em somente um carro, mas, diz o Fred, o despertador não tocou e ele acabou se atrasando. Por conta disso, no fim, cada um foi no seu carro até a localidade de Praça Oito em Itarana.
Passamos numa casa ali perto, explicamos nossas intenções e partimos para pedra.
Quando olhei para a muralha com mais calma, pensei: o que esse menino está vendo? Desde quando essa conquista vai ser tranquila?
Ai, ele me explicou que na primeira investida conquistaram duas enfiadas e numa segunda, mais duas, totalizando quase 200m de via até o momento. Pela explicação, dava para ver que eles haviam conquistado a “saia” da pedra que é menos inclinada, mas ainda tinha o resto que não me pareceu trivial.
Como o Fred ainda estava a caminho, começamos os trabalhos fazendo o porteio do material até a base da via. O plano era repetir as 4 enfiadas iniciais, conquistar mais algumas enfiadas e descer fixando a via. Dormiríamos na base da parede e no dia seguinte subiríamos pelas fixas e, quem sabe, terminaríamos a conquista.


Comecei os trabalhos pegando a ponta da corda com a segue do Tesourinho e fui tocando as enfiadas iniciais, enquanto o Tesourinho subia com o material de conquista e fixava as enfiadas.
Assim que cheguei na P3, vimos o Fred encostando o carro ao lado dos nossos carros e logo já estava nas cordas.
Olhei para cima e não conseguia achar os grampos da 4a enfiada. Esperei o Tesourinho subir e ele “lembrou” que só havia conquistado apenas três enfiadas. O golpe está ai!
Olhei para cima novamente, já com outros olhos, e vi que, logo na saída, iria umas peças numa laca. Como o Tesourinho falou no início que não tinha fenda, para poupar peso, deixamos os dois jogos de móvel no carro.
Olhamos para baixo e vimos o Fred na P2 e perguntei para ele:
– Fred, você trouxe os móveis?
– Claro que não!
– Então, vamos precisar!
Como estava mais perto, sobrou para ele rapelar 100m, voltar até o carro, pegar as peças e jumarear de volta 150m até a P3. Quem mandou acordar atrasado!
Assim que as peças chegaram na P3, dei continuidade à conquista. Usei 3 peças na laca estranha e estiquei uma corda inteira até estabelecer a P4.

Já nessa enfiada, a pedra ganhou ângulo e a conquista demandou um pouco mais de trabalho.
A escalada seguiu um estilo bem característico das escaladas da região de Itarana, agarrência em cristais de feldspato que, em geral são bem firmes.
Estabeleci a P4 e chamei os dois que subiram fixando mais uma enfiada. Havíamos planejado fixar 8 enfiadas com 8 cordas, mas o Fred não trouxa uma corda de 100m e ficamos com somente 6 cordas de 60m.
A 5a enfiada ficou mais inclinada que a quarta e, na metade da enfiada, a pedra ganhou mais ângulo e tive que sair pela esquerda, buscando uma calha d’água que parecia mais promissora. Aparentemente, escalar nessa inclinação não seria problema, mas a questão era conquistar. Parar para bater uma chapa nessa inclinação sempre é bem cansativo e delicado.
Estabeleci a P5 num platô confortável e olhei para cima e vi que a pedra ganhava mais inclinação ainda. A essa altura, estávamos entrando numa sinuca de bico e estávamos sem alternativas para contornar a pedra. A nossa única saída seria encarar a parede mais inclinada e tentar sair dali o mais rápido possível.
Consegui conquistar a metade da 6a enfiada por uma bela sequência de cristais grandes até um platô de mato, mas depois sofri para conquistar o trecho mais inclinado.
Esse trecho me fez lembrar a via “Pais e filhos“, na Pedra da Onça que fica ao lado da pedra onde estávamos conquitando. Lá, a escalada segue nesse mesmo estilo. Um dos cruxs da via é escalar rápido, antes dos pés explodirem com os pés delicados.
Uma vez conquistada, a 6a enfiada ficou muito bonita. A enfiada não tem um crux definido, é uma escalada constante e fluida numa parede bem inclinada. Sem dúvida, uma das enfiadas mais belas da via.
Chegamos na P6 e ficamos sem corda fixa. Ainda era bem cedo, umas 15h, mas não tínhamos muito que fazer. Além disso, a próxima enfiada me pareceu pior que a sexta. Eu já estava cansado mentalmente. Provavelmente, se seguisse, iria bater mais chapas do que o necessário. Então resolvemos baixar dali e descansar para o dia seguinte.
A ideia era dormir pela base, mas pelo horário adiantado, resolvemos ir até o Pesque Pague Pedra da Onça, pois sabíamos que alguns amigos estavam por lá também.
Chegamos no Pesque Pague e conversando com a proprietária, vimos que seria interessante ficarmos num chalé, em vez de ficar acampado de rede.

A noite, ainda encontramos o Gillan que estava pela região de férias e por volta das 21h já estávamos nos recolhendo para o dia seguinte.

Acordamos às 5h da manhã e às 6h já estávamos prontos. Tínhamos uma certa preocupação com as nossas cordas fixas, pois a pedra fica muito perto da estrada e visível a quem passa por ali. Alguns anos atrás, quando fizemos isso em Castelo, alguém foi até a base da via e cortou uns 20m da corda fixa.
Por sorte, as cordas ainda estavam lá e logo iniciamos a jumareada matinal até a P6.
A sétima enfiada foi disparada, a pior enfiada para conquistar. Em 50m bati 12 chapas, quase o dobro da média geral, mas uma vez pronta, ela ficou muito bonita e mais exigente que a anterior. Para deixar um pouco mais dramático, na parte final da enfiada, a rocha começou a perder qualidade, ficando mais quebradiça.



A próxima enfiada seria por um grande diedro sujo que vimos de longe. Esse diedro surgiu na hora perfeita, porque a pedra seguia ganhando inclinação, ficando cada vez mais difícil para conquistar em livre.
Infelizmente, o diedro estava muito sujo, o que consumiu muito tempo e energia. Eu precisava cavar a fenda com martelo para conseguir chegar na rocha e colocar uma peça.

O diedro seguiu por uns 20m até sumir. Queria bater uma parada por ali porque estava cansado, mas a rocha era muito ruim. Então, tive que tocar mais uns metros até chegar num lugar decente para montar uma parada.
A essa altura, as minhas energias estavam no fim. E a visão para cima não me trazia motivação, nem gana, pois a pedra não sedia um palmo.
Enquanto batia a parada, começou a garoar. Olhei para o vale e vi que o tempo estava se fechando. Sabia que isso não iria evoluir para uma chuva mais forte, mas foi a desculpa que usamos para finalizar os trabalhos. Aliás, o clima nos dois dias estava perfeito, temperatura agradável, vento frio e via na sombra o dia inteiro. Pelos meus cálculos, acho que consumi uns 2,5L em dois dias de parede, sem racionar, um quantitativo muito baixo para os padrões locais.

Pelos nossos cálculos, ainda faltam uns 200m de parede até o cume. Pelo aumento significativo de vegetação, acreditamos que a pedra deverá perder um pouco de inclinação, além disso, visualizamos 2 fendas que devem cobrir metade desses 200m.
As nossas expectativas são ótimas para uma próxima investida. A questão agora é montar uma estratégia para repetir as enfiadas iniciais, pois não deixamos a via equipada.
