Quente pra Pancas!

^ Roney “DuNada” na via “Face Oculta”, Pedra da Cara, Pancas.

Na oração abaixo, onde está o erro?

No último final de semana, DuNada, Poul, Rebit e eu fomos a Pancas escalar algumas vias tradicionais.

Se você deu um sorriso de canto, imagine DuNada e eu que passamos o final de semana inteiro “rachando de rir” com essa dupla.

Só para quem caiu de para-quedas, o Rebit e o Poul são “escaladores esportistas de carteirinha”. O Rebit já mandou vias de nono grau, mas nunca escalou uma única via tradicional. O Poul, pelo menos, já escalou uma via tradicional, a via Plano de Manejo em Vila Velha. Ele disse que, como tem muito medo de altura, escolheu essa via para estrear porque se alguma coisa desse errado, ele cairia no mar, e assim teria alguma chance de sobreviver. Olha a teoria… A via Plano de Manejo fica na beira do Canal de Vitória e a escalada começa de um barco que precisa ficar atracado no início da via.

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A dupla! Jogo dos sete erros. Como entrar e como não não entrar numa parede às 14h em Pancas!

É claro que os meninos não estavam procurando esse tipo de aventura para o final de semana, eles queriam vias esportivas! Queriam fazer força, apertar os regletes, mas as circunstância os levaram para um destino inesperado.

A ideia original era subir a região de Castelo para escalar em Apeninos no sábado e Furlan no domingo. Mas durante a semana, uma frente fria começou a ganhar intensidade e recebemos algumas informações da galera daquela região de que o tempo estava bem degradado.

Para não perder o “alvará” (eu e o Poul) partimos para um plano “B” e escolhemos Pancas que fica na região norte do estado, longe da frente fria.

Eu e o DuNada estávamos “sussa” em cair para Pancas, tradicional não era problema. O Poul achou legal a ideia, pois há tempo queria fazer outra tradicional. Já o Rebit… O Rebit aceitou entrar nessa “barca” só porque “a vibe da trip” seria boa.

No sábado, acordei às 7h da manhã e o meu celular já tinha 35 mensagens não-lidas no zap-zap do grupo. Eram os meninos tentando chegar à minha casa. O Poul saiu de Guarapari e foi até o terminal de Itaparica de busão. O Rebit passaria lá para pega-lo e depois passaria na casa do DuNada e todos viram até a minha casa em Vitória. Só que o animal do Rebit não sabia que o DuNada tinha se mudado e foi busca-lo no endereço antigo, no outro lado da cidade. Refeito o erro, ou a burrice, os meninos finalmente chegaram em casa às 8h da manhã.

Sair de Vitória para escalar uma tradicional com 4 pessoas às 8h da manhã é pedir para passar mal.

Apertamos no jipinho e pé na estrada até Pancas, distante a 180km de Vitória. Chegamos no Sítio Cantinho do Céu por volta das 11h00 da manhã. Conforme a previsão do tempo, o tempo estava perfeito. Aliás, perfeito demais. Zero de nuvem e muito calor.

Como eu já sabia de antemão que com esses meninos seria enrolação na certa, programei para o sábado uma escalada mais tranquila, a via Face Oculta na Pedra da Cara. Via de cinco enfiadas com crux de 4o grau e a garantia de uma bela vista do cume.

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Desafio do dia: encarar a Pedra da Cara às 14h de um dia ensolarado em Pancas!

Esperamos até às 13h no camping para entrar na via. Às 13h partimos até a base da via, mas para chegar até lá, tinha um rampão infinito. Ai começou a choradeira… “Os esportistas” pareciam crianças mimadas subindo aquele rampão. Só porque ardia a panturrilha e o sol castigava a gente… Não entendi a reclamação… Totalmente improcedente.

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Aproximação, um misto de caminhada com escalaminhada e a estrada ficou laaaa embaixo. Vamos subir logo que lá em cima venta mais! Kkkkk.

Chegamos na base da via por volta das 14h e ali ficamos, numa sombra meia-boca, até às 15h esperando o sol dar uma trégua, enquanto os meninos continuavam com a choradeira.

Às 15h partimos para encarar as 5 enfiadas da via até o cume. Eu e o Poul numa cordada e o DuNada e o Rebit na outra.

Como o croqui oficial estava com algumas imprecisões tivemos alguma dificuldade no início, mas logo nos achamos na via. E na 3a enfiada da via chegamos no famoso crux da via.

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Croqui atualizado da via Face Oculta.

Quando chegamos no camping e fomos recebidos pelo Fabinho, o proprietário, ele perguntou: Que via vocês vão fazer hoje?

Nós falamos que iríamos tentar a Face Oculta da Pedra da Cara e ele respondeu:

– Rapaz… Essa é a via que tem mais fracassos! Além disso, quem entrou lá reclamou dos esticões…

Nessa hora só deu para ouvir o estômago do Poul fazer um barulho estranho. A gente veio a viagem inteira botando terror nos meninos falando de grampos que quebram, como cair correndo numa rampa e outras coisas cabeludas. E ouvir da boca do Fabinho que a via é mal protegida não foi legal nem para mim… Além disso, ficamos sabendo que parte do fracasso da galera era porque não achava o grampo da parada da 3a enfiada.

Peguei a ponta da corda e parti para enfiada enigmática. E logo descobri porque as pessoas tinham alguma dificuldade em encontrar a parada. Diferente das enfiadas anteriores, a parada está mais à esquerda e o croqui não mostra bem isso. Além disso, a enfiada tem 65m e no final, o segue precisa sair em simultâneo (uns 5m) para o guia conseguir chegar na parada.

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Poul na penúltima enfiada da via “Face Oculta”.

Resolvido o enigma, o resto foi só alegria. Até os meninos que choraram a via inteira se entregaram aos encantos do cume, esqueceram todo o sofrimento e fizeram juras de amor à escalada tradicional.

Ficamos lá curtindo a vista até o sol se por no horizonte. Viajamos tanto que esquecemos de assinar o livro de cume…

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Cume!!! E tome sol na cabeça!
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DuNada chegando no cume.
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Todo mundo no cume para curtir o por do sol!
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Fotinhos para colocar no Facebook…
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Foto para posteridade! Eu tentando fazer chifrinho… DuNada tá ficando esperto…
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Agora sim! O por do sol!

Iniciámos a descida já no escuro e após o 2o rapel, os meninos voltaram a chorar. E assim foi até chegar ao carro. No fim, já não queriam saber desse negócio de tradicional. No domingo queriam voltar para o Calogi! Só porque tiveram que rapelar no escuro e descer o rampão sem corda à luz de lanterna. Não entendo… É tão legal!

Usando um pouco de psicologia infantil consegui convence-los de que amanhã seria diferente, mas para isso teríamos que mudar de estratégia.

Como a via do dia seguinte seria a via Paranauê, na Pedra do Camelo, adotamos a estratégia clássica de atacar cedo para tentar fugir do sol.

Assim, no domingo, às 5h fomos acordados pelo galo maldito que passou a noite cantando, e ainda no escuro começamos a nos arrumar, menos o Rebit…

O Rebit, que no dia anterior mais reclamou, não acordava por nada nesse mundo. Deu PT. Resolvemos abandona-lo no sono eterno e partimos DuNada, Poul e eu para via.

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Nosso acampamento em Pancas.

Por volta das 7h, já com os primeiros raios de luz iniciamos a escalada. Segundo os relatos que achei na internet, os conquistadores falaram que a via era muito bem protegida (E2) e que o crux era um 6o grau.

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Tamanho da encrenca do dia: Pedra do Camelo. A via “Paranaué” transcorre pelo meio da pedra, ao lado direito do grande platô de mato.

Já na 1a enfiada de 5o grau, tive que discordar do tal E2. Enfiada de 60m com 4 chapas? E2? Ops, acho que alguma coisa não está bem certo. Dei uma adrenada no crux e cheguei na P1 preocupado. Olhei para cima e nada de ver chapas. Ora, se é um E2 deveria ter mais chapas… Cadê as chapas?

Como a segunda enfiada era um 4o grau, o Poul buscou coragem lá no fundo da alma, catou “incríveis” 3 costuras e foi à luta para encarar mais 60m. E2…

Na terceira enfiada, eu já estava vacinado. Os paranaenses até podem chamar isso de E2, mas para mim isso era um E3 clássico do Espírito Santo. Então tratei de trocar a chave do pscico para modo E3 e mandei bala. Na 4a enfiada, o croqui falava que era o crux da via, mas a essa altura já estava ligado que tanto o grau de exposição, quanto a dificuldade não estavam bem calibrados. De fato, todos nós acreditamos que a enfiada de 6o grau seja um 5o grau constante e que o crux da via está na 1a enfiada.

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Croqui da via com as graduações sugeridas pelos repetidores.

A partir dali foi só alegria até o cume. Tocamos mais 3 enfiadas e chegamos no cume por volta das 10h da manhã. Por sorte, neste dia, o dia amanheceu bem nublado, então conseguimos escalar boa parte da via com certo conforto. Somente no final, o sol começou a mostrar a sua cara entre as nuvens, deixando um pouco mais desconfortável.

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Poul e DuNada na 5a enfiada da via.
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DuNada partindo para 6a enfiada da via.
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Cume!!!
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Poul abrindo o seu coração…
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Mais uma para posteridade. O Rebit ficou dormindo…

Dessa vez achamos o livro de cume, tiramos algumas fotos e tratamos de sair logo daquela pedra que a essa altura estava ficando cada vez mais quente.

Uma hora depois já estávamos na base e 15 min depois no refresco do camping para um merecido “suco de tamarindo”.

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Rapelando ou tricotando? Essa dupla…

Escalar, não escalamos muito, mas a gente riu pra caramba! A minha barriga está doendo até agora de tanto rir. Já o Poul me falou que as pernas estão tijoladas até agora.

Valeu demais Rebitera, DuNada e Poul! E muito obrigado Fabinho e dona Joana por sempre nos receber de braços abertos.

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Janelas, sempre rendem boas fotos!

Comentários

7 respostas em “Quente pra Pancas!”

kkkkkkkkkk muito bacana seu relato Naoki, eu tb ri bastante daqui. Acredito em tudo o que vc falou, das juras de amor no cume aos xingamentos na descida escura, pude imaginar direitinho. Curti sem estar lá. Massa

Viajei no relato kkk, belas imagens, lugar espetacular.

Booaa Naoki! Só vc e dunada mesmo pra levar esses esportistas pra parede!
Parabéns Poul e Rebit por toparem a nova experiência, e em especial ao poul por ter encarado os 50 m com 3 costuras!
Ri demais qndo vi Rebit nas foto de manga curta, bermudinha e miura!! Kkkkkkk coitado, o trauma foi tanto q ele nem quis o segundo dia!!
Abss

“como cair correndo numa rampa” já passei por isso. Kkkkkk.

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