Senhor Behne

A história do montanhismo é contada por grandes feitos, conquistas e escaladas épicas; por outro lado, também há pessoas que nunca escalam, nem sabem o que é um nó em oito, mas que têm, e tiveram, papel importante na história do esporte. Pessoas como o senhor Behne, proprietário do Campo-Escola Behne em Ivoti – RS, que desde 1995 permite que, todos os finais de semana, desconhecidos entrem em suas terras para praticar seu hobby dentro de sua propriedade.

No início da semana, minha mãe me ligou e, só pelo tom de voz, já sabia que era para passar alguma notícia ruim. Ela me informou o falecimento do nosso vizinho, o senhor Behne, aos 87 anos. Nós o chamávamos de “o senhor leiteiro” em japonês porque, por muito tempo, ele nos fornecia leite diariamente.

No feriado de Carnaval deste ano, como de praxe, viajei para o Sul e aproveitei para escalar no Behne. Às vezes, gosto de ir durante a semana, quando tem menos gente, para escalar sozinho. É aquele momento nostálgico que ajuda a conectar com a própria origem. Nesse dia em particular, resolvi descer a pé — em geral, vou de carro. Passei em silêncio pela casa do senhor Behne, como sempre, e fui escalar. Depois da atividade, passei novamente em frente à residência e, como de costume, olhei para dentro da casa em estilo enxaimel preservado, com um belo jardim em volta. Na mesma hora, quase por coincidência, o senhor Behne também botou a cabeça para fora e me viu. Antigamente, era mais comum encontrá-lo pela propriedade. Pessoa muito ativa, sempre estava na lida do trabalho, mas, com a idade, ficou mais reservado e era difícil encontrá-lo na rua.

Acenei e fui ao seu encontro. Passei pela porteira de madeira que estava solta, quase terminei de quebrá-la, e me aproximei. Acho que ele nunca soube bem o meu nome, pois para ele sempre fui o “filho do Arima”. Nos cumprimentamos e ele me convidou para sentar em uma cadeira na sacada.

Não sei por quanto tempo ficamos conversando, mas ficamos relembrando coisas do passado longínquo. Com a voz calma e mansa de sempre, me perguntou de pessoas que não via há muito tempo e ficamos jogando conversa fora, até que achei que ele estava cansando de ficar ali. Despedi-me sem saber que seria a última vez que iria falar com ele. Lembro que saí de lá feliz. Feliz em tê-lo encontrado aleatoriamente e ver que ele ainda estava bem de saúde e muito lúcido.

Para mim, o senhor Behne foi muito mais que um vizinho; foi a pessoa que permitiu que eu pudesse alçar voo para o mundo por meio da escalada. Se ele não tivesse deixado que nós, um bando de crianças, brincássemos nas terras dele, talvez eu nunca tivesse conhecido o esporte do jeito que conheço. Talvez nem tivesse seguido no montanhismo. E mais tarde, se não tivesse permitido que outros montanhistas frequentassem suas terras, hoje o montanhismo gaúcho não teria o pico de escalada mais frequentado do Rio Grande do Sul.

A comunidade do montanhismo gaúcho perde um grande incentivador do esporte. O senhor Behne não precisou escalar montanhas para se tornar um grande montanhista; bastou abrir as portas de sua casa. Que o exemplo de acolhimento da família Behne continue inspirando novas gerações de escaladores a zelarem por essa propriedade com o mesmo respeito e carinho que ele sempre nos dedicou. Obrigado por nos deixar subir alto a partir do seu quintal.

Comentários

Uma resposta em “Senhor Behne”

Que história legal Naoki. É interessante notar o quanto algumas pessoas são ou foram importantes na nossa caminhada. E sua descrição dos fatos vêm certamente carregadas de emoção, mesmo que intrinsecamente. E pode ter certeza: não foi mera obra do acaso tê-lo encontrado naquele dia…

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