A “ventana” perfeita

Nas últimas semanas, o Sudeste anda sendo “varrido” por uma forte massa de ar polar que fez despencar as temperaturas, inclusive com neve em algumas cidades do Sul. Embora o Espirito Santo esteja no Sudeste, aqui sofremos pouco com essas massas e raramente sentimos os intensos efeitos como no Sul.

Assim que saiu na notícia de que uma outra frente fria iria chegar no Brasil, ficamos na expectativa de pegar uma “carona” aqui no Espírito Santo para escalar alguma montanha. Afinal de contas, as montanhas daqui são quentes mesmo no inverno e muitas vias têm a face voltada para Norte, onde o Sol é implacável até mesmo nesta época do ano.

Tudo começou com o “Chuck” perguntando qual seria a escalada do final de semana. Dai pareceu o Eric querendo voltar a escalar na rocha depois de 1 mês. E o Lissandro ouviu a conversa e quis relembrar como é acordar quebrado na segunda-feira.

Escolher a montanha foi mais difícil, pois segundo a previsão, a frente fria viria com chuva em algumas regiões, então tivemos que ponderar isso na conta também. Com uma janela dessas, o ideal seria entrar numa via grande para tirar vantagem do frio. Escalar com temperatura baixa é sinômino de levar menos água, sofrer menos com o calor e se desgastar menos fisicamente. Assim selecionamos algumas vias grandes, mas no fim, faltando algumas horas para partir, decidimos entrar na via “Tempo e o Vento” (4o, VIIa, A1, E4, D4) na Pedra da Lajinha em Afonso Cláudio com 1150m de extensão, considerada a maior via do Espírito Santo.

Entardecer na Pedra da Lajinha.
NomePedraCidadeExtensãoAno
O tempo e o VentoLajinhaAfonso Cláudio1150m2015
Bicuda BitelaPedra da ArapocaCastelo900m2018
Nada é o que parece serPedra PaulistaItaguaçu800m2010
Expresso LunarPedra da OnçaÁguia Branca740m2015
No fio da navalhaPedra do FioCastelo700m2015
NormalPedra do FioCastelo700m1972
Paredrão Carlos BernardoPedra da GavetaPancas700m2002
Vento dos RomaisPedra da GavetaPancas700m2016
Cruzeiro das LoucasPedra do LeitãoPancas675m2017
Amigos da CachaçaPedra Sombra da TardeCastelo665m2016

Saímos de Vitória sob chuva e bastante frio no sábado às 18h30 rumo ao “Cantinho dos Três Pontões” em Afonso Cláudio. Pegamos chuva na estrada até Pedra Azul, a partir dali o tempo firmou e chegamos mais aliviados na propriedade do Itamar.

No dia seguinte acordamos às 4h da manhã e tomamos um café “embrulhado” e por volta das 4h30 saímos em direção à pedra. Do Itamar até a Lajinha foram mais uns 30 minutos de carro na escuro. Chegamos na propriedade que fica na base da pedra e solicitamos passagem. Os antigos moradores, o Nino e Adriana não moram mais lá. Agora quem está lá e o Irineu.

Pegamos o rumo da pedra e iniciamos a caminhada, mas depois vimos que fizemos a pior aproximação! O beta é:

Da casa do Irineu passar pela casa em estilo enxaimel, depois o curral, atravessar a ponte e seguir em direção à pedra. Antes de iniciar a grande subida, há uma grande plantação de bananas atualmente, seguir em direção à pedra pelo pasto e assim que encostar na pedra virar à direita e entrar na mata.

Aproximação.

Assim que chegamos na base da montanha não conseguimos achar o início da via. A descrição no livro do Baldin não era bem clara e o beta que tínhamos estava errado. Em quatro pessoas varemos a base da montanha até finalmente encontrar o primeiro grampo. O beta nesse trecho é:

Assim que entrar na mata, siga para direita. Foi colocado um pequeno totem na base da via. É muito difícil ver o 1o grampo da base. Se o totem não estiver mais lá, procure por uma grande árvore velha que se projeta para cima da rocha. O início da via fica à esquerda, uns 10m. Nesse ponto, na pedra, há uma pequena travessia à esquerda por um pequeno platô descaído. onde é possível andar uns 5m. Ao final dessa travessia é possível avistar o primeiro grampo a uns 5m para cima. Com o tempo, os grampos ficaram enferrujados e com a cor da pedra, dificultando a visualização.

Acabamos perdendo um preciso tempo para achar o início da via e iniciamos a escalada às 6h45, com 45 minutos de atraso em relação ao planejado.

Nós tínhamos como base 12h de escalada, tempo da 1a repetição da via com a participação de um dos conquistadores.

Tecnicamente essa via não apresenta grandes dificuldades, embora tenha dois lances de 7a, são passadas bem isoladas e protegidas. O que faz dessa via um grande desafio é a logística para escalar em um dia. Há vários relatos de cordadas que tiveram que dormir no cume da montanha, ou porque foram muito devagar, ou erraram a logística da escalada. Por isso, perder 45 minutos na saída poderia ter consequências no final.

Escalamos as duas primeiras enfiadas normalmente. Lissandro e eu numa cordada e Chuck e Eric numa outra. A partir da 3a até a metade da 12a enfiada seguimos em simultâneo para ganhar tempo, uma vez que a escalada é bem tranquila. O beta aqui é:

A via pede 13 costuras, mas o ideal é levar umas 20, justamente para escalar em simultâneo nesse trecho. Além disso, vale a pena levar um ou dois Microtraxon ou Tibloc para colocar nas paradas, isso diminui um pouco os riscos do guia em caso de queda do participante.

Chuck na 1a enfiada da via. Note a árvore que marca o início da via.
Eric guiando a 2a enfiada da via.
Pausa para foto! Foto: Chuck.

Chegamos na 12a enfiada por volta das 9h, após 2h15 de escalada. O nosso plano era chegar ali até às 10h e se chegássemos após às 11h iriamos considerar abortar a escalada, pois nesse ponto há uma saída, onde é possível descer a montanha caminhando. Como estávamos bem adiantados na programação, aproveitamos para descansar um pouco antes de encarar o trecho mais vertical da via.

Lissandro limpando a 12a enfiada e Chuck e Eric na P11.

As enfiadas 13 e 14 são as mais demoradas e verticais. A 13a começa em livre, passa em artificial de parafuso e finaliza novamente em livre com lances de V grau. Para mim, esse trecho de V foi o mais legal da via. O trecho em artificial de parafuso da 14a enfiada tem uns 40m, embora seja curto, é o pedaço que leva mais tempo. O beta é:

Estar bem familiarizado com progressão em artificial, tendo os equipamentos adequados (um par de estribo) e conhecer bem a técnica para não perder tempo. O segundo, naturalmente sobe pela corda fixa limpando a enfiada para agilizar o processo.

Estimo que o Eric tenha levado aproximadamente 1h e meia para escalar a enfiada.

Eric na enfiada de 40m em A1.

Nesse trecho da montanha, a via fica bem exposta ao vento e sofremos os efeitos da massa de ar polar. Pela primeira vez no Espírito Santo escalei uma montanha de segunda pele e um softshell. Algo realmente impressionante por aqui. Normalmente uso essa combinação de roupa quando escalo, por exemplo em Arenales na Argentina. Se de um lado estava achando incrível essa condição de montanha, por outro lado ficava pensando nas mudanças climáticas que estamos sofrendo. Há um estudo que mostra essa relação de frios extremos com o aquecimento global… Para se ter uma ideia das condições, levei para essa escalada 2L de água. Fui tomar meu primeiro gole de água na 12a enfiada. Na 15a me obriguei a beber boa parte da água porque vi que iria sobrar. Mesmo assim, voltei para o carro com mais 0,5L de água. Tudo isso porque o dia passou totalmente nublado, com vento e frio. Imagino que uma escalada em “condições normais” consumiria mais de 3L de água por pessoa, uma vez que a montanha fica exposta ao Sol o dia inteiro e não há áreas sombreadas ao longo da escalada.

Paisagem da região.

Passado o artificial, a pedra volta a perder inclinação e a escalada volta a ganhar velocidade. Escalamos a 15a enfiada normalmente passando por um belo trecho de fissura frontal até a P15. Beta dessa enfiada:

O croqui fala em móvel opcional. De fato é opcional se você estiver acostumado com aderência e fissura. Há chapas intermediando os lances. O problema essa enfiada é que ela tem 65m. Por isso, o participante terá que sair escalando assim que acabar a corda. 

A partir dali voltamos a escalar em simultâneo até o cume para ganhar tempo. Embora o croqui mostre 2 enfiadas de III, a 18a e a 19a, acho que são lances de IV. A 19a, III SUP, tem 6 proteções. Nunca vi um III grau com tanta chapa… Alguma coisa está errado.

Eric chegando na P19.
Croqui com algumas atualizações.

Chegamos no cume por volta das 15h45, após 8h de escalada. Aproveitamos para contemplar o visual da região brincando de identificar as montanhas do entorno, fizemos um pequeno lanche e nos preparamos para descida. Procuramos o livro de cume, mas acabamos não o encontrando.

Há três formas de descer a montanha: 1, caminhando (2h), mas o problema é que a descida é pelo lado oposto da montanha, ficando muito longe do carro. Nesse caso, o ideal seria combinar um transporte; 2, descer até o platô da 10a enfiada e sair caminhando pelo contraforte da montanha, mais 45 minutos de caminhada; ou, 3, descer mais 10 enfiadas até a base da via.

Meu lanche do dia!
Foto no cume!
No cume da Lajinha.

Optamos pela 2a forma e conseguimos chegar no carro em 3h, do cume até a casa do Irineu. Alguns betas da descida!

A descida consome muita energia e é preciso estar preparado para encarar a caminhada. Os rapéis são, em vários trechos, bem apertados. O rapel da 15a enfiada é no limite da elasticidade. É mandatório usar 2 cordas de 60m, sem pontas cortadas. Além disso, em alguns trechos é difícil encontrar as paradas por causa da vegetação e pela cor da chapeleta que é muito parecida com a rocha. O ideal é deixa-las sinalizadas com fitas de escalada ou fitas refletivas se não tiver uma boa memória de referência.

Achamos que iríamos sofrer com o frio ao cair da noite, mas no final do dia o vento cessou e o céu ficou totalmente estrelado, garantindo uma descida bem agradável na medida do possível.

Rapelando sob um céu estrelado.

Por fim, preciso agradecer o Eric, Chuck e Lissandro por terem dividido a cordada comigo nessa escalada. O Chuck fazia tempo que não escalava parede então foi um retorno em grande estilo. O Eric, mesmo com muitas dúvidas, sobre conseguir mandar a via, se saiu muito bem na longa jornada; e o Lissandro, escalador esportista, se saiu muito bem nessa maratona de quase 24h!

Falando em ventana, mais pessoas se aproveitaram dessas condições no final de semana e atingiram suas metas.

O escalador Alex Mendes, mandou nesse final de semana a via “O limite do amanhã” no setor Vale Perdido em Calogi, propondo o primeiro 11a do Espírito Santo. Um verdadeiro marco histórico da escalada capixaba. Nesse mesmo dia, na Serra do Cipó, em Minas Gerais, o escalador capixaba Felipe Alves mandou seu primeiro 11a, entrando para o seleto grupo de escaladores que mandaram a via “Comando Vermelho”, igualmente graduada em 11a.

Alex Mendes na via “O limite do Amanhã” no Vale Perdido, Calogi.

Falando em vias duras, ainda no sábado, antes de subir para Afonso Cláudio fui escalar no Morro do Moreno com o Afeto e finalmente conheci o setor dos Tetos, onde estão as vias mais duras do local. Provei um projeto duríssimo que o Afeto está batalhando, dever ser um décimo e aproveitei para fazer o croqui do setor:

Croqui do Setor do Teto, Morro do Moreno.

Mais cedo, estive no setor da Barriga com alguns escaladores locais para apresentar a escalada em móvel na famosa via “Demolidor” (V sup). Foi muito gratificante ver a nova geração de escaladores se interessando nessa modalidade de escalada! Valeu galera! E que final de semana!

Comentários

Uma resposta em “A “ventana” perfeita”

Meus amigos isso é que é aventura. Parabéns

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