Alpes 2015 – Arco, lado B (Parte 4 de 4)

Continuando a saga “fugindo do tempo ruim”, deixamos Val di Mello e rodamos até a cidade de Arco no Vale de Sarca.

O plano, se é que a essa altura ainda existia, era deixar o carro em Roveretto, pegar o Andres em Arco e subir para as Dolomitas, mas como o tempo nas Dolomitas não estava nada animador, resolvemos ficar em Arco.

Arco fica a apenas 90m em relação ao nível do mar, por isso, quando chegamos lá, a temperatura marcava “sufocantes” 18 graus!!!! Para nós que estávamos acostumados com cinco graus, 18 era muito quente. Para falar a verdade já estava até me acostumando a escalar a 5 graus. O bom dessa temperatura é que a rocha fica seca e a aderência da sapatilha fica perfeita. Mas não reclamamos dos 18 graus. Estava bom demais colocar uma bermuda!

Já estive em Arco outras duas vezes, uma vem em 2010 e outra em 2013. E em ambas as ocasiões só escalei vias esportivas. Nessa visita, a nossa ideia era escalar algumas vias longas que têm na região. Até porque Arco é mundialmente conhecida não só pelas vias esportivas, mas também pelas milhares de vias tradicionais que cortam o vale.

Escolher uma via em meio a tantas opções é um trabalho hercúleo! Em três pessoas e com 2 guias de escalada, nós levamos algumas horas para chegar num consenso. Após algumas “birras”, escolhemos a via “Penélope” em Mont Colt. Escalada tranquila, sem maiores dificuldades com aproximação ridícula! Tudo que estávamos procurando após 10 dias de viagem.

É claro que todos os nossos planos “A” não estavam se concretizando. Por isso, no dia seguinte, quando chegamos na base da via, encontramos ela ocupada!!!! A região tem mais de 1000 vias e logo na “nossa” via? Mais uma vez, plano B. Catamos outra via ao lado e entramos. O legal é que têm tantas vias longas uma ao lado da outra que se uma estiver ocupada é só caminhar 20m para o lado e entrar numa outra!

Ok, a via não era lá grandes coisas, mas valeu a experiência. Pelo menos para mim, essa foi a primeira via de parede em calcário e confesso que estranhei um pouco. Diferentemente do granito, no calcário a via é mais braçal e física! Assim, uma via de 7 enfiadas na verdade são 7 vias esportivas uma sobre a outra.

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Andres na 2a enfiada da via “Ape Maia”, Monte Colt.

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Dando segue com a cidade de Arco ao fundo. Foto: Roni Andres

No dia seguinte resolvemos “pegar leve”. Ideia de girico achar que pegar leve é ir numa falésia esportiva para descansar. O Andres nos levou para um setor que só os locais conhecem e nem consta no guia oficial. Falésia boa, rocha boa e sempre negativa! Ali me lembrei como é bom escalar esportiva, mesmo tendo me dedicado mais às tradis nos últimos dias.

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Andres aquecendo num 7c em Volta di No.

No terceiro dia, uma boa janela de tempo bom! Dia de voltar para as paredes. Dessa vez a Dir, esposa do Andres, entrou na roubada e fomos em 2 duplas. Mais algumas birras e chegamos a um consenso! Como o dia seguinte seria o aniversário do Murilo deixamos ele escolher a via (que medo!!!). Por sorte ele não escolheu o Cervino e quis escalar uma via chamada “Hasta siempre comandante” em Pietramurata.

A via tem seus respeitáveis 400m, mas como o vale tem mais de 1000m de altura, a via parecia tão inofensiva que fui meio froxo nela.

Lá pela 5a cordada a ficha caiu. Via longa é via longa! E em calcário, onde os braços pegam mais, não tem como compensar o cansaço para os pés. Da 5a enfiada em diante, a escalada foi uma luta constante contra uma parede que teimava não perder a inclinação.

Batemos no cume ao entardecer. Foi uma luta chegar até ali, mais ainda para a Dir que não estava acostumada com esse tipo de via, mas ela foi guerreira e escalou todas as cordadas até o fim.

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Murilo num lance estranho da via “Hasta siempre comandante”, Monte Casale.

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Andres emendando as últimas duas enfiadas da via (55m).

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Dir no crux da última enfiada.

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Um Spritz para comemorar o aniversário!

No dia seguinte, descanso, ou seja, falésia!

Ir para Arco e não dar uma passada em Massone é quase um pecado. Massone é um dos points de escalada mais tradicionais de toda a Itália. E como o Murilo ainda não conhecia o famoso calcário “untado”, lá fomos nós!

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Finalizando mais um dia de escalada em Massone.

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Via Fata Morgana (8a BRA). Foto: Roni Andres.

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Agarra untada com burro (manteiga em italiano)! É assim que parecem as agarras daqui. Foto: Roni Andres.

Quarto dia em Arco! Bom dia para um descanso. Olhamos para a previsão do tempo e ela indicava chuva para o dia seguinte. Ok, cancela o descanso e passa para o próximo dia! Mochila nas costas bora para pedra. Como o dia já não estava tão firme, resolvemos não arriscar e fomos conhecer uma outra área de escalada clássica de Arco: Nago!

Nago, juntamente com Massone são as duas áreas de escalada mais movimentada de Arco. No auge do verão essas duas áreas ficam praticamente impossíveis, tamanho o crowd!

Por sorte, encontramos a falésia relativamente vazia. Ninguém quis se arriscar muito em um dia nublado.

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Murilo num clássico de Nago, Cato Zulú (6c BRA). Ao fundo, Lago di Garda.

Quinto dia! Vai chover!!! Vamos às compras!!!! Uhuuu!!!! Nunca desejei tanto que chovesse!!!

Acordamos cedinho e nada de chuva. Só tudo meio nublado…

Pela manhã, enquanto atualizava a minha lista de cadenas vi que ainda faltavam 24 vias para eu chegar na minha milésima cadena! Desde que eu comecei a escalar em 1995, venho anotando sistematicamente todas as minhas ascensões. No início anotava tudo num caderninho e depois passei tudo para meio digital.

Comentei isso com o Andres e ele entrou em êxtase! Parecia que estava faltando 24 vias para ele completar as mil vias, embora ele já tivesse passado dessa marca!

E me disse:

– Japonês, tu não vai sair da Itália sem antes completar as 1000 vias! Eu vou te ajudar com isso!

Na hora fiz um cálculo bem simples e vi que seria bem apertado. Ainda tínhamos 4 dias, isso se não chovesse em nenhum deles. E o pior, teria que escalar (e mandar) uma média de 6 vias por dia! Considerando que em média mando 4 vias por dia numa viagem, 6 por dia seria bem apertado. E para piorar já estávamos a 5 dias escalando sem descanso. Se quisesse chegar no mil, teria que escalar 9 dias sem descanso!!!

Assim, o descanso do 5o dia foi suspenso para mim! Como o Murilo não tinha esse problema. Achou mais prudente dar uma volta em Arco para conhecer a cidade e fazer algumas compras, já que no dia seguinte ele iria para Alemanha.

Eu e o Andres, a Dir nos abandonou no dia que escalamos a tradi de 13 enfiada, fomos para um setor chamado Conamo para dar início ao projeto milenium!

Para manter um nível de coerência, estipulamos um grau mínimo de 6a francês para valer na contagem. Tentamos deixar a graduação de lado e fomos escalando o que o nosso corpo estava aceitando. A essa altura do campeonato, qualquer sétimo grau (BRA) parecia um nono grau.

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Croqui de Comano.

E assim passamos os próximos dias, escalando de grão em grão, fugindo da chuva em busca da milésima cadena.

Nessa busca, tive a oportunidade de conhecer um novo lugar: Gola! Esse é mais um daqueles setores de escalada mega populares de Arco. É um setor de placa ao lado da estrada!!! Um sonho para quem tem preguiça de caminhar até a falésia!

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La Gola. Para quem tem preguiça! Saudade de caminhar 1h 20 para chegar na base das vias…

No sábado, faltando apenas 1 dia para o retorno ao Brasil, ainda faltavam 4 vias para chegar no 1000. Era o nosso nono dia de escalada interrupto. Para o gran finale, o Andres reservou mais uma “falésia dos locais”. E me disse:

– Vamos chegar a mil em grande estilo. Nada de fazer quatro 6a´s para cumprir tabela! Vamos fazer um 6o de aquecimento e 3 sétimos (7c) para fechar com chave de ouro!

Eu estava um trapo, mas a essa altura, a milésima cadena começara a ganhar importância e a ter um significado muito importante para mim. E mesmo as últimas vias sendo difíceis de mandar (sempre a flash), consegui buscar força no emocional. No final das contas, estava tão focado naquele projeto que as últimas vias saíram sem grandes dificuldades!

Eu preciso deixar registrado que nessa reta final, o idealizador do projeto, o Andres, teve papel fundamental para o sucesso do projeto. Ele simplesmente sacou todas as 24 vias para que eu pudesse entrar sempre à flash nas vias e não me desgastar à toa. Além de sempre escovar as agarras do crux para que eu pudesse escalar sempre com a rocha sequinha.

Também preciso agradecer a parceria do Murilo nessa trip desde Chamonix até Arco. E um special thanks também à Dir pelo apoio logístico e turístico. E também por emprestar o maridão para escalar!

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Andres repondo as calorias perdidas.

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🙂

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Centro histórico de Arco.

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Comentários

2 respostas

  1. Show!!! Valeu pela companhia nesses 10 dias. Legal essa motivaçao depois desse longo tempo de climb, parecia atè que a gente tava ganhando pra escalar. A propòsito…proxima vez nada de “maratona de escalada”, quero ver o teu projeto antes de tu sair daì 🙂 Grande abraço, otimas fotos.

  2. Cara, Disse tudo! “Parecia que agente tava ganhando pra escalar”!!!! Boas lembranças!!! Abs

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