Boa noite Cinderela

Quarta enfiada da via “Boa noite Cinderela”, Parede dos Sonhos, Itarana – ES.

Antes de falar da “Boa noite Cinderela”, título desta postagem, vamos começar pelo começo!

Sexta-feira Santa

O feriadão de Páscoa começou às 6h30 de sexta-feira, quando eu e o Gillan partimos de Vitória ruma à cidade de Itaguaçu, localizada na região centro-oeste do Espírito Santo, distante a 130km da capital Vitória.

Chegamos na região por volta das 9h com dezenas de possibilidades à nossa escolha para os próximos três dias de escalada. Entre conquistar e repetir, para o primeiro dia, resolvemos “pegar leve” e repetir a “Via dos Binda“.

Essa via foi conquistada no ano passado pelos escaladores Zé Márcio e Thiago “Karapeba” para o “9o Encontro de Escalada do Espírito Santo” que aconteceu na cidade de Itaguaçu. É uma via bem tranquila de uns 400m com crux de 5o grau.

Chegamos no vale onde fica a via e passamos pela propriedade dos Binda para pedir passagem. Daí o nome Via dos Binda. De todas as famílias que eu já passei pedindo passagem, não lembro de nenhuma que tenha sido tão receptiva e amistosa quanto os Binda. Nessas horas a gente se lembra que o mundo ainda tem salvação, graças a pessoas tão simpáticas quanto os Binda.

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Pedra dos Binda após uma chuva de verão. A via transcorre pelo rampão da esquerda.

Deixamos a casa dos Binda e rumamos vale adentro de carro até o “estacionamento”. Dali para cima foram mais uns 25 minutos de caminhada até a base da via. Como chegamos por volta das 11h no início da trilha, o calor estava sufocante. E para piorar, pelo fato de a trilha ser no fundo do vale, não tinha vento para ajudar a minimizar o calor.

Durante a caminhada sofrida, lembrei de uma lição importante sobre montanhismo: uma via pode ser fácil, mas os meios podem torna-la difícil. Assim, tratei de levar essa escalada à sério, considerando o horário adiantado, a extensão da via (420m) e o calor, me concentrei em fazer tudo certo e não menosprezar a escalada “só porque era fácil”.

Para ganhar tempo, resolvemos escalar as 4 primeiras enfiadas “à francesa”. Como as enfiada são relativamente fáceis, isso nos poupou alguns minutos preciosos no final. A medida que íamos subindo, o vento começou a soprar mais forte, ajudando a minimizar um pouco o calor. Aliado a isso, sempre passava uma nuvem salvadora para tapar o sol.

A partir da 4a enfiada até o cume, escalamos normalmente, revezando as cordadas. A 5a enfiada é, sem sombra de dúvida, uma das melhores enfiadas da região, esticão de 5o grau em agarras boas num trecho mais inclinado. Depois, foi só um protocolo para chegar no cume.

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Quinta enfiada da via. Detalhe para bromélia gigante ao lado em relação ao tamanho do Gillan!

Assim que batemos no cume, depois de tanto sol na cabeça, tivemos uma ideia de “girico”!

-Vamos escalar a via Fio Dental na Pedra Paulista?

-Vamos!

Eram 14h30 e ainda estávamos no cume com o pôr do sol estimado para às 18h. Teríamos que rapelar a via (7 rapéis), caminhar até o carro, pegar o carro, rodar até a Pedra Paulista, fazer a aproximação para enfim escalar a via.

Com os neurônios avaliados pelo calor rapelamos pela via e voltamos ao carro.

Assim que desliguei o alarme do carro, do nada, começou a chover forte sob um céu azul! E em poucos minutos, a via que tínhamos escalado estava totalmente molhada! Escapamos por um triz! Da mesma forma que chuva veio, ela foi embora e o sol voltou a castigar a região.

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Olha a chuvaaaa!!!! Essa passou pertinho de nós! Chuva visto do cume da Via dos Binda.

Chegamos no “estacionamento” da Pedra Paulista por volta das 16h e às 17h, eu estava calçando a sapatilha para iniciar a escalada.

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Arrumando os equipos antes de entrar na via “Fio Dental”, Pedra Paulista.

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Sol a pino na Pedra Paulista! Cadê a chuva? Bem abaixo do sol está os Cinco Pontões.

Toquei a primeira enfiada já com todas as manhas da via no bolso, era a minha 4a repetição da via, e o Gillan mandou a 2a enfiada já à luz de headlamp. Batemos no cume à noite, sem o espetáculo do pôr do sol que ficou comprometido por causa das nuvens carregadas na região. Respiramos um pouco e descemos para civilização.

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Mega clássica “Fio Dental”!

 

Boa Noite Cinderela

No dia seguinte, após uma boa noite de sono no “Pesque-pague Pedra da Onça”, partimos para segunda parte do feriadão, conquistar mais uma via na Parede dos Sonhos em Itarana.

A nova linha já estava relativamente clara na minha mente, pois já tinha vislumbrando em outras investidas. Mas a realidade nem sempre condiz com o esperado e logo de cara tivemos certa dificuldade para achar a saída da nova linha, pois a base da pedra é formada por uma miríade de fendas e blocos.

Meio às cegas, meio na sorte escolhemos uma fenda e iniciamos a conquista. Como a parte de baixo fica sujeito a vegetação tivemos certo trabalho para vencer esse trecho inicial. Fizemos uma parada a uns 30m da base e depois tocamos mais uns 25m por uma fenda de meio-corpo que exigiu um par de Camalot #6 até ganhar um confortável platô arborizado, essencial para um dia quente e abafado.

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Jumarear é fácil, quero ver jumarear com haulbag carregado nas costas!

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Grandes amigos!

A partir da P2, a linha pretendida ficou mais evidente e mais limpa. O Gillan assumiu a ponta da corda e tocou mais uns 20m por uma bela oposição até a fenda virar uma fissura cega. A essa altura, o calor estava castigando os neurônios do menino e ele começou a ficar sem rumo na pedra. Hora de voltar para sombra e descansar um pouco.

Assumi a ponta da corda e fui “jogar pimenta na fenda cega”! Como a fenda não aceitava peças protegi com chapas e a medida que ia ganhando altura, a pedra “aplumava” cada vez mais até ficar impossível de bater as chapas usando apenas os apoio dos pés. Hora de partir para o “arrancador de dente”, o cliff! Com muita dificuldade, em parte devido a inclinação da parede e ao cansaço consegui progredir mais um pouco até a minha bateria acabar de vez (a da furadeira ainda estava à mil).

Assim, achamos por bem deixar os trabalhos para o dia seguindo, mesmo sabendo que estávamos a 4m da possível parada.

Voltamos ao Pesque-pague, mas sem antes dar uma passadinha na pracinha de Itarana para tomar um açai.

No dia seguinte, após uma manjar dos Deuses e uma boa noite de sono acordamos inteirinho para mais um dia de trabalho.

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Amanhecer no pesque-pague com a Pedra Alegre ao fundo.

Às 5h horas de domingo, já estávamos em pé e às 7h estávamos fazendo a aproximação final. Como deixamos praticamente tudo na P2, subimos leve e rapidamente estávamos na P2. Aproveitei as costuras postas no dia anterior e fui provar a 3a enfiada vertical. Como já tinha as manhas dos movimentos sofri menos para passar o crux, mas mesmo assim, a dificuldade deve ficar na casa do 7c. Terminei os últimos metros passando por mais um crux marrento até bater a P3.

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Limpando e hauliando a 3a enfiada.

Modéstia à parte, preciso confessar que essa enfiada está entre uma das mais belas que já escalei. Não vejo a hora de voltar lá para repetir essa enfiada na íntegra.

A P3 ficou num lugar aéreo e desconfortável. Acima de nós, um diedro bem fendado que foi uma grata surpresa. A ideia original era passar pela esquerda do teto, fazendo uma travessia pela base, mas quando cheguei lá vi que não estava para mim. Poderia passar tranquilamente em artificial móvel (não mais que A2), mas como queríamos uma via em livre, resolvemos arriscar uma saída pela direita do teto. Toquei uma grande travessia pela base do teto protegido em chapas até sair na P3 da via “Xixi na Cama”.

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P3.

Lembro claramente do dia que cheguei conquistando na P3 da Xixi na Cama. Olhei para cima, olhei para os lados e quando vi para parede da esquerda pensei: ufa, ainda bem que não não vim por esse lado, pois parece estranho (imagem destacada deste post).

Irônia ou não, acabei chegando na P3 justamente pelo lado que desejei nunca ter vindo. De fato, o trecho é estranho, aéreo, mas sem sombra de dúvida, uma bela travessia daquelas que você precisa olhar para baixo tentando manter o foco apenas nos pés, porque senão consegue ver a base da via láaaaa embaixo.

Na P4 (P3 da Xixi na Cama) tínhamos algumas opções, poderíamos seguir pelas vias já existentes ou abrir uma nova linha pela face da esquerda em direção a uma grande aresta que apontava para cima.

Como estava relativamente cedo, resolvemos conquistar a linha da esquerda. E assim, o Gillan partiu para “experiência Nirvana” dele. Com direito a esticão cabuloso em cristal (depois o lance foi intermediado para ninguém quebrar os pés) e lance de 6o grau, o garoto começou a dar pane novamente.

Segundo os cálculos dele, estávamos a uns 8m de uma outra parada já existente (na verdade estávamos a 30m) e ele quis tocar, mas não estava conseguindo passar uma lance porque tinha deixando uma peça-chave para trás. Como estava ficando tarde, subi até ele (P6) com o material extra e toquei para cima como uma flecha para fechar de vez a escalada. Paramos na P6 da Xixi na Cama, na nossa contagem P7, por volta das 17h. Resolvemos que a via acabaria por ali mesmo e descemos sem fazer as outras 2 enfiadas da Xixi na Cama até o cume.

Descemos novamente em modo expresso para não ter que fazer a caminhada à luz de headlamp e botamos o pé na estrada até Vitória.

Entre trânsito de final de feriado prolongado e muitas curvas tivemos bastante tempo (3h) para escolher um nome para via. Inicialmente o Gillan queria “Pesadelo no Nirvana”, sempre com a temática “sonho”, mas expliquei que com um nome desses, dificilmente alguém iria repetir a via. Assim, escolhemos um nome menos “aterrorizador”: Boa Noite Cinderela! Não ficou mais convidativo?

Agradecimento ao Gillan pela parceria nos últimos 3 dias de escaladas memoráveis e também a família Bridi, por parte do Peque Pague Pedra da Onça, por nos receber e acolher sempre de braços abertos. Muito obrigado mais uma vez!

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Para posteridade!

Croqui

Leia mais sobre a via aqui!

2016.03.28_Parede_sonho

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Comentários

Uma resposta

  1. Valeu demaiss man, mandou muitooo!!! Foi uma das vias mais iradas que já conquistei, bora voltar p abrir mais!!
    Essa parede vale OUROO!!
    Grd Abs

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