Confinamento

  • Manhã fria em Arenales.

Estamos vivendo momentos difíceis, dia e noite somos bombardeados por notícias da pandemia do Covid-19. Confesso que chega uma hora que tudo isso cansa e queremos algo para distrair um pouco e fugir dessa pressão. Em tempos normais, quando queremos escapar um pouco desse mundo louco, vamos às montanhas onde buscamos um pouco de paz e energia, mas dessa vez, nem isso podemos fazer.

O confinamento do lar é a única coisa que nos resta nesses dias. Cozinhar, ler, escrever e faxinar estão sendo os nossos passatempos. Nunca, lavar a louça foi um grande passatempo como nos últimos dias. Isso sem contar a faxina que já diz na dispensa e em todas as gavetas de casa.

Mas pensando bem, esse tipo de reclusão é um pouco familiar para mim. Afinal de contas, quando escalamos montanhas, às vezes, somos submetidos à condições bastante restritivas e por vezes somos obrigados a ficar por várias dias dentro da barraca esperando o tempo melhorar. No famoso livro “No Ar Rarefeito” de Jon Krakauer tem um capítulo chamado “Sem poder sair da barraca”, que fala justamente sobre isso. Vale a leitura nesses tempos de isolamento.

Ao longos desses 25 anos de vivência na montanha, em algumas ocasiões estive em condições de confinamento, mas uma em particular me vem à tona: a roubada em Los Gigantes!

Em 2003, Toni e eu nos aventuramos pela região de Los Gigantes na região da província de Córdoba na Argentina. Naquela época, nós tínhamos mais disposição do que dinheiro no bolso. Viajamos de ônibus de Porto Alegre até Córdoba (24h) e levamos o dinheiro contado para essa viagem. Passamos a primeira semana na região de La Olla, onde escalamos várias vias esportivas em granito e na segunda semana fomos para região de Los Gigantes passar mais 10 dias.

Desculpa a resolução das fotos, mas todas foram tiradas em 640 por 480px…

Nos primeiros dias conseguimos escalar um pouco, mas logo depois, o tempo virou e choveu durante os próximos 7 dias. Passamos a maior parte do tempo nas barracas e quando a chuva dava uma trégua saíamos um pouco do saco de dormir para ver a paisagem branca da cerração que restringia a nossa visão a um metro. Lembro que foram dias bem longos, inclusive lembro que passei o meu aniversário na barraca, a espera de uma janela de tempo que não aconteceu, é claro. O nosso passatempo favorito era cozinhar. Gostávamos de gastar um bom tempo cortando a cebola para fazer o tempo render. O problema era que o nosso rango nunca ficava bom, pois naquela história de poupar ao máximo, acabamos comprando só massa barata. E a massa mais barata que tínhamos era massa “cabelo de anjo” que não serve para fazer macarronada, serve para fazer sopa. Como a massa é muito fina, ela cozinha muito rápido e logo vira uma gororoba. Por isso, as nossas massas sempre ficavam embatumadas… Desde então, até hoje, nunca mais comi esse tipo de massa. Peguei trauma!

É claro que nada se compara ao que estamos vivendo nos dias atuais. O cenário atual é muito mais grave do que alguns dias preso na montanha, até porque muitas pessoas estão morrendo por causa disso. Mas se tem uma coisa que aprendi nas montanhas é saber manter o bom humor, o otimismo nas pequenas conquistas e ter paciência, muita paciência!

Espero que eu tenha conseguido entreter vocês por uns minutos. Pelo menos eu consegui gastar um tempo escrevendo e revendo as fotos… Antes que alguém pergunte: sim, eu levei um crashpad para Los Gigantes. Sim, estava pesado para “caraio”, quase morri levando tudo. Mas já aprendi a lição: da próxima vez vou levar um bastão!

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