Enfim Yosemite Valley

 

Yosemite Valley visto do Glaciar Point com os últimos raios de sol iluminando o Half Dome.

Descrever o vale de Yosemite é impossível! Não há palavra, fotografia, sentimento que consiga expressar a sensação de estar naquele lugar mágico. Eu ficava olhando para aquelas pedras, paredes, domos, cachoeiras e ficava pensando: nossa, eu já vi essa pedra antes nas fotos, mas agora estou vendo de verdade!

A sensação que eu tive ao passar duas semanas no vale foi de que 24h não eram suficientes para tudo, mesmo acordando todos os dias antes das 5h da manhã e indo dormir depois das 22h. Tinha tanta coisa para fazer que nós simplesmente não parávamos. Inclusive, os nossos dias de descansos foram tão ativos que, em vez de descansar, cansávamos mais ainda.

No primeiro dia de escalada no vale provamos o mais “must to do” de todos as vias, a Nutcracker (5.8) no Manure Pile Buttress e em seguida a After Six conforme manda o figurino, depois das 6h para fugir do sol.

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Murilo na clássica Nutcracker.

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Pôr-do-sol no cume da Manure Pile Buttress. Ao fundo à esquerda, o Middle Cathedral Rock.

No dia seguinte, entramos numa outra via quase que obrigatória do vale, a Royal Arches, uma via de aproximadamente 450m com uma passada de 5.10 divididos em 16 enfiadas. Essa via foi o nosso termômetro para ver como iríamos sair no vale, pois a via é um brenchmark do vale. O nosso objetivo principal era escalar leve e rápido para ver se teríamos condições para entrar em outras vias mais exigentes com essa magnitude.

Como de praxe, acordamos muito cedo para sermos o primeiro da fila e entramos na via ainda a noite, iluminado apenas pelas luzes do headlamp. Para a nossa surpresa, completamos a via em 4h30 e descemos rapelando em mais ou menos 1h30. Assim, ainda conseguimos aproveitar a tarde comprando lembrancinhas nas lojas de suveniers…..

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Murilo após o lance do pêndulo da Royal Arches e o sol imperdoável começando a bater na via. 

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Croqui da Royal Arches.

A escalada em Royal Arches nos deu bastante confiança e nos agregou muito conhecimento, assim como mais gana para provar uma outra via clássica, a East Buttress do Middle Cathedral, uma via de aproximadamente 360m com um crux de 5.10c e 12 enfiadas.

Após um dia mais relax entramos nessa via com tudo. Infelizmente acabamos errando na aproximação e perdemos preciosos 2h nessa brincadeira. Conforme descrito no croqui, essa via já exigiu mais de nós. Com exceção da 1a enfiada, todas as outras foram bem exigentes, física e mentalmente, além de a pedra ser bem mais vertical do que imaginávamos. Mesmo assim completamos a via em aproximadamente 6h de escalada.

De cabeça feita com o sucesso da East Buttress, resolvemos fazer uma coisa mais “light” no dia seguinte, a clássica Snake Dike do Half Dome, um outro clássico mais que obrigatório de Yosemite. O problema dessa via é que o único lance light dessa via é a própria via que tem aproximadamente 300m de extensão e dificuldade na ordem de 5.7R, porque o resto é pura ralação. A aproximação é uma caminhada básica de 9km com ganho de desnível na ordem de 800m. Depois uma escalada tranquila pelos diques com proteções a cada 30m e um costão final de uns 500m de desnível conhecido carinhosamente como “costão infinito”.

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Murilo ponteado a 3a enfiada da Snake Dike, Half Dome.

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Parte final da subida do Half Dome pelo “costão infinito”.

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Cume!!!! Foto: Murilo Lara.

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Half Dome visto do Sentimental Bridge ao entardecer.

E para fechar com chave de ouro, uma caminhada de 11km até o acampamento. Somando isso em horas, dá qualquer coisa como 12h de atividade full.

Segundo o nosso plano original, depois de 1 semana no vale, a nossa ideia era levantar acampamento e subir para a parte alta e tentar escalar o Incredible Hulk pela via Red Dihedral (5.10), mas nós acabamos caindo no encanto do vale e na hora de partir acabamos decidindo que já estávamos muito bem adaptados a aquela vida mansa de pizza, cerveja, banho quente, calor e escalada de qualidade.

A gota d’água foi o dia que vimos num mural, um anuncio dizendo que o esperado filme Vale Uprising seria apresentando no cinema do parque na abertura do Yosemite Facelift exatamente no dia que iríamos para o Hulk! Ai, não tivemos mais dúvida, era uma premonição de que deveríamos ficar mais uma semana no vale. Assim decidimos passar o resto das férias comendo pizza e bebendo cerveja. Ops, escalando!

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Apresentação do filme Valley Uprising durante a 11a edição do Yosemite Facelift.

Na última semana, as nossas baterias já não estavam mais tão fortes assim. Perdemos um pouco de ritmos pelo cansaço acumulado e tivemos que baixar um pouco a bola. Mas mesmo assim, queríamos provar a nossa capacidade e resolvemos entrar numa via mais dura para ver como sairíamos. Assim, escolhemos a famosa Serenity Crack, uma via curta de apenas 3 enfiada, mas todas graduadas em 5.10. É claro que tomamos uma sova bonita da via. Na primeira enfiada quase tive um ataque do coração para conseguir chegar na primeira colocação bomba e ainda tive que lutar muito para mandar um mero 5.10a de uns 30m…

Depois do espanco, resolvemos pegar mais leve e entramos na Super Slide (5.9) que fica ao lado, mas por pouco não tomamos uma outra sova na última enfiada….

É claro que o Murilo me crucificou por eu ter colocado ele na roubada da Serenty Crack. Ele teve que guiar a 2a enfiada da via que é um outro 5.10 tecnik protegido em micros. Por isso, no dia seguinte, ele tomou o guia de mim escolheu uma outra via “mais tranquila” para nós.

A via escolhida por ele foi a Kor Beck, uma via 3 estrelas que fica no Middle Cathedral. Seguindo o croqui, o via tem lances estranhos e técnicos, além de algumas passadas em chaminé. Como estava sem moral, não tive escolha e fomos para a tal via.

Assim que chegamos na base da via vimos que a pedra era bem mais decomposta. Logo, descobrimos que o termo “dirty” significava rocha podre e não sujo de sujeira. Entramos na esperança de encontrar pedra melhor mais acima. Na minha vez, peguei uma chaminé bem estranha. Tive que resgatar várias técnicas que só tinha visto nos manuais de escalada clássica, mas passei. A 3a enfiada parecia melhor, mas era pura ilusão, outro offwidth bizarro! O fato é que dali para cima todos as enfiadas eram um esfrega-esfrega daqueles até culminar numa chaminé de 5.9 no final. Chegamos no final da via, agradeci o Murilo pela excelente escolha do dia e descemos.

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Curtindo uma chaminé na via Kor Beck. Scaryyyy!!!!!

É incrível como cada via de Yosemite é única e como as vias são interligadas em termos de experiência. Cada via teve um aprendizado enorme sobre um determinado estilo de escalada e parecia que o aprendizado anterior era sempre aplicado na escalada subsequente. E que se não tivesse feito aquela via anterior não iria escalar bem a via seguinte. E assim, ao longo das semanas fomos construindo uma boa base de escalada para o desafio que estava a caminho, mas isso é assunto para um próximo post.

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Comentários

2 respostas

  1. Muito legal o relato, estive no vale algumas vezes e escalei algumas das vias que voces fizeram (as faceis, as dificeis nao fiz pois meu nivel de escalada nao permite, infelizmente). Tem varias vias legais na parte alta do parque (Tuolumne) também. Recomendo!

  2. Fala ae Fred! Lá é muito legal mesmo, vale a pena voltar várias vezes. A única coisa que não curti lá foi o crowd, mta gente… Em Tuolumne é menos ruim.

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