Face Norte da Pedra Pontuda, Castelo – ES

^ Face leste da Pedra Pontuda ao amanhecer.

Histórico

A Pedra Pontuda é uma das inúmeras montanhas que compõem o Complexo Granítico Forno Grande, na região de Castelo, ES.

Este majestoso e imponente pico foi conquistado, pela face leste, em 1978 por um trio de escaladores do CEB (Francesco Berardi, Jessé Ferreira e Mário Arnound).

Como o cume da montanha é acessível escalaminhado, não há como dizer se eles foram os primeiros a atingir o topo desta montanha, mas o fato é que eles foram os primeiros a abrirem uma via de escalada nesta montanha.

A lenda

Segundo o DuNada, há alguns anos, numa conversa informal com um dos moradores da região, uma dupla de escaladores de “fora”, um carioca e um gringo, passaram por lá e abriram uma segunda via na “frente” (face norte?) da pedra após 2 semanas de muito trabalho.

Anos mais tarde, alguns escaladores locais (ES) fizeram uma varredura em busca desta via, mas não obtiveram sucesso. E assim ficou a dúvida. A via existe? Mas se existe, porque os escaladores não conseguiram acha-la?

Quem vê a imponente face norte desta montanha (foto abaixo) consegue observar uma linha muito óbvia que dá acesso ao cume seguindo por uma série de sistema de fendas. De fato, se alguém quisesse se aventurar por esta face, seria elementar que visassem essa linha.

_DSF3579-3Face norte da Pedra Pontuda. A via, ainda sem nome, transcorre pelo sistema de fendas e diedros que começa no totem e vai até o cume. Vide croqui parcial no final.

A dúvida

Eu já estive nesta montanha duas vezes, uma para repetir a “Normal” e numa outra ocasião para abrir uma variante da “Normal”. E sempre que ia lá, ficava fascinado pela face norte e ficava imaginando a tal via dos cariocas que os capixabas nunca acharam.

O tempo passou e um dia surgiu a ideia de nós, eu e o DuNada, tirarmos as dúvidas com os nossos próprios olhos, e caso não encontrássemos, abrir uma via pela face norte.

Assim, no último sábado, por volta das 8h da manhã, lá estávamos nós, frente à frente com a face norte para acabar de vez com a dúvida. Logo de cara surgiu a dúvida cruel: levar ou não o material de conquista! Ir leve e procurar a via, ou ir com tudo sob o risco de achar a via e carregar peso à toa?

Acabamos optando por levar tudo até a base, já que a caminhada não parecia ser tão cabeluda.

Chegando na base, fomos direto em direção à base de um totem que marca o início mais óbvio, para não dizer o único, caso quisessemos começar uma via em livre. Procuramos por um tempo qualquer resquício de via. Decidimos subir o totem para ver se encontraríamos alguma coisa no topo e assim abrirmos a 1a enfiada. Mesmo tentando esticar ao máximo e usando equipamento móvel sempre que possível, foi preciso bater 4 chapas para vencer os 35m do totem.

Assim que chegamos no cume do totem e olhamos para cima ficou claro que, se tem uma via nessa face, não era por ali.

Animados, mas nem tanto, resolvemos seguir a conquista pelo sistema de fendas. O problema era que a próxima fenda estava a uns 40m acima, separado por um granito imaculadamente lisa. Vislumbrando uma linha, menos ruim, e tocamos lentamente parede a cima. Por incrível que pareça, era possível escalar aquele granito liso, só não tinha como parar para bater as chapas. Então partimos para os furos de cliff e deixamos a enfiada pronta para repetir em livre.

_DSF3492DuNada conquistando a 2a enfiada da via.

Após um pequeno pêndulo, finalmente chegamos na base do principal sistema de fenda que nos levaria, pelo menos, até a metade da pedra. Por sorte, a fenda era boa. Ok, era excelente! Por um momento, me senti na via “Luna Nascente” que escalei com o Murilo no ano passado de tão perfeita que era a sequência.

Tocamos a fenda contínua de aproximadamente 60m em duas enfiadas de 20m e 40m até vencer o grande “arco”. Chegamos na P4 por volta das 16h totalmente esgotados. Abandonamos alguns equipos e descemos até a base deixando corda fixa.

_DSF3505DuNada limpando o filé mignon. Terceira enfiada.
_DSF3543Por do sol visto do acampamento. Não foi lá grandes coisas, mas as nuvens estavam muito legais.

Roubada da madrugada

Como iríamos voltar no dia seguinte, resolvemos acampar na redondeza para ganhar tempo e ficar curtindo o visual da região. Após muita procura, achamos um lugar incrível para passar a noite. Escolhemos um lugar alto, com vista para todo o vale.

Por volta da uma hora da madrugada fui acordado com um som ensurdecedor e a vareta da minha barraca no nariz. Era o vento fustigando a região! Como escolhemos um lugar “bonito” acabamos ficando expostos ao vento. E pelo fato de o acampamento ficar numa região bem elevada, acima de 1500m, o vento soprava com vontade.

Tentei aguentar alguns minutos na esperança de o vento cessar e voltar a dormir, mas assim que os espeques da barraca foram para o saco e quase fui virado comigo dentro, tive que partir para um plano B. Esperei o vento dar uma acalmada, sai da barraca na escuridão, peguei a barraca com tudo dentro, sem desmonta-la, e sai a procura de um lugar mais protegido. Corri para uma direção só para descobrir que ali ventava mais e o chão era irregular. Corri para o outro lado e finalmente achei um lugar “menos pior” e consegui montar novamente a barraca.

O DuNada, que resolveu dormir dentro do carro, disse que foi acordado de madrugada com o carro balançando com a força do vento e achou engraçado me ver correndo de headlamp de um lado ao outro com uma barraca montada nas costas…

_DSF3522Cirros marcando o fim de mais um dia.

Segundo dia

É claro que após um dia puxado de conquista e uma maratona noturna, acordei quebrado. E para piorar, ao contrário do dia anterior, o dia amanheceu sem muitas nuvens, apenas com uma brisa gostosa para mascarar o sol escaldante.

Por volta das 8h, voltamos às cordas fixas  até a P4 e partimos para a “labuta” do dia: subir por uma chaminé entulhada de bromélias tamanho GG. Ao longo desses anos, vi muitas bromélias nas montanhas, mas nunca tinha visto bromélias tão grandes. Algumas bromélias tinham o tamanho de uma pessoa mediana!!!

Por sorte, era a vez do DuNada guiar e assim ele sumiu bromélia adentro!

Após meia-hora de muita ralação ele grita:

-Já deu 30m?

Não tinha dado nem 10m…

Mais algumas horas de ralação e finalmente o DuNada conseguiu sair da floresta de bromélia para fazer a P5 em uma pequeno platô, na base de uma fenda.

_DSF3557P4. O DuNada abduzido pelas bromélias.

Se subir uma chaminé já é ruim, imagina com bromélias tamanho família. E se não bastasse, tive que subir com um haulbag pesado nas costas (existe haulbag leve?) limpando a enfiada. A cada peça socada no fundo chaminé jurava que não voltaria à essa montanha nunca mais.

_DSF3563O lado menos nobre da escalada tradicional. DuNada entre as bromélias da 5a enfiada e o cume despontando laaaa arriba!

A próxima enfiada era para ser tranquila quando visto de longe, mas a realidade se mostrou mais cruel. A fenda seguia uns metros e logo estava obstruída e depois ficava cega e suja… Só me restou aproveita ao máximo a fenda e depois seguir por fora, pela face, usando a raiz das bromélias como agarra de pinça e ir ganhando altura até um grande platô crivado de??? Bromélias gigantes!

Batemos na P6 totalmente exaustos pelo trabalho duro e pelo calor que a essa hora estava à mil. Como sabíamos que ainda faltava muita coisa para chegar no cume, pelo menos mais 5 enfiadas, resolvemos bater em retirada dali mesmo. Até porque a descida também não seria tão trivial assim.

_DSF3562Camalot #6.
_DSF3571DuNada chegando na P6. Cara de cansado?

Após uma série de rapeis vertiginosos, finalmente batemos na base da via novamente. E com o rabo entre as pernas, voltamos para casa mergulhado naquela eterno conflito entre vontade de chegar no cume e não querer mais passar por todo aquele perrengue novamente… Mas ainda bem que a nossa memória e fraca…

_DSF3573Rapelando da P2.
_DSF3514Amora silvestre para matar a fome.
_DSF3536Montanhas capixabas.

Croqui

Segue o croqui parcial da via.

Face Norte

facenorte

Comentários

2 respostas

  1. Boaaaaa Japa coloca o DuNada em forma novamente 🙂 irado a conquista parabens!!!

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