FRANÇA 2008


O sonho

Desde quando comecei a escalar, lá pelo ano de 1995, já sabia que a França era (e ainda é) a Meca da escalada esportiva mundial. Ainda lembro como se fosse ontem, de eu estar assistindo, em VHS, o filme Roc’n Wall 97, os melhores escaladores da França (Arnoud Pett, François Legrand, J.B. Tribout, Liv Sansov e cia) escalando as vias mais duras e belas da França. Assisti o filme centenas de vezes (muitos sabem o que é isso), várias vezes ao dia e sempre pensava comigo: um dia vou escalar na França!

Desde então já se passaram quase 13 anos e muita coisa na minha vida mudou. Mas aquele desejo de adolescente (na época tinha 16 anos) de um dia escalar na França ficou ali, adormecido para, de repente, sair da imaginação e se tornar uma realidade. Por uma série de coincidências esse dia caiu exatamente no meu 29º aniversário, 30 de março. Coisas do destino.

Para essa trip dos sonhos pelo sul da França, durante 21 dias, participaram dois grandes amigos de longa data: o Sr. Luis Dias e o Sr. Rafael Vieira. Pelo menos era assim que o chamavam nos aeroportos. Para nós basta Chico (aquele tatuado louco) e Torres (gaúcho de Brasília)!

O Chico foi o nosso chef oficial (a final de contas, nós estávamos na França). Ele com os pratos aquém da cozinha contemporânea… (Massa ao molho de capim, omelete ao molho mesa – madeira?). Além de ser, claro, o nosso tradutor oficial (segundo alguns franceses, era um francês com sotaque italiano. Vai entender…).

Já o gaúcho de Brasília, foi o nosso lavador de louça oficial (está certo que o prato ficava com gosto de detergente, mas isso era interpretado como prato bem lavado) e motorista a La Senna do nosso Renault Clio a diesel (muito estranho o som do carro).

A ida

Poderia pular essa parte, aliás, se você não quiser ler essa parte, pode pular para o próximo item. Mas a coisa foi tão estressante e bizarra que vale a pena perder algumas linhas falando do nosso caos aéreo.

Tudo começou dando tudo errado. O nosso vôo que era para o dia 29 foi cancelado e depois de muita luta junto à empresa aérea (no caso a TAM que, aliás, não recomendo a ninguém) conseguimos remarcar para o dia seguinte, dia 30. Na hora do embarque, como cada um vinha de um estado diferente (RS, ES e DF) para nos juntarmos em São Paulo, cada um tinha um tipo de bilhete emitido com horários diferentes para o trecho São Paulo – Marseille, mesmo pedindo e confirmando previamente para que embarcassemos no mesmo vôo São Paulo até Marseille. Tudo bem, depois de quase 3 horas de corre para cá, corre para lá, conseguimos embarcar. Ufa!

Chegando em Paris, o próximo trecho seria Paris – Marseille. Como a TAM opera em parceria com a Air France, fomos fazer o check-in na Air France munidos de uns papeis fajutos que nos deram. É claro que a francesa da Air France não aceitou o maldito papel e, novamente, outro corre-corre para conseguir emitir o bilhete e conseguir fazer o maldito check-in. Lá se foram mais 3 horas de rolo e finalmente saiu o tal bilhete e conseguimos embarcar a tempo. Chegamos em Marseille, às 22h 30, mortos, podres e estressados com tantos problemas. Na hora de retirar a bagagem quem disse que a minha mochila e as do Torres iriam aparecer naquela esteira! É muito horrível a sensação de ver o saguão ir esvaziando, a esteira ficar vazia e tu ficares ali parado, sem reação. Registrada a ocorrência fomos para o albergue, ou melhor, procurar o albergue. Depois de nos perdermos, passar pela mesma rua milhares de vezes, e passar pela rua do albergue várias vezes finalmente chegamos a algum lugar! Ufa!

Nosso albergue.

A minha primeira escalada na Europa

Digo minha porque tanto o Torres quanto o Chico já estiveram pelo Velho Mundo escalando no ano anterior (Espanha e Itália (e França) respectivamente). Como a minha mala não tinha chegado ao final do primeiro dia em Marseille tivemos que fazer uma mudança nos planos e fomos “obrigados” a escalar no segundo dia em Marseille.

Para quem não sabe, os Calanques (Les Calanques) ficam entre as cidade de Marseille e Cassis, junto ao Mar Mediterrâneo. Segundo o guia de Les Calanques  são sete setores que totalizam aproximadamente 2555 vias de 3º grau a 8c+ (francês). É escalada que não acaba mais! Vias esportivas em negativo, verticais, rampas, curtas, longas, técnicas, de força, 1 enfiada, 2 ou mais enfiadas…. Opção é o que não falta em Les Calanques! Bom, para ter uma idéia, esse guia de Les Calanques tem 480 páginas!!!!!! Uma bíblia!

MAS, como bons garotos marotos, nós não tínhamos comprado o guia de Les Calanques no 2º dia e fomos à luta com umas infos que baixamos do site da Planet Mountain. Pois bem, segundo esse maldito site, o lugar que eles recomendam, chama-se setor Tiragne, no Calanques de Sormiou. Segundo o site, esse é O SETOR. Pois bem, acreditamos e fomos a esse tal de Tiragne. Segundo o mapa de localização, chegando na praia de Sormiou, o setor fica na ponta direita da enseada. Para isso, bastava seguir a trilha até a ponta, contornar e chegar ao setor. Pois bem, tudo ia muito bem até quando estávamos chegando perto da ponta da praia. Depois de uma curva, a trilha simplesmente acabava num precipício!!! Procuramos por outras trilhas e nada. Uma olhada mais refinada no mapa e parecia que o trecho poderia ser em Ferrata com um rapel no final (legenda que é bom, nada!). Mais uma examinada e vimos a linha da Ferrata. Ela tinha pelo menos uns 60m de travessia até o final da ponta. Beleza! Colocamos a cadeirinha, costuras, nos encordamos e nos lançamos escalando à francesa (Afinal de contas, estávamos na França!). Após os primeiros 60m de travessia, eis a surpresa: depois da virada tinha pelo menos mais uns 80m de travessia, com direito a seção em negativo, corda podre e uma escalaminhada no final! Aquilo foi muito impactante. Depois de tudo que nós passamos, queríamos apenas dar uma escaladinha, mas nem isso tava indo conforme prevíamos. Como já estávamos com um pé na merda, não custava nada colocar o outro. Tocamos esse pedaço, confiantes de que ao final dessa seção encontraríamos o tal setor. Depois de 80m de travessia sobre o Mar Mediterrâneo finalmente chegamos a um local mais propício, subimos um flanco até ver o outro lado e….. nada de setor!!!!!!! “Ai foi o fim da várzea”. Nesse ponto, onde o diabo perdeu as botas, encontramos um grupo de bombeiros fazendo um treinamento justamente nas vias ferratas e perguntamos sobre o tal setor maldito e eles nos disseram que ficava depois daquela ponta, ou seja, mais 50m de travessia, um rappel de 15m uma caminhada de 50m e mais uma travessia. Mas o pior de tudo foi ouvir do bombeiro que o tal setor pode ser acessado pelo outro lado, sem ferratas, travessias, corda podre nem nada!!!!! Maldito mapa que não mostra isso!!!!

Aproximação…

Mas enfim, depois de umas 2 horas de aquecimento nas ferratas, finalmente chegamos ao Tiragne. Como já tínhamos perdido algumas horas preciosas escolhemos a via que parecia ser a mais bonita do setor e com grau acessível. Beleza! Escolhemos um tal de Reve qui Dure (7a brasileiro) para começar os trabalhos. A saber, pelos menos no Brasil, todos nós 3 escalamos vias de 7a sem grandes dificuldades, salvo algumas exceções, como em granito, por isso entramos tranquilos. A primeira vítima foi o Torres, que, estranhamente, foi surrado da via. Tudo bem, deve ser o cansaço, o stress, a travessia, a adaptação…. Desculpas tínhamos de sobra. Depois foi a vez do Chico. Como ele tinha alguns betas, conseguiu pelo menos chegar até a base do crux trabalhando os movimentos. E eu ali, vendo tudo aquilo e pensando: bom eles devem estar cansados, indignados com a travessia ou sei lá o quê. Eu tava totalmente pilhado, a final de contas estava realizando um sonho! Escalar na França!!!! Entrei na via com os betas até a base do crux e dali para cima foi mais vontade de mandar a via do que qualquer outra coisa. E também claro, medo de virar motivo de gozação dos dois. Mas tive uma certeza, esse 7a não é 7a nem aqui nem em qualquer lugar. Mas aí pensei: ah deve ser uma via específica vou tentar outro para ver qual vai ser! Pura ilusão! Entrei num 7c, cheguei mal na base do crux, sem os betas, e não consegui nem isolar o crux! Chegamos à conclusão de que estávamos cansados, por isso escalamos mal e fomos embora. Desta vez pela trilha correta!

Setor Tiragne, Calanques de Sormiou.

Buoux

Depois de tomarmos um espanco em Les Calanques, partimos para Buoux, um sítio de escalada que fica a uns 120kn a noroeste de Marseille. Durante os anos 80, Buoux foi referência mundial em termos de escalada esportiva (para muitos, o melhor sítio de escalada do universo), foi lá que vários graus se estabeleceram e os melhores escaladores da França se reuniam para escalar. O primeiro 8b francês do mundo, Le Rose et Le Vampire fica em Buoux. A via Chouca, aquela do Master 3, também fica lá.

Como não é permitido acampar na área de escalada, o camping mais próximo fica em Bonnieux ou Apt, a aproximadamente 12km de Buoux. Resolvemos ficar em Bonnieux, uma cidade pacata, típica do interior da França. Dali, saíamos como abelhas todos os dias para escalar em Buoux. Alias, não tem como escalar lá sem estar de carro.

Nosso acampamento em Bonnieux.

Bom, pouparei os leitores da nossa primeira experiência em Buoux, sobre a escalada de aquecimento na via La mimi au champ, um 6c brasileiro porque a história é muito semelhante aquela de Le Calanques! Mas uma coisa é certa: o grau de Buoux é bem mais rígido do que o resto. Comparando com o Brasil, arrisco a dizer que são 2 letras de diferença. Assim, o 6c de aquecimento seria um 7b se fosse no Brasil. Mas como existe o tal regionalismo, é preciso respeitar a cultura local, ou seja, escalar com o rabo entre as pernas e não pensar na graduação.

E falando nas escaladas, o Planet Mountain define as escaladas de Buoux como highly technical slab climbing on steep compact limestone. Trocando em miúdos, vias duras, movimentos atléticos em pockets, pés ruins e aderências horrendas!!!! Com certeza as vias de Buoux não lembram em nada aquelas vias negativas gigantes de agarrão. Não saberia definir, porque é um lugar único. Mas mesmo sendo por vezes repulsivo, tem um poder atrativo incrível. O sítio parece possuir uma energia dos escaladores dos anos 80, uma capacidade de criar uma relação de amor e ódio. Algo muito estranho, porque mesmo tomando uma surra das vias fáceis (segundo a graduação), trabalhando vias que normalmente teria condições de mandar à vista, me fascinava a estética e a harmonia dos movimentos. Talvez por isso muitos escaladores definiam Buoux como o melhor sítio de escalado do mundo.

Ceüse, um sonho adiado

Depois de sermos escorraçados nos sétimos, saímos com o rabo entre as pernas de Buoux rumo a Ceüse, o melhor sítio de escalado do mundo!!!!!!

De Buoux foram mais uns 150km rumo nordeste até Gap a cidade mais próxima do Massif de Ceüse. Chegamos na cidade sob uma garoa fria, abastecemos de mantimentos, equipos de escalada e partimos rumo ao sítio no meio da tarde. À medida que íamos subindo o tempo começava a mostrar a sua real face: a pior. O frio aumentou até culminar com NEVES!!!!! Neve na base do maciço!!!!! Aquilo foi muito chocante, nunca foi tão horrível ver neve na minha vida.
Chegamos no camping que fica na base do maciço e a senhora nos disse que o camping estava fechado e que só abriria em 1º de maio!!!!! Péssima notícia. Saímos à procura de outro camping. Num outro camping, nos disseram que a previsão era de chuva para pelo menos mais 7 dias!!!!! Aquilo foi muito difícil, não só para mim, mas para todos nós. Estávamos a apenas 40 minutos de caminhado de uma falésia de escalada com a qual sonhei minha vida inteira e não teria como ir porque estava chovendo e nevando!!!! Depressão total!

Tomamos a difícil decisão de voltar para Marseille, porque lá o clima tem mais influência do Mediterrâneo, e não dos Alpes, como ocorre em Ceüse.

Gorges Du Tarn

Depois de voltarmos para Marseille, escalamos por mais 2 dias nos Calanques de Les Goudes e Luminy, mas o clima teimava em não cooperar e fomos obrigados a tomar mais uma decisão radical. Após uma pesquisa pela Internet, concluímos que Gorges Du Tarn seria a melhor opção pelo fato de poder escalar com chuva. Além disso, a meteorologia previa dias melhores por lá (vale lembrar que na Europa a meteorologia acerta).O único inconveniente era a temperatura, entre 2 e 13 graus!!!! Mas tudo bem! Somos todos gaúchos e decidimos que não poderia ser mais frio que o de Caxias e que o vento de 45km/h não poderia ser pior que o Minuano!

Gorges Du tarn é um extenso vale com paredes intermináveis de calcário nos dois lados. Chega a ser uma injustiça a quantidade de rocha que tem naquele vale. Como em qualquer vale do mundo, no fundo corre um rio muito bonito, apreciado pelos remadores e pescadores de truta. E bordejando o rio, como num conto, uma estrada tão sinuosa quanto ele próprio.
Na verdade Gorges Du Tarn é apenas um dos vales nos quais tem escalada na região. Além deste tem naquela região o Gorges de la Jonte e o de La Dourbie. Cada sítio com centenas de vias. Incrível, magnífico, surreal!!!!

Como tínhamos apenas 10 dias de escalada, concentramos o espanco no vale do Tarn.
As escaladas aí são bem diferentes de Buoux ou de Calanques. Há dois tipos de vias em Tarn: as que eu mando e as que não mando. Brincadeirinha. Há vias de até 20m com crux definido, bem ao estilo do Brasil (refiro a RS, Divisa, Olhos, algumas vias do Cipó) e as super vias, entre 30 a 50m de extensão. Essas, além de longas, normalmente são um pouco aéreas, exigindo uma musculatura específica.

Sobre o estilo de escalada, o melhor exemplo seria de um francês desconhecido que mandou um 9c brasileiro enquanto tomávamos espanco de um 7c ao lado. O francês chegou na via, entrou sacando e trabalhando movimento por movimento, sem muita pressa ou demora. Desceu e ficou ao sol, descansando. Enquanto isso, nós brasileiros batalhávamos para conseguir terminar de sacar o 7c. Um tempo depois ele entrou na via e mandou. Até ai nada demais, mas o que mais chamou a atenção foi o estilo de escalada dele. Sempre blocado (as malditas agarras ficam longe em grande parte das vias) e sólido. É claro que como um francês típico ele sempre dava aquela assopradinha na mão para tirar o excesso de magnésio. Mas ali ficou claro como se escala em Tarn. Foi um grande aprendizado! (Foi só um aprendizado porque, colocar em prática era outra coisa).

Outro exemplo que me chamou a atenção foi o de um italiano e sua namorada. Um sujeito tranqüilo (um pouco atípico para um italiano, hehe) que chegava no setor, escalava uma via, duas, três, quatro vias e descansava. O incrível que sempre entrava avistando vias gigantes de 30, 40m e escalava muito tranqüilo. Tanto que quando eu o vi em uma via que viria a tentar depois, achei que seria tranqüilo mandá-la, já que ele escalou com uma fluidez atípica. Pura ilusão! A via, um 7c (BRA) de 30m que parecia fácil era uma verdadeira luta contra a fadiga. Com certeza foi uma das vias que mandei mais no limite, na baba. Mas a grande lição que tirei vendo ele escalar foi o volume de escalada. Resolução de vida: aumentar o meu volume de escalada! Aliás, em viagens deste tipo, o volume de escalada conta muito, uma vez que ficamos dias a fio escalando no limite o tempo todo. Isso é extremamente desgastante tanto física quanto mentalmente. E se o sujeito não tem volume de escalada acaba não aproveitando!

Bom, depois de 21 dias na estrada, dormindo em barraca, comendo massa na janta (isso é totalmente contra-indicado, hehe), passando frio, chuva, vento, rodar 2000km, escalar, escalar e escalar até não agüentar mais pela França, chego a conclusão de que isso é o MÁXIMO!!! E que me incluo no grupo de pessoas que busca o êxtase pela dor e pelo sofrimento! Só assim podemos entender o que sentiam na Idade Média as pessoas que viviam em todos aqueles castelos e fortalezas que visitávamos nos dias de descanso. Tá pensando o quê? Além de escalada, o sul da França também teve muito queijo, vinho e cultura! See You.

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Comentários

Uma resposta

  1. Obrigado por resgatar esse relato, achei fantástico a historia talvez um dia consiga esse tal volume pra fazer uma viagem como essa apesar de verificar pela quantidade de pancada que vc levou que talvez eu precise nascer de novo kkkk

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