O DuNada voltou! E junto com ele, as roubadas clássicas! Após umas 4 semanas longe dele, a minha vida de escalador seguia tranquilamente sem grandes percalços, até ele me convidar para escalar em Águia Branca!

Roubada 1 – Sexta-feira, após o trabalho, na hora do rush, saímos de Vitória rumo à cidade de Águia Branca, distante a “apenas” 210km da capital. Já de cara pegamos 2 acidentes com moto em Serra e ficamos no engarrafamento. Depois, a viagem seguiu tranquilamente, tirando o fato de não ter uma placa indicando a cidade ao longo da rodovia, chegamos sãs e salvos após 4h de viagem. Dica: Se você nunca foi a Águia Branca, use um GPS! Assim, não vai perder tempo procurando as entradas secretas que levam ao fim do mundo.

Para não chegar chegando, tarde na noite, pedindo pouso na casa das pessoas que nem conhecemos, resolvemos ficar no único hotel da cidade. Agora que o DuNada anda delegado, a logística é de outro nível. Dica 2: O hotel se chama Hotel Universal (não tem nada a ver com a Igreja) e fica na rua principal da cidade. A diária com café da manhã custa R$ 75,00 para 2 pessoas. Vale muito a pena, excelente relação custo benefício!

Após uma boa noite de descanso, partimos no sábado de manhã, para a Pedra do Lagão repetir a via Perimbéu Espelhado. Essa via foi aberta pelos escaladores Baldin, Fred e André em maio desse ano. Para ler o relato da conquista, clique aqui!

Achamos o estacionamento da via, mas não achamos o início da trilha. Logo, às 7h da manhã, lá estávamos nós no meio dos espinhos, abrindo caminho no peito e pensando no facão que ficou no carro. Após uma meia-hora a 45 min chegamos na base da via totalmente encharcados por causa do sereno da manhã. Roubada 2! Dica: A entrada da trilha não é bem óbvia, mas fica, conforme a descrição do Baldin, na parte baixa à esquerda do campo aberto. Assim que entrar na mata irá cruzar a primeira drenagem seca e assim que achar a outra drenagem seca, virar à direita pela drenagem até o caminho acabar e depois sair à direita pela trilha aberta pelos conquistadores até a base da via.

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DuNada abrindo caminho no peito.

Começamos a escalada por volta das 8h da manhã. Por causa do sereno, a via estava um pouco úmida, então os lances de 3o grau estavam um pouco mais apimentados. Eu acho que quase fui à corda umas 2 vezes por causa da umidade… Roubada em 3o grau….

Roubada 3 – Ainda na base da via o DuNada me pergunta:

– Trouxe água?

– Claro que sim!

– Eu esqueci de pegar…

Pronto, 2L de água para uma via de 480m!

Tirando a garganta seca, a escalada transcorreu bem e em 4h chegamos na P9. E mais uma caminhada curta pela mata e cume da pedra.

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Começando a escalada. 1a enfiada.

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5a enfiada! 

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Consultado o croqui.

O cume é relativamente pequeno, mas por incrível que pareça, a gente conseguiu se perder na descida, roubada 4, e ficamos dando um rolê pelo mato até a gente se dar conta de que estava descendo por uma grota sinistra.

De volta a P9, mais 1h de rapel e no meio da tarde estávamos na base da via. Saímos, dessa vez, pela trilha certa e fomos voando até um mercado refrescar a guela com uma água bem gelada.

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Cume da Pedra do Lajão.

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É cume!

No final do dia, fomos para a base da pedra do próximo dia, Pedra Camela! Chegando na base, conversamos com a dona das terras e pedimos pouso. E assim montamos confortavelmente as redes de baixo de um grande pé de manga.

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Pedra Camelo!

Como estávamos bastante cansados fomos nos recolher por volta das 20h sob um incrível céu estrelado. Lá pela meia-noite, o tempo sorrateiramente virou, as estrelas se foram e logo em seguida veio a chuva. Literalmente foi um balde d´água! Na mesma velocidade que ela chegou foi embora, mas sem antes nos deixar completamente molhados! O jeito foi passar o resto da noite dentro do carro com o saco de dormir molhado. Roubada 5. Essa foi a máxima do final de semana!

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Depois da escalada, nada como uma rede para descansar.

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Acampamento. Depois da chuva, hora de botar para secar o saco de dormir, a rede…

Amanheceu nublado. A Pedra Camela estava com alguns escorridos de água do temporal da noite passada. Numa avaliação mais cuidadosa, parecia que em algumas horas iria secar, isso se não chovesse mais, é claro.

Concluímos que esse negócio de ficar esperando não estava com nada, que o nosso ramo é roubada, aventure! Decidimos empacotar tudo molhado dentro do carro, rodar mais 60km por estrada de chão até Curupaque em Minas Gerais para escalar a Pedra do Pescoço Mole!

Rodamos, mas rodamos muito! E mesmo com GPS nos perdemos. Mas no fim, finalmente chegamos a Curupaque em Minas por volta das 10h.

Uma conversa arrastada à moda mineira e conseguimos permissão para subir a pedra. Mais uma caminhada brutal subindo um pasto sem fim e chegamos enfim na base da via.

A pedra é imponente de todos os lados e todas as distâncias. Mesmo da base, a pedra não dá arrego e parece que vai te esmagar.

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Curupaque – MG. A Pedra do Pescoço Mole à esquerda. O outro pico proeminente é o Garrafão.

A linha que escolhemos transcorre pela crista norte da pedra por uma linha toda chapeleteada por uns escaladores de minas. Por sorte a via é super bem equipada, padrão via esportiva. Então foi até tranquilo ir subindo nas agarras suspeitas. Nas duas primeiras enfiadas, a pedra é mais sólida, então rola de ir escalando mais de boa, mesmo com a exposição aérea da aresta fina.

Na terceira enfiada, a pedra ganha inclinação, chegando a ficar negativa em alguns trechos e as agarras mais quebradiças.

Nesse trecho fui subindo com muito mais atenção para não sortear a agarra errada e tomar um pacotão. Num dado momento, já com a chapa mais abaixo, botei o pé num cristal que julguei sólido e fui subindo. No meio da subida senti que ela deu uma mexida. Pensei: ops, isso não é bom! Mexi de leve o pé para ver o que tinha acontecido e senti que o cristal sumiu e fiquei sem apoio! Num ato de reflexo, travei o máximo de pude com a mão direita a agarra que estava segurando, mas com o peso consegui quebrar a unha do polegar e acabei caindo!

Voar em via tradicional nunca é muito legal. Por sorte pousei bem. Tirando a unha levantada estava bem, mas foi o suficiente para me conscientizar de que a brincadeira iria acabar por ali mesmo. Tentei mais uma vez o lance, mas achei que estava forçando a barra e resolvi descer dali mesmo.

Roubada 6: Dois rapeis de 60m e estávamos no chão. Era só puxar a corda e ir embora de cabeça baixa, mas quem disse que a corda vinha! Puxa de lá, puxa de cá e nada de a corda ceder 1cm. A solução? Prussikar 60m de volta até a parada para ver o que estava acontecendo. E lá fui eu, prussikar 60m… Descobri que montamos o rapel errado e que o nó tinha passado errado no cordelete do backup….

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Rapelando pela via.

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A imponente lâmina de pedra. 

Por volta das 16h estávamos na base novamente, agora com tudo, até a corda.

Dai foi “só” entrar no carro e rodar mais 5h até Vitória! Coisa básica!

Final de semana foi pesado, mas no fim das contas valeu cada suor, cada esforço, cada espinho encravado. Rodamos 600km, escalamos muitos metros de pedra, aprendemos muito e o mais importante, rimos pra caramba das roubadas!

Valeu DuNada pelas roubadas épicas!

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Em algum lugar, mais montanhas a perder de vista no lado mineiro.

Dicas complementares para repetir a via Pirambéu Espelhado:

  • A trilha de acesso não é bem demorada em alguns trechos. Acreditamos que a orientação noturna seja super complicada. Por isso a dica é entrar cedo na via para não pegar a trilha a noite.
  •  A via é bem protegida, sem lances expostos. Se a chapa está longe é porque o trecho é fácil.
  •  A 6a e a 7a enfiada podem ser feitas em francesa para ganhar tempo.
  •  No primeiro trecho em móvel, 4a enfiada, um Camalot #4 e #2 protegem bem o lance. E no segundo trecho, 9a enfiada, só precisa de um #2 no começo da fenda.
  •  Na 5a enfiada, no trecho de 5o grau, após o teto, dá para fugir do crux passando uns 2m à direita, protegendo em móvel (# 0.75) e não ocupando as duas chapas da enfiada.
  •  Na 9a enfiada, o croqui indica que a parada final é em 2 grampos, mas o ideal é fazer a parada usando as árvores do ante-cume e só usar os 2 grampos para fazer o rapel.
  • No inverno, o sol passa tangenciando a pedra. Se começar a escalar cedo, e subir rápido, tem como sempre escalar na sombra.

Dicas para escalar a via Cracolândia, em Corupáque:

  •  A primeira enfiada tem aproximadamente 50m e usa umas 20 costuras. Também é preciso fazer um bom gerenciamento de corda para diminuir o atrito.
  •  Na saída da 2a enfiada há um bloco gigante mega-super-suspeito. Use com muito cuidado!
  •  Assim como na 1a enfiada, a segunda também usa aproximadamente 20 costuras.
  •  Li no FB que no final da terceira enfiada, antes de chegar no cume, tem um esticão respeitável. Parece que a bateria da furadeira acabou e tiveram que dar um gás para chegarem no cume.
  • O rapel é pela própria via. As paradas são em chapa sem argola, por isso é bom levar algumas fitas de abandono.

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Pedra símbolo de Águia Branca, os Três Pontões.

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