^ Eric Penedo na “Variante dos Otimistas”, Pedra do Tubarãozinho, Afonso Cláudio.

Dia 25 de Março, por volta das 16h estava rapelando pela via “Entre a Cruz e o Tubarão”, recém conquistada em Afonso Cláudio. Enquanto fazia o terceiro rapel da via, por uma linha de rapel, num relance, os meus olhos se voltaram para via e percebi que logo depois da 5a enfiada havia um sistema de fendas de mais de 30m despontando pelo headwall da parede. Aquela cena me deixou totalmente perturbada. Como eu não fui ver aquilo? Por que eu escolhi uma outra linha para continuar a via? Para o meu consolo, conclui que a oposição fica com a fenda virada para o lado que não é visível da base, mas não era desculpa para deixa-la impune.

No meio da semana, o Eric me perguntou se eu tinha algum plano para o feriado de Páscoa, então contei “a triste história” e ele se comoveu!

Marcamos a ida para o sábado, no meio do feriado, para fugiríamos da muvuca do trânsito. Também resolvemos sair um pouco mais tarde, às 6h. Já que eu conhecia a via e sabia que seria bem tranquila. Três horas para ir, 6h para escalar, mais três para voltar! Em 12h faríamos tudo e às 18h estaríamos em casa novamente. #sqn.

Mais uma vez, a célebre a frase “não existe montanha fácil, existe dia fácil” se fez presente.

Conforme o previsto, chegamos na base da montanha por volta das 9h. Diferentemente da semana passada, dessa vez o sol estava onipresente, até demais. Já de cara percebemos que o dia seria quente. E eu sabia que a pedra ficava voltada para a face norte, ou seja, sol o dia inteiro.

Arrumamos as coisas, fizemos a aproximação e por volta das 10h da manhã o Eric começou a escalada pegando a primeira enfiada. Fomos levando a escalada tranquilamente, sem pressa. Na 3a enfiada, ainda demos uma melhorada na via, batendo uma chapa num lance exposto e fomos tocando até a 5a enfiada. Na P5 achamos uma pequena “sombra mandraque” e ali ficamos descansando um pouco. Afinal de conta, era uma hora da tarde e o sol naquele granito preto estava fritando a sola da sapatilha e sugando as nossas energias.

Eric no primeiro lance da via.
Quinta enfiada e o sol queimando.

Chegamos na P5 com alguma brisa no ar e eu decidido a conquistar a variante. Catei os móveis, a furadeira, umas chapas e toquei para cima. Camalot #3 bomber, fenda de entalamento perfeita, mais um #3 bomber e a fenda sumiu!!! A laca seguinte era “cegueta da Silva”… Bateu aquele desânimo… Para piorar, eu tinha levado apenas 5 chapas para tudo e já tinha usado uma na 3a enfiada para melhorar um lance, ou seja tinha 4, sendo 2 já reservada para fazer a parada, restando apenas 2 para conquistar a enfiada.

Sem muita opção bati a 1a chapa na base da fenda cega e fui tocando procurando qualquer abertura para socar alguma peça. Infelizmente, acabei deixando as peças pequenas em casa e tive que ir tocando sem muita escolha.

Assim que a fenda sumiu de vez tive que usar a 2a chapa, na base de uma parede mais vertical. Bati a chapa e sai decidido a chegar no platô, custe o que custar. Fiz uma travessia à esquerda para fugir do trecho mais vertical e por sorte achei uma fissura onde consegui me proteger para ganhar o platô! Ufa! Eu sempre acho que não sou um escalador talentoso, mas sim, um escalador com muita sorte!

Variante do Otimista, detalhe da 6a enfiada.

Chamei o Eric e ali ficamos. Sem chapeleta para tocar o resto do costão. Sabia que o trecho não era muito difícil, então resolvi encarar no pêlo. É muito estranho se lançar numa conquista sem ter a opção de bater um grampo, mesmo sabendo que é fácil. No fim, toquei 70m cravado até chegar na parada da via original. Nos metros finais estava me sentindo o David Lama no lance do Compressor, onde a corda acabou e ele precisou entrar à francesa.

Chegamos no cume às 16h, após 6h de escalada. Bebemos o último gole d’água numa pequena sombra, tiramos algumas fotos e tratamos de sair logo daquele forno.

Foto no cume com o Três Pontões ao fundo. Saiu fora de foco… Mas valeu pela lembrança.
Abrindo o rapel.

No fim, a variante saiu e batizamos de “Variante do Otimista”. Pensando agora, entre essa final e a final original, pessoalmente acho a variante mais legal. Principalmente porque é mais vertical e por intercalar um estilo de escalada que aprecio demais, um misto de escalada de fenda com face e proteção mista.

Por hora quero um pouco de distância de lá. Cansei! Mas em breve, voltarei, pois, modéstia à parte, a via ficou um filé. Daria para colocar entre as 10 melhores tradicionais do estado.

Entardecer na montanha e a garantia de um visual incrível.

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