“Só o homem penitente passará”

  • Pedra dos Bragattos, Afonso Cláudio, ES.

Eram por volta de meio-dia e trinta, a essa hora, o Sol já estava a pino, “fritando o meu melão”. Eu tinha acabado de conquistar em solitária uma enfiada de aproximadamente 35m ao melhor estilo “cata milho”. A próxima enfiada seria por um belo diedro todo protegido em móvel, mas eu não estava com os móveis… Mais cedo, na hora de separar os equipamentos, optei por deixa-los no carro para poupar peso… Amadorismo total… 

Início da enfiada “Cata Milho”. Gopro.

Ainda agora fico pensando: por que eu cometi um erro tão primário? Eu tinha visto o tal diedro de longe e sabia que iria precisar das peças. A experiência me ensinou que quando tem um totem, as laterais, os diedros, em geral, aceitam peças grandes e, se tiver fenda no dorso, peças pequenas.

Se por um lado, a decisão de deixar os móveis no carro me fez baixar mais cedo da parede, por outro pude chegar mais cedo no sítio da família Bragatto, localizado aos pés da montanha, onde passaria a noite conforme combinado previamente.

Durante a semana, enquanto procurava um lugar para passar a noite de sábado, achei no site “Blog Destinos ES” do meu bruxo João Olavo, o contato de um sítio na região de Empoçado que atendia os meus anseios. Entrei em contato com o Roberto, expliquei as minhas intenções e prontamente ele me arrumou um lugar no sítio.

Quando cheguei no sítio, logo descobri que a Dona Ceia, a tia do Roberto, que cuida do sítio, tinha convidado alguns amigos e parentes para um churrasco de sábado no jardim. Imaginem descer de uma parede e ser recebido com churrasco e cerveja? Aquela frustração de ter deixado os Camalot´s no carro passou na hora. Sem contar a receptividade típica dos italianos do interior, em particular do senhor Orlando, o proprietário, com mais de 80 anos de idade e cheia de vivacidade.

Sítio Bragatto. Xpro2

O sábado começou cedo. Por volta das 8h já estava na região do Empoçado em Afonso Cláudio munido de um binóculos catando uma linha interessante numa pedra anexa à Pedra da Lajinha. Estava procurando um projeto que fosse acessível, pois seria uma investida em solitária, mas também queria algo que fosse grande o suficiente para me manter ocupado por 2 dias. Infelizmente, o granito da região é muito compacto, sem praticamente nenhum sistema de fendas. Após uma varredura mais minuciosa, achei um projeto que estava dentro do meu “orçamento” físico. A linha começaria com uma longa aproximação por um costão que, a medida que ia subindo, ganhava inclinação e me levaria à um totem suspenso. Depois, a um segundo totem e por fim, o cume.

Linha da via. Ao fundo à esquerda, a Pedra da Lajinha.
Escolhida a linha, hora de separando os equipos., Gopro.

Na escalada solitária, 90% do trabalho é ralação e o restante, 10%, diversão. Aliás, a hora que você está escalando (10%) é a parte mais tranquila, porque o resto… Além disso, se você está descansando, não acontece nada, só o tempo passa. Por isso, não tem descanso. Sempre terá uma corda para puxar, um equipo a separar… De tudo isso, a parte mais pesada, que demanda mais tempo, é o transporte do material. E quando se está conquistando, o peso praticamente dobra. Furadeira, chapeletas, cordas, material de conquista, móvel, água, comida, a lista é quase interminável e o peso então…

Porteio de material. Levando a primeira mochila. Gopro.

Para poupar a lombar, resolvi fazer o “porteio” do material em duas partes. Fiz duas mochilas e levava uma até um certo ponto, deixava lá, descia, pegava a segunda e levava até o primeiro. Poderia levar tudo numa única tacada, mas como estaria encarando longos trechos de costão que por vezes precisavam ser escalado, achei mais seguro subir mais leve para ganhar agilidade. Com isso, tive que praticamente subir, descer e subir toda aproximação.

Como a pedra ia ganhando inclinação progressivamente, ficou difícil definir onde a via começaria de fato. Lances de I e II fiz em solo para ganhar tempo. Alguns trechos mais difíceis também toquei em solo. Somente na enfiada final, antes da enfiada dos “cata milho” resolvi me encordar por precaução.

Organizando os equipos na parada. Gopro.

Todo esse trabalho de levar os equipos pelo costão me consumiu bastante energia e tempo, o que acabou custando uma bolha na sola do pé direito! Para não comprometer da investida, tive que improvisar uma bandagem para minimizar a dor e seguir os trabalhos.

Bolha na sola do pé. Gopro.

Quando descobri que precisava dos móveis, resolvi descer deixando todo material por ali mesmo, assim, no dia seguinte, poderia subir leve e rápido para dar continuidade à conquista.

Entardecer na Pedra da Lajinha. Xpro2

Depois de encher a barriga no churrasco, por volta das 19h acabei capotando na cama e só fui acordar no dia seguinte ao som do despertador.

Domingo

Às 4h o despertador tocou, peguei o carro e fui até a base da pedra. Ainda sonolento, no breu da noite, perdi o ponto duas vezes, até me achar e estacionar o carro para um café da manhã expresso.

É difícil ter apetite a essa hora da manhã, mas não teve jeito, “saco vazio não para em pé”. Botei a mochila com os Camalot´s e à luz do headlamp comecei a aproximação. Caminhar a noite, sozinho e indo em direção a uma montanha que parece que vai te engolir é aterrorizador. Caminhar sozinho no escuro muda muito a percepção e os sentimentos, mesmo sabendo que em pouco tempo o Sol iria trazer luz e um pouco de conforto.

Sob a luz do luar. Xpro2

Dessa vez subi rápido, mas fiquei impressionado com alguns trechos que subi em solo no dia anterior. É impressionante como a nossa mente muda com o meio. No dia anterior, motivado e focado subi com peso vários trechos sem hesitar. E agora, no escuro, tudo parecia muito mais difícil e aterrorizante.

Por volta das 5h da manhã cheguei na enfiada do “cata milho”. Como não deixei corda fixa em nenhuma lance, tive que provar o próprio veneno. Mas era a oportunidade que eu tinha para fazer a “cadena” da enfiada.

Estudando a enfiada. Ao fundo a estrada onde ficou o carro. Gopro.

O “cata milho” foi relativamente tranquilo, principalmente por causa das agarras marcadas do dia anterior.

Depois da enfiada do “Cata milho”. Gopro.

Agora eu estava preparado para encarar o diedro. Estava com um jogo completo até o #5, mas o meu desejo era ter mais alguns peças grandes repetidas, pois estava claro que iria fazer falta. Da parada, conseguia ver apenas a primeira metade da enfiada, o resto era uma incógnita. Por isso, na início, poupei ao máximo as peças com receio de encontrar terreno mais “hostil” acima. Por sorte, a medida que ia subindo no diedro, a fenda ia afinando cada vez mais, permitindo variar bem as peças. Terminei a enfiada no topo do totem numa posição que facilitasse o rapel onde bati a parada. 

O diedro com um belo veio de pegmatito cheio de agarras. Assim fica fácil. Gopro.

Dali para cima, eu teria duas opções: uma pela direita passando por um diedro sujo ou pela esquerda buscando uma fissura frontal pelo dorso do segundo totem. O problema da fissura era uma virada de um “teto” que parecia, no mínimo, desafiador. 

Como o diedro estava sujo demais, resolvi arriscar o tetinho e rezar para encontrar uma fissura boa no dorso.

Estiquei uma travessia, coloquei o meu único #2 numa colocação bomba e rezei para não precisar dela mais acima. O tal teto, por sorte, se mostrou bem fácil, mas depois, na fissura frontal, precisei do #2. Aliás, a fissura era imaculadamente homogênea e só aceitava #2. Sem muita opção, coloquei um #1 “bangela” e fui tocando na esperança de encontrar algo melhor acima. Não sei quanto estiquei porque não olhei para baixo, mas de repente apareceu uma colocação bomba para o meu #.75 e consegui respirar aliviado. Bati a parada no topo do totem, desci para limpar a enfiada e jumarei de volta limpando a fenda para que futuras repetições desfrutem a fenda.

Dali para cima, tudo indicava que o cume estava perto. Um trecho mais inclinado e depois um rampão parecia que me levaria ao cume. A essa altura, o Sol estava virando e começando a mostrar sua cara. Toquei a última enfiada esticando uma corda cheia de 60m protegida com 3 chapas até o cume da pedra (9h). Na verdade, ali não era bem o cume. Ainda tinha uma escalaminhada fácil até o cume em si. Resolvi dar uma volta por ali mesmo e para minha surpresa, achei vários cacos de vidro, sugerindo que eu não era a primeira pessoa a chegar neste ponto. Dessa vez, nem dei tanta bola nesse detalhe, pois era plausível alguém chegar caminhando pelo outro lado.

Cume!
Cacos de vidro no cume.

Por volta das 9h30 iniciei o longo processo de descida levando todo equipamento até o carro. Como diz o provérbio: “para baixo todo Santo ajuda”, então a descida, mesmo pesada, foi bem tranquila.

Ainda passei mais uma vez no Sítio da família Bragatto para um banho e um almoço de domingo.

Deixar os Camalot´s para trás foi um erro, mas no fim, se mostrou uma escolha acertada, pois com isso tive a oportunidade de conhecer a família Bragatto e poder compartilhar bons momentos, tanto no sábado quanto no domingo. Eu nasci no interior, na roça, vivi e cresci no meio do mato. E agora que vivo na “selva de concreto”, sinto muito a falta dessa vida pacata do interior. Das coisas simples, das conversas descompromissadas e do convívio que se perdem no dia-a-dia agitado da cidade. Por isso, sou muito grato à família Bragatto por resgatar um pouco esse passado e me remeter à infância.

Sítio Bragatto.

Aos que se interessarem, o sítio da família Bragatto está à disposição para quem desejar passar um final de semana ou realizar um evento. O local é uma casa à moda antiga com cinco quartos, cozinha, banheiro e churrasqueira. O seu entorno é caprichosamente decorado com muitas árvores, folhagens e flores coloridas que dão um belo ambiente de acolhimento. Aos interessados, deixo aqui o telefone do Roberto que cuida dessa parte da reserva: (27) 99843-8299.

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Comentários

Uma resposta

  1. Hahahaha, se deu bem nesse sítio em japonês, te conheço ?…. Parabéns pela conquista!!!

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