Pela janela do escritório olho para fora e vejo o céu ensolarado. Mais abaixo, algumas crianças brincam na piscina do condomínio e penso: como eu queria estar na montanha. Um bipe no computador avisa que o processamento acabou e volto à realidade.

Os meus pés tremem compulsivamente numa pequena parada desconfortável no meio da parede. Olho para cima e vejo o céu ensolarado, mas eu estou bem na sombra da montanha, tremendo de frio. Acima de mim, vejo o Rodrigo lutando para vencer o frio e superar mais uma cordada da via. Enquanto ele vai sumindo no “horizonte vertical”, penso comigo: que saudade do conforto do escritório. Subitamente o meu pensamento é interrompido com um grito avisando que era hora de eu escalar e começo a me mover lentamente.

Escalada é um esporte estranho, sempre queremos estar na montanha, mas uma vez lá, o que mais desejamos é sair logo dali o quanto antes e, às vezes, nunca mais volta-la novamente.

Mas nós sempre voltamos!

Arenales 2018!

Em 2016 fui com o escalador Sandro Souza para Arenales na Argentina (leia mais aqui) e escalamos, entre várias montanhas da região a Agulha Carlos Daniel. Naquela ocasião entramos numa via na face Sul com roupa inadequada e passamos um frio danado. E agora, dois anos depois, em 2018, lá estava eu novamente na mesma agulha, mas dessa vez com o Rodrigo batendo queixo numa outra via…

Nunca desejei não voltar a Arenales, muito pelo contrário, sai de lá a primeira vez, apesar das intempéries, com a certeza de que um dia iria voltar novamente. Afinal de conta, como já dizia o Yagua:

Arenales es um lugar magico!

Na primeira vez que ele falou isso achei que fosse uma frase poética, mas logo descobri que não era poesia. Arenales não tem o melhor granito do mundo, as escaladas são Ok, mas o lugar tem uma energia incrível. É algo difícil de explicar. Só vivenciando algum tempo no vale para compreender aquela simples frase do Yagua.

Os últimos raios de luz iluminando as montanhas mais altas da região de Arenales.

De fato, o meu retorno ao “cajón” não foi só pela escalada, mas pela magia do lugar. Talvez, essa coisa de chegar nos “enta” estivesse mexendo comigo e estava precisando de um “momento espiritual nas montanhas” para organizar as ideias, e por isso quis volta-la. Naturalmente, ainda tinha algumas “ambições verticais” em mente. Queria escalar mais algumas vias clássicas que ficaram de fora da última vez, pois na primeira ida tivemos pouco tempo (10 dias) e agora com quase 3 semanas disponíveis, seria uma boa oportunidade para se isolar um pouco desse mundo louco e entrar num outro mundo mais louco ainda.

Gosto de ir aos picos de escalada no início ou final da temporada, quando há menos pessoas na montanha. Em 2016, fomos no início de dezembro visando isso, mas tivemos o “azar” de encontrar muita gente na montanha. Dessa vez, resolvemos ir na mesma época apostando na mesma ficha. Bingo! Dessa vez Arenales estava mais vazio. É claro que isso tem um preço: o clima. O início e o final da temporada costumam ter um clima mais instável e em Arenales não difere muito de outros locais.

Primeira nevasca

Chegamos na capital da província de Mendoza no dia 25 de novembro e após uma rápida passagem pela cidade para comprar alguns mantimentos rumamos ao sul em direção ao “cajón”. Na primeira semana, o clima estava bastante instável com muita nebulosidade e frio. Ainda assim conseguimos escalar nos primeiros dias as vias Patrícia (6a+), Carlos Daniel (6a) e Mejor no hablar de ciertas cosas (6b). A via Patrícia já tinha escalado em 2016, mas é uma via tão boa e tranquila que vale a pena ser repetida sempre. Já para o Rodrigo foi uma excelente introdução ao “estilo Arenales de escalada”.

O Rodrigo é um escalador capixaba que aprendeu a escalar no Rio de Janeiro e no ano passado foi comigo para Indian Creek, onde fizemos um intensivão de escalada em fenda. É um daqueles caras que se passar a ponta da corda, ela não vai voltar.

Depois repetimos a via Carlos Daniel na agulha homônima. Em 2016 achei que tivesse repetido essa via, mas descobri que vi errado o croqui e Sandro e eu escalamos uma outra via chamada “Regreso sin gloria” (6b+)… A minha primeira guiada em Arenales foi num 6b+… Para aprender a ler direito o croqui! Já a terceira escalada foi na clássica “Mejor no hablar de ciertas cosas” (6b) pela variante “Chipi Chipi bon bon” na Agulha Cohete.

Para mim, essa é a melhor via de Arenales, disparada! Via longa, 500m, muitas enfiadas e fendas perfeitas fazem desse escalada um “must to do”.

Assim como em 2016, escalamos à francesa as primeiras 4 enfiadas. Depois, alternamos as fendas perfeitas e no final voltamos a escalar em simultâneo as últimas duas enfiadas para ganhar tempo, pois ao fundo estava claro que o tempo iria virar rapidamente. Assim que chegamos no final da via fomos surpreendidos por uma nevasca com muito vento e tivemos que baixar às pressas.

Um descanso antes de encarar a segunda parte da Cohete.

No dia seguinte, a área do refúgio amanheceu totalmente branca de neve e tivemos que fazer um descanso forçado. Após um dia merecido de descanso fomos à Agulha Carlito para escalar a via Panflaque (6b+), mas logo descobrimos que a fenda estava totalmente molhada por dentro. Mesmo assim, insistimos e terminamos escalada sob condições bem difíceis.

Neve em Arenales!

O susto

No dia seguinte forçamos uma subida até o grupo Campanille na esperança de encontrar a via Panqueques na Agulha Charles Webis seca, mas infelizmente ainda vertia água das fendas e fomos obrigados a baixar, sem antes deixar os equipos escondidos num abrigo. Neste dia, além nós, um escalador de Neuquém, uma menina de Mendoza e uma escaladora austríaca subiram conosco. O trio estava querendo fazer a famosa variante Armonica no Campanille. Nos instantes finais que vimos o trio ficou claro que eles estavam se movendo muito devagar na trilha. Por volta das 15h nós baixamos para o refúgio por causa da virada repentina no clima. No meio da tarde, a temperatura despencou e começou a trovejar na região. Assim que pisamos no refúgio começou a chover e nada do trio descer. Esperamos até às 20h30 e nada de ver as lanternas na trilha. A essa altura, já estava bem escuro, frio e chovendo. Para nós ficou muito desconfortável ir para o saco de dormir sabendo que 3 pessoas ainda não tinham descido. Como estávamos apenas nós dois no refúgio, às 21h resolvemos fazer alguma coisa e ficou decidido que eu desceria até o posto da polícia para avisar o ocorrido enquanto o Rodrigo esperaria no refúgio por alguma novidade. Desci até o posto na chuva e contei o que estava acontecendo aos guardas. Ficou decidido que eles iriam monitorar a situação e se até a manhã do dia seguinte não aparecessem, uma equipe iria atrás do trio. Por sorte, por volta das 23h00 conseguimos ver 3 lanternas no alto da trilha e pudemos respirar aliviados. Depois, o trio contou que a escalada transcorreu sem problemas e que apenas demoraram mais do que o esperado.

No fim, tive a impressão de que nós estávamos mais preocupados do que eles. Afinal de conta, no início do mês, aconteceu um acidente fatal na região com um casal de escaladores durante a descida quando a estação de rapel em um bico de pedra se desfez.

Mendoza

Assim que retornamos ao refúgio, descobrimos que uma frente fria de grandes proporções estava entrando na região com previsão de neve e chuva para os próximos dias. Assim, resolvemos baixar para Manzano para descansar um pouco. Logo pensamos, mas se vamos até Manzano, por que não ir até Tunuyán que é logo ali? Uma vez em Tunuyán, pensamos: Mendoza fica a 1h dali! Assim, acabamos baixando até a cidade de Mendoza!

Já em Mendoza acabamos encontrando a Rê (Leite) que escalou conosco até o final da nossa estadia. Ela tinha chegado de Sampa uns dias antes e estava na cidade tentando resolver um problema básico de bagagem: reaver as malas que foram extraviadas! Na primeira semana, a outra Rê, a Terzi, também teve problemas com a bagagem. No caso dela, cortaram o plástico que envolvia a mochila e sumiram com a barraca… Preju total… Parabéns LATAM!

Ah, aqui cabe contar mais um causo! No dia que resolvemos descer para Manzano, combinamos por “telefone sem fio” com o Yagua de que ele nos pegaria na ponte às 7h da amanhã. Na manhã do dia combinado, chegamos às 6h45 ao local combinado e nada dele. Resolvemos ir caminhando, pois estava muito frio para ficar esperando em pé, fomos descendo devagarzinho e nada do Yagua. Chegamos no posto policial, esperamos mais um pouco e nada. Pensamos, vamos descendo devarinho, já já ele nos encontra! Por volta das 8h após 1h de caminhada, a ficha caiu e ficou claro que ele não viria nos buscar naquele dia. Descemos 13km, 1400m de desnível a pé até Manzano em quase 3h de caminhada. O Rodrigo, achando que seria uma caminhada de 15 minutos, desceu de chinelo, pois o tênis dele tinha molhado na noite anterior. Coitado, baixou 13km de chinelo com uma cargueira nas costas… Que roubada…

Manzano fica logo ali, onde o vale acaba!

Retorno pós nevasca

Malas encontradas, nevasca passada, alimentados e reabastecidos voltamos ao vale no dia 6 de dezembro.

A segunda parte em Arenales foi incrível, o tempo melhorou drasticamente e o refúgio estava mais vazio ainda. No nosso primeiro dia de escalada após o retorno, o Rodrigo teve a “incrível” ideia de fazer umas esportivas num setor chamado Tetón. Como nas partes altas ainda estava com neve era uma escolha sensata, mas o que nós não sabíamos era que a caminhada até esse setor seria de matar. Pegamos um “caminho alternativo” e levamos mais de 2h para chegar nesse setor. Ou seja, no final das contas, passamos mais tempo caminhando do que escalando.

Caminho alternativo. Pelo menos o visual tava legal!
Rodrigo na via Abraza la gorda (6b). Setor Tetón Free.

No dia seguinte, Rodrigo e eu subimos até a Agulha Charles Webis para repetir um clássico dessa agulha, a Panqueque (6b), aquela que tava molhada na primeira vez. A escalada em si não foi tão dura quanto esperávamos, mas a incerteza da linha da via e da pedra que estava molhada em vários trechos deixaram a escalada um pouco mais angustiante.

Aproximação final na Charles, ainda com bastante neve.
Na segunda enfiada crux da via. Fotografado por uma cordada que estava na via “Escorpion”.
Cume!!!!

No terceiro dia de escalada, enquanto o Rodrigo tirava um via de descanso, voltei novamente à Agulha Carlos Daniel com a Rê para escalar a via “Deja ya de joder”(6a), dessa vez pela face nordeste que fica mais tempo exposto ao Sol! Ufa!

Rê abrindo uma nova variante! Leia-se, escalando fora da via…
Cume!!!!

Originalmente a ideia era escalar direto todos os dias até o final da viagem (7 on 0 off), mas ficou claro que eu já não era mais um jovem e no 4a dia fui obrigado a tirar um dia de descanso para cuidar um pouco de mim. Aproveitei o dia também para dar um trato no refúgio. Vale lembrar que o refúgio é gratuito e funciona graças ao trabalho voluntário da galera. Por isso, sempre que possível, é importante doar um pouco de esforço para fazer a manutenção do local. Nesse dia, por exemplo, aproveitei para limpar as mesas, varrer o chão, consertar a porta “automática” e ainda trocar o tacho que merda do banheiro que estava pela metade. Outra forma importante de ajudar o refúgio e a escalada na região é via doação financeira para Fundación Piedra Libre  que trabalha em prol da escalada na região.

Menu do dia!

Já para o primeiro dia de escalada após o descanso, Rodrigo e eu fomos escalar a cereja do bolo da trip, a via Escorpion (6b+) na Agulha Charles Webis. Tirando a primeira enfiada que é mais exigente o resto foi puro desfrute, com destaque para 4a enfiada que transcorre por um extenso sistema de fenda mão! De fato, essa via é um clássico de Arenales que vale a entrada.

Cume!!!!
Lanche pós escalada e pré descida. Salame, queijo e biscoito!

De cabeça feita, no dia seguinte ainda fui com a Rê, o Sebástian e um Peruano louco para um setor chamado Placas Blancas. Esse setor sempre chamou a minha atenção desde a primeira vez, principalmente por causa de uma parede com um sistema de fendas de uns 40m que destoa um pouco das paredes adjacentes. De fato a via, sem nome, é muito estética transcorrendo de uma fenda à outra até uma parada em bico de pedra.

Rê na via sem nome (6a+) no setor Pared Blanca.

Nos dias subsequentes, um misto de cansaço acumulado, enxaqueca e otite me tiraram do jogo e fui obrigado a encerrar as atividades um dia antes do esperado para cuidar da saúde. Infelizmente, o Rodrigo também deu um mal jeito na coluna acabou me acompanhando no descanso forçado.

A trip não acabou em grande estilo, mas foi bem proveitoso. Vias velhas, vias novas e novos amigos foram a tônica desta trip. Mais uma vez sai de lá com a certeza de que ainda voltarei. Quem sabe 2020?

O vale mágico de Arenales.

Sobre as fotos: Se em 2016 levei um conjunto pesado de equipamento fotográfico, dessa vez resolvi ir mais leve. As fotos em torno do refúgio foram tiradas com a minha Fuji X100f e as fotos de escalada com a Gopro Hero 6. Basicamente filmei tudo em 4K e depois capturei alguns frames.

Em breve sai um vídeo da trip.

6 Responses

  1. Sensacional! Vocês são muito guerreiros para aguentar essa aventura, de escalar congelando a caminhadas severas, e ainda assim com sorrisos e boa vibe 😀 Boa!

  2. Parceria incrivel, mais uma vez. Obrigado por estar sempre motivado. Cada vez que vou a montanha contigo, aprendo muito!

  3. Eh pq vc não viu a nossa cara quando chegamos na base da Charles Webis…

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