“Deus, eu pequei”

No último sábado, Iury, “Bom bom” e eu conquistamos mais uma via na Parede Polese em João Neiva. No mês passado, Fred “Ibiraçu” e eu já tínhamos conquistado outra via nessa parede. E agora, abrimos outra, à esquerda da via “Obra do Acaso”.

Parede Polese.

Comparando com a via “Obra do Acaso”, essa via possui menos colocações móveis, só na saída há duas colocações, e é um pouco mais difícil, com um crux definido na terceira enfiada, onde fica os dois “headwall” da via.

Iniciamos a conquista por volta das 8h da manhã, tentando tirar proveito de uma “janela” fora de época, com previsão de temperatura agradável para outubro e a sombra da manhã na parede. Dessa vez o Iury cansou de ser o estagiário do grupo e chamou o “Bom bom” para dividir o peso.

Separando a carga.

O único crux para chegar na base da via é a travessia do riacho, mas mesmo com as chuvas dos últimos dias, o riacho não subiu o suficiente para atrapalhar a travessia.

Travessia do riacho.
Vara mato básico.

Inicialmente pensamos em sair por um sistema de lacas para proteger em móvel, mas a rocha estava tão decomposta que achamos melhor sair um pouco pela direita abrindo mão das lacas. Mesmo assim, ainda consegui duas colocações móvel antes de entrar no gnaisse compacto. Com isso, a 1a enfiada ficou com uns 50m, 3 proteções fixas e a parada. Assim como na via “Obra do Acaso, a parede é crivada de agarras, agarras de verdade, por isso, mesmo com as proteções mais espaçadas, a escalada é bem agradável.

Selfie na P1.

A segunda enfiada sai em diagonal à esquerda para buscar a faixa branca de gnaisse que é onde estão as agarras. Depois segue para cima até fechar uns 50m. Essa enfiada ficou com 4 proteções fixas mais a parada. A dica aqui é usar fitas longas, porque a linha não ficou totalmente reta. Além disso, a escalada exige certa leitura para escolher o melhor caminho. A enfiada está graduada em IV grau, se valendo de vários balões. Se subir reto, em linha reta, a dificuldade sobe um pouco mais.

No início da segunda enfiada.
Tirando o fator 2. Foto: Iury.

A terceira enfiada é a cereja do bolo. Olhando da confortável parada da P2, a terceira enfiada parece tranquila com duas viradinhas, mas quando chegamos mais perto, ficou claro que a parede ganhava inclinação e a escalada ficara mais aérea. O crux ficou na 2a virada, onde as agarras diminuem um pouco, mas mesmo assim não deve ser mais do que um V grau. Acabei esticando toda corda para ganhar um platô onde estabeleci a P3. Por isso, para repetições futuras é mandatório usar uma corda inteira de 60m.

A última enfiada é um pequeno protocolo para chegar nos 4 coqueiros que marcam o fim da via. Por causa das chuvas recentes, esse trecho estava molhado em algumas partes, além disso, quando bati a 2a proteção para parada fixa notei que a bateria da furadeira estava nas últimas e estávamos sem a bateria reserva.

Semanas antes, adquiri uma nova furadeira para as conquistas, uma Bosh 18V com 2,6J de força. Ela é um pouco mais pesada que a outra Bosh 18V, mais 400g, mas com mais força de impacto (1,7J contra 2,6J). Só que acabei dando mole e não dei carga completa na bateria achando que iriamos furar menos. Já tínhamos feito 20 furos até então. Além disso, não tinha considerado que o gnaisse dessa região é bem duro, demandado mais da furadeira.

Comparando as duas furadeiras.

A essa altura estava aceitando a ideia de fazer uns furos na mão se fosse necessário.

Toquei a última enfiada desviando dos trechos com limo até ver que faltando uns 2m para o coqueiro, a pedra estava totalmente molhada. Num platô confortável mais abaixo, fiz o último furo. Por sorte a furadeira deu conta e não precisei recorrer ao batedor.

No trecho molhado vi uma passagem de um palmo de largura onde a água não tinha molhado a pedra. Era a única passagem para chegar nos coqueiros. Dei IV para esse lance, mas as repetições posteriores poderão achar o lance mais fácil usando o resto da parede.

Foto no final da via.
Croqui da via.

Chegamos no coqueiro ao meio-dia, após 4h de conquista. Subimos bem leve e sem pressa. O Bom-bom e o Iury também subiram bem no ritmo desembolando bem nas transições. Por sorte, também tivemos a ajuda das nuvens que cobriu o Sol a partir do meio da manhã.

Em linhas gerais, essa via é bem peculiar em relação a todas as vias do Estado, principalmente nos que se refere a inclinação e quantidade de agarras. A maioria das tradis daqui são em rocha menos inclinada e com muito menos agarras. Essa via parece um muro de escalada indoor com uma pitada de tradicional. Com certeza um prato cheio para quem gosta de tradi, mas não curte agarrência.

Já o nome surgiu durante a caminhada de aproximação quando estávamos discutindo se Deus protegia os escaladores. Em certo momento, não lembro o contexto, falei: Deus, eu pequei! E ai a expressão pegou e virou nome da via.

Lembrando que a conquista desta via foi subsidiada pela Associação Capixaba de Escalada com apoio da Bonier.

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