Entrevista com o Ed sobre a conquista da via “Fio na Navalha” na Pedra do Fio

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Pedra do Fio, Estrela do Norte, Castelo – ES. A foto que inspirou a conquista!

No último feriado de Tiradentes, o trio de escaladores paranaenses, Edemilson Padilha, Valdesir Machado e Élcio Muliki , conquistaram, em apenas 4 dias, uma monstruosa linha de 700m na parte frontal da Pedra do Fio em Castelo – ES.

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A equipe: Élcio, Val e Ed.

Para quem não conhece a região, a Pedra do Fio é uma espécie de guardião da região de Estrela do Norte, pois a estrada que leva à região passa bem em frente a pedra, antes de mergulhar num mar, quase que infinito, de domos de granito. E não há ser humano no mundo que não se impressione pela imponência dessa pedra. Todo mundo encosta o carro no acostamento e fica ali apreciando aquela obra divina.

A pedra já é bem conhecida pelos escaladores locais, pois na década de 70, um grupo de escaladores liderado por Jean Pierre Von Der Weid, conquistaram uma das linhas mais ambiciosas da época, conquistando a Pedra do Fio por um longo sistema de chaminé que fica à esquerda do grande totem. Para ter uma ideia da dimensão do feito, essa via continua até hoje sem repetição.

No site Blog de Escalada, tem um relato muito legal sobre a conquista desta via nas palavras do Ed. E para complementar a história, o Ed gentilmente me cedeu uma pequena entrevista contando mais alguns detalhes sobre essa incrível conquista em terras Capixabas.

Pessoalmente é muito legal ver gente de fora abrindo via no estado. Isso me poupa trabalho! O Espírito Santo é um estado abençoado em termos de pedra. Tudo que eu já visitei e conheci nos últimos 8 anos representa apenas 1/4 de tudo que o estado tem a oferecer. Tem regiões como o sul e o extremo norte do estado que eu nem botei os pés ainda. Só na região central, por onde ando mais, tem tanta coisa que vou precisar de uma outra vida para conhecer o resto.

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Segue a entrevista

Naoki (N) – Como surgiu essa ideia? Por que Espírito Santo?

 Ed (E) – Já estivemos no ES há alguns anos abrindo uma via alucinante na Pedra do Garrafão, em Ecoporanga. E quando vi uma foto do Naoki Arima da Pedra do Fio, fiquei muito empolgado (rs). Achei a pedra muito bonita.

N – Vocês tinham outras pedras em mente além da Pedra do Fio?

 E – Na verdade quem nos influenciou também foi o Roberto Teles que mora em Afonso Cláudio. Este nos mostrou uma foto de uma face sem vias dos Três Pontões. Fiquei de boca aberta. Tínhamos imaginado de ir para lá, mas o Roberto não podia nos acompanhar no feriado do dia 21/04, então decidimos ir para outra montanha.

N – Como é se jogar numa parede que vocês nunca viram ao vivo e só viram por fotos?

E – É uma loucura, mas é bem mais legal. Quando você não tem muitas informações é bem interessante, pois vai descobrindo aos poucos como enfrentar o desafio e no final é bem mais gratificante. Você chega na cidade e pergunta pro tio do bar onde é a Pedra do Fio, aí ele te olha com uma cara de desconfiança, pensando “esses meninos estão perdidos por aqui procurando uma pedra…” e te manda ir perguntar para outra pessoa. Aí você vai meio no rumo, perguntando aqui e ali e de repente dá de cara com aquele colosso de pedra. Ual!!!

N – Qual foi a primeira impressão que vocês tiveram ao verem aquela muralha infinita de granito?

E – Quando vimos de longe a parede estava na sombra e o visual era meio tétrico, tipo do filme do Drácula (rs). Depois fomos dos aproximando e foi ficando cada vez mais vertical. Na minha cabeça veio o pensamento: “isso vai dar muito trabalho, é enorme!” E era mesmo e deu bastante trabalho.

N – Dá para ver que a via é dividida em 2 partes, uma inferior em aderência e uma superior mais vertical. E pelas fotos essa parte inferior também não me pareceu muito fácil. Ou estou enganado?

E – Nada enganado. A primeira parte tem 400 metros e vai até o platô de bivaque, que por sinal é todo torto, sem nenhum lugar bem plano para dormir. E esta primeira parte já começa delicada e exposta, com proteções em lacas, às vezes não muito sólidas. Depois vai ficando mais vertical e tem lances duros de aderência. No último esticão tem um trepa mato esquisito que tem um bloco pendurado numa árvore, muito sinistro. Tem que cuidar para não derrubá-lo.

N – E as fendas na seção superior? Vocês esperavam encontra-las?

E – Sim, quando olhamos de baixo e com binóculo, vimos as fendas, mas não sabíamos se eram contínuas. Também vimos que havia uma seção nebulosa, que foi justamente aonde tivemos de fazer furos de cliff. Esta seção une as duas fendas mais bonitas da via. A primeira é logo após o platô (#9) e a outra é o esticão de número 12. Esta segunda fenda tem 55 metros de puro desfrute.

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N – No relato de vocês, vocês falam em subir leve, o que é uma tendência de estilo. Qual o segredo para o sucesso para este tipo de escalada?

E – Sim, subimos o mais leve possível. Só com sacos de bivaque, jetboil, comida liofilizada, água na estica. Assim não tivemos de ficar rebocando peso. Subimos jumareando com o peso na mochila, pois até o platô não era tão vertical, então dava pra jumarear de mochila. O segredo é planejar tudo meticulosamente, pois sempre vão ocorrer alguns erros, mas quanto menos erros, mais chance de sucesso. A estratégia é o mais importante e em segundo lugar escalar e fazer todos os procedimentos com rapidez. Na parede a gente não pode perder tempo. Nós acordávamos 4:30H para poder estar escalando com a primeira luz do dia. E às vezes terminávamos de conquistar um esticão já à noite.

N – Imagino que vocês nunca estiveram antes na região onde fica a Pedra do Fio, Estrela do Norte, qual a impressão que vocês tiveram a respeito do potencial daquela região? Você sabia que ali tem apenas 3 vias concluída (contando a de vocês) e 2 em andamento?

E – Ficamos muito impressionados com o que vimos. Há muitas montanhas e quase nada de vias. Pois é, depois que retornamos falei com o Jean Pierre Von Der Weid, e ele foi muito gentil e me enviou o croqui de sua via e o relato da conquista da mesma, que para a minha surpresa, foi aberta em 1972, o ano em que eu nasci, há exatamente 43 anos. A via fica à esquerda do dedo da Pedra do Fio, numa chaminé entre o dedo e a montanha. Foi uma conquista incrível e muito arrojada para a época.

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N – Algum beta especial para uma repetição futura?

E – Cuidado com o blocão na enfiada #8 e com os rapéis em transversal. Eles podem ser difíceis de se rapelar se não tiver corda fixa. Principalmente da P11 para a P10, da P10 para a P9, e da P4 para a P3. Os 3 primeiros esticões são expostos, mas são fáceis, é só manter a calma. Bom levar uns 3 jogos de friends, uns micros e uns bem grandes (tipo camalot #5 e #6), além de stoppers e cliffs de buraco e estribos. Depois das 11 da manhã é só sombra na parede.

N – A fábrica da Conquista vai se mudar para o Espírito Santo? Dizem que o governo dá incentivo fiscal? Kkkk

E – Pode ser uma boa alternativa. Será que tem bastantes costureiras por aí? Montanha pra gente testar os equipos não vai faltar kkk.

N – Ah, tem sim! Aqui é um grande pólo têxtil! Então fechou todas! E mais uma vez parabéns pela conquista!

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No site Alta Montanha também tem uma outra entrevista com o Ed, clique aqui para ler mais.

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