Escalando em Pancas

A cidade de Pancas é, sem dúvida, o maior polo de escalada tradicional do Espírito Santo. Segundo minha contagem, atualmente há 67 vias tradicionais na cidade. E toda temporada, a cidade recebe diversos escaladores de todo Brasil que vêm em busca dos Pontões Capixabas.

Pedra do Camelo

Nesse balaio tem de tudo e para todos os gostos. Desde 450m de chaminé como a “Chaminé Brasília” na Pedra da Agulha, ao melhor estilo old school, até vias mais modernas como a “Obrigado Amigos”, a via mais difícil de Pancas, graduada em 9a. Entre os extremos há diversas vias de dificuldades e extensões intermediárias, como a Face Oculta, uma das vias mais repetidas de Pancas que consta no livro “As 50 clássicas do Brasil”.

Imponente Pedra da Agulha.

Além dessas vias mainstreet, há também as vias underground que pouca gente conhece ou que caíram no esquecimento por diversos motivos. Um dos motivos para esse esquecimento é a falta de informações. Mesmo no livro bem completo do Baldin, algumas vias não possuem croquis nem informações básicas.

Nessa pegada, folhando o livro, achei duas vias esquecidas que chamaram minha atenção: A Normal da Pedra do Panetone graduada em 4o, VI, D2, E3, 350m conquistada pelos escaladores Gustavo Silvano e Paula Freitas em 2012 e a Normal do Pico Bier, conquistada pelos escaladores Gustavo Silvano e Leonardo Alvarez aquele mesmo ano e graduada em 5o, VI, E3, D1, 250m.

Em ambas as vias me chamaram a atenção, além da falta de informações, a dificuldade da via e o fato de usar equipamento móvel. Não é padrão encontrar vias de VI em Pancas e o uso constante de material móvel é igualmente raro por causa da natureza do granito. Por isso essas duas informações me interessaram e fui atrás de mais informações.

Como as duas vias são do Gustavo, o procurei pelas redes sociais e troquei algumas infos sobre as vias. Tentei arrumar um croqui, mas o mesmo tinha sumido com o tempo.

O tempo passou e nesse final de semana surgiu a oportunidade para tentar essas duas vias. Para isso, chamei o Iury que sempre entra nas barcas sem perguntar. Presa fácil!

Pedra do Panetone

No sábado resolvemos entrar na Pedra do Panetone que é a maior entre as duas. Como a aproximação e o traçado da via não estavam claros mentalmente pedi uma ajuda ao Gustavo que nos passou o contato do Wilson “Carioca”, um ex-escalador e corredor de trail que em 2012 esteve na base da via durante a conquista.

O Carioca gentilmente se prontificou a nos levar até a base da via, o que nos poupou um bom trabalho de vara mato. Mesmo depois de 10 anos, o cara nos deixou na base da via e ainda tentou procurar os primeiros grampos.

Eu galo velho, da base da via já tinha entendido que as contas não estavam fechando. O livro fala em 350m de via e olhando para montanha estava mais do que claro que tinha pelo menos 600m para mais. Como a primeira parte é um rampão, conclui que o Gustavo deixou de fora essa primeira parte das contas e só contabilizou o trecho do headwall. Assim a conta iria fechar. Além disso, o início parecia fácil, então imaginei que tivesse solado.

Pedra do Panetone.

É incrível como somos capazes de filtrar a nossa mente e direcionar o foco para um determinado assunto em detrimento ao resto, efeito funil. Eu botei na cabeça que a parte inicial foi conquistada em solo e subi com esse entendimento.

Iniciamos a escalada tocando à francesa até o Iury começar a escalar e gritar:

– Naoki, você pulou um grampo!

Ai pensei: tranquilo, sem problema!

Daqui a pouco, o Iury grita novamente:

– Tem outro grampo aqui!

Nessa hora, comecei a escalar procurando grampo e de repente achei um logo acima de mim.

Foi um misto de alegria, porque a situação não estava lá grandes coisas para mim, mas também de confusão. Ficava imaginando por que tem grampos aqui?

Iniciando a escalada!

Cheguei num platô que o Carioca tinha me apontado da base. Dali para cima resolvemos “escalar normalmente”. Mesmo assim, fiz mais uma enfiada inteira pulando todos os grampos. Fui ver isso depois, olhando da parada para baixo. A parede tem muita vegetação e é bem difícil ver os grampos.

Iury limpando a enfiada que não achei os grampos.

Na próxima enfiada resolvi entrar mais esperto e subi catando os grampos e deu tudo certo. Logo depois, uma enfiada curta nos levou a um platô confortável onde paramos para respirar um pouco. A próxima enfiada parecia bem dura. Parede vertical, sem agarras aparentes e grampos longos. 

O Gustavo não tinha me falado nada sobre isso. Entrei na enfiada e logo no 2o grampo vi um furo de cliff. Na hora pensei: olha a roubada… Não existe abrir uma enfiada de V com furo de cliff. Furo de cliff se usa para enfiadas mais duras, como VII ou mais. Na hora tentei não entender e me concentrei para encadenar a enfiada. Sorte que a enfiada possui alguns gravatás salvadores que dão uma aliviada boa, mas mesmo assim acho que essa enfiada deve dar um VI SUP ou até mesmo um 7a.

Cheguei num segundo platô confortável e enquanto o Iury vinha subindo fiquei procurando os grampos da próxima enfiada. A parede tem muita vegetação e é muito difícil ver qualquer coisa. Dali para cima a parede só ganhava inclinação e o cume parecia estar a uns 150m a 200m.

Sem muita opção, comecei a enfiada seguinte pelo caminho que achei o mais natural, embora tivesse pelo menos mais duas opções. Subi uns 5m e nada de grampo. Mirei uma moita mais acima e toquei mais 5m. Se alguém tivesse que bater um grampo, tinha que ser lá. Cheguei na moita e nada de grampo. Gastei mais um bom tempo procurando um grampo e nada. Olhei para baixo e não tinha mais como descer.

Como não sou bobo nem nada, levei um kit batedor e martelo para uma eventualidade como essa. Puxei o material e comecei a fazer um furo para bater uma chapeleta de fuga. Ao mesmo tempo, contactei o Gustavo para tentar entender a situação. Após algumas trocas de mensagem, entendi que a via acabava na parada de baixo. Na época da conquista ele achou que tinha muita vegetação e resolveu encerrar a conquista por ali.

Agora é muito fácil entender tudo isso, mas no calor da hora não foi nada fácil.

Bati a chapa, desci até a parada e dali descemos, já que a via acabava por ali mesmo.

Fazendo um furo a moda antiga.

Chegamos de volta na base por volta do meio-dia. Segundo meus cálculos, iniciamos a escalada por volta das 8h e chegamos no final da via às 11h, totalizando 3h de escalada (D2/D3).

Traçado da via Normal da Pedra do Panetone.
Um beija-flor, ou colibri como é chamado por aqui.

“Eu sei o que você fez no verão passado”

Resolvemos dar uma conferida numa fenda que eu tinha vista no ano passado quando tinha ido a Pancas com a Paula. A fenda fica na face leste da Pedra da Dormideira, ao lado da rodovia e a apenas 30 segundos do carro. Ou seja, uma bardada para aquela escalada no final do dia.

Face leste da Pedra da Dormideira. A via transcorre pela oposição da esquerda.

Ali conquistamos a “Eu sei o que você fez no verão passado”, uma bela oposição de uns 20m protegida com peças pequenas e médias. A via tem no total uns 35m a 40m de extensão. A parada é numa árvore que fica no topo e possui uma chapeleta na aderência inicial. Com uma corda de 60m é possível descer até a chapeleta e depois fazer um rapel de fuga. Com uma corda de 70m creio que seja possível descer direto até o chão. Para repetir é necessário peças pequenas a médias repetidas. Quanto ao grau, diria que seja um 5.9 clássico de Yosemite, o que daria um V grau brasileiro. Com certeza uma excelente opção para aquela escalada no final do dia. Sombra a tarde!

Seleção de peças utilizadas no crux da via.

Pico Bier

No dia seguinte, a nossa meta era entrar na Normal do Pico Bier.

Acordamos sem pressa, mas também não demoramos muito para levantar. Como na noite anterior, às 21h já estávamos recolhidos, acordar cedo não foi problema.

Arrumamos as coisas e partimos para pedra. O Gustavo e Leonardo acessaram a montanha pelo lado da Pedra do Panetone, mas resolvemos ir por cima, pelo outro lado. Assim, a aproximação seria em declive. Para baixo todo santo ajuda.

Passamos na última propriedade onde solicitamos passagem e deixamos o carro na casa.

Em busca da via perdida. À direita o Pico Bier.

Levamos um bom tempo para achar a base da via. Embora a pedra seja pequena, a caminhada no entorno é bem difícil por causa dos espinhos e da declividade.

Achamos a base por volta das 9h. A descrição do início não batia 100% com a realidade, mas não tinha nenhuma outra fenda que pudesse levar ao cume da montanha. Então apostamos as fichas ali.

A primeira enfiada é sem dúvida a melhor enfiada da via, e a mais dura também (VI). Uma aderência exposta leva a uma laca frágil que vira uma fissura de dedo delicada onde nem o meu Totem preto coube.

Início da via.
Iury limpando a 1a enfiada.

Dali para cima parecia que a escalada seria mais tranquila. Mais uma enfiada de aderência típica de Pancas nos levou ao primeiro platô de mato. Assim que botei os pés, descobri que a mata era puro espinho. Toquei um vara espinho a procura de melhores condições, mas os espinhos praticamente nos acompanharam até o cume da pedra. Um segundo vara mato de uns 60m nos levou à base de uma chaminé com vegetação, e espinho, claro! Ali encontramos uma parada dupla. Ou seja, mesmo não parecendo, estávamos no caminho certo. Mais um vara mato em chaminé e finalmente encontrei uma rocha fresca, sem espinho. Pela descrição parecia ser a tal fenda que levaria ao cume! Toquei feliz da vida achando que chegaria no cume, mas logo descobri que estava chegando no 2a platô de mato, com espinhos, claro!

Saída da 2a enfiada.

Confesso que pela primeira vez senti uma tristeza. Enquanto ouvia o Iury gritando e lutando contra a pedra e os espinhos ficava pensando se realmente valia a escalada. Fizemos uma pequena pausa para melhorar os ânimos, reidratar um pouco e comer qualquer coisa.

Iury na 4a enfiada.

Olhando para cima, entre as árvores, agora parecia que era o cume! Bastava vencer a “cereja do bolo” de uns 30m que estaríamos no cume. Procurei a tal fenda e logo descobri que a fenda não era contínua. Depois de uma saída estranha consegui colocar duas peças boas que me deram confiança para decifrar o lance final e ganhar o cume, com espinho claro!

Última enfiada.

Chegamos no cume por volta das 15h após 6h de escalada. Conforme esperado, constatamos no livro de cume que essa foi a 1a repetição da via exatamente 10 anos após a conquista. Assinamos o livro e logo fomos tratando de descer, pois a água estava no final, o calor sufocante e vários bolsões de chuva em nossa volta atormentavam a nossa vida.

Livro de cume.
Aquela foto clássica!

Pelo menos a descida foi mais fácil do que o esperado. Conseguimos alinhar bem os rapéis e em menos de 1h estávamos no chão totalmente esfarrapados!

Pico Bier, a via transcorre pela face oposta.

Agradecimentos ao Iury que precisou superar todos os limites para escalar essas duas vias; ao Gustavo Silvano pelas dicas e incentivo para repetir as vias; ao Fabinho pelo apoio logístico de sempre; e ao Carioca por ter nos levado até a base da via.

Estrago da via.

Piton caseiro original da via.

Comentários

Uma resposta em “Escalando em Pancas”

Eu que agradeço mais uma vez a oportunidade, aprendizado desses segue para vida, o Pico Bier foi finalizado na raça do Japones eu teria desistido depois da segunda enfiada com certeza kkk.

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