Fogareiros

Esses dias, surgiu num grupo de “What”, uma conversa sobre fogareiros. Aquela dúvida de sempre:

Qual o melhor fogareiro para montanha? E de preferência, bom e barato?!

Não sou expert, mas leio bastante sobre o assunto para ficar atualizado e ao longo dos anos, testei vários fogareiros em diversas situações. Então me senti confiante para escrever algumas linhas. Lembrando que o foco do texto é explicar os tipos e não as marcas, embora eu sempre exemplifique com os fabricantes que usei ou uso.

A primeira coisa que precisa ser considerada é:

Qual a finalidade do fogareiro?

Basicamente você faz duas coisas com um fogareiro: esquentar algo (normalmente água) e cozinhar (cozinhar de verdade, não fazer Miojo). Sendo que, em geral, os fogareiros para esquentar água não são bons para cozinhar e vice-versa.

A segunda coisa que precisa ser dita: a maioria dos fogareiros são importados e fabricados com base nas exigências do mercado americano e/ou europeu. Ou seja, eles não são fabricados para clima tropical e sob condições de alta umidade. Para eles, as condições de queima em altitude e temperaturas extremas são importantes. Para nós, isso já não faz tanta diferença, pois moramos num país relativamente quente e sem grandes variações altimétricas.

Outra variável que muita gente usa como premissa para escolher um modelo é o tipo de combustível. Atualmente temos forrageiros que funcionam a gás (butano-propano), combustível líquido e os modelos mistos. Recentemente está na moda os fogareiro que na verdade são fogueiras, mas como eu não tenho experiência nem conhecimento, estou desconsiderando.

Preparando o almoço no refúgio de Arenales, Argentina.

Com exceção dos modelos mistos, já provei os dois e atualmente estou preferindo os modelos a gás pela praticidade, embora eles tenham algumas limitações. Dentre os modelos com combustível líquido, usei por um bom tempo o fogareiro Whisperlite Internacional da MSR que funciona com vários tipos de combustível (gasolina, benzina e diesel). Para mim, essa é a grande vantagem em relação a gás, principalmente em lugares remotos onde nem sempre é possível encontrar gás em cartucho.

Baldin e Karapeba preparando o café da manhã com um fogareiro MSR. Bloco do Arrependido, Afonso Cláudio (ES).

No entanto, nem tudo são flores, pois já tive vários problemas. Quando fui para o deserto de Atacama (Chile) (2009), tive muita dificuldade para conseguir gasolina (benzina nem pensar). O combustível (gasolina) é vendido nos postos, mas por lei é proibido vender “à granel”. Tive que insistir muito com um frentista para ele me vender “na camufla”; Em Bariloche (ARG), só consegui comprar benzina (2010), que é o combustível mais limpo para o MSR, numa loja de aviamento (!!!) porque um “local” me passou a dica; Na França, sem saber francês, foi um sufoco arrumar “essene-C” nas cidades do interior. Essence-C é benzina em francês e em inglês é white gas. Em holandês, benzine é gasolina. Viram a confusão?

Preparando uma “mistureba” com um fogareiro MSR no Frey. Bariloche, ARG.

Além disso, outra desvantagem desse fogareiro é que para manuseá-lo você precisa de prática. Uma pessoa que nunca usou, mesmo com alguém dando instruções, tem grandes chances que queimar as sobrancelhas. Outra coisa que é “estranho” nesse fogareiro é que você precisa ter um kit de manutenção. Ora bolas, imagina você comprar um carro e precisar levar junto uma caixa de ferramentas… É mais ou menos isso.

Já os fogareiros a gás são mais práticos, simples de ascender (é como ascender um fogão) e relativamente fáceis de encontrar os cartuchos. Na minha opinião, falando de Brasil, o grande problema ainda é encontrar com certa facilidade o cartucho, principalmente se estiver pelo interior do país. Lembrando que você não pode transportar cartucho como bagagem despachada no avião.

Sempre que viajo de avião, a minha principal preocupação é chegar no destino e saber onde encontrar cartucho. Por isso, costumo fazer pesquisas prévias e dependendo da situação já deixo reservado uma certa quantidade para não ter surpresas ao chegar.

Falando em cartuchos, a boa notícia é que recentemente entrou no mercado brasileiro o cartucho de 100g que é o menor de todos. Os outros tamanhos são: 230g e 450g. A vantagem desse cartucho é que normalmente entra dentro do kit, otimizando espaço.

Preparando uma janta com um fogareiro a gás no setor Macarrão, Paraná (2010).
Preparando o café da manhã com um fogareiro a gás Eta Power da Primus no Camp 4 em Yosemite.
Preparando a janta no porta-malas do carro em Monument Valley (EUA).

Já os fogareiros que funcionam tanto a gás, quanto combustível líquido, parecem ser a melhor solução, mas eu nunca provei um desses para poder dar um veredito, mas sei que a Primus e a Optimus, ambas marcas suecas, fabricam. Mesmo assim, para usar um ou outro combustível precisa fazer algumas trocas de válvulas e tal.

Voltando aquele tópico inicial sobre a finalidade do fogareiro, basicamente os fogareiros podem ser dividido em:

(1) Aquecer água e (2) cozinhar.

Quando um fogareiro prima em aquecer água, os engenheiros fazer de tudo para que a água entre em ebulição o mais rápido possível, gastando a menor quantidade de combustível (ou não). Esse tipo de capacidade é muito desejada em regiões altas e frias. Vale lembrar das aulas de física que sob baixas temperaturas e pressão, maior altitude, a água demora a ferver e ferve abaixo de 100 graus Celsius. Como no Brasil esse tipo de condição não é comum, isso acaba afetando pouco.

Outro aspecto importante que por vezes desprezamos são as panelas que usamos. O tipo de panela influencia, e muito, no tempo de fervura. Por isso, alguns fabricantes, sendo o Jetboil o mais famoso, usam panelas integradas que vem com aletas na base que ajudam a distribuir o calor, aumentando a eficiência energética. Se você pegar um fogareiro Jetboil e colocar uma panela comum, usando um adaptador, notará que o tempo de fervura será diferente, justamente pela ausência das aletas.

Preparando um café na prensa francesa em Arenales (Argentina) com um fogareiro Jetboil.

Esses fogareiros de “esquentar água”, em geral, são muito ruins para cozinhar. Principalmente se estiver preparando algo para mais de duas pessoas ou fazendo algo que precise controlar a intensidade da chama. Na verdade, é praticamente impossível fazer uma massa com molho para duas pessoas num Jetboil padrão simplesmente porque ele não foi feito para isso.

Vale lembrar que na gringa, as comidas liofilizadas são bem onipresentes. E para preparar uma massa quatro queijo com uma fatia de salmão, basta esquentar água, jogar diretamente no saquinho, esperar alguns minutos e terá um manjar dos Deuses. Por iss,o esses modelos fazem tanto sucesso lá fora. No Brasil, as comidas liofilizadas ainda não são uma realidade. Atualmente temos apenas a marca Lionutri que comercializa esse tipo de alimento.

Esquentando água para preparar uma comida liofilizada. Arenales, Argentina.

Eu não sei porquê, mas tenho uma aversão descabida em relação ao Jetboil. Talvez seja porque todo mundo usa. Ou qualquer outro motivo que desconheço. O meu fogareiro para “esquentar água” é um Primus que é quase a mesma coisa que um Jetboil, usa os mesmos princípios, esquenta rápido e tudo mais. A única vantagem em relação ao Jetboil é que a panela é um pouco menor, deixando o kit mais compacto e leve. 

Já os fogareiros para cozinhar são aqueles para uso coletivo, onde ao final de um dia na montanha, nos reunimos em volta da mesa para preparar uma janta nutritiva em grupo. Para aquela hora que cada um coloca um verdura, uma carne, uma massa e pega tudo aquilo para fazer um “mexidão” comunitário. Para esse tipo de situação, você precisa de um fogareiro que comporte uma panela maior, que tenha a possiblidade de controlar a intensidade da chama e ainda por cima que seja compacto. Nessa linha, para mim, os melhores fogareiros são aqueles mais baixos que não são montados sobre o cartucho de gás. Em geral, o queimador fica separado do gás por uma mangueira. Com isso, o centro de gravidade fica mais baixo e a panela mais estável, permitindo, por exemplo colocar uma frigideira sem correr o risco de virá-la. Nesse sentido, o fogareiro da MSR dá de dez, desde que seja o modelo que permite controlar a intensidade da chama.

Atualmente estou usando um fogareiro da Optimus (Vega) que além dessas características, permite queimar o gás na forma líquida, sem vaporizar. Para isso, basta virar o cartucho de gás de cabeça para baixo que o “gás entra liquefeito” no queimador, o que garante um booster sob condições extremas de temperatura. Ou seja, aqui no Brasil, não tem muita utilidade…

Preparando a janta em Pancas (ES) com o fogareiro da Optimus.

Antes desse modelo, usei por muito tempo um fogareiro da Primus que é fantástico para cozinhar na montanha, mas com o tempo acabou ficando velho. Ainda tentei comprar uma versão atualizada, mas não curti as novas implementações de plástico em algumas partes.

Cozinhando com um fogareiro antigo da Primus em Itarana (ES) com Pedro “Graveto”.

Já os fogareiros “normais” com queimador sobre o cartucho, sem ser tipo Jetboil, faz tempo que não uso, mas pelo que andei lendo, andou evoluído bastante e parece ser um opção interessante para quem busca equipamentos mais leves com bom custo benefício. Recentemente adquiri um modelo clássico da marca japonesa Snow Peak com esse tipo de estrutura, mas ainda está retido na Receita Federal por problema de documentação… Mais à frente farei um review.

Murilo preparando uma bisteca em Val di Melo (Itália) com um fogareiro montado sobre o cartucho.

Outro aspecto que por vezes negligenciamos quando escolhemos um fogareiro é o tipo de panela. Não é a toa que parte do excelente desempenho do Jetboil vem da panela integrada. Basicamente há 3 tipos de materiais usados nas panelas de camping: inox, alumínio e titânio. E em cada um desses ainda há variações de revestimento, sendo o Teflon o mais conhecido e a cerâmica a última moda. Embora o inox seja mais pesado que o alumínio e o titânio, gosto muito das propriedades do aço. Inclusive as panelas de casa são também em inox. A desvantagem do inox é o peso, mas em compensação ele tem uma capacidade de reter calor maior que o alumínio. Já o titânio é a última moda em termos de leveza. O titânio é um metal super leve e muito utilizado na industria aeroespacial. Naturalmente, devido a esta propriedade, qualquer material feito com esse metal tem um preço elevado. O titânio absorve o calor mais rápido e ao mesmo tempo dissipa. Por isso, é fácil de manusea-la assim que tira do fogo. Mas independente do tipo de material, já vi que as aletas, as mesmas que tem no Jetboil, fazem toda diferença em termos de homogeneizar o calor sem perdas e consequentemente com maior economia. Infelizmente esse tipo de panela é bem difícil de encontrar no mercado nacional.

Usando uma panela de inox diretamente no foto para preparar uma lentilha com truta. Bariloche, Argentina.

Outro acessório que ajuda melhorar a eficiência energética são as placas de alumínio que vão em volta do fogareiro. Esse sim é um acessório fácil de improvisar e ajuda a poupar combustível e de quebra protejer do vento.

Cozinhando com proteção de alumínio para poupar um pouco de energia. Yellowstone N. P. Foto: Paula Dariva.

Falando em acessórios, de nada adianta ter um fogareiro se não conseguir acendê-lo. Embora muitos fogareiros já venham com acendedor integrado sempre é prudente levar um isqueiro ou uma pederneira como backup. Lembrando que o isqueiro também pode falhar (acabar o gás). Já a pederneira, se não deixar molhar, vai embora! Fica a dica!

Para quem quiser mais infos sobre os fogareiros, no site Alta Montanha, tem um artigo bem legal que fala mais sobre o assunto, com enfoque em alta montanha. Vale a leitura.

Além dessas duas opões, há as espiritarias que são uma solução bem barata. Inclusive, elas são usadas pelo exercito brasileiro para preparar a ração individual. Funciona basicamente queimando álcool num pote que pode ser facilmente improvisado até com uma latinha de refrigerante. Eu não sou muito fã de usar combustível líquido solto, principalmente por causa dos perigos envolvidos. E até onde pesquisei na internet, a economia de peso acaba ficando “elas por elas”, mas acho válido saber fazer um para uma emergência. 

Bom, depois dessa, até deu uma fome, vou lá fazer alguma coisa “engordante!

Cozinhando em Krenak (MG).

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Comentários

Uma resposta

  1. iradooooooooooooooo Japa! parabéns, sempre divulgando um excelente conhecimento! by REbit

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