Frade e a Freira: abertura oficial da temporada 2017 de roubadas

^ Face norte do Frade.

Localizado na cidade de Vargem Alta, às margens da rodovia BR-101, o pico do Frade e a Freira (683m) é uma das montanhas mais icônicas e representativas do Espírito Santo. Inclusive, esta montanha é a montanha-símbolo da Associação Capixaba de Escalada – ACE.

Esboço do Frade e a Freira atribuído ao imperador Dom Pedro II durante sua passagem pela região em 1860.

A conquista do Frade e a Freira, remete ao ano de 1948. Em 1947, Silvio Mendes e CIA conquistaram a primeira via de escalada do Espírito Santo, atingindo o cume do Pico do Itabira em Cachoeiro do Itapemirim. Provavelmente do seu cume, ele avistou o Frade e à Freira e no ano seguinte resolveu voltar a Freira para lá conquistar a montanha.

Croqui da conquista da Freira.

Já o Frade, foi conquistada apenas na década de oitenta (?) por escaladores cariocas pela longa e fácil aresta sudoeste.

Devido a facilidade e visual incrível de toda a região, o Frade é bastante frequentado por escaladores, aventureiros, rapeleiros e até motoqueiros. Inclusive, a via normal de acesso ao cume é ultra-protegido com muitos grampos e o seu cume, igualmente crivado de grampos para todos os lados. Acho que nunca vi um cume com tantos grampos. Com certeza há um certo exagero. Além disso, para atingir o cume, no trecho final, na “cereja do bolo”, há além da via normal (A0/4º), uma escadaria de ferro que não oferece nenhuma segurança…

O Frade (esq.) e a Freira (dir.). Visão clássica da BR-101. Foto: Paula Dariva.

Se de um lado o Frade está no main-street dos aventureiros, a Freira, por sorte, ficou protegida, em parte, dos aventureiros. Por ser uma escalada que demanda tempo, logística e muito sofrimento, não é uma escalada muito apreciada, por isso mesmo, há poucas repetições.

A Freira. A via transcorre pela chaminé do meio.

E foi exatamente nessa montanha que Eric e eu resolvemos nos aventurar no último domingo com o objetivo de pisar no cume do “Frade” e da “Freira” no mesmo dia em uma única investida.

O Frade

Saímos de Vitória pontualmente às 5h da manhã de domingo rumo à pedra. No trecho final, o GPS nos enganou e tivemos um pequeno contratempo, mas nada que uma pequena voltinha a mais não pudesse resolver.

Por volta das 7h 30 da manhã chegamos no estacionamento onde inicia a pequena caminhada de aproximação até o costão e que leva ao cume do Frade. Mesmo a essa hora da manhã, o sol já estava bastante castigante e aliado ao fato de não ter um único sopro de vento, deixava a situação ainda mais angustiante. E para deixar tudo mais dramático eu estava me sentindo um pouco mal devido a um resfriado…

Sabíamos que seria um dia bem sofrido, mas esperávamos que o sofrimento começasse mais tarde e não desde o início. O ideal seria levar mais água, mas já estávamos com equipamento demais e as mochilas estavam pesadas o suficiente para atrapalhar a performance, por isso cada um de nós levou aproximadamente 2L de água para uma jornada de 10 horas.

Iniciamos a subida do costão do Frade sob um sol matutino incomodante. Para ganhar tempo solamos todo o costão (IIIo) até a cereja do bolo, onde nos encordamos em francesa para ferrata final que leva ao cume do Frade. Chegamos no cume do Frade  às 9 horas, após 50 min de caminhada e escalada. Embora tenha sido uma caminhada bem fácil, cume é cume! Comemorarmos a primeira conquista do dia e logo partimos para o segundo cume.

Início da jornada e o sol já castigando…

Eric na ferrada da cereja do bolo do Frade.

Do cume, rapelamos a cereja do bolo pela face norte e depois fizemos 2 longos rapeis de 70m até o colo que separa as duas montanhas.

Se tem uma coisa que me causa angustia é ter que sair rapelando por uma linha de rapel sem retorno, por fora de qualquer via, e sem chance de volta em caso de imprevisto. Quando terminamos de puxar a corda, sabíamos que estávamos entrando num caminho sem volta e que sair dali seria muito trabalhoso.

Primeiro rapel de 70m cravado para descer do Frade até o colo.

Da base do Frade até a Freira há um pequeno colo com mato de uns 100m crivado de espinhos até os dentes. Essa travessia é bastante famosa devido aos espinhos, então, já de antemão, resolvi levar um facão para tentar, em vão, minimizar as espetadas. Mesmo com o facão não conseguimos evitar os espinhos e a essa altura do dia, o sol estava cada vez mais castigante. Manusear o facão em meio aos espinhos, naquele calor foi de matar.

A Freira

Chegamos na base da Freira (9h40) já com as energias na reserva. Por sorte, a base da via fica voltada para face sul, com sombra em boa parte do dia.

A ideia inicial era escalar a Freira pela via original conquistada em 1948, mas logo que chegamos na base da via não achamos os famosos grampões pé-de-galinha. Ficamos na dúvida quanto a possibilidade de fazer usando apenas os móveis que tínhamos, então resolvemos escalar pela variante Graciliano Ramos conquistada por escaladores da UNICERJ em 1994. Essa variante é um paliteiro de grampos (A1) que contorna a chaminé pelo lado direito até juntar novamente com a via original no final da chaminé principal. Toquei o primeiro trecho em A0 até acabarem as 10 costuras que nós tínhamos levados. Logo em seguida o Eric assumiu a ponta da corda e tocou o resto do artificial até a P1 da via, já quase no final da chaminé.

Eric no paliteiro que atalha parte da chaminé. Vide croqui no final do post.

Nesse ponto, a via original e a variante se juntam e seguem por uma única linha até o cume. Assumi a ponta novamente e fui me espremendo pelo restinho da chaminé suja e lisa. Neste ponto, finalmente achamos o único grampo original, das 14, da conquista que ainda resistiu ao tempo. Fiquei olhando para aquele grampo de ½ polegada todo enferrujada e ficava imaginando os conquistadores passado por aquela chaminé horrenda com corda de sinal e cunha de madeira… Respeito máximo!

Único grampo original de 1948. Só tem que estar com o anti-tetânico em dia para usa-lo!

Após o grampo original costurei um grampo não-original que foi batido posteriormente. Ficou difícil saber se os conquistadores usaram apenas aquele grampo que sobrou ou se havia outros grampos que acabaram caindo com o tempo.

Assim que costurei o grampo novo, acabei deslocando um bloco de pedra do tamanho de uma bola de basquete com o pé e ele saiu picando por dentro da chaminé em direção ao Eric que estava na minha segurança. Como a pedra saiu picando pela parede da pedra, ficou praticamente indefensável e o coitado só teve tempo de colocar a mão na frente para se proteger. Passado o momento de tensão, ficamos avaliando a situação. A palma da mão do Eric ficou bastante inchada e com alguns cortes. Mais alguns minutos para adrenalina baixar e resolvemos continuar a escalada. Segui a escalada redobrando a atenção para não jogar mais nada para baixo até chegar num ponto onde não conseguia mais escalar devido ao atrito da corda. Fiz uma parada mandraque e chamei o Eric até um pequeno platô.

Assim que o Eric chegou no platô ficou claro que a mão dele tinha machucado com a pancada e que guiar a próxima enfiada poderia ser demorado e desgastante. Decidimos que eu pegaria essa enfiada e parti com apenas uma meta em mente: parar apenas quando chegasse no cume. Estiquei uns 65m de corda sob um sol escaldante do meio-dia e um arraste de sair lágrima, mas só parei quando não tinha mais nenhuma pedra para subir! Cume!!!

Esperei o Eric chegar no cume e fomos direto nos refugiar na sombra do único boulder que tem no cume (14h20). Não bebemos água no cume porque não tínhamos mais (eu levei 0,5L para cima) e o não comi nada também porque não tinha nada para comer…

Cume!!! Ao fundo o Frade com 683m de altitude.

Tiramos uma foto no cume e logo começamos a longa descida. Sabíamos que, dessa vez, nós não estávamos nem na metade do caminho. Pois além da descida da Freira até o colo tinha mais um trecho de descida por terreno totalmente desconhecido.

As repetições anteriores desceram, após o colo, pela face oeste, numa sucessão de rapeis em árvore até a base da montanha para depois dar uma grande volta até o estacionamento. Por ser um retorno muito desgastante, havia uma teoria de que a melhor opção seria voltar ao cume do Frade pelas cordas fixas (140m), mas nós não deixamos nenhuma corda fixa então essa não era uma opção.

Durante os preparativos, pensando nesse crux, vi que havia a possibilidade de descer pela face leste até chegar num pasto. A alternativa parecia ser bastante interessante, então arriscamos as nossas fichas nessa empreitada.

Visão panorâmica do cume da Freira com o Frade à esquerda e bem na direita ao fundo, o Pico do Itabira.

A descida

Após 3 rapeis chegamos novamente no colo (16h20), onde catamos o resto das coisas e fomos em direção ao rampão leste para tentar descer por um caminho mais curto. Caminhamos entre os espinho o máximo que conseguimos até chegar na borda do colo, onde batemos, na mão, uma chapa de inox simples. Dali descemos em diagonal à esquerda uns 50m até chegar num platô em forma de buraco, onde batemos uma segunda chapa simples (inox). Dali, foram mais 35m de rapel até a base, onde o costão ficou mais suave e pudemos descer o resto caminhando. Entramos novamente na mata e mais uma vez enfrentamos um mato cheio de espinhos. Aqueles espinhos estavam por todos os lados testando a nossa tenacidade. Saímos do mato sujo, entramos na mata limpa e quase que por um encanto, encontramos um pasto limpo! Nossa, nunca me senti tão feliz em ver um pasto, pois sabíamos que estávamos salvos! Caminhamos, ou rastejamos, mais uns 15 minutos pelo pasto e finalmente chegamos na Pousada Chalé do Frade, sob a luz dos últimos raios de sol (18h), onde pudemos beber uma das melhores jarras de suco da minha vida! Inesquecível!

A sombra da montanha ao entardecer. Ao fundo, o mar.

Como estávamos muito cansados, negociamos uma carona com a proprietária da pousada, a Valquíria, para que nos levasse de carro até o estacionamento para que pudesse pegar o carro.

Confesso que a volta para casa não foi fácil, mas graças à Deus as estradas do Espírito Santo são sinuosas demais para conseguir dormir ao volante. O coitado do Eric tentava puxar qualquer tipo de assunto para tentar me manter acordado, mas devido ao cansaço, as nossas conversas não rendiam.

– Cara, viu que saiu um novo filme no cinema?

– Sério? Que massa!

– Sim!

Cri, cri, cri…

Foi até engraçado de ver…

Agradecimento também ao Baldin que doou parte do seu precioso tempo dedicado a redigir o Guia de Escalada do Espírito Santo para passar betas preciosos sobre a via da Freira e ao Eric por mais uma roubada clássica! Teremos boas histórias para o futuro!

 

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Comentários

5 respostas

  1. hahahaha essas lembranças me fazer rir e chorar ao mesmo tempo, que aventura!
    O programa já seria desgastante, e pra piorar ainda levamos o “lastro” de um jogo de móveis completo, sem utilizar nenhum! kkkkk Que castigo…
    Valeu demais Naoki! Essa foi inesquecível!

  2. Gabriel, a via está com a face voltada para Sul com sombra no verão, mas o ideal é ir no inverno porque fora da via, o sol pega com força. Nós fomos no verão e sofremos com o calor.

  3. Fala Naoki, sabe dizer uma epoca boa para ir, que seja fora de temporada de chuva?

  4. Fala ae Daniel, depois da chuva, o problema é o sol. Na escalada, você ainda fica na sombra, mas no mais o sol castiga. Sempre recomendo ir no inverno, pois chove menos e a temperatura é mais amena.

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