Frey 2022

Intro

Entre os dias 4 e 15 de janeiro, Eric e eu passamos alguns dias escalando na região de Cerro Catedral em San Carlos de Bariloche, Argentina. Segue abaixo a compilação do “diário de bordo” (editado posteriormente com infos e betas adicionais).

Dia 10/01 – Frey

São 21h37 e lá fora o Sol ainda nem se pôs atrás das montanhas. Passar o verão nas altas latitudes tem suas vantagens. Mesmo assim, já nos retiramos na barraca porque, lá fora, o frio e o vento estão um pouco desagradáveis para os padrões Capixabas. Já estamos na área do Refúgio Frey desde a quarta-feira (5/1) quando subimos de Bariloche pela trilha do “Filo” via teleférico (5km de caminhada).

Entardecer na cadeia de montanhas do Cerro Catedral.

Estive no Frey pela primeira vez em 2009 com o Rodrigo, quando vim passar uns dias na região, incluindo um pulo até Piedra Parada, em Esquel. Naquela ocasião subimos bem leve pela trilha normal e escalamos na Agulha Frey e Principal.

Naturalmente dois dias no Frey não foram suficientes para saborear as infinitas agulhas de granito, por isso voltar aqui sempre esteve nos planos. Foi preciso o mundo entrar num caos e o Eric lançar a “semente” no início de novembro para o plano se materializar.

Vir para cá não foi fácil, muito menos barato. Mesmo a Argentina e o Brasil fazendo parte do Mercosul, onde teoricamente as burocracias eram para ser nulas, por causa da pandemia, foi preciso juntar muitos papéis para entrar aqui (documentos, PCR, declaração juramentada, seguro saúde…). Além disso, de uns anos para cá, para ficar na área do Refúgio Frey é preciso realizar uma reserva, onde é permitido ficar no máximo 5 dias. E essa reserva abre apenas três dias antes da estadia. Ou seja, mesmo com todos os documentos em mãos e a passagem comprada corríamos o risco de ficar sem lugar no camping. Por isso, às 00h00 do dia 3 lá estava eu na internet para conseguir a ficha 01 e garantir a reserva.

Na primeira vinda, em 2009, subimos pela trilha normal e descemos pelo “Filo”. Dessa vez achamos que a subida pelo “Filo” seria uma boa ideia, pois o teleférico (Amancay) nos joga a 1700m de altitude em menos de 20 minutos.

O teleférico nos deixou no alto da montanha, depois foi só fazer a travessia e descer. Além disso, pelo Filo são “só” 5km (3h) de caminhada, enquanto que pela normal, quase o dobro. Como estávamos pesados, subimos com a ideia de ficar 10 dias, optamos por essa estratégia por parecer a mais sensata. Para baixo todo Santo ajuda.

Caminhada pelo Filo. Pelo menos a paisagem é estonteante.

No fim conclui que pelo Filo foi pior porque a trilha é muito pedregosa com vários trechos bem técnicos. Mesmo com bastão de caminhada, não foi fácil carregar as nossas mochilas com uns 30kg cada. Isso sem contar o custo do teleférico, uns U$25,00 por pessoa.

Início da “Picada de Filo”.

Como a inflação na Argentina é muito alta (5o% ao ano em 2021), vou  dolalizar tudo no post. Em janeiro de 2022, o dólar está valendo R$5,50 em média e R$1,00 valendo uns $0,55 de peso argentino. Lembrando que essa é a cotação oficial.

Após 3h de caminhada chegamos destruídos no Refúgio. Meus ombros doíam e as pernas reclamavam do peso. Aliado a isso, havia ainda o cansaço acumulado dos últimos dias de trabalho antes das férias e a longa viagem de Vitória até Bariloche.

Chegada no Refúgio Frey pelo Filo.
Refúgio Frey!

Mesmo vindo de avião, levamos, entre voos e conexões, mais de 24h para chegar até Bariloche. Saímos às 5h de terça-feira e chegamos às 8h30 de quarta-feira com direito a 12 horas de conexão em Guarulhos e uma noite no chão do Aeroporto de Buenas Aires.

Em Bariloche, o Rodrigo fez toda mão para nós, o que foi uma grande ajuda, pois tivemos que fazer câmbio, comprar gás e mantimentos na cidade. No mesmo dia, por volta das 15h, ele nos deixou no início do teleférico Amancay para fazer a caminhada até o Refugio.

Rodrigo nos ajudando na logística.

No primeiro dia de escalada no Frey fizemos o que 90% das pessoas fazem: Sifuentes Weber + Montis (VI) e Diedro/Fissura de Jim (V SUP) na Agulha Frey. Eu já tinha feito essa combinação, mas para o Eric era tudo novidade então refiz essas escaladas para fazer uma aclimação e relembrar um pouco o estilo de escalada local. 

Eric no último “largo” da Sifuente, já pela variante.
Aquela fenda frontal famosa da Fissura de Jim.

Mesmo a Sifuentes sendo graduada em 5+ francês o que daria um V Sup a VI brasileiro diria que ela está mais para VI. Talvez não seja a melhor via para começar, mas é um bom choque de realidade para saber onde está se metendo e saber se colocar logo no seu devido lugar.

Como a nossa ideia é ficar 10 dias direto aqui encima, optamos por fazer todas as refeições dos primeiros 5 dias no refugio, assim conseguimos poupar bastante peso na subida. A nossa ideia é, após expirar o tempo máximo de permanência no camping, passar para o Vale do Campanile até o fim da viagem, porque lá não há restrição e muito menos estrutura. Para essa segunda etapa trouxemos bastante refeições liofilizadas que são bem nutritivas e leves.

Comer no refugio não é barato. Uma café da manhã completo (café, pão com manteiga e geleias) sai a U$ 5,00. Uma refeição completa que inclui uma sopa, um caldo de lentilha e sobremesa custa o dobro, U$10,00. Outro problema de comer sempre no refugio é que o cardápio é o mesmo todos os dias. Confesso que já estou um pouco enjoado. Pelo menos a sopa de lentilha é muito boa.

Caldo de lentilha com outras verduras. Foto: Eric Penedo.
Parece um quadro, mas é a vista da janela do refúgio para Agulha Frey.

No segundo dia de escalada fomos escalar a via “Ñaca Ñaca Crunch Crunch” na Agulha Abuelo (5+). Essa agulha fica relativamente perto do Refúgio e sem muito ganho de elevação. É uma escalada bem tranquila, mais que a Sifuentes. Lembrou um pouco o estilo de escalada de Arenales. Via de uns 200m sem proteção fixa, cume bonito e rapel de 30m por trás. Para mim, essa deveria ser a primeira via de todos, antes mesmo da Sifuentes. Talvez o único problema seja a navegação, principalmente se a pessoa não estiver muito familiarizada com esse tipo de terreno, mesmo assim não tem muito erro porque a via transcorre pela aresta oeste em sua grande totalidade.

Eric na última enfiada da via pela variante.
No cume da Agulha Abuelo. Foto: Eric Penedo.

O legal dessa escalada é que o rapel te deixa na cara da Agulha M2, outra agulha clássica do Frey. Ali fizemos a via El Diedro (VI). É um 5+, mas está mais para VI do que um V Sup. A via é bem curta, uns 30m e o cume menor ainda.

Por causa dessa dobradinha, essa foi a única via que escalamos de mochila. Nas outras vias, sempre subíamos leves, sem mochila nem botas. Levávamos uma água para dois, um gel de malto, lanterna e um corta-vento para cada.

A depender da tabela de conversão, um 5+ francês equivale a um V SUP ou VI brasileiro. A conversão não é equivalente. É a mesma coisa  para o 5.9 americano que também tem uma amplitude maior, podendo variar de um V SUP até um VI e a depender chegar até um VI SUP.

Após dois dias de escalada o nosso plano era descansar no terceiro dia. Lá pelas 22h, enquanto vagávamos pela área do camping para fazer umas fotos, ouvimos algumas pessoas falando em português e logo descobrimos que eram os gaúchos (Leandro, Nina, Espumoso e o Francês) que estavam em Piedra e deram uma esticada até aqui. Como eles tinham subido nesse dia, tinham um prognóstico mais atualizado do tempo e falaram que o tempo iria mudar em dois dias, sem muita precipitação, mas com aumento do vento. 

Como a próxima escalada seria na Agulha Principal pela via Clemensó (VI) achamos que não seria uma boa subir naquelas condições, então resolvemos mudar os planos e subir no dia seguinte, deixando o descanso para o terceiro dia.

Além dos gaúchos, encontramos de brasileiros Luan, Fabinho e Romeo que vieram de carro e estavam de passagem por aqui rumo ao sul. Deram umas escaladas, baixaram, subiram, escalaram e já desceram novamente! Haja perna!

Luan, Eric, Fabinho, eu e Romeo.

No terceiro dia acordamos às 6h e às 7h iniciamos a caminhada contornando a laguna Tonsek. Fizemos duas paradas rápidas e em 1h40 chegamos na base da via Clemensó, onde tem uma homenagem ao escalador que faleceu na via.

Amanhecer na montanha.
Base da via Clemensó.
Face leste da Agulha Principal. Foto: Eric.

Por volta das 9h iniciamos a escalada. Como estamos escalando de corda dupla de 60m aproveitamos ao máximo essa vantagem e logo esticamos duas enfiadas de 50m para ganhar tempo. Na travessia à esquerda tivemos que fazer duas enfiadas curtas para quebrar o atrito e passamos a enfiadas crux por fora da chaminé. Aqui vale deixar o beta e dizer que é bem melhor seguir pela direita da chaminé. Assim que chegar no início da chaminé há uma fenda horizontal que leva à direita até uma fenda frontal de mão que vira uma fissura de dedo (e unha) no final. A chaminé é bem exposta e parece que teve gente que andou se machucando ali. Já no trecho do “artificial da conquista”, próxima enfiada, tivemos um pouco de dificuldade para entender o croqui e acabamos fazendo um contorno errado pela esquerda que acabou nos levando de volta ao artificial.

No guia oficial está escrito que o trecho em artificial pode ser passado pela esquerda. Dando a entender que há outra pesagem, mas na verdade você vai protegendo na fenda do artificial (fenda de mão) com os pés numa aresta afiada para depois ganhar o lance dos pitons até chegar no grande platô da travessia à direita onde a via se encontra com a via Normal.

Enfiada crux da via por fora da chaminé.
Escalando sob a benção dos Condores.

Ali acabamos encontrando “trânsito” e tivemos que esperar um pouco para fazer o cume. Eu acho que sem trânsito teríamos feito a escalada em 4h, mas com uma espera de quase 1h acabamos chegando no cume às 14h após 5h de escalada. 

Escaladora local descendo pela Normal. Momento de trânsito na via. Ao fundo o Vulcão Tronador.
No cume da Principal. Foto: Eric Penedo.

Como o dia estava muito quente, depois que chegamos da escalada ainda conseguimos tomar uma banho no lago. Primeiro banho desde a saída do Brasil!

No dia seguinte, hoje, tiramos o dia para descansar. De fato a chuva não se confirmou, mas o vento ganhou força e a temperatura diminui significativamente. Passamos o dia conversando com a galera e a tarde ainda fomos tirar uma “ciesta” depois de comer um hambúrguer e uma pizza na colada!

Estudando os projetos.
Eric botando a leitura em dia.
Nosso acampamento.

Parte 2 – Bivaque no Campanile, dia 13/01

Com certo esforço lembro que hoje é 5a feira. Amanhã passaremos o dia em Bariloche preparado o retorno ao sistema. Para adiantar a volta descemos até o entroncamento da trilha do Frey com a do Campanile. Achamos um bivaque embaixo de um bloco de granito a uns 50m da trilha do Frey em meio a um exuberante bosque de árvores grandes com muitas orquídeas amarelas que dão um constraste ao verde das plantas. O som do riacho ao lado que viemos margeando praticamente desde a nascente quebra o silêncio da tarde. Comemos a última refeição liofilizada e tratamos de dar fim ao resto das comidas que sobraram. 

Último bivaque.
Bosque .
Mar de orquídeas.

Depois do dia de descanso no Frey, entramos numa clássica local: Lost Finger (VI SUP). Como a via já é mais dura, escalamos em “bloco”. O Eric pegou as duas primeiras e eu as duas últimas. Embora a via seja relativamente curta, é muito boa com bons trechos de entalamento. O crux é um pouco atlético, mas bem protegido.

Eric na 2a enfiada da via Lost Finger.

Depois que descemos da via fizemos um lanche no refugio, desarmamos as barracas e partimos para o Vale do Campanile.

Porteio para o Vale do Campanille.

Por regra, você não pode ficar mais do que cinco dias acampado no Frey. Até onde vimos, parece que o controle é fraco, mas achamos por bem seguir as regras, afinal de contas, estamos de visitante por aqui e a fama dos “brasas” também não é das melhores.

Acabamos montando o nosso bivaque na área do Cara Banana. Em geral, o pessoal acampa no Platô Superior ou no fundo do vale. Nós acabamos ficando no meio termo num pequeno descampado, ao lado do rio que desce do Platô Superior. Sem dúvida  foi um dos lugares mais incríveis que já acampei.

Nosso bivaque.

No dia seguinte, partimos para o Campanille para escalar a via Bush Goin (V SUP). Do bivaque até a base da via foram mais 1h de caminhada. O tempo estava perfeito como nos outros dias. Céu azul de Brigadeiro. Tinha um pouco de vento que poderia complicar o rapel, mas era em rajadas, fácil de contornar. Bastou ter um pouco de paciência e esperar o intervalo certo para puxar a corda.

A escalada foi incrível. As duas primeiras enfiadas são muito boas. Depois, a via junta na Normal e segue até o cume sem grandes problemas. A descida foi relativamente fácil, a corda prendeu no primeiro rapel, mas conseguimos recuperá-las depois de uma rescalada. Não foi culpa do vento.

Aproximação! Foto: Eric Penedo.
Agulha Campanille Esloveno.
Cume!

No dia seguinte entramos num outro clássico da região: Objetivo Luna (VI SUP)!

El Cohete Lunar e Cara Banana.

Como estávamos no lado da pedra, a aproximação foi a mais tranquila de todas. Em 15 minutos estávamos na base para encarar os quase 300m de escalada, a maior da viagem. Mais uma vez escalamos em bloco, cada um pegando 2 enfiadas. Comecei abrindo as duas primeiras, depois o Eric pegou um par e finalizei pegando as últimas duas. Como estávamos no terceiro dia de escalada e o Sol nos castigando, sofremos um pouco na via. Além disso, todas as enfiadas são 6a (Francês) ou mais. O 5+ estava mais para 6a…

Essa via foi conquistada pelo famoso escalador Suíço chamado Michel Piola, juntamente com Gerard Hopfgartner no início da década de noventa, revolucionando o estilo de escalada na região com a introdução da furadeira a bateria. A via é em mista, intercalando móveis com peças em algumas enfiadas e em outras toda protegida com chapas.

Dica: o olhal de algumas dessas chapas são minúsculas, nem todas as nossas costuras passavam pelo olhal.

A linha da via é magnífica, a visão dos conquistadores foi impressionante. O Eric achou que foi a melhor via dele. Ever! Pessoalmente, confesso que achei um pouco estranho. Depois de escalar várias vias em móvel, onde as únicas proteções fixas eram os pitons velhos, ver chapeletas foi no mínimo estranho. Às vezes pareciam que as chapas eram desnecessárias, mas se não tivessem, também não saberia se eu seria capaz de passar os lances. Imagino que na época da conquista deva ter gerado alguma discussão. No guia, Garibotti fala por cima sobre a chegada das chapeletas e a revolução da escalada no Frey. Às vezes acho que tem uns exageros no Frey como um todo. Linhas modernas que quase ninguém escalam passando muito perto das clássicas dão a impressão de que a montanha virou um campo-escola. Ver tudo isso foi um bom aprendizado para levar as boas práticas ao Brasil no intuito de buscar o equilíbrio na montanha.

No cume da Cochete Lunar.
Cume!

No terceiro dia na área do Campanile resolvemos abrir uma via nova! Sem chapas, claro. Essa região tem um potencial incrível para vias móveis e é inevitável pensar em não abrir uma via. São infinitas possibilidades, basta ver com um olhar mais acurado que sempre tem uma fenda interessante.

Como estávamos sem material de conquista e estávamos no quarto dia de escalada, não poderia nos lançar em um projeto ousado. Também não poderíamos deixar a via pela metade porque era o nosso último dia na região. 

Tínhamos namorado duas paredes no dia anterior quando surgiu a ideia. No fim acabamos optando pela face sudoeste da Cara Banana, numa diedro que inicia na cabeça de um leque aluvial e seguindo até o “destrepe” da parede.

Assim que chegamos na base da parede, vimos que o sistema de fenda frontal era mais promissora do que o diedro na primeira parte. Assim comecei a conquista pela fissura até um platô.

Um fato interessante de conquistar uma via foi a questão da qualidade da rocha. Uma coisa é repetir uma via da década de 50 que foi repetida ano após ano, onde o que era para ter caído meio que já foi. Outras coisa é se lançar numa parede virgem por onde ninguém passou antes. É um tipo de medo diferente.

Fechei a 1a enfiada após conquistar uns 30m de fenda numa parada móvel. O Eric subiu limpando a via (literalmente), conquistou uma pequena travessia à direita que nos levou de volta ao diedro original e conquistou mais uns 40m até chegar no “destrepe” para finalizar a nossa primeira conquista internacional.

O diedro final se mostrou bem fácil. A rocha não é compacta, mas bem sólida para escalar e proteger. A via está longe de ser um clássico, mas ficou bem interessante. Se fosse lá no Espírito Santo diria que seria um clássico, mas aqui tem coisas melhores. Batizamos a via de “Queso con Salame” (V), nosso café da manhã e aperitivo diário!

Eric no crux da 1a enfiada.
Queso con Salame!
Croqui da via.

Durante a descida, o Eric jogou a última semente do mal e resolvemos subir um dos milhares de dedos que tem na região. É difícil saber se é um cume virgem, pelo menos no guia não consta nada, nem na revisão. Escalamos o dedinho por uma chaminé em móvel e fomos até o cume. Não vimos vestígio de passagem humana. Desci e o Eric subiu também. Para descer lançamos um bico de pedra e fizemos a recuperação da fita, deixando a pedra sem vestígios de nossa passagem. Provavelmente se alguém já subiu um dia foi pelo mesmo lugar e desceu usando a mesma técnica.

Escalando o dedinho no Cara Banana.

Voltamos para o acampamento, almoçamos, desmontamos o bivaque e iniciamos a descida pelo Vale do Campanile para adiantar o trabalho do dia seguinte. Além disso, tínhamos algumas dúvidas sobre a trilha, por isso resolvemos adiantar essa questão.

Dito e feito, nos perdemos na trilha e num dado momento tivemos que varar mato… Quem já andou por aqui sabe o que é varar esse mato. Com cargueira nas costas então… Foi de chorar…

Baixando!

Interessante o contraste que tem cada vale. No lado do Frey, há mais gente, até demais para o meu gosto; Muita gente caminhando, subindo para banhar nos lagos e escalar. Já no lado do Campanile, um deserto. Em quatro dias vimos apenas uma dupla que escalou a Objetivo Luna e mais ninguém. Foi um excelente isolamento para volta, pois antes de embarcar para o Brasil precisaremos fazer mais um teste para Covid.

Bariloche, dia 14/1

Chegamos em Bariloche, entramos na matrix novamente. Enquanto aguardo a nossa primeira refeição num restaurante depois de 4 dias de comida liofilizada esboço a parte final do relato.

De volta a civilização!

Dica de restaurante em Bariloche: nem tudo foram comidas liofilizadas! Antes e depois da nossa estada nas montanhas nos deleitamos com a gastronomia local. Provamos três restaurantes: La Fonda Del Tio foi um lugar que já tinha ido em 2009. É um restaurante tradicional e bastante frequentado também pelos moradores da região. Excelente lugar para comer uma milanesa a um preço justo. Na volta almoçamos no Alto El Fuego, restaurante descolado que serve vários cortes de carne. Comida na medida certa com um staff muito prestativo. É difícil falar do lugar porque foi a nossa primeira refeição pós montanha, mas estava incrível, a melhor de todas! A noite fomos no El Boliche de Alberto, casa de parilla tradicional de Bariloche. A decoração é bem tradicional, meio nostálgico. A carne é muito boa e os pratos muito bem servidos. 

Nunca gostei muito dessas “reentradas à Terra” depois de dias na montanha, principalmente quando volto de uma montanha remota onde ficamos dias sem notícias do mundo exterior. Nessa viagem tínhamos apenas um Spot para mandar sinal de vida para casa. Quando fizemos os cumes da Principal e do Campanille ainda conseguimos um sinal de telefone e conseguimos ligar para casa, tirando isso, zero notícias.

Assim que fizemos a caminhada final de 6km do segundo dia até o estacionamento do Cerro Catedral, na altura do km 5, consegui um sinal e logo fiquei sabendo sobre a notícia do Fluber. Notícia ruim voa… 

Caminhada final.

Conheci o Fluber em 2001 na minha primeira trip ao Cipó, que ironia. Depois, em 2006, quando fui morar no Rio, sempre falava com ele na academia “Limite Vertical” onde ele dava aula. E mais recentemente, morando no Rio Grande do Sul, sempre trocávamos ideias pelo WhatsApp para ficar decotando as vias…

Nessas horas lembro o quão importante é viver a vida com intensidade máxima. A gente sempre espera viver muito, mas Deus não tem muito compromisso com isso. Valeu por tudo Fluber!

Cerro Catedral visto do céu!

Por fim, gostaria de agradecer imensamente o Eric por ter estendido esse convite. Foram 8 dias na montanha, um dia de descanso, 8 vias repetidas e uma (ou duas) conquista. Com certeza vivemos a vida na intensidade das montanhas. Compartilhamos alegrias, medos e angústias. E no fim, deu tudo certo, regressamos sãos e salvos, o que foi mais importante do que qualquer cume.

Fim da aventura!

Agradeço também ao Rodrigo e Moni que nos ajudaram em Bariloche fazendo toda mão antes e depois da nossa jornada. Pena que a pandemia não deixou dar um abraço forte, mas fica para próxima.

Lembranças também aos Brasas que encontramos no Frey nesses dias. Vi pelas redes sociais que fizeram a Principal num dia duro com muito vento.

Algumas dicas:

  • Rack: Dois jogos de Camalot’s do #.4 ao #3. Levamos ainda um #4 e um #5, mas teve pouca participação. Se não tivesse não faria diferença.
  • Micros: levamos ainda Totens equivalentes ao BD #.1 ao #.3. Essas peças foram muito úteis, o #.3 fez bastante sucesso.
  • Nuts: levamos um jogo de offset DMM e completamos com nuts normais da DMM e foram providenciais. Os nuts ficam melhores do que os friends.
  • Corda: em geral, tem como escalar com apenas 1 corda de 60m, mas optamos por levar uma corda dupla de 60m, o que permitiu gerenciar bem o atrito, pois várias vias possuem enfiadas longas com vários zigue-zagues. Para o rapel sempre fazíamos rapéis curtos de 30m com uma corda e deixávamos a segunda corda de backup. Em apenas uma ocasião a nossa corda prendeu no rapel.
  • Costuras: levamos 9 costuras alpinas e foram bem úteis
  • Sobre comprar equipos na Argentina: Leve todo equipo do Brasil, em Bariloche as lojas são muito fracas e os preços proibitivos. 

Alimentação 

Dividimos a alimentação em duas partes: área Frey e Campanile. No Frey comemos a comida do Refúgio, incluindo o café da manhã. Durante a escalada comíamos mix de nozes e gel energético.

Como a água da montanha é desmineralizada levamos umas pastilhas de repositor eletrólito.

Na segunda parte, no Campanile, comemos comida liofilizada que levamos do Brasil. Para o café da manhã, levamos pães, queijo e salame, além de algumas porcarias.

Para suplementação levamos sachês de suplementos que vem com um mix de proteínas, vitaminas e minerais. E por fim, ingeríamos algumas cápsulas des vitaminas para manter a imunidade.

Muita gente também costuma subir, ficar uns dias e descer para buscar mais comida, mas isso iria nos custar 20km de caminhada mais (ou menos) um dia de escalada.

Nos próximos dias irei trabalhar nos arquivos em vídeos para fazer o filme da trip. Aguardem!

Comentários

4 respostas em “Frey 2022”

Daleeee japa!
Muito obrigado pela parceria, essa viagem foi muito proveitosa! Que sorte demos com o tempo!
Primeira via fora do Braselll, que luxo!
Qual será a próxima?

Esse lugar eh mto legal, seja p escalar ou apenas p caminhar. Anota na tua lista! Abs

Eh noix! Vlw d+ por revezar a ponta da corda! Que venha outras trips assim!

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