Mais uma gema da escalada capixaba

Acho que quase todos os posts começam com “mais uma incrível via” ou “uma das melhores vias do estado” ou qualquer tipo de adjetivo superlativo absoluto mega master! Mas porque é verdade… A cada nova conquista me surpreendo mais com o potencial das montanhas do Espírito Santo. E neste final de semana não foi muito diferente.

Há duas semanas, eu e o Pedro “Graveto” demos início à conquista da via “Vivendo o Sonho”, uma via que dispensa adjetivos, o nome da via diz tudo. Na ocasião, por falta de tempo e esgotamento físico, baixamos da pedra faltando “só” uns 100m de parede até o cume.

No último final de semana, dessa vez sem o “Graveto”, que está se dedicando aos estudos (bom garoto), voltamos, eu, Gillan e o Eric para finalizar essa conquista dos sonhos, na Parede dos Sonho, em Itarana.

O Eric é um cara novo na escalada que está a pouco tempo no “ramo da vertical”. Aqui no Espírito Santo é comum os escaladores novos terem um “pai”, uma pessoa que adota e passa adiante os ensinamentos. Por isso é comum falar que o fulano de tal é filho de sicrano. E neste caso, o Eric é filho do Zé Márcio. Foi com ele que o Eric aprendeu a escalar e está indo muito bem obrigado. Mas agora estava na hora dele sair um pouco da proteção do pai e alçar voo em novas roubadas. E nada melhor do que participar de uma conquista para sentir o peso da mochila.

No sábado, iniciamos o dia repetindo as 4 primeiras enfiadas da “Vivendo o Sonho”. Dois iam escalando enquanto o terceiro ia jumareando, carregando o famoso haulbag branco com todas as tralhas mais a água. Repetimos todas as enfiadas e ainda conseguimos liberar a 4a enfiada que inicialmente foi conquistada em A0.

Aproximação! A aventura começa antes mesmo da escalada começar!
Aproximação! A aventura começa antes mesmo da escalada começar!

A partir da 4a enfiada, seguimos a conquista por uma linda fissura de dedo até ganhar um confortável platô após quase 50m de escalada. Dali para cima, o cume estava muito perto. Bastou fazer uma pequena dominada para ganhar uma crista e juntar novamente com a via “Xixi na Cama” para ganhar o cume já com os últimos raios de luz..

Eric na 1a enfiada da via "Vivendo o Sonho".
Eric na 1a enfiada da via “Vivendo o Sonho”.
Gillan na 3a enfiada da via.
Gillan na 3a enfiada da via.
Eric limpando a aérea 3a enfiada.
Eric limpando a aérea 3a enfiada.
Também conhecido como o crux da enfiada!
Também conhecido como o crux da enfiada!
Guilan na travessia final da 4a enfiada.
Gillan na travessia final da 4a enfiada.
Para o aprendiz, o haulbag branco e um par de jumar.
Para o aprendiz, o haulbag branco e um par de jumar.
Quase nos final. 5a enfiada da via.
Quase nos final. 5a enfiada da via.

Chegar no cume é incrível, mesmo sendo um cume “requentado” e melhor ainda se for no final do dia para curtir um por do sol para coroar a escalada. Mas a descida… Ah tal da descida… Rapelar no escuro, caminhar no escuro, chegar tarde… Esse é o preço que pagamos, mas que no final, acabando valendo a pena. Como já estou manjado da pedra, não tivemos muitas dificuldades para descer e voltar com segurança até o carro, mas o cansaço, esse ainda não estou manjado…

Após uma boa noite, mais do que merecida de sono, na Estância Pedra da Onça, acordamos no domingo revitalizados para mais um dia de labuta!

Para o domingo, reservamos uma investida para uma linha que estávamos namorando há algum tempo. Quando eu e o Gillan abrimos a via “Boa Noite Cinderela” vislumbramos uma possível linha à esquerda, por uma aresta aérea em direção a uma fenda muito promissora.

Assim, iniciamos os trabalhos mirando justamente essa fenda. Mas para isso era preciso vencer uma aresta vertical desprovida de “choquitos”, como são chamado das agarras da Parede do Sonhos. Acessamos o projeto pela via Xixi Molhado até a P1, passamos pela segunda enfiada da “Boa Noite Cinderela” e a partir dali iniciamos a conquista.

Como o Gillan tinha namorado a aresta por dias afinco, ele assumiu a ponto para começar os trabalhos. Inclusive, como um bom aspirante a engenheiro, criou uns laços de cordelete para laçar os cristais e assim conseguir parar para bater as proteções. Após 3h de muita luta e sol na cabeça, as baterias do Gillan entraram em colapso e assumi a ponto para finalizar a enfiada. Cheguei à famigerada fenda por volta das 16h20. Tínhamos apenas mais uma hora de sol para dar mais um gás. O Eric jumareou até a P1 da variante e segui pela fenda para ganhar mais um pouco de terreno. A fenda que tanto namoramos de longe não se mostrou muito contínua, mas acima de nós a pedra se ramificava em várias possibilidades. Acabei optando pela linha da esquerda para tentar fugir ao máximo das outras vias à direita. Com uma dose de sorte, achei outra fissura e depois um terreno muito agradável pela face até tocar mais 40m, onde ficou a P2 da via.

Gillan abrindo a 1a enfiada da via "Bom dia Cinderela".
Gillan abrindo a 1a enfiada da via “Bom dia Cinderela”.
Sol se pondo atrás dos Cinco Pontões. Tempo restante para abrir
Sol se pondo atrás dos Cinco Pontões. Tempo restante para abrir 1 enfiada!
Eric jumarendo para começar a 2a enfiada.
Eric jumarendo para começar a 2a enfiada. Segundo ele, um brinco!

Mais uma vez, apreciamos o por do sol dali mesmo, enquanto a noite caia sorrateiramente. Como ainda faltava uns 30m para encontrar com a outra via, descemos dali mesmo, deixando o resto para outra investida.

Repetimos o ritual de descer no escuro, caminhar à luz de headlamp e fechar o dia no famoso açaí do centrinho de Itarana!

Croqui

2016.05.09_Parede_sonho

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Comentários

2 respostas

  1. Realmente, a cada vez que vamos lá conquistar/escalar a Parede dos Sonhos me surpreende, é uma via melhor que outra!!! A verdadeira Yosemite Capixaba.

    Muito obrigado meus amigos Naoki e Eric por terem me proporcionado e compartilhado comigo essas experiências únicas e inesquecíveis!!! Foram escaladas épicasss!!!

    Abraçooo

  2. Parabéns! As vias estão ficando clássicas!
    Tirando o offroad alternativo e os carrapatos, só alegria! Rs
    Valeu por dividir a experiência!

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