Maratona de escalada

Depois de passar alguns finais de semana só fazendo esportiva, estava precisando sofrer um pouco. Isso deve ter uma boa explicação científica! Por que buscamos a felicidade no sofrimento? Por que precisamos levar o nosso corpo ao limite para nos sentir realizado? E o pior: quando estou no “olho do furacão” sempre penso: basta! É a última! Só que não…

O domingo começou bem cedo! Às 4h30 cai da cama e às 6h da manhã estava estacionando o carro no início da “trilha” que dá acesso à via “Independência ou Sorte”, na Pedra do Encruzo, em Santa Leopoldina. Essa via foi conquistada em setembro de 2020 pelos escaladores, André “Tesourinho”, Sarah Cantarino e Zé Márcio. A via possui 7 enfiadas, totalizando 380m. Além do cume bonito, essa via tem como diferencial o uso constante de material móvel, uma coisa bem rara por aqui. Então, desde a conquista sempre tive gana de repeti-lá em solitária.

Lendo os relatos dos conquistadores e de repetições posteriores, vi que poderia fazer uma variante pela esquerda, pegando o diedro da 3a enfiada mais de baixo. Assim evitaria a travessia crux em “agarrência” (Vsup) e poderia usar mais material móvel!

Conversei com o “Tesourinho” sobre a possibilidade e questionei porque não optaram por essa saída e ele me falou que era por causa do “vara mato”. Ponderei a situação e considerei que valia a pena o “vara mato”. Lembra do primeiro parágrafo? Pois é…

Peguei um “beta” master furado do Eric no site da ACE sobre o acesso e fui por umas “quebradas”, passando por lugares bem estranhos para acessar a base da via. Eu sei… quando conquistamos, não gostamos de falar sobre aproximações trabalhosas para não afugentar a freguesia… Ninguém tinha me falado que o acesso era ruim. Ainda mais se estiver levando tudo sozinho.

Por volta das 6h30 da amanhã comecei a escalada. A essa altura já tinha entendido que o dia seria tórrido e que os 2L de água não seriam suficientes. Toquei até o inicio da variante numa puxada só para ganhar tempo e por volta das 6h40 já estava na base da fenda me preparando para iniciar a escalada em si.

A variante, batizada de “Teoria das cordas” ficou com apenas 30m de extensão, mas ficou bem legal, pois está toda em móvel com boas colocações, e lances bem técnicos, com direito a fenda de meio-corpo. Bom, pelo menos foi assim que consegui passar o lance. Talvez role fazer em oposição, mas achei mais seguro me espremer do que ficar por fora.

Montei a parada móvel numa árvore e a partir dali entrei novamente na via “Independência ou Sorte” até o fim.

No trecho da variante.
A sombra

A essa altura, mesmo sendo cedo da manhã, o Sol estava me castigando com força, o meu termômetro marcava 34 graus Celsius e nem eram 9h da manhã ainda. Por um momento pensei em descer, pois da 4a enfiada em diante a via perdia muita inclinação e chegar no cume seria somente um protocolo. Mas lembram do 1o parágrafo?

Na fissura da 3a enfiada.

Pensei sobre o assunto, mas resolvi ir até o fim. Dei um gás final para ganhar tempo e por volta das 9h20 estava pisando no cume. Dei uma volta no cume, assinei o livro e tratei de descer logo! Queria sair o quanto antes daquele lugar quente.

Vista do cume para o Mestre Álvaro.
Uma foto no cume!
Livro de cume.

Quando cheguei na P6, me ancorei na parada que já tinha deixado montada com a minha auto e puxei a corda. Peguei a ponto da corda de 10mm e fui passar nos grampos. Como a parada estava um pouco mais longe, dei um “leve” e passei a corda. Quando fui sentar novamente na cadeirinha para puxar a corda, só ouvi o som do mosquetão estourando e vi que a auto tinha saído da parada e estava totalmente solto. Por sorte, muita sorte, ainda estava segurado na corda e não aconteceu nada, mas se eu tivesse sentado direito, com certeza teria caído para um lado da montanha onde não teria nenhuma chance.

Tudo aconteceu de forma muito rápida, mas foi o suficiente para me sentir muito mal. Pensei muito em tudo que estava fazendo, nos riscos envolvidos, nas coisas que eu tinha feito durante a escalada e entendi que era uma aviso para eu “frear” um pouco. A partir dali, desci muito mais atento e voltei a usar duas autos para não incorrer ao mesmo erro. Em geral, gosto de descer com uma auto curta e uma mais longa que uso de backup. Basicamente “clipo” em qualquer coisa para evitar esse tipo de situação, mas dessa vez não estava fazendo isso. Pensando agora, tenho certeza do que o calor e consequente cansaço ajudaram para que isso tivesse acontecido. Além de claro, estar sozinho. Quando estamos sozinhos, o double check é entre você e você mesmo. E às vezes, é difícil você ver o erro, mesmo checando duas vezes, principalmente se estamos cansados.

Desci os outros 6 rapeis com atenção redobrada e por volta das 11h estava de volta no carro para o “segundo turno”.

Croqui da via.

Segundo turno

Voltei até a capital e fui direto para Vila Velha pegar o João Vitor para escalar a via “Lidio Alvarenga” no Laje de Pedra em Guarapari. Eu já tinha prometido essa escalada desde 2019 e nunca conseguimos conciliar as nossas agendas, principalmente porque 2020 foi um ano complicado.

Chegamos na pedra por volta das 14h e logo descobrimos um cadeado na entrada, o que nos obrigou a deixar o carro mais longe do que o habitual.

Como a via fica na sombra pela tarde, a melhor estratégia para escalar essa e outras vias é chegar à tarde e escalar rápido para descer antes do anoitecer. Outra dica é entrar na via quando estiver ventando de nordeste porque ai, além de escalar na sombra, escala com vento gelado! Quase perfeito!

Por volta das 14h30, a via entrou na sombra e o João Vitor abriu os trabalhos. O João é um escalador da nova safra de escaladores Capixabas que chamo de “escaladores universitários”, pois tem uma galera dessa mesma faixa etária que começou ao mesmo tempo. Ele mesmo tem apenas 3 anos de escalada e desde sempre se mostrou muito interessando em aprender novas técnicas e aprimorar a escalada.

Iniciando a escalada.

No início botei terror falando que ele iria guiar todas as 4 enfiadas, mas sabia que o mais justo seria ir alternando, até porque a via não é muito dada e exige certa atenção em alguns pontos. Além disso, as proteções não estão lá grandes coisas, mesmo depois da regrampeação. Ainda há muito grampo enferrujado.

Peguei a 2a enfiada que é o crux da via e a 3a voltou a cair no colo do João, mas ele acabou sucumbindo nas canaletas, onde você precisa pegar no nada, acreditar no atrito e subir olhando para o grampo enferrujado.

João na 2a enfiada.

Depois de fritar por quase uma hora num lance mais longo, trocamos de ponta e tocamos a escalada até o cume para tentar chegar antes do anoitecer.

3a enfiada.

Para mim essa foi a minha 3a repetição. Embora não seja uma obra prima da escalada, gosto da via, do estilo e do visual. Sem contar que fica a apenas 1h da capital.

Ao João ficou a pendência de voltar à via, talvez com uma sapatilha melhor, para repetir a via guiando todas, ainda mais agora que ele conhece cada detalhe da canaleta e onde estão todas as 6 agarras da via!

Croqui da via.

Comentários

4 respostas em “Maratona de escalada”

Boa japa! El fanático! Só ensina as coisas certas para o João ein, não ensina aquelas gambiarras do primeiro vídeo não…
E sai fora com essa de beta furado, fizemos a aproximação super de boas, você que se perdeu! kkkk
Mas como eu sei que você gosta de sofrer fico tranquilo…

Que isso em japa, já começou a pré temporada nesse calor? Haja motivação hahaha, irado demais!!!

Começou e acabou… Esperar mais um pouco… Kkkkkkk

Hahahahahaha, JV e esperto! Pow tem uma entrada por cima que é bem melhor…

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