Sangue, suor e terra, conquista na Pedra do Penedo em Itarana

Vista panorâmica da Pedra do Penedo em Itarana – ES.

O mês de abril foi, no mínimo, muito intenso! Muitas roubadas, perrengues e viagens pelos confins do Espírito Santo! E para fechar o mês em grande estilo, tinha que ter o “gran finale”, a “aventura master blaster”!

Prólogo

No primeiro final de semana de agosto de 2014, DuNada, Afeto e eu fizemos uma maratona de escalada pela região central do Estado, onde conquistamos o Garrafão de Santa Maria do Jetibá e de quebra repetimos a Pontuda de Arapoca em Castelo. Naquele final de semana, enquanto procurávamos “sarna para se coçar”, acabamos parando o carro em frente a uma muralha de granito na região de Sossego em Itarana. Tratava-se da Pedra do Penedo, uma grande muralha de rocha com um enorme arco bem característico que lembra muito a parede de Royal Arches em Yosemite. Ficamos ali olhando para aquele paredão vertical e vimos uma boa linha numa grande aresta vertical à esquerda do arco. Na ocasião engolimos seco aquela empreitada e resolvemos deixa-la de lado, pois parecia ser uma conquista muito trabalhosa.

O tempo passou e quatro anos depois, passei novamente pela região a caminho de Afonso Cláudio e parei o carro novamente em frente aquela pedra para ver com mais calma. Quem sabe em 4 anos a pedra não ficou mais fácil?! Tirei uma foto em alta resolução com uma teleobjetiva e fui para casa estuda-la.

Logo, descobri uma bela proposta de via pulando de fenda em fenda para atingir o cume daquela imponente aresta da pedra! Pronto, me apaixonei!

Passo número dois: achar alguém para empreitada! Convidei o Afeto uma vez, mas ele declinou! Sabia onde estaria se metendo! Convidei pela segunda vez com argumentos melhores e ele acabou aceitando! Pronto! Carimbou o passaporte para roubada! Ainda tentei, sem sucesso, convidar o DuNada, mas ele foi mais esperto e disso que tinha que ajudar o pai dele e tal… Sei…

Assim que fechei a barca com o Afeto, mandei uma mensagem para o Baé, um fotógrafo de Itarana que conheci em 2014 e desde então tem nos ajudado muito adiantando toda logística na região, principalmente ligando para os donos das terras explicando as nossas intenções na área. Com isso, sempre que chegávamos nas montanhas os donos já sabiam sobre nós.

Mais uma vez o Baé deu um adianto e ligou para o Sr. Sérgio, meeiro que mora na base da Pedra do Penedo e agilizou todo nosso contato. Aqui, faz se necessário, agradecer de antemão, o Baé, o Sr. Sérgio, Sr. Joaquim e os moradores da região de Sossego pela receptividade e envolvimento com a nossa escalada. A gente se sente muito lisonjeado e feliz quando vemos esse envolvimento dos moradores da região. Lembra um pouco os relatos daquelas grandes conquistas que aconteceram no início do montanhismo capixaba, quando toda comunidade se envolvia com a escalada.

Foto com a família do Sr. Sérgio! Foto: Caio Afeto.

Chegamos na localidade de Sossego na sexta-feira à noite e fomos direto para o sítio do Sr. Sérgio onde passamos a noite.

Sítio do Sr. Sérgio na base da Pedra do Penedo à noite.

Sábado

No sábado de manhã, às 5h, nós levantamos e às 6h já estávamos rodando na região para procurar o Sr. Joaquim, pois o Sr. Sérgio nos disse que o melhor acesso à base da aresta seria pela propriedade dele.

Alvorada!

Na roça, 6h da manhã é tarde, então não foi muito difícil encontrar o Sr. Joaquim no curral tirando leite. Conversamos rapidamente e ele nos falou que poderíamos passar pelos fundos que encontraríamos uma antiga trilha usada para tirar madeira que nos levaria à pedra. Perguntei se daria para ir de carro. E ele disse:

– De Tobata dá!

Eu entendi que sim! Então lá fomos nós! No primeiro brejo, com lama até a canela, toquei o jipe com tudo, mas logo em seguida ele atolou e ficou empacado. Mais uma tentativa e saímos do atoleiro, avançamos 10m e novamente outra empacada. A cena se repetiu e conseguimos vencer o brejo. Seguimos de carro até um ponto onde ele não conseguiu mais vencer a inclinação do terreno e o abandonamos do jeito que ficou.

Com isso ganhamos um bom trecho de caminhada, restando apenas o trecho da mata para levar os nossos haulbags com muito, mas muito material de conquista. Basicamente estávamos levando 2 cordas, sendo 1 estática de 60m, 3 jogos completo de Camalot, incluindo um #6, furadeira, 20 chapeletas e mais 6L de água.

Tocamos pela antiga trilha e em menos de meia hora estávamos na base do penedo.

Aproximação pela mata com os pesados haulbags.

Comecei os trabalhos conquistando uma bela enfiada mista de uns 30m pela face da pedra com direito a saída bouderística e travessia de equilíbrio para ganhar um platô de mato, onde fiz uma parada natural para poupar chapeleta. Nós tínhamos apenas 30 chapas para 300m.

Afeto limpando a 1a enfiada.

O Afeto olhou para segunda enfiada e gentilmente cedeu o sharp end para eu dar sequência à conquista. Subi por uma fendinha “mequetrefe” até ela sumir, desescalei uns 5m, fiz uma travessia à esquerda e busquei uma fenda espanada paralela e fui subindo até onde a minha coragem permitiu. Bati uma chapa e continuei à esquerda por um granito vertical em lances bem delicados para buscar uma grande laca sustentada numa pequena base instável. Dei uma avaliada na laca e conclui que hoje ela não iria cair e fui tocando protegendo em móvel até o topo, onde bati uma parada fixa.

Dali para cima não teríamos muitas chances, pois a pedra era muito vertical e totalmente desprovida de agarras. Então optamos em fazer um rapel e sair mais à esquerda em pêndulo! A essa altura eu estava me sentido um escalador de Yosemite fazendo pêndulos e travessias de fendas!

Fizemos um pêndulo de 30m para ganhar um platô mais à esquerda e dali continuamos a conquista por um grande sistema de fendas.

O Afeto pegou a ponta da corda e foi tocando por um misto de trepa-mato com fenda até chegar na base de um tetinho estranho onde bateu uma chapa para melhorar o lance. Depois, tocou por uma bela fenda frontal até ganhar outro trepa mato em diagonal e fechar a 4ª enfiada com 30m.

Na P3, uma cena que tem me assombrado com frequência nas últimas escaladas se repetiu: chuva! Uma chuva passageira lambeu todo o vale deixando um rastro de pedra e mata molhada. Aproveitamos a pausa forçada para comer alguma coisa e assim que a pedra secou minimamente, segui a conquista por uma bela oposição toda protegida em móvel. Tirando o “trepa-terra-solto” exposto do final, a enfiada ficou muito legal! Vertical, constante e com belos entalamentos.

Fotinho enquanto a pedra não seca. Foto: Caio Afeto.

Chegamos na base da “casinha”, que era o termo usado pelos moradores para se referir a um teto que tem no meio da parede. Por sorte essa enfiada ficou com o Afeto! Na verdade, conforme as palavras dele: “não sei o que era melhor, conquistar nos blocos soltos ou ficar na segue sendo bombardeado por dezenas de blocos que se desprendiam constantemente”.

Tirando essa parte, a enfiada ficou muito bonita, inclusive com direito a viradinha do teto em livre.

Afeto na base do teto da 5a enfiada.

Estabelecemos a P5 num pequeno platô em um ramo de galhos e ali fizemos uma reavaliação da situação. Já eram 15h e só tínhamos, mas 2h30 de luz. Olhando para cima, ainda tínhamos pelo menos 150m de parede vertical até o cume, então resolvemos bater em retirada deixando as duas cordas fixas na P2a para o dia seguinte.

Descemos até o carro e quando fomos passar novamente pelo brejo, o carro sentou com tudo no lamaçal e por nada nesse mundo ele saiu. A minha desculpa: ao longo do dia, um trator grande passou pelo atoleiro levando madeira e com isso acabou afundando mais um pouco o trecho, por isso, na volta, o carro ficou preso pelo fundo na lama. Por sorte o Sr. Joaquim estava por perto e prontamente pegou a Tobata para nos desatolar. Ufa!

Atolou… Foto: Caio Afeto.

Chegamos um bagaço na casa do Sr. Sérgio, mas para nossa alegria, ele já estava com fogo na churrasqueira e só esperando o nosso retorno para colocar a carne na brasa. Logo em seguida, o Baé e sua esposa vieram de Itarana para saber do nosso progresso e a festa estava armada.

Arroz, feijão, carne e muita conversa fiada ao lado deles foi muito inspirador, mas por volta das 21h as nossas baterias estavam no limite e tivemos que nos retirar, pois a alvorada do dia seguinte seria novamente às 5h.

Eu estava tão exausto que tive sonhos muito loucos que só tenho quando estou muito cansado. Quando estou assim, costumo sonhar com pessoas que não as vejo há muito tempo.

Amanhecer de domingo. Ao fundo, a Pedra Alegre e a Pedra da Onça.

Domingo

A aproximação dominical foi bem tranquila, pois deixamos todos os equipos na base da via. Jumareamos 120m para começar o dia e depois repetimos ainda a 3ª, 4ª e a 5ª enfiada novamente. Chegamos por volta das 10h30 na P5 e dali seguimos a conquista.

Afeto repetindo a 3a enfiada da via.
Rack pesado para encarar as fendas.

Segundo o plano original, a ideia era buscar uma grande fenda frontal para ganhar um platô, mas logo descobrimos que a parede era vertical demais para conseguir acessar a tal fenda. Ganhei outro platô e descobri uma boa alternativa pelo outro lado da aresta, onde o terreno era mais ameno. Fiz a P6 numa pequena árvore e conquistei mais 30m por um terreno relativamente fácil, mas com um pequeno boulder de VI no meio protegido com uma chapa.

Bati a parada bem na aresta da pedra, num platô exposto e passei a ponta da corda para o Afeto. Coube a ele ficar com a pior enfiada da via, uma escalada estranha pela aresta exposta da parede ora protegendo em chapa, ora em móvel até fechar a P8 depois de 30m de escalada.

Afeto no início da oitava enfiada.

Dali para cima, a pedra ficou vertical demais e sem agarras, então tivemos que optar pela única saída à esquerda por uma longa travessia em horizontal estranha para ganhar um platô de mato. Toquei a horizontal, ganhei um platô e na hora de dominar o platô de mato não teve jeito. Tive que apelar para as chapas, conquistando 4 lances em A0 para ter condições mínimas para dominar o platô. A dominada foi um capítulo à parte. Toda vez que colocava um pé no mato tinha uns 5 segundos até o mesmo se desfazer. Então tinha que ir subindo sem parar sob o risco de cair no vazio. Naquela cena de desespero fui me agarrando em tudo que via pela frente e até urtiga virou agarra de mão!

Travessia da nona enfiada.
Parada móvel com o que tinha em mão na hora, a retinida.

Bati a P9 em móvel e chamei o Afeto que sofreu para vencer a horizontal com haulbag nas costas. Como o horizontal de trepa-mato não conta, peguei a décima enfiada que prometia ser a última. De baixo, parecia ser tranquila e bonita. Uma série de fendas em oposição interconectada numa cicatriz de desmoronamento recente nos levava ao cume da montanha. Naquela hora, juntei toda força e determinação que me restavam e fui com muita raça para terminar logo com aquela conquista. A àquela altura do campeonato, chegar no cume já tinha virado questão de sobrevivência, pois estávamos no nosso limite físico.

Afeto limpando a travessia e encarando o mato final.

Escalei a oposição muito focado, pois todas as colocações eram muito suspeitas e faltando uns 4m para o cume, tive que bater uma chapa para vencer o último trecho de trepa mato em capim mourão. Mais difícil do que vencer o capim foi achar uma árvore no meio de tudo aquilo para fazer a ancoragem final. No fim, achei uma árvore morta, mas que ainda estava prestando para fixar a corda para o Afeto e assim fechar a conquista da via.

P10!
Fotinho do cume! Foto: Caio Afeto.

Chegamos no cume às 16h30 e não tivemos muito tempo para comemorações, pois ainda tínhamos um longo caminho de volta antes do anoitecer. Agilizamos o rapel e em 1h conseguimos descer os 300m de via ainda com a luz do dia. Entramos na mata e descemos o resto do pasto sob o luar da lua cheia e as luzes dos vaga-lumes! Com certeza foi um fechamento cinematográfico para uma das conquistas mais épicas que fiz nos últimos tempos.

O céu ao entardecer.

Preciso lembrar e agradecer sempre a sagacidade e a tenacidade do Afeto ao colar nessas indiadas épicas. Não foi a melhor via que abrimos, nem a mais bonita, nem a mais recomendada, mas foi, sem sombra de dúvida, uma das conquistas mais iradas que já fizemos!

Batizamos a via de Terra Prometida em alusão a quantidade de terra solta que encontramos pela via. Pelo menos para mim, o incidente da P5 foi o pior de todos. Já no final do dia, depois de muita ralação estava jumareado pela corda fixa com um haulbag pesado nas costas quando a corda acabou se descolando para o lado e soltando dois tufos gigantes de mato parede abaixo que me acertaram em cheio. Foi como se tivesse virado um balde de terra solta na minha cabeça. Fiquei com terra no cabelo, na camisa, na calça, na cueca, na meia, no tênis…

Vídeo

Croqui

Croqui da via.

Leia mais sobre a via, aqui!

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