“Sorte de principiante”

Pedra do Barro Preto.

Duas semanas atrás, enquanto repetia a via “Princesinha de Itaguaçu” na Pedra do Barro Preto em Itaguaçu, uma linha em particular capturou a minha atenção. Na altura da 6a enfiada vi um grande totem à esquerda da via com uma fenda quase perfeita de mão cortando a pedra no seu dorso. Fiquei imaginando porque os conquistadores não escolheram essa bela linha. Será que estavam sem os móveis? Dúvidas à parte, decidi que voltaria lá o quanto antes para abrir essa variante, afinal de conta, não é todo dia que encontramos uma pérola dessas por aqui.

Durante a semana, falei para o Eric que tinha visto uma fissura da mão perfeita de 70m e tal. É claro que ele não se convenceu da história e achou que era roubada, mas mesmo assim aceitou o convite. No sábado de manhã, ele me mandou uma mensagem falando que não poderia mais ir, pois surgira um compromisso de última hora. Eu acho que ele viu a previsão do tempo para o dia seguinte e achou melhor pular fora da roubada…

Na hora me lembrei do Lissandro, um escalador gaúcho de Santa Maria que se mudou para o ES uns anos atrás e que nos últimos tempos tem se mostrando interessado nas tradicionais de fenda.

Na quinta-feira, durante o treino no muro ele disse:

– Se tiver uma barca dessas ai me coloca!

No sábado à noite, depois de voltar de Calogi, ele fez o milagre da multiplicação do alvará e conseguiu um segundo dia de escalada para participar da conquista. Depois vou ter que perguntar para ele como se faz isso.

A Conquista

Como de praxe, no domingo, saímos às 4h30 de Vitória, e após uma parada para o café da manhã em Santa Teresa, chegamos na base da pedra por volta das 8h. Dessa vez, em vez de repetir a via “Princesinha de Itaguaçu” até a P6, resolvemos subir pela aresta norte até a base do totem. Provavelmente essa foi a linha usada na década de noventa pelos primeiros conquistadores locais que tentaram subir a pedra, pois ao longo da aproximação encontramos uma série de grampos, principalmente num trecho onde a pedra ganha inclinação e é preciso subir escalando.

Detalhe do acesso pela aresta norte.
Lissandro escalando o primeiro contraforte.

A caminhada/escalada até a base do colo custou aproximadamente 1h30. A essa altura o Sol, mais uma vez, estava nos castigando com força. A combinação, Sol, céu limpo e nada de vento deixou tudo mais dramático e desgastante.

Por volta das 10h chegamos na P6 da “Princesinha de Itaguaçu”. Dali, subi de tênis mesmo abrindo uma diagonal à esquerda buscando a base da fenda onde bati uma parada dupla.

Esperando as nuvens chegarem até nós…

Entrei no filé mignon da via e logo descobri que algumas partes não eram bem sólidas, principalmente para as proteções, mas depois de duas temporadas em Arenales, pedras soltas não eram mais problemas. Estava calejado com esse tipo de terreno e fui só curtindo a fenda até encontrar uma boa quebra de sequência num platô depois de esticar 40m de corda. Montei a P2 em móvel e o Lissandro veio de segundo curtindo a fenda. 

Desfrutando a 2a enfiada da via.

A terceira enfiada é a continuação da fenda, mas por um trecho menos inclinado e com mais blocos a medida que vai chegando no final do totem. Estiquei mais 50m de corda e bati uma parada dupla no topo do totem.

P3!

Como já tinha escalado a pedra pelo lado há duas semanas, sabia que dali até o cume seriam mais uns 60m de costão tranquilo. Então peguei a furadeira e fui tocando. Por sorte, durante a escalada fui achando algumas fissuras onde consegui colocar algumas proteções e no final ainda encontrei um buraco onde consegui montar uma parada em móvel, fechando a última enfiada toda em móvel.

Nuts em ação na última enfiada.
Parada final em móvel.
Lissandro chegando no cume. Ao fundo, láaaaa na estrada dá para ver o nosso carro…

Batemos no cume às 13h após 3h de conquista. Saímos varando o mato em busca de uma sombra para descansar um pouco enquanto víamos o céu ficar cada vez mais nublado.

Cume!

Gastamos um bom tempo procurando, mais uma vez, o livro de cume. Dessa vez cheguei a ligar para o Zudivan, um dos conquistadores da via, perguntando sobre o local da urna, mas pelo visto, ela foi levada pela chuva…

Baixamos pela via do Zudi e depois descemos pela aresta norte até o carro e por volta das 15h já estávamos pegando a estrada em busca de um copão de açai em Itarana.

O totem visto a partir do colo e a linha de rapel.
Descendo pela via “Princesinha de Itaguaçu”.

Batizamos a via de “Sorte de principiante”, pois essa foi a primeira conquista de uma via tradicional do Lissandro. Expliquei para ele que fenda assim, não é todo dia que nós encontramos e que uma conquista, em geral, é muito mais trabalhosa e demorada do que essa conquista Nutella. Teve sorte o guri… Nem sofreu.

Croqui da via.

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Uma resposta

  1. Naquela época os conquistadores estavam aprendendo a dar segurança e a instalar as chapas, isso sim… kkkkk

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