Dando a “Volta por cima”

  • Eric na 1a enfiada da via "Volta por cima".

A descida da Serra do Limoeiro, entre as cidades de Itarana e Santa Teresa é uma espécie de “portal para os escaladores”, pois quando a rodovia entra no vale, começa a despontar no horizonte um mar de montanhas a nossa frente. Pedra do Limoeiro, Pedra da Várzea, Pedra da Onça , Pedra Alegre, Cinco Pontões…

Logo no começo deste vale, algumas paredes margeiam a rodovia e sempre chamaram a minha atenção. Toda vez que passava por lá ficava pensando:  preciso parar para dar uma olhada com mais calma, pois parece que tem coisa boa escondida ai..

No domingo de manhã, Eric e eu estávamos na beira da estrada com um binóculo varrendo aquelas paredes a procura de uma linha interessante para conquistar. Mapeamos três pedras interessantes: uma à direita, mas logo descartamos pela aproximação; outra no centro com um longo rampão ao estilo “mesma coisa de sempre”; e uma à esquerda numa parede mais suja. Decidimos dar uma olhada mais de perto na parede central. Procuramos o proprietário das terras, solicitamos passagem e quando estávamos indo para pedra o Eric falou:

– Japa, olha aquela fenda na esquerda!

Meio incrédulo, olhei a tal fenda e logo constatamos que não era apenas uma fenda, mas sim várias fendas paralelas de uns 60m de altura! Ficamos extasiados com aquela descoberta!! Será? Será que achamos o Indian Creek Capixaba?

Varrendo a pedra.

Em 5 minutos estávamos abrindo uma picada pela mata para acessar a parede e assim que chegamos na base não encontramos aquele mar de fendas. Andamos de um lado ao outro a procuro do local exato e nada. Logo, concluímos que as fendas que tínhamos visto de longe não tocavam no chão, elas ficavam suspensas e separadas por uma parede lisa. Um pouco desanimados, procuramos a melhor opção até achar uma calha que parecia ser mais promissora mais a cima. Como num jogo de pôquer, com um par de 2 fizemos um all in e entramos na canaleta na esperança de encontrar as fendas mais a cima. Um Toten Cam, uma árvore, uma chapa, segunda chapa e finalmente tive uma visão melhor da situação. A tal fenda na verdade era uma espécie de canaleta que não aceitava proteção móvel e mais acima, ela ficava obstruída por uma vegetação. A progressão seria possível, mas não no estilo que estávamos buscando. Um pouco relutante decidimos abandonar a via por ali mesmo, afinal de conta, nós estávamos ali para escalar fenda e não canaleta.

Desanimados, ficamos pensando num plano B, ainda eram 10h30 da manhã e tínhamos bastante tempo para arrumar alguma coisa. Enquanto pensávamos nas alternativas, lembrei que o Tesourinho e o Fred estariam na Pedra da Onça para repetir a via “Picada da Onça”, uma via tradicional de oito enfiadas conquistada na última 5ª feira.

Pedra da Onça

Face nordeste da Pedra da Onça.

Como a Pedra da Onça ficava ali perto, resolvemos ir na cola dos meninos e repetir a via também. Em menos de 20 minutos estávamos na face nordeste da pedra e logo vimos a dupla no alto da montanha. Assim que identificamos a linha da via, os nossos olhos se viraram para o lado e logo percebemos uma fissura perfeita no meio da parede. Aquela sensação de euforia e êxtase tomou conta de nós novamente! Será? Será que os meninos deixaram passar essa fendona?

Já que estávamos com material móvel e de conquista, resolvemos checar a tal fenda que parecia bem promissora. De longe, pelos meus cálculos tinha pelo menos uns 100m de trecho fendado.

Fizemos a aproximação pelo costão, solamos a primeira enfiada da via por uma variante e no platô que fica ao lado da P1 nos equipamos, deixando parte do material por ali para recuperar depois. A estratégia era subir leve e rápido, pois já estava um pouco tarde para começar uma conquista e o tempo estava virando lentamente. Toquei a 2ª enfiada de tênis até a primeira proteção fixa e sai à esquerda conquistando um trecho fácil até a base da fenda onde montei a P1 em móvel.

Começando a conquista.

Quando olhei para cima fiquei atônito com a fenda. Por um momento achei que estava na gringa, pois a fenda era perfeita! Parede levemente vertical, início em fenda de dedo que ia abrindo até virar uma fenda de mão à perder de vista.

Depois de uma manhã frustrante, aquela fenda era tudo que estávamos querendo para levantar nos ânimos. De quebra, ainda ganhei o “par ou ímpar” e toquei a fenda até esticar 60m de corda e montar outra parada em móvel. O Eric tocou a enfiada seguinte, igualmente toda protegida em móvel, mas por um terreno menos inclinado e mais fácil com blocos até esticar 60m, estabelecendo ali a P3 em chapa.

Estudando a fenda de dedo.
P2 em móvel.
Eric no início da 3a enfiada.

A essa altura, no horizonte estava claro que o tempo iria mudar em pouco tempo, mas pensei: como estamos com sorte, essa chuva não irá nos pegar.

Dei às costas para chuva e me concentrei na escalada. 

A chuva chegando…

Dali para cima, vimos uma fenda à esquerda a uns 80m , mas não nos pareceu promissora. Então resolvemos tocar pelo costão em direção ao cume. Estiquei quase 50m de corda e por sorte encontrei a P5 da via dos meninos! Dali para cima seguimos pela “Picada da Onça” à francesa até o cume.

Chegamos no cume por volta das 15h, após 3h de escalada. Procuramos o livro de cume e ficamos ali pensando num nome para variante. Com tudo que aconteceu nesse dia, batizamos a via de “Volta por cima” para celebrar a grande jornada.

É cume!
Livro de cume.

Resolvemos descer caminhando e em menos de 30 minutos estávamos de volta à base da montanha para retornar à Vitória.

Ah, por sorte, a chuva de verdade só nos pegou em Santa Teresa. Eta sorte!

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Uma resposta

  1. Boa japonês!
    Mas ainda nao desisti daquelas fendas… um dia voltaremos lá com um drone pra encontrar a linha certa!

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