Tigre de Schelleberg

O conceito

Se existe uma coisa fascinante no mundo das conquistas, é achar uma pedra nova. Achar uma linha nova é muito legal, mas nada se compara a achar uma montanha! É o ápice de horas de trabalho, pesquisa e muito estudo. 

Esses dias, achei uma! Na verdade, eu não a achei; ela sempre esteve lá, estava apenas faltando eu juntar as peças do quebra-cabeça. 

Durante a pesquisa, descobri que a pedra tem até nome, o que não é muito comum. Em geral, descobrimos o nome das montanhas quando chegamos à localidade e perguntamos aos moradores. Quando não sabem, ou não tem, nós mesmos acabamos batizando. Com isso, às vezes descobrimos mais tarde que a pedra já tinha nome e acabamos “batizando por cima”. Por exemplo, a Pedra da Freira, que conquistamos em Afonso Cláudio, é conhecida pelos locais como Pedra da Broa. 

A pedra em questão se chama, pelo menos na carta, Pedra Schelleberg. Depois, vi que eu já havia passado por ela em 2017, quando fui com o Cosme para os lados de São Roque do Canaã, mas na ocasião a vi pela face sul, o qual é muito mais intimidadora. 

Agora, cheguei a ela a partir de uma foto tirada de uma rampa de voo livre, que mostra a face leste, uma face mais amigável e interessante. Após alguns estudos, concluí que teria potencial para uma via mediana. O único ponto de atenção foi o aspecto geológico: ao consultar o mapa geológico do Espírito Santo elaborado pela CPRM, vi que a montanha foi mapeada como parte da Suíte Ataléia. 

De forma super simplificada, a Suíte Ataléia compreende um grupo de rochas que fica entre o tradicional gnaisse de Pancas (Suíte Carlos Chagas) e os paragnaisses de Viana (Suíte Nova Venécia). Em termos práticos, esses gnaisses tendem a formar paredes com textura bem homogênea e desprovida de agarras, onde predomina o estilo de escalada em aderência, sensu stricto

A conversa

Fui conferir a pedra sozinho no sábado. Saí às 5h de Vitória, sem pressa, pois sabia que a face ficaria na sombra à tarde. Cheguei sem dificuldades e fui direto a uma propriedade que presumi pertencer ao dono das terras onde está a montanha. Conheci o senhor Adilson, um homem de meia-idade, típico morador do interior de origem pomerana ou italiana. Apresentei-me e expliquei o motivo de estar ali. Esse contato inicial é sempre cercado de certa desconfiança; afinal, não faz muito sentido alguém dirigir duas horas para “simplesmente subir uma pedra”. E de graça? Será que está atrás de ouro? Será um caçador?

A conversa com o senhor Adilson não foi diferente. Senhor de poucas palavras, ficava olhando para a pedra em silêncio. Nessas horas, o ideal é ficar quieto mesmo; bombardear com informações não ajudaria. De repente, ele caminhou para os fundos da propriedade e me levou até os limites do terreno. E disse:

— É só seguir a estrada até o pasto e depois subir. Vou seguir com a minha ordenha!

E foi embora. 

Voltei ao carro e levantei o drone. Assim que o drone subiu, uma feição na rocha capturou minha atenção: uma série de bandas verticais escuras alternadas com bandas amareladas. Pensei serem bandamentos por diferença de composição, algo incomum no estado, mas, independente da explicação, pareciam as melhores linhas para uma via. Escolhi a banda da direita, que parecia menor e mais fácil. 

Pousei o drone e me preparei. Pensei em dividir a carga, pois a mochila estava muito pesada e meu joelho não está 100%. Após voltar do Chile, uma ressonância indicou uma pequena fratura na patela. Não precisará de cirurgia, mas ainda dói e limita alguns movimentos. No fim, resolvi ir devagar, levando tudo de uma vez. 

Mais um osso fraturado para minha coleção, dessa vez na patela.
Iniciando a caminhada.

A subida pelo pasto foi tranquila. Na base do costão, fiz um descanso prolongado; o sol de abril estava castigante. Após beber água, encarei o costão. De baixo parecia trivial, mas, ao subir, mostrou-se trabalhoso. A rocha era homogênea e granulada; se a inclinação aumentasse e a rocha não melhorasse, eu estaria em apuros para conquistar em livre. 

Subi 150m de costão interminável até achar uma sombra providencial onde a rocha ganhava ângulo. Até ali, foi uma hora de caminhada desde a casa do senhor Adilson. Sem sinal de celular, aproveitei para ler um livro e esperar a parede entrar na sombra. 

Estudando a parede de perto, vi que as bandas eram calhas de água. Onde a água descia, a rocha era preta/cinza; onde não descia, era amarelada. E justamente na parte amarela, a rocha formava chorreras perfeitas. Bingo! 

A conquista

Iniciei a conquista e a escalada se mostrou tranquila. Às vezes as chorreras sumiam, mas restavam discos de rocha mais dura saltando da pedra, conhecidos como “pátinas”. Estiquei 60m de corda, com um crux de IV no final. A primeira enfiada ficou com oito proteções e é, sem dúvida, a melhor enfiada da via. 

Iniciando a conquista.

A próxima parecia mais fácil e com ainda mais agarras e muitas pátinas. Ao olhar para aquelas faixas que lembram marcas de garra de felino e lembrando da conversa com o Adilson, surgiu o nome para a via: Tigre de Schelleberg! Segundo ele, Schelleberg era o nome do antigo dono das terras. Juntei isso à outra história que o Adilson me contou sobre um grupo da igreja que desistiu de acampar no cume após encontrar marcas de onça. Com um pouco de licença poética, troquei a onça pelo tigre e surgiu Tigre de Schelleber!

P1 da via.

Estabeleci a P2 em um platô confortável e sombreado. Se não fosse por essa sombra, eu teria desistido. Na hora de limpar a enfiada, rapelei descalço e quase ganhei bolhas, de tão quente que a rocha estava. Voltei para a P2 e tentei comer um cuscuz, mas a boca estava seca demais. A água estava racionada (levei 3L para o dia). Sem opção, voltei ao livro e peguei no sono. 

Cara da segunda enfiada com as chorreiras e o desejado platô com sombra mais acima.

Quando acordei, havia mais vento e nuvens. As condições melhoraram, embora o relógio marcasse meio-dia. Por outro lado, percebi que a parede não entraria totalmente na sombra à tarde. Sem opções, encarei o pequeno headwall. Ali as chorreras sumiram, restando apenas pequenas ondulações para testar a confiança nos pés. O lance ficou interessante; consegui liberar na conquista e estimo um VI (ou um V sup carioca). Depois, a pedra perdeu inclinação até o início da mata. Bati a parada final e iniciei a descida. 

Saída da 3a enfiada.
Visão para os lados de Colatina e região noroeste.

Preocupei-me com o rapel, pois as chorreras formam bicos onde a corda poderia prender, mas a recuperação foi limpa. Cheguei à base às 16h. Na volta, encontrei novamente o senhor Adilson. Dessa vez, a conversa fluiu muito melhor; o homem de poucas palavras da manhã revelou-se falante, e trocamos boas ideias sobre a vida no campo. 

Linha da via. Aparentemente parece que há uma outra via conquistada pelos escaladores de Itaguaçu na esquerda.

A via não será um clássico, mas as duas enfiadas de chorreras são algo ímpar que vale a visita, algo que nunca vi no Espírito Santo. Quem sabe, no futuro, eu não volte para tentar as outras linhas!

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