Trem Voador!

A crônica abaixo é sobre uma cadena que rolou no final de semana. A via em questão é a via “Trem Voador” que fica em Calogi (ES). Ela começa na via “Trem Bala” (9b) até o final do 1o crux e depois segue em travessia à direita até encontrar e finalizar na via “Transiberiana” “Transmanchuriana” (9a). O grau sugerido para essa variante é 9b. O projeto foi equipado no início deste ano. Nesta postagem, escrevi sobre ele.

O dia começou com algumas desculpas, como sempre. Se você é um escalador, sabe do que estou falando!

(1) Poxa, não dormi bem; (2) ontem comi uma pizza que não me fez bem; (3) hoje não estou legal!

Essas foram as primeiras desculpas proferidas por mim ao chegar em Calogi no último sábado para tentar o projeto “Trem Voador”.

Continuando com as desculpas esfarrapadas…

Mesmo saindo cedo de Vitória, quando chegamos no totem, o sol já estava à mil na pedra. Perfeito, mais uma desculpa para não entrar no projeto! (4) Poxa, com esse sol não tem como!

Mas sabia que a previsão do tempo previa nuvens à tarde e que tudo era apenas uma questão de tempo para ficar nublado e a desculpa do sol ir para cucais.

Após o aquecimento, confirmando as previsões, as nuvens rodearam em torno do Calogi levando o sol embora.

Acabou a desculpa, hora de entrar no projeto!

Mas, (5) o tempo ainda não estava perfeito, (6) estava quente, (7) um pouco úmido. (8) As agarras estavam estranhas…

Mas ai pensei: ok, se eu não entrar hoje, vou passar a semana pensando no projeto. E ainda por cima, vou ficar me remoendo e pensando na via.

Catei as costuras, que não são poucas, e resolvi equipar a via, sem compromisso. (9) Só para sentir!

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Costuras para tentar o projeto “Trem Voador”.

Equipar qualquer via em Calogi é trabalhoso, e esse projeto em particular tem uma costura muito chata de sacar (10). Culpa do equipador (eu) que bateu a chapa no lugar errado. Que sacrifício sacar a costura do crux!

Entrei na via com a segue do Poul. E naturalmente cai no primeiro crux. Lance chato de envergadura em agarra pequena e estranha (11), e para piorar aquela sacada de costura fora de mão (12). Após algumas quedas, passei o lance e fui de costura em costura. Fiz a transição para Transiberiana me borrando com as agarras suspeitas (13). Não é nada confortável sacar costura segurando uma folha de alguns milímetros prestes a quebrar.

Equipei o projeto e desci um pouco frustrado. Mas sabia que equipar era mais cansativo do que mandar. É claro que essa afirmativa é uma grande besteira, mas foi apenas um artifício mental que estava usando naquele momento para me enganar.

Descansei um pouco, e voltei para o projeto. Dessa vez, na segue do Gillan. Já na saída quebrou uma agarra e quase fui ao chão. Graças ao reflexo do segue não passou de um susto. Mas foi o suficiente para dilatar as pupilas.

Energia para mandar o projeto!
Energia para mandar o projeto!

Cheguei no primeiro descanso, antes do crux, cansado, mais do que o esperado. Tentei pensar em coisas boas. Tentei esquecer por um instante que logo depois viria uma bomba.

O descanso estava virando “canso”, então resolvi seguir e enfrentar o crux, mesmo cansado. A hora que você diz para si mesmo: “agora vou” é sempre difícil. Mas fui!

Entrei no crux, e no meio do crux, senti os efeitos do tijolamento (14). Efeito aspirador, você pega numa agarra e ela suga repentinamente toda energia! Na passada-chave não consegui a pressão esperada na agarra estranha e a próxima buscada estava longe. Não ia conseguir! No desespero, “achei” uma agarra intermediária e praticamente me joguei na “agarra boa”. All in! Por um milagre não cai. É incrível como isso funciona. Quantas vezes me joguei numa agarra “à muerte” e como que por um milagre você fica e não cai. Eu chamo isso de “me entregar a Deus”!

Dei mais uma tocada com os cotovelos abrindo até um “descanso”. Nessas horas a gente arruma cada tipo de descanso… Tentei, além de destijolar um pouco, colocar a cabeça no lugar e acalmar um pouco. O aspirador me deixou abalado. Não estava nos planos. O descanso, obviamente não era boa, mas foi o suficiente para colocar na cabeça duas coisas: 1 – iria dar tudo de mim até a próxima agarra boa e depois daria novamente tudo até a outra agarra boa e assim sucessivamente; 2- Agora que já estava ali, daria tudo e não iria desistir. Até porque se eu desistisse, não entraria mais nesse dia e no outro dia teria que sacar tudo novamente. Tudo que eu não queria!

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Insistir, insistir e insistir! O segredo para mandar vias de sofrência resistência. Foto: Felipe Sertã.

Estabeleci algumas agarras-metas e fui de meta em meta até o descanso da via “Transmanchuriana”  “Transiberiana”. Finalmente um descanso bom. Um descanso físico, mas uma tortura mental, pois você começa a devanear.

Descansei até os pés começarem a ficar desconfortáveis com os regletes. O tijolamente, naturalmente, não foi embora. Meio bombado parti para o crux final, o mesmo crux final da  “Transmanchuriana” Transiberiana. À meu favor estava o fato de eu ter repetido essa via na semana passada, então estava confiante. Era tudo uma questão de manter a calma e não fazer nenhuma cagada.

Desesperei-me um pouco com a costura que ficou estranha no pé, mas embalei firme o pé na agarra-chave e busquei o abaulado da glória! Lá embaixo, já se ouviam as comemorações dos meus amigos, mas eu sabia que ainda faltava uma dominada final e tudo que eu não queria aquele momento era morrer na praia.

Clipei direto no mosquetão da cadena e estava feito! Acabou a “sofrência”. O tijolamento deu lugar à euforia mental. Mais uma via encadenada!!!

Já tive o prazer de encadenar muitas vias ao longo de 21 anos de escalada, mas todas as cadenas são diferentes. Nenhuma é igual a outra! Talvez por isso eu continuo escalando a tanto tempo com a mesma motivação de sempre.

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Comentários

4 respostas

  1. Boa narrativa, mt bem humorada!
    Parabéns pela Kdena man!! À Muerteee
    absss

  2. parabens man!! forte e motivado !! é Transmanchuriana no lugar de Transiberiana mas kamom!! foi bonito de ver a luta!!

  3. Putz… Quem deu nome para essas vias? É tudo igual! Vlw!

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