Anos noventa

Em tempos de isolamento social, essa semana, a Paula arrumou uma multifuncional para casa. Com isso, pude escanear algumas fotos antigas, de quando comecei a escalar. Digitalizar essas fotos foi como mergulhar no tempo e me deixar levar pelas lembranças que vem à tona naturalmente.

A pilha de fotos para digitalizar é imensa, mas resolvi selecionar algumas que achei bem interessante para contar um pouco a história dos primórdios. Tem um post de 2010 onde falo um pouco mais sobre esse começo, mas a postagem está sem foto. Acho que agora, com essas fotos, dá para fazer um complemento.

Até onde consegui rastrear, essa é a foto mais antiga que eu tenho “escalando”. Digo “escalando”, porque na verdade estou “prussikando”. Essa foto deve ser de 1993 e eu acho que foi tirada pelo Leandro Feiten ou Alberto Hideki Fujita. Para quem conhece um pouco mais a região do Behne, em Ivoti-RR, essa parede de arenito fica no lado oposto à pedreira que tem na descida. Chamávamos essa parede de “Paredão 18” porque tinha exatamente 18m de altura e era o nosso “play” preferido, pois ficava num lugar escondido, longe dos olhos do Sr. Behne que não gostava que ficássemos “loqueando” pelas terras dele. Nessa época, nós basicamente passávamos a tarde “rapelando”, “prussikando” e fazendo uns pêndulos com equipamentos bem rudimentares. Usávamos corda de agropecuária, que comprávamos a quilo. Improvisávamos cadeirinha de corda, mosquetões caseiros e freios feitos à mão.

Essa foto foi tirada pelo meu irmão, Kazunari, também na região do Behne. Aparecem, da esquerda para direita, Cristian, Leandro Feiten, Miguel Schimmit e eu. A foto, se não me falha a memória, foi tirada em 1994. Notem que o Cristian e eu já usávamos cadeirinha de verdade. O Cristian usava uma cadeirinha da marca Big Wall, fabricada pelo escalador Eduardo César Tondo e eu usava uma cadeirinha da marca Aconcágua, todas de Porto Alegre. Já o Leandro usava uma cadeirinha de corda, um freio oito de fundo de quintal e alguns mosquetões homologados, provavelmente da espanhola Faders. O Miguel usava uma cadeirinha de corda com acolchoado feito pela mãe dele. O freio oito era caseiro assim como o mosquetão que o prende, mas tinha um mosquetão Faders, sem rosca, no loop.

Para não dizer que nunca cavei agarras na minha vida, nessa parede tem algumas agarras cavadas que usávamos para treinamento. Se olhar com calma, dá para ver uma agarra cavada na orelha direita do Leandro.

Essa foto também é de 1994 e foi tirada num lugar que chamávamos de “Represa”, na Colônia Japonesa de Ivoti. Pensando bem, esse era um lugar muito perigoso, pois ficava num canyon de uns 50m profundidade por pelo menos 1km de extensão com acesso bem complicado. Mas para quem tinha 15 anos, perigo era uma palavra que não existia no dicionário. Essa “via” na represa tinha uns 50m de extensão e passava por vários lances de 6o em blocos altamente duvidosos. Tínhamos essa corda de agropecuária fixada no topo e nós nos prendíamos com um prussik na mesma corda (!!!!). E cada um ia escalando e puxando o seu prussik. Tipo um top rope solo. Só que num estilo muito mais kamikaze. Reparem que a corda está tensionada, provavelmente o fotógrafo desta foto também estava dividindo a corda, ou seja, estávamos em três numa mesma corda!!!!

17/02/1996.

Carnaval de 1996! Essa trip não tem como não esquecer! Acho que foi a minha primeira viagem de escalada. Semanas antes, tínhamos conhecido o Nativo e o Cristian de Esteio e eles tinham comentado que a AMES (Associação de Montanhismo de Esteio) tinha alugado um ônibus para Caçapava do Sul e se quiséssemos teria lugar para nós, Daiti e eu. Saímos numa 6a a noite de Esteio, chegamos de manhã cedo na Pedra do Segredo e dali partimos para as escaladas. De cara entramos na via “Viagem Retardada” (6b) na Pedra do Segredo. Na foto tirada pelo Ernesto, estamos nos preparando para entrar na via. Nos dias subsequentes, ainda tentamos a “Sem Medo de Ser Feliz” e a “Absolutamente Absorto” mas tivemos que descer por causa dos marimbondos. Escalamos a Pedra da Abelha pela “Obrigado pela vida” e a Pedra do E.T de saideira pela “João Giacchin” (7a). Com certeza foi uma das trips mais memoráveis da minha vida.

Já essa foto foi tirada num lugar chamado Rock Toy, na região do Buraco do Diabo em Ivoti. Provavelmente foi tirada em 1997 ou 1998. Essa via que segue pelo diedro foi conquistada pelo “Nativo” do Itacolomi e era toda em móvel, com exceção de um lance que era protegido com spit (spit em arenito…). A característica desse lugar era que várias vias eram em móvel. Móvel em arenito podre, mas quem ligava para isso? Eu puxando um TCU nesse arenito friável na foto explica muita coisa… Foi ali que aprendi a dar os meus primeiros passos em móvel e peguei o gosto pela brincadeira.

Atualmente a área está totalmente abandonada e provavelmente os grampos estão bem velhos, mas é um lugar que merece ser revisitado. Se alguém for lá, lembrem que todos os grampos são de 5cm!!!! Lembro que eu costumava ir para lá depois da aula. Pegava a bike e em menos de 30 minutos estávamos lá. O único problema era a volta, pois ela era toda em subida, uns 6km até chegar em casa.

Foto clássica tirada pelo Daiti no artificial do Itacolomi pela face sul. Foto de 1996, quando fiz a via com o Leandro Feiten. Essa foi a época que saímos da clausura de Ivoti e conhecemos o mundo! A viagem à Caçapava do Sul abriu muitas portas para nós e conhecemos toda tribo da escalada da cidade grande. E para eles, a Meca da escalada era no Ita, para os mais íntimos. Para o pessoal de “Porto”, o Itacolomi estava a apenas um ônibus. Naquela época, a maioria dos escaladores ia de ônibus para pedra, raro eram os escaladores “automobilizados”. Para nós de Ivoti, o Ita era uma aventura. O dia começava às 6h da manhã. Saíamos de casa, caminhávamos 30 minutos até o ponto de ônibus, pegávamos o busão das 7h, íamos até Novo Hamburgo. Trocávamos de ônibus, agora um que ia até Gravataí e descíamos no “viaduto para Taquara”, e por fim um Citral que nos deixava na Parada 83. Depois mais uns 40 minutos de caminhada até as vias do Ita. No final do dia, só tinha que fazer todo caminho de volta. O problema acontecia quando saímos muito tarde do Itacolomi e perdíamos o último ônibus do viaduto e tínhamos que ir até Porto Alegre para depois voltar até Ivoti… Baita rolezão… Se você achava ruim, imagina fazer isso no sábado, dormir em casa e no domingo voltar lá novamente! Pois é, já fiz isso algumas vezes… Só não fazíamos mais porque não tínhamos grana para pagar 6 passagens por dia…

Foto: Orlei Jr.

20 de Outubro de 1996, ginásio Hard Roller em Porto Alegre. Foto tirada pelo Orlei Jr. na via da final. Nesse ano, comecei a participar dos meus primeiros campeonatos de escalada. Campeonato de escalada era uma novidade para mim, pois até então só tinha escalado na rocha. Mas para mim, o grande barato dos campeonatos era a oportunidade de conhecer os escaladores famosos daquela época, além de conhecer os escaladores de fora do Estado que vinham participar das competições. Lembro que nesse campeonato conheci o Marius Bagnati, o Kavamura, uma galera de Curitiba e além, claro, de escaladores gaúchos como o Guili, Jimão, Lair e toda galera da capital. Além disso, na 2a etapa do campeonato dei sorte na via final e consegui passar um lance que todos caíram no início e consegui ir até o grande teto, onde a foto foi tirada. Com isso, somando com os pontos da classificatória, acabei ficando em 3o lugar e levando o meu primeiro pódio. Essa etapa foi vencida pelo Guili que também passou o crux da saída e fechou a via com maestria!

Essa foto é de 1997, talvez 1998. Foi tirada pelo Daiti enquanto eu escalava a via “Escraquinha” (7c na época). Essa era umas das vias mais difíceis do Behne e foi conquistada pelo Nativo e o Cristian em 1996. Posteriormente a via foi equipada com chapeletas de cantoneira. Lembro que tivemos muitas dificuldades para equipar essa via, pois o arenito era muito friável. Pensando hoje, os bolts deveriam ter no mínimo uns 15cm para dentro e não 8cm. Por sorte sabíamos do risco e não ficávamos caindo nas chapeletas…

Outono de 1997, via Sá (7c/8a), Salto Ventoso. Na “cadena” da via com a “segue” do Guili. Foto: Daiti Hamanaka.

Naquela época, Daiti e eu escalávamos juntos, mas nós sabíamos que se quiséssemos escalar melhor tínhamos que “colar” com os melhores escaladores da época para elevar o nosso nível. Por isso, sempre que podíamos, colávamos nas feras da época para absorver conhecimento. E numa dessas, acabamos entrando de furão numa trip à Caxias do Sul e Farroupilha com Guili, Leo Zavaschi, Nery e Lair Jr., além do Jimão de Caxias do Sul. Também foi nessa viagem que conheci pela primeira vez o Salto Ventoso que era a grande promessa da escalada gaúcha. Nessa época, só tinha 3 vias no setor da cascata (Sexo, Algemas e Cinta-liga, Tá e Sá) e a via dos Caramujos. Lembro que vi o Guili mandar com fluidez a “Sexo Algemas” (8c) e eu tive que batalhar para mandar a Tá e Sá no mesmo dia. Para mim, ainda hoje, essas 3 vias estão entre as melhores do Salto e sempre que vou lá, dou uma entrada nelas para relembrar essa época.

Com certeza, eu poderia escrever muito mais coisas em cada uma dessas fotos, pois para cada história que me vem à mente, vem uma outra, depois outra e mais outra. Se a quarentena continuar assim, no próximo post vou resgatar as fotos da primeira viagem ao Cipó/Lapinha/Bauzinho e outras viagens do final da década de 90 início de 2000, além da minha primeira trip internacional.

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Comentários

3 respostas

  1. Sou seu fã Japa que isso, muito obrigado por compartilhar essas histórias ??

  2. que massa mano adorei as fotos e viajei na mente nesses lugares que legal.

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