E tudo começou assim…

Quando alguém me perguntava como comecei a escalar, eu sempre respondia: Ah, um amigo meu que era escoteiro apresentou a escalada, ai gostei e nunca mais parei.

Essa era a resposta porque sempre tive, e ainda tenho, certa preguiça de explicar tudo nos mínimos detalhes. Mas agora eu posso responder assim: Ah, vai lá ler no meu blog!! (Olha, ficou mais curta a resposta!)

A lembrança mais remota que eu tenho sobre qualquer coisa que tem relação com a escalada me remete há uns 19 anos atrás, quando eu tinha uns 12 anos.

Lembro que o meu pai tinha uma corda azul de plástico que ele usava para amarrar as caixas de uva no trator. Eu roubava sem ele saber (pensando hoje, eu acho que ele sabia…) e ia para a pedreira do vizinho. Para quem conhece a região, é aquela pedreira que fica indo para o Campo-escola Behne. Amarrava a corda em algum galho ou pé de acácia e descia no braço mesmo. No máximo com uma luva que roubava da minha mãe, claro! E ficava lá a tarde inteira, brincando de descer pela corda.

Eu acho que foi ali que fui picado pelo bichinho do mundo vertical.

Mais tarde, talvez na minha 7a série, conheci o Augusto, um amigão tamanho grande da 8a série que era escoteiro. Ele ia nesses encontros de escoteiros e aprendia várias coisas. Um dia ele voltou de um desses encontros onde ele aprendeu a fazer rapel. Ai ele me mostrou como fazer uma cadeirinha de corda (lembro até hoje como fazé-la). Como não tínhamos um freio oito, improvisamos com uma argola de ferro e um pedaço de corda. Assim tínhamos o nosso kit rapel:  corda (do meu pai, claro) uma cadeirinha de corda e  um freio (argola). Para conectar o “freio” na cadeirinha dávamos uma boca de lobo e um nó no lugar do mosquetão.

Algum tempo depois, roubei um pedaço de corrente (de puxar trator) do meu pai e fiz dois cortes para passar a corda. No espaço da abertura colocamos um pedaço de mangueira de plástico (que era usada para irrigar o jardim) para servir como “uma trava de rosca”. Pronto! Tínhamos uns mosquetões “a prova de bomba”. Aliás, tínhamos vários mosquetões e o meu pai não tinha mais corrente…

Como diz o ditado popular que de criança e bêbado, o diabo cuida. O diabo lá, só nos ensinou a fazer rapel e ascensão pela corda, nada de sair escalando ou guiando com os nossos equipos caseiros. Santo diabo…

Mas ai, a coisa tomou novas proporções quando comprei o Manual do Montanhista do Cristiano Requião (ed. Nobel) pelos correios.  Confesso que achei o livro um pouco confuso. Não entendia muito bem para que servia a talhadeira e outras coisas. Mas aos poucos fui lendo, relendo e pegando o jeito. Ai começou a revolução dos nossos “equipamentos de escalada”. Comecei a fabricar, por exemplo,  mosquetões caseiros com barras de ferro. Essa nova geração já vinha com um gatilho, mas sem a mola. Difícil fazer aquela mola com apenas 14 anos… Fabricávamos ainda uns pitons com pedaço de ferro, nuts com parafusos sextavados e outras ferragens. A revolução dos equipos não ficou só na metalurgia. Começamos a fabricar as nossas mochilas de “montanha” usando o que tínhamos em casa. A minha primeira mochila cargueira foi uma mega-adaptação do meu carrinho de bebe (coitada da minha mãe…). Tempo depois aprendi a usar a máquina de costura (da minha mãe, claro) e fui fazendo outras coisas como saco de bivaque, saco de magnésio e até um saco de dormir saiu. Mas ai, um dia a máquina de costurar quebrou… Acho que ela não foi feita para costurar lona… Ai tive que partir para a mão grande mesmo. Passei muitas noites costurando a minha mochila na mão… (Porcaria de máquina!)

Quando passei para o 2o grau comecei a arrumar uns trocos durante o verão e aos poucos fui comprando alguns equipos “homologados”. Naquela época tinha a loja Big Wall Montanhismo ainda era na casa do Rafael Britto na rua Eng. Gardolinski em Porto Alegre. Mas como eu não tinha tanta grana para comprar tudo, mandamos fazer alguns equipos na ferragem de Ivoti. Mandamos fabricar grampos, freios e alguns mosquetões (ainda sem a mola), mas já com rosca.

O tempo foi passando e fomos adquirindo mais alguns equipos homologados e deixando de lado, aos poucos, os equipos caseiros. Nessa época quem me acompanhava direto nos rapeis e aventuras verticais pelas terras do Sr. Behne era o Leandro Feiten e tempos depois o meu amigo Miguel Schmidt de Ivoti.

O Leandro sempre esteve na ativa, às vezes dava umas paradas, mas sempre voltava e pelo que sei, ainda hoje dá umas escaladas.

Já o Miguel, em uma das nossas escaladas tomou um pacote de uns 10m e caiu direto no chão e depois disso não quis mais saber de escalada.

Nessa época, também quem começou a escalar foi o Daiti Hamanaka que morava lá na Colônia Japonesa. Ele também foi picado cedo pelo bichinho da escalada e nunca mais se curou. Está até hoje escalando.

A primeira vez que fomos escalar de verdade, usando uma corda de escalada e não corda de amarrar boi foi em 1995 (eu acho) quando fomos escalar em Santa Maria do Herval com um cara de Novo Hamburgo que se chamava Marcelo (não lembro do sobrenome). Conhecemos o cara por intermédio de uma matéria sobre escalada que saiu no jornal NH. Assim começamos a conhecer alguns “escaladores de verdade” (Charles, Jonas, Boy, Tex) e fomos nos enturmando.

Bom, dai para frente fui ganhando o mundo e o resto é só o resto. Com certeza a melhor parte da minha vida como escalador foram esses anos inicias. Certamente isso é só um breve resumo das minhas travessuras de criança e adolescente. Nem falei da tirolesa noturna, big wall na rede, as aventuras de bike, os acampamentos…

Quem sabe outra hora, quando tiver mais vontade, falarei do resto…

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Este post tem 7 comentários

  1. E eu que pensava que fiz merda no meu primeiro rapel usando corda no lugar de um mosquetão e uns nós que aprendi na internet, hehehehehe…

    Você é SINISTRO NAOKI, mas ainda bem que o passado ficou para trás e a tecnologia dos novos equipamentos chegaram para a felicidade dos rapeleiros “suicídas” que sobreviveram, hehehehehehe…

  2. Fantastico!, engaçado e muito, mas muito bacana…também comecei com equipos adaptados, mas nem de longe tive as ideias de fazer os equipos como vc.

    Braços

    Renato

  3. putz, esse é meu parceiro de rocktrip….to bem na roubada hein???? O Torres tinha toda razão…kkkkkk
    Isso dá um longa metragem para o Banff….

  4. Sò faltou o Kichute sem as travas usado como sapatilha, mas vindo de ti nao duvido que tenha inventado uma coisa melhor. haha
    Grande abraço.
    Andres

  5. Caraca! Kichute!!!! Esse saiu do baú!!! Agente usava o kichute como tenis de aproximação…. E o Leandro usava chuteira de futebol…. Ta loko!!!

  6. Fui colega do Naoki no Ensino Médio… e ele sempre estava “na função”… muito bacana que continuas fazendo o que gostas e como falaste, arrumaste uma profissão para sustentares tua filosofia de vida (até ela precisa de grana, poxa…)Por isso que não tenho uma…kkk… Abração!

  7. E lendo isto eu me lembrei desta galera .
    A poucos dias a trás até encontrei o boi e falamos sobre esta época. Inclusive uma das melhores épocas.
    Lendo isto me lembro de quando ia para o behne caminhando sozinho , ali depois da curva ( nas taquareiras ) encontrava o céu pai e claro ! aquele pastor alemão que sempre me dava um susto.
    E quanto a santa maria do erva eu devo ser um dos únicos escaladores que deves enquanto vou la ainda . Pena um lugar com tanto potencial !
    A, lembrei ate aquela noite la no OK CENTER que vocês montaram um muro e choveu a noite toda . faz tempo kkkkkkkkk .
    Um abraso .

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