Cabra Macho, primeira repetição

^ Zé Márcio na 2a enfiada da via “Cabra Macho”, Calogi.

Eu sempre gosto de deixar bem pontuado que eu não “descobri” o Calogi, embora eu seja um frequentador assíduo daquela montanha. Quem “descobriu” o Calogi foi o Zé Márcio,  Tarso e o Eduardo em 1998 quando iniciaram uma via na face norte da pedra pelo lado esquerdo do totem principal, seguindo uma chaminé bem óbvia. Naquela ocasião, a conquista não deu continuidade devido à dureza da rocha e o trio acabou deixando o projeto de lado, mas a pedra fundamental estava lançada. Em 2012, o Zé Márcio voltou com o Sandro Souza e finalmente concluíram a via no cume do totem e batizaram a com o sugestivo nome de “Cabra Macho“.

Para mim essa via era uma incógnita, pois os conquistadores nunca liberaram o croqui da via e ela acabou ficando um pouco no esquecimento. No início desta semana tive acesso a uma prévia do livro “Escalada Capixaba”, de Oswaldo Baldin e lá no meio de mais de 1000 vias catalogadas encontrei o croqui da via.

Aqui faço um parênteses para falar sobre o livro do Baldin. O livro, depois de anos de muito trabalho, está finalmente pronto e indo para gráfica na semana que vem. Com a palavra de quem já viu o material posso garantir que ele ficou absolutamente incrível. Não é um guia de escalada do Espírito Santo, é mais do que isso, é uma coletânea de tudo sobre a escalada capixaba. Se você ainda não garantiu o seu, clique aqui e reserve o seu livro!

Ao ler a história e a descrição da via, aquela vontade de escala-la reascendeu novamente e comecei a pilhar algumas pessoas.

O fato é que no sábado de manhã, num dia super abafado e quente eu estava dividindo a minha corda com nada mais, nada menos que o próprio Zé Márcio! Na verdade, eu só fui me dar conta disso no meio da 2a enfiada quando fiquei viajando na parada. Escalar a via que deu origem ao Calogi, dividindo a ponta da corda com o conquistador da via e mais, fazendo a primeira repetição, era honraria demais para mim!

Numa segunda cordada, o Gillan e o Sandro Souza, outro conquistador da via, fecharam uma dupla e assim partimos pedra acima em duas cordadas independentes!

A primeira enfiada é considerado o chamariz da via, pois começa num belo diedro com muitas agarras, toda protegida em móvel (peças grandes) até ganhar um platô, onde a realidade nua e crua (suja e espinhenta) volta e assim segue, ao melhor estilo “escalada tradicional capixaba em grota”, até a P1.

Gillan chegando na P1 da via. Nem chegou na P1 e olha o estado da camisa…

A segunda enfiada ficou com o Zé que mandou ver a chaminé estreita com muita facilidade até a P2. Dali para cima, a chaminé fica mais vertical e lisa. Para desviar desse trecho, a linha segue pela direita por uma sequência de fissuras em A2 até a P3 que fica logo depois da dominada do platô. Uma das nossas ideias era tentar liberar esse trecho, pois havia boatos de que seria possível. Assim, assumi a frente com isso em mente, mas logo descobri que proteger e escalar eram incopatíveis, pois as colocações eram difíceis e de baixa confiabilidade, além disso, o trecho era bem difícil, porém bem factível. Acabei passando em artificial o trecho e depois os outros tentaram em livre com as peças colocadas, mas no fim, ninguém passou em livre, mas os movimentos foram tirados. Agora é só voltar lá para tentar passar em livre colocando as peças!!!!

Gillan trabalhando a enfiada A2 (3a enfiada) em livre.

A 4a enfiada é uma enfiada curta de uns 15m em diagonal à esquerda passando por um grande bloco entalado que dá para ver da estrada e depois segue em fenda de meio corpo protegido por um grampo e dois Camalot’s #6!!!  A parada fica no final da diagonal em um grampo simples que pode ser reforçado com um Camalot #5. O Gillan e o Sandro emendaram a 4a e a 5a enfiada, mas não é uma boa, porque o arrasto aumenta demais e fica mais exposta, a não ser que você tenha meia dúzia de Camalot #6.

Zé na 4a enfiada, antes de entrar no trecho de fenda de meio-corpo.

Pela ordem, fiquei com a última enfiada que segundo os conquistadores era a mais fácil. Aliás, quando vimos que nós iríamos repetir a via com os conquistadores pensei: estamos feitos! Os caras sabem tudo sobre a via! Belo engano, os vovozinho não sabiam nem a ordem dos rapeis, quem dirá a linha da via… O que era para ser fácil era difícil e a última enfiada deu trabalho. A certa altura eu estava fazendo uns entalamentos de joelho aéreo que só se vê em vias esportivas.

Chegamos no cume por volta das 14h e ali ficamos esperando a segunda dupla, pois para descer, segundo os conquistadores, precisaríamos de 2 cordas. Assim ficamos ilhados no cume do totem com 1 barra de cereal e 200mL de água.

Acho que passamos um bom tempo lá, enquanto ouvíamos o gritos e uivos do Gillan na última enfiada. Foi dar ouvidos ao conquistador para emendar 2 enfiadas e passou o maior veneno… Em via tradicional móvel, emendar enfiada é coisa de quem sabe o que está fazendo. Isso é um aprendizado que já estou calejado de tanto sofrer com esticões e atritos sinistros.

No fim, deu tudo certo e ao final do dia estávamos todos no cume do totem para uma selfie.

Selfie no cume. Foto: Sandro.

Normalmente quem repete essa via faz uma promessa no cume de nunca mais voltará à via, mas eu não fiz essa promessa, porque achei a via muito legal. É ralado como qualquer outra tradicional, mas é uma via que vale ser repetida mais vezes. Leu ai Eric?

Boa semana a todos!

1a enfiada – Camalot #4 ao #6 mais um #2.

2a enfiada – Camalot #5 e #2 para psico.

3a enfiada – Peças pequenas do C3 #1 ao Camalot #2.

4a enfiada – Camalot #2 e 2x #6.

5a enfiada – Camalot 2x #3-#6

Rack: 2 cordas de 50m; 2x Camalot #.5 – #6; 1x Camalot #.3-#.4; 1x C3 01 e 02; 1 jogo de nut; e muitas fitas.

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Comentários

2 respostas

  1. Po, tava lendo o post triste por ter perdido a barca, mas no final até me alegrei!
    So quero saber se quando eu voltar do meu tempo afastado da escalada (pelo menos das que demandam mais tempo), como estarão meus nervos para as roubadas e os expos hahahaha
    Irado!

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