Dicas e técnicas para conquista de vias tradicionais

Esses dias editei um vídeo mostrando todo processo que uso para conquistar uma via tradicional. Filmei tudo com a Gopro acoplada no capacete durante a conquista da última enfiada da via “Raiz Forte” na Pedra Rachada, Cinco Pontões – ES. Ai surgiu a ideia de falar mais sobre esse assunto, porque no vídeo nem tudo fica claro.

Para simplificar a explicação nesse primeiro momento, vou partir da premissa de que a conquista (ground up) é de uma linha tradicional com proteções fixas, sem uso de material móvel e a fixação via furadeira a bateria. Numa outra ocasião poderei escrever sobre conquistar em móvel ou até mesmo usando batedor.

Lembrando também que não é uma normativa, mas sim a forma que eu uso aqui no Espírito Santo, nas condições que encontro aqui. Cada um tem um jeito que acha melhor, eu uso esse método, tenho aprimorado constantemente e tem funcionado. Se alguém tiver algum beta melhor ou mais prático, deixe nos comentários que irei curtir!

Sobre os equipos:

Furadeira – Atualmente uso uma furadeira Bosch de 18V. Não é a mais potente do mercado nem a menor, mas na relação custo benefício e peso potência me atende muito bem. Para mim, o segredo dessas Bosch está na bateria. A relação peso autonomia conta muito quando precisamos levar muito peso para cima e cada 100g a mais no final acaba tendo um impacto significativo, principalmente se estiver conquistando em solitária. Recentemente a Bosch lançou uma série de bateria chamada Pro Core que é mais leve e mais durável (4Ah) que as baterias que vêm no kit. É claro que tudo isso tem um preço… Ainda não descobri quantos furos essa bateria faz, mas já chegou a fazer 22 furos e nem tinha chegado na metade da carga (a bateria vem com indicador de carga). É claro que esse número é relativo, pois depende da rocha, da profundidade, do diâmetro, da broca…

Furadeira com bateria Pro Core de 18V.

Falando em broca, como furo 99% das vezes em granito ou gnaisse, uso chumbadores 3/8 de 2 polegadas e 3/4. Logo, uma broca de 10cm me atende perfeitamente. Além de serem mais leves, essas brocas são mais curtas, o que acaba fazendo diferença na hora de fazer o furo, pois com uma broca mais longa, você precisa projetar a furadeira mais para trás para fazer o furo e dependendo da situação, se você respirar cai. Outra questão sobre broca que andei observado é que essas brocas de 4 canais não são tão eficientes na rocha, pois elas não foram construídas para esta finalidade. As brocas de 4 canais foram projetadas para perfurar concreto com viga. Além disso, parece que essas brocas de 4 canais quebram com mais facilidade na rocha, embora elas façam o furo mais redondo em relação aos de 2 canais. O segredo é usar brocas de 2 canais de boa procedência (nada de usar broca chinesa) e trocá-las com certa frequência. Normalmente as brocas velhas eu reservo para vias esportivas, quando tempo e bateria não são tão cruciais para fazer um furo. Para aquelas conquistas cabeludas, só uso broca nova! E é claro, sempre levo pelo menos 3, pois já tive conquistas onde consegui quebrar 2 brocas na sequência.

Batedor e broca de 10mm com 2 canais (esq.) e 4 canais (dir.).

Para levar o conjunto furadeira, bateria e broca, uso uma mochila de ataque da Black Diamond, modelo Bullet (antiga). Antes usava a Grande Leste modificada da Equinox, mas ela ficou tão surrada que tive que aposenta-la. Gosto dessa mochila da BD porque ela é bem simples e muito leve. Em geral, essa mochila vai dentro de outra mochila durante a aproximação, por isso quanto mais leve melhor. Internamente fiz duas adaptações: (1) Coloquei um placa de EVA no costado, porque ela vem sem. (2) E arrumei uma “caixa” de plástico com um copo de alumínio fixado no fundo. Tudo isso para colocar a furadeira montada com a broca já na posição de saque rápido. O prato serve para broca não furar a mochila. Para não deixar a furadeira cair, uso um cordelete (4mm) conectando à mochila.

Detalhe do esquema interno da mochila para carregar a furadeira. Detalhe para o copo de alumínio preso ao fundo onde vai a ponta da broca com a furadeira.
Sistema de furadeira na mochila em ação durante a conquista da via “Volta por cima” na Pedra da Onça em Itarana.

Além desse conjunto, levo ainda um martelo para bater a chapeleta. Atualmente estou usando um martelo da Petzl (Tam tam) que é muito leve. Como uso basicamente só para bater a chapeleta, esse martelo me atende, mas se precisasse fazer um furo na mão ou ficar batendo pítons, eu acho ele leve demais. Para conectá-lo uso dois mosquetões, um de rosca (Edelrid Purê Slider) , que fica sempre preso na cadeirinha e um segundo mosquetão, oval, para usá-lo como saque rápido. Assim a chance de deixar cair o martelo é zero.

Martelo com 2 mosquetões. O verde vai preso sempre na cadeirinha e o oval para saque rápido.

Para colocar a chapa, ainda levo um assoprador e uma chave num sistema separado. Em vez de usar um cano como assoprador para limpar o furo, uso um limpador de lente de câmera fotográfica, um fuc-fuc! Eu acho mais higiênico e mais prático do que uma mangueira de aquário. Além disso, a depender da posição e do comprimento da mangueira fica difícil alcançar o furo. Acoplado no mesmo sistema, ainda levo uma chave estrela 14 para os chumbadores de 3/8. De todas as chaves que provei, a chave estrela foi a que me atendeu melhor. Tanto a chave, quando o assoprador, prendo no mesmo cordelete que fica preso via malha rápida numa fita a tiracolo.

Conjunto assoprador e chave preso por um cordelete com fita.

Outro material que é muito prático e gosto muito de usa-lo é uma auto regulável. De todas que já provei, para mim a melhor é a da Metolius (Easy Daisy). A única desvantagem é que ela não pode ser usada como auto (1,3kN).

Também costumo levar um molho de clif num mosquetão e um estribo. Atualmente estou usando um estribo da Metolius (Pocket Aider) que quando não está sendo usado pode ser guardado numa bolsa. O que é super prático!

Conquistando em Castelo. Foto: Afeto.

E por último, ainda tem uma retinida que é muito importante, senão essencial para manter alguma conexão com a parada. Ela é importante para içar algum material extra durante a conquista como, mais chapeletas, trocar uma bateria ou ainda uma garrafa d’água. Além disso, dependendo da situação, ela pode servir como uma segunda corda para um rapel de até 60m. Atualmente estou usando um cordelete estático de 6m por 60m para essa finalidade. Não lembro mais a marca, mas acho que é alemã. Recentemente a Black Diamond, Stearling e Edelrid andaram lançando retinidas específicas para rapel.

Antigamente usava uma corda estática de retinida (10mm), mas isso deixava o sistema muito pesado. Atualmente estou preferindo levar a retinida e depois içar a estática se for o caso.

Conquistando em solitária em Afonso Cláudio levando todo material de conquista e a mochila nas costas.

Ah sim, embora não seja mandatório, sempre levo um batedor com broca caso a furadeira me deixe na mão ou fique sem bateria. Como é um equipamento de emergência uso um batedor da Petzl que é bem pequeno e leve. Ele não é tão funcional para um trabalho mais contínuo, mas serve para eventualidades.

Usando o batedor para duplicar uma parada em Itarana.

No mais, vai ainda na cadeirinha, as costuras, alguns mosquetões avulsos e um molho de chapeleta. Para carregar as chapas, uso um mosquetão antigo da DMM que tem a abertura do gatilho grande e cabe pelo menos umas 6 chapas sem risco de deixá-las cair durante o manuseio. Por causa desse risco, também não levo tudo no mesmo mosquetão. Gosto de dividi-las em dois molhos para não correr o risco de deixar cair tudo por descuido.

Molho de chapeleta.

Processo

Sobre o processo de fixação, costumo ir subindo normalmente até achar um local que seja desejável ou interessante fixar uma proteção e assim que consigo uma posição tiro a mochila das costas, retiro a furadeira e faço o furo. Na maior das vezes não martelo para me certificar se a rocha está boa, pois em geral, aqui no ES a rocha é bem compacta. Quando você acaba furando numa rocha ruim, ao iniciar o furo, a furadeira faz um som característico e já sei que a rocha está oca e preciso procurar outro lugar. Algumas pessoas acham esse processo de sacar a furadeira da mochila penoso e preferem levá-la a tiracolo preso na cadeirinha, mas eu acho esse método temeroso em caso de queda, pois há o risco de se machucar com a ponta da broca. Também tenho um amigo que mandou fazer com um capoteiro um coldre de couro para facilitar o saque. Eu não cheguei a provar o sistema, mas me pareceu interessante.

Em outras situações, quando levo muito peso (material móvel) ou a seção é muito difícil, gosto de deixar a mochila presa na última proteção e iça-la pela retinida assim que me posicionar num lugar confortável. Para montar esse sistema uso um fi-fi da Petzl que permite desacoplar com facilidade. As desvantagens desse sistema é que você precisa montar o esquema do fifi com a retinida sem cruzar com a corda guia ou enroscar em qualquer coisa durante o içamento, sob o risco de não conseguir puxar a furadeira. Além disso, esse processo de puxar a furadeira demanda mais tempo e a depender do esticão isso pode ser bem penoso e adrenante. Como dica final, não recomendo o fi-fi da Black Diamond, pois o desenho dele faz com que o sistema desarme com muita facilidade.

Detalhe do esquema do Fifi para içamento da mochila.

Uma vez feito o furo, guardo a furadeira e se possível coloco a mochila nas costas de volta, se a situação não permitir, deixo tudo por fora e só guardo quando terminar de fixar a chapa e bater a auto. O perigo de deixar a furadeira solta é em caso de uma queda não esperada onde você acabar caindo com tudo solto. E para mim, o maior medo é aquela ponta da broca solta.

Feito o furo, limpo o furo, bato a chapa com o martelo e antes de dar o aperto já coloco uma costura e bato a auto. Só depois dou o torque final com segurança. Lembrando que dar torque em excesso não é recomendando pelo fabricante.

Afeto conquistando numa posição típica, apoiado em duas agarras de pé e furando o mais alto possível.

Por aqui não é comum fazer furo parando em clif, pois sempre encontramos uma posição para ficar só no pé e fazer todo esse trabalho. O granito daqui tem muita pouca agarra de quina. Em geral são agarras em cristais que não aceitam bem o clif. Com certeza é muito mais cansativo e por vezes bastante desgastante (a panturrilha queima), mas eu prefiro trabalhar assim. Em situações extremas faço meio furo, coloco o clif, dou uma respirada, depois tiro o clif e volto a furar no mesmo furo. Funciona e não deixa aquele furo feio no lado da chapa.

Raras vezes onde o clif teve alguma serventia para bater uma proteção.

Em nem tão poucas palavras, esses são os “protocolos” que uso com o pessoal por aqui nas conquistas das vias. Espero que alguma dica tenha sido útil.

Infelizmente há pouco material desse tipo na internet, mas como sugestão recomendo o livro “Conquistar e Dividir” de Alex Sandro Ribeiro que trata desse assunto. No mais, se estiver querendo aprender mais sobre o assunto, recomendo acompanhar os mais experientes nesse processo, pois há outras nuances que se captura somente com a prática e a vivência na montanha.

Comentários

2 respostas em “Dicas e técnicas para conquista de vias tradicionais”

Muito útil o post Japa ja tirei varias duvidas aqui principalmente com relação ao cliff, o processo de usar o fi-fi acredito que só na pratica para conseguir entender melhor (cantando o convite pra proxima furada quer dizer conquista kk)

Bora! Qdo ficar menos quente, vamos!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: