Escalada na pedra desconhecida por uma via desconhecida

Pedra desconhecida perto de Mimoso do Sul.

No ano passado, nesta mesma época do ano, o trabalho me levou algumas vezes à cidade de Macaé (RJ). Durante as minhas idas, uma montanha em particular chamava a minha atenção na região de Serra das Torres, região sul do Espírito Santo. A montanha não era nada excepcional quando comparada às outras montanhas da região, como o Morro do Farol ou a Pedra Bonita, mas aquela, em particular, me intrigava.

Imerso no resquício de Mata Atlântica, numa posição geográfica elevada (uns 700m) e visível apenas de alguns ângulos da BR-101, parecia ser uma montanha virgem e promissora. Mas, porém, todavia… Ela ficava perto do Rio de Janeiro e qualquer montanhista carioca que passasse pela BR-101 com um olhar mais atento perceberia aquele potencial.

Para tirar essa dúvida de vez, no último domingo, convidei o DuNada para conferir mais de perto aquela montanha.

Nos encontramos em Cachoeiro por volta das 7h da manhã e rumamos em direção à pedra. Erramos a primeira entrada, erramos a segunda e somente na terceira tentativa achamos o acesso. Naquela região, há muito problema com as imagens e estradas do Google Maps. Atravessamos uma grande planície e depois começamos a subir uma grande encosta em direção à base da montanha. Tocamos o carro até o fundo do meu jeep começar a bater. Achamos prudente largar o carro por ali mesmo, no meio de um grande bananal, e iniciamos a caminhada morro acima. Fiz um esforço sobrenatural para tentar guardar o ponto exato onde largamos o carro, pois fiquei com medo de não achá-lo na volta, principalmente ser fosse a noite.

A aproximação nos custou aproximadamente 2h de caminhada pesada e sufocante por dentro uma mata fechada e sem vento. Praticamente passamos por todas as fases de uma trilha desta natureza. Na primeira fase, “a fase da euforia”, começamos a caminhada fazendo piadas e com sorriso amarelo no rosto. Ficamos felizes por ter achado uma antiga trilha que nos poupou alguns minutos. Depois veio “a fase da realidade”. A trilha estava nos levando para o lado errado, abandonamos, pegamos um novo rumo e saímos abrindo picada na mata fechada. Horas depois veio “a fase da exaustão”. Parecia que a subida não rendia. A mata não dava trégua e o terreno sempre muito inclinado. A certa altura, eu abria 100m de mata, me jogava no chão e ficava esperando o DuNada. Quando ele chegava, andava mais um pouco enquanto ele ficava descansando. Parecia que estávamos escalando em cordada. Por fim, entramos na “fase do desespero”. Vimos a pedra pela primeira vez por entre as copas das árvores. Parecia logo ali, mas parecia que a cada passo, a mata ficava mais fechada e nós mais exaustos com o calor e os mosquitos que não davam trégua.

Aproximação.

Chegamos na base da pedra por volta do meio-dia e fomos procurar uma canaleta/chaminé que pudesse nos levar até o contraforte da montanha. Tentei tocar solando com a mochila, mas achei mais prudente nos encordar, pois um acidente naquele lugar poderia ser trágico. Toquei uma chaminé de uns 15m protegido em móvel e cheguei no contraforte. Dali para cima, uns 20m de rocha lisa nos separava do cume. Fiquei um pouco decepcionado ao encontrar um granido tão liso e desprovido de qualquer possibilidade de subir em livre. Mais um reconhecimento na área e acabamos encontrando uma linha de “grampo sobre grampo” na aresta sudoeste da montanha. Não sei se eu fiquei triste ou feliz. Triste porque subimos a montanha com material de conquista e não teríamos a oportunidade de conquistar um cume virgem, mas feliz por alguém ter feito o ingrato trabalho de abrir uma ferrovia para acessar o cume.

Não conseguimos descobrir a autoria da via, mas achamos que seja dos cariocas pela proximidade geográfica e estilo. E se fosse de algum capixaba, provavelmente teria entrado no livro do Baldin. Pelo estado dos grampos achamos que a via fosse do final da década de 90, mas nada muito conclusivo.

Croqui da via.

Já que estávamos ali, tocamos o A1 e depois saímos em trepa bromélias até o cume. No cume, sob um grande boulder, ainda encontramos outro grampo perdido que foi batido apenas para confirmar que alguém esteve no cume.

No trecho final das bromélias.
DuNada vencendo o último bloco.
Grampo no cume.

Ficamos no cume até não aguentarmos mais o calor e descemos. Da base, mais uma hora de caminhada abrindo mato no facão nos levou de volta ao bananal e como que por um milagre ainda achamos o carro sem problema. Depois foi só entrar no carro, ligar o ar condicionado no talo e descer até o posto mais próximo para beber uma Coca gelada!

Serra das Torres e a praia ao fundo.
Foto no cume.

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4 Responses

  1. Hahahahaha que treta!
    E muito ruim escalar uma parada que a gente não sabe nenhuma informação! Quem, quando?
    Mas quem sabe com esse post na net o pai da criança aparece?!
    Eu to tão na fome de pedra que até essa roubada eu topava! Hahahaha

  2. Recomendo!!!! Eu gostei!!! O Crux foi dentro da mata, 4 grau E5. Kkkk isso o japonês não conta

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