Era assim que chamava quando o via e ele prontamente respondia:

Japa!!!!

Com muita animação e entusiasmo. 

As nossas conversas, em geral, eram para falar de escalada. Ele contava as últimas escaladas “incríveis” que fazia, eu contava as minhas roubadas e conversávamos sobre os projetos futuros. E nos últimos anos, toda vida dele estava voltada para El Chaltén, mais especificamente no Fitz. Era uma paixão compreensível, pois eu como escalador sabia que, às vezes, a gente se apaixona por alguma montanha e aquilo fica martelando na nossa cabeça.

Desde que vim morar no Espírito Santo, em 2008, conheço o Amaral, não escalávamos com frequência, mas nos últimos anos fizemos algumas escaladas épicas, como a repetição do Tubarão nos Três Pontões de Afonso Cláudio ou a repetição da via Moonwalker na Pedra Riscada (MG). Mas a escalada que mais vem à mente nessas horas foi a repetição da chaminé UNICERJ no Pico da Andorinha em Cachoeiro de Itapemirim, no ano passado, onde ele meio que entrou na barca de última hora e acabei dividindo a ponta da corda. Amaral era uma das poucas pessoas que eu sabia que a ponta da corda era garantida. Dificilmente ele passava a vez ou desistia da responsabilidade. Na verdade, ele era fominha por uma ponta de corda. Se deixasse, guiaria todas as enfiadas de uma via tradicional sem reclamar, porque ele gostava daquele gostinho de pimenta nos olhos. Era daqueles caras que chegava na parada e falava:

Se quiser, eu posso pegar essa também!

Ainda lembro claramente dele guiando a 2a enfiada dessa via, passando por dentro de uma chaminé encharcada de restos de insetos que formava uma pasta preta. A situação era totalmente insalubre, mas dava para ver nos olhos dele a alegria de estar numa roubada. Nunca me xingou por isso, apenas agradeceu por tê-lo levado para montanha.

Foto no cume! Pedra da Andorinha. Foto: Afeto.

Amaral era um escalador completo. Gostava de montanha, gostava de parede, gostava de esportiva e gostava de boulder. E em todas as modalidades ele ia bem. Era um frequentador assíduo do Calogi. Além de quebrar várias agarras das vias, ele mandou várias vias duras de lá.

Foi em Calogi que escalei e o vi pela última vez no final do ano. Eu estava indo para Arenales nos próximos dias e ele estava descendo para El Chaltén. Sabia não o viria por um bom tempo, até final de janeiro. Também tinha a plena consciência de que poderia acontecer o que aconteceu, seja com ele ou comigo mesmo, afinal de conta estávamos indo para montanha. Por isso curtimos bastante aquele dia com os amigos na montanha.

Amaral na segue em Calogi.

Não sabemos o que de fato aconteceu naquele montanha. Talvez nunca saberemos. Não o julgo pelas atitudes, pois ele tinha um estilo de escalada que eu também aprecio. Ele gostava de subir leve, escalar rápido e sair da montanha o quanto antes. Ele sempre falava disso comigo. Inclusive, com frequência, a gente conversava sobre estratégia de escalada para ganhar tempo. 

A semana que sucedeu ao acontecido foi muito difícil para todos nós, em dias de Whatzap há muita notícia desencontrada, muita (des) informação, muitos textos e comentários desnecessários que vão sugando as nossas energias.

No sábado, dia 26, Afeto, DuNada e eu resolvemos fazer uma escalada em homenagem a ele. Afinal de conta, a última vez que nós três nos encontramos foi quando o Amaral estava conosco na Pedra da Andorinha.

A ideia inicial era escalar o Penedo, mas logo descobrimos que o pico está fechado pela prefeitura desde Abril passado e logo mudamos de plano e fomos para via Tiazinha na Pedra do Vigia, no centro de Vitória. Acabamos pegando uma variante nova que parecia mais legal, tocamos até o fim e ainda fomos até o cume da montanha para descer caminhando pelo parque.

Foi uma escalada tranquila, demos boas risadas, mexemos com o DuNada (como sempre), mas ao mesmo tempo foi uma escalada introspectiva. Eu acho que foi uma bela e silenciosa homenagem que prestamos a ele.

Olha a Onça!
Eu na saída da via por uma variante. Foto: Caio Afeto.
Escalando, filmando, fotografando e dando segue.
DuNada nos metros finais da via.
Baia de Vitória.
Vitória e Vila Velha de cima. Foto: Caio Afeto.
No cume da Pedra do Vigia. Foto: Caio Afeto.

À tarde ficamos sabendo que rolaria outra homenagem espontânea, desta vez no Morro do Moreno, então fomos para lá esperar o final do dia. Até lá ficamos escalando um pouco por ali mesmo. O Morro do Moreno era outro lugar que o Amaral frequentava muito. Nos últimos tempos, ele gostava de ir para o Moreno treinar. Pegava uma mochila, enchia de peso e subia até o cume como parte da preparação para o Fitz.

No final do dia, acabamos parando na base da Testa, pois fomos escalar a via Urubu e dali resolvemos subir à francesa pela Bela Vista para encontrar a galera no cume. Cheguei cedo e havia pouca gente, mas a medida que o tempo ia passando, enquanto ficava na segue, via as pessoas aparecendo pouco a pouco. Achei aquela cena muito bonita, muito natural.

Ao final, fizemos um circulo e prestamos uma homenagem ao nosso Amagal enquanto víamos o sol se por atrás do Convento da Penha.

Valeu Amagal! 

Entardecer no Morro do Moreno.

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8 respostas

  1. A tristeza é grande, principalmente para todos nós escaladores do ES. Que Deus te abençoe, Amaral!

  2. Bela homenagem!
    Amaral sempre alto astral. Escalador completo, muito bem colocado.
    Nunca o vi sem o expressivo sorriso no rosto!
    Nesta semana badvibe sempre me vinha à em mente aquela musica da Sheryl Crow: ” If it makes you happy / It can’t be that bad / If it makes you happy / Then why the hell are you so sad”
    Com certeza ele não gostaria de ver ninguém triste por ele.

  3. Bela homenagem japa!
    Amaral é o tipo de escalador que vai fazer falta aqui na nossa pequena comunidade. Escalador raiz, destemido e que sonhava grande!

  4. Vdd Zé Luiz, mas acho que a melhor coisa que nós podemos fazer é ir para pedra homenagea-lo.

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