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Via Sacra

Uma vez perguntaram para o escalador Keita Kurakami por que escalava em estilo solitário e ele respondeu: porque é desconfortável.

Sem dúvida foi uma boa resposta! O termo desconfortável não se restringe ao desconforto físico, mas também ao psicológico que essa modalidade traz. Muitas vezes, gosto de pegar uma via fácil e repeti-la em solitária só porque nesse estilo, o jogo muda totalmente. Tudo fica mais complexo, comprometedora e sem dúvida “desconfortável”.

Falando dele, essa semana perdemos o Kurakami em decorrência de um problema de saúde. Tem uma matéria bem interessante na Climbing sobre o assunto. Lembrei dele, porque no último domingo iniciei a conquista de uma nova via, em solitário, na Pedra do Pelado em Aracruz.

A Pedra do Pelado, também conhecida erroneamente como Monte Serrat, é um maciço granítico que fica uns 100km da capital Vitória. Em seu cume há uma pequena capela construída por um morador local da década de trinta e hoje é destino de peregrinação de evalngélicos e aventureiros de final de semana.

Pedra do Pelado

Em 2010, foi conquistada a única via da montanha, a via Capela, pelo Baldin, Tesourinho e Raul. Em 2014, repeti essa via com o Graveto e o DuNada e numa mais voltei.

Esses dias comecei a revirar algum projeto de inverno e lembrei dessa pedra. Resolvi estudar um pouco mais a pedra e vi uma boa oportunidade na face leste, à direita da via Capela. Em 2014, quando fui lá, não visualizei nenhuma oportunidade interessante. Lembro também que uns anos depois, passei por lá novamente procurando um setor esportivo, mas por falta de agarra acabamos descartando a área.

A ideia era ir com o único escalador local de Aracuz, o Tesourinho, mas ele acabou pulando fora de última hora, então resolvi ir sozinho mesmo. Estava precisando me sentir “desconfortável”.

Início da trilha.

Para ter uma margem de segurança, quando vou sozinho, gosto de ir cedo, então sai do domingo às 4h20 de Vitória. Por volta das 6h já estava estacionando o carro na última propriedade para pedir passagem.

A caminhada foi relativamente curta, mas com a mochila pesada foi mais sofrida. Às vezes, faço duas viagens devido ao peso, mas dessa vez fiquei com preguiça e joguei tudo na mochila… Duas cordas, dois jogos de móvel, furadeira, 26 chapeletas, 3L de água… Desconfortável!

Aproximação pelo pasto.

Mas assim que cheguei na base, o cansaço deu lugar à alegria ao ver que a fenda que havia visto numa foto era um enorme diedro de uns 60m, toda limpa! Para não dizer que era perfeito, ele era um pouco mais larga do que o desejado e pareceu um pouco instável em alguns pontos.

Arrumei tudo e comecei a conquista por volta das 7h30. Como tinha poucas peças grandes, tive que espaçar bem as proteções. Também descobri que, devido à largura da fenda, era difícil escalar se entalando, então tive que escalar por fora e usar a fenda apenas para proteção.

Ao final de uns 30m achei um bom platô fora da fenda e resolvi estabelecer a P1 ali, já que meu rack estava bem vazio para tocar mais 30m até o final da fenda.

Quem não tem peça, estica!
Estabelecendo a P1.

A segunda parte da fenda se mostrou mais exigente. A rocha também não era lá grandes coisas. Parecia que a qualquer momento iria tomar um voo épico com um bloco na mão. Ao final da fenda, uma travessia, protegida por uma chapa, me levou a um grande platô, devidamente ocupado por uma família de macacos.

Início da 2a enfiada.
Enfim, uma peça decente!

A essa altura, eu já estava muito “desconfortável”. A fenda sugou muita energia e o Sol estava implacável. Mesmo estando no auge do inverno, esse ano a temporada está sendo muito quente. Meu desejo era beber toda água que havia levado em um único gole, mas precisava poupar água.

Fiz um descanso mais prolongado no platô e parti para 3a enfiada. Ali havia visto duas possibilidades: seguir por uma fenda/chaminé da esquerda ou encarar uma placa lisa pela direita. Pela foto não estava claro se era uma fenda ou chaminé, mas assim que cheguei lá descobri que era uma chaminé. Daria para seguir pela chaminé, mas ela levava a um beco sem saída. Depois, teria que tocar uma travessia de uns 60m para voltar para linha ou seguir varando o mato até o cume. Já a placa lisa tinha esse problema, ser lisa… Sem muita opção, sai para placa.

Fiz um pequeno solo de uns 30m até onde o tênis permitiu e bati uma parada, a P3. A partir dali o bicho iria pegar. A placa parecia “desconfortável”. O Sol estava me fritando, mas parecia que, logo ali, logo depois, em breve, a pedra iria dar uma aliviada.

Estiquei 30m e o alívio não chegava. Assim que achei um platô, estabeleci a P3, pois parecia que o desconforto não iria acabar tão cedo quanto imaginava.

Pior do que tocar a placa lisa foi voltar para trazer a mochila. Tinha uma esperança de que iria sair por cima no final do dia, então subi com tudo, incluindo os dois jogos de móvel. Inclusive, a inspiração para o nome Via Sacra vem dai!

Esticando a 4a enfiada.

A próxima enfiada parecia a cópia da enfiada anterior, logo ali, depois da virada, tudo parecia ficar mais fácil, pura ilusão, puro desconforto. No entanto, dessa vez consegui esticar uma corda inteira. A essa altura, a parede já estava na sombra, o que deu uma boa moral.

Estabeleci a P5 num lugar horrível. A parede não oferecia nenhum lugar decente, então tive que parar onde a corda meio que acabou.

Acabou a coragem, hora de bater uma chapa!

Olhei para cima, estudei as possibilidades, contei as chapas que eu ainda tinha, vi a quantidade de água e conclui que não iria conseguir sair por cima. Eu tinha mais 5 chapeletas para tocar mais uns 90m e sabia que não tinha trechos com fenda para cima. Poderia arriscar uma aventura épica, mas como estava sozinho achei melhor deixar uma margem de segurança.

Como ainda estava com tempo, resolvi tocar mais uma enfiada para deixar pronta para próxima investida. A 6a enfiada se mostrou bem tranquila. Bati uma chapa para orientar a via e toquei até o segundo de 4 platôs da via. Dali, o cume parecia muito perto, mas sabia que isso era uma ilusão. Estudei a próxima enfiada para o retorno e iniciei a descida. Descer sozinho é sempre muito assustador.

Um auto retrato antes de iniciar a descida.

A descida foi tranquila. Cheguei na base em menos de 1h. Empacotei tudo e fui puxar a corda. Após puxar uns 20m a corda prendeu. Tentei de todas as formas e nada. A outra ponta já estava uns 15m do chão. Sem muita opção, tive que voltar a vestir a cadeirinha e subir pela corda rezando para que ela não resolvesse se soltar no meio da subida. No último rapel tinha usando um sistema que não gosto muito justamente porque poderia acontecer o que aconteceu. Subi praticamente 60m e finalmente consegui desembolar e liberar a corda.

Até então posso dizer que a via está ficando muito legal. A fenda de 60m é ótima e o trecho que agarrência será um bom testpeace. A parte que falta parece seguir trechos de agarrência fácil com platôs. E o gran finale será chegar bem no cucuruto da capela para coroar a escalada.

Morro do Pelado ao amanhecer
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Blog Conquista Trad

Pancas, lado B

Domingo, 22h30! Voltei já faz algumas horas de Pancas, onde passei o final de semana. As mochilas ainda seguem montadas. A preguiça não me permitiu desmontá-las. Ficará para amanhã.

Sábado

Conheci três pessoas em Pancas no sábado enquanto rodava pela região em busca de um projeto para o dia seguinte, domingo.

Logo que cheguei na cidade, fui para a localidade de Córrego Bananal do Roque, atrás de um totem que havia visto no Google. Dei mole e esqueci de baixar as imagens do Google Maps no cash e região não tem sinal de celular. Tive que procurar o melhor acesso à moda antiga, mas consegui chegar numa casa. Uma senhora magra de dentes brancos me recebeu na porta de casa. Usei a mesma fala de sempre para me apresentar e explicar o motivo de estar ali. Logo em seguida aparaceu um senhor numa moto com duas crianças na garupa, uma na frente e outra atrás. Presumi que fosse o marido da senhora e seus filhos. Apresentei me novamente e expliquei que estava querendo escalar aquele totem, apontando para pedra. Como de praxe, o senhor fez uma cara que já estou acostumado. Falei que queria levantar o drone para ver mais de perto a pedra. As crianças acharam o máximo. Convidei os moleques para ver a imagem na tela enquanto voava. O senhor tentava, em vão, procurar o drone no céu e a senhora ficava só olhando com a mão no queixo. Com certeza terão assunto para semana.

Fazendo a alegria das crianças.

A pedra não se mostrou promissora. Agradeci a atenção e fui embora.

Segui para um segundo ponto que havia marcado como pedra com potencial para conquista. A ideia era procurar algo no sábado e no domingo conquistar com o Iury, que viria de Colatina no dia seguinte.

Fui para o segundo alvo. Era um alvo secundário, baixo potencial. A primeira vista não pareceu promissora, mas a medida que fui chegando mais perto começou a ficar interessante. Era um clássico totem escorado numa montanha ao lado. Pela quantidade de boulders da base sabia que tinha potencial. Mais um voo de drone e bingo! A linha estava lá! Um sistema de fendas da base até o topo.

Fui atrás do dono das terras para explicar as intenções. Cheguei numa casa que presumi ser do dono. A casa estava vazia, mas parecia ter gente. De repente, chega uma moto com um senhor de boné com bornal. Cumprimentei e expliquei a situação. O senhor que se apresentou como Sr. Gilis. Quis saber mais sobre o exôtico esporte. Achou que eu era louco. Ficou preocupado com a segurança. Mostrei o meu rastreador satelital para passar alguma credibilidade. Mostrei uma chapeleta com chumbador e um Camalot para explicar que era tudo muito seguro. Com uma voz mansa, me convidou para tomar um café. No interior, não se nega café. Aceitei, mesmo sabendo que seria um café doce com muito açúcar. Em vez do café, foi me servido um suco. Acho que era de goiaba. E doce com força! Mas o dia estava muito quente, então não me importei muito. O senhor Gilis autorizou a passagem e prometi que voltaria no dia seguinte com um amigo de Colatina para tentar subir a pedra. Ele sorriu meio incrédulo e me despedi.

Pedra Gilis visto da propriedade.

O sol já estava querendo se por atrás das montanhas, já tinha um bom projeto para o dia seguinte, mas quis aproveitar o belo dia e fui checar uma terceira montanha. Mais uma vez fiquei sem sinal e tive que ir no tato até chegar a localidade de São Luis Alto. Em frente a pedra tinha uma casa com algumas pessoas no fundo. Achei melhor que identificar antes de levantar o drone. Mais uma vez, contei a mesma história. Logo me chamaram para entrar, ofereceram café (doce, claro), pão caseiro com manteiga caseira e queijo. É feio negar comida na roça, então me servi. Olhei para montanha e vi que o céu estava bonito. Subi o drone para ver melhor a pedra e fazer umas imagens. O Jonatan, um homem alto de meia-idade, ficou bem curioso em ver a região de cima, me acompanhou na exploração aérea. A pedra se mostrou interessante. Talvez volte no futuro para conquistar uma skyline conectando as duas montanhas pela crista da pedra, mas a escalada me pareceu bem fácil.

Pedra sem nome.

Engraçado como a escalada proporciona esse tipo de interação. Em uma tarde conheci três pessoas com histórias totalmente diferentes morando em regiões próximas. Sem dúvida é um dos privilégios que a escalada proporciona.

Entardecer clássico em Pancas.

Domingo

Domingo começou sem pressa. O Iury se encontrou comigo no camping do Fabinho, onde passei a noite. Dali voltamos até a segunda pedra que havia visto no dia anterior em seu carro novo, um Maverick!

A aproximação foi tranquila. Fiquei com medo dos carrapatos, mas agora, sentado aqui, não sinto nenhuma conceira suspeita. Acho que estou limpo!

A base se mostrou um pouco espinhenta, mas as fendas faziam esquecer os espinhos. Vimos três opções de saída, mas acabamos decidindo pela mais fácil. O simples sempre é o mais elegante.

O Iury olhou para fenda em diagonal e pediu para tocar essa. Ele não costuma pedir a “ponta quente”, mas como ele falou com convicção, nem questionei. Só entreguei o molho de móvel e ele foi à luta. A travessia em diagonal saiu de boa. Mesmo em móvel, ele mandou muito bem e estabeleceu a P1 numa árvore após esticar uns 20m de corda.

Iury na saída da via.

A próxima enfiada ficou comigo. Por um instante parecia estar escalando em Yosemite. Fenda frontal de mão, lisa, colocações fáceis e bons entalamentos, mas logo acima acordei do sonho e voltei à realidade quando encontrei um terreno mais choss com blocos soltos.

Seguindo a ordem, o Iury voltou à ponta da corda novamente para fazer uma pequena travessia para transferir a parada à esquerda. Logo que ele saiu tocou uma pedra do tamanho de um fogão que ao mínimo toque, balançou perigosamente. Em todos esses anos de escalada nunca havia visto uma pedra daquele tamanho balançar daquele jeito. Momentos de tensão, pois a pedra poderia cair a qualquer momento e cortar as cordas. Passado o susto, o Iury estabeleceu a P3 logo acima e quando subi de segundo botei a pedra para baixo.

A próxima enfiada parecia super tranquila. O Iury falou que era um II grau. Nunca vi um II grau com aquela verticalidade, mas o Iury achou que daria conta e pediu a ponta da corda. Só que logo descobriu que a banda não tocava do jeito que ele achou e passou a ponta para mim.

Iury na saída da 4a enfiada.

Sabia que essa enfiada seria por uma fenda até conectar numa chaminé e depois ganhar um platô, mas assim que virei uma laca, descobri que a fenda de cima era, na verdade, uma canaleta e não uma fenda. Considero me velho o suficiente para conseguir distinguir uma fenda de uma canaleta de longe, mas dessa vez a natureza me pregou uma peça. Por sorte, a parede tinha muitas agarras e deu para seguir pela face.

Mar de agarras da 4a enfiada.
Iury limpando a 4a enfiada.

O Iury conquistou outra enfiada curta para ganhar um platô confortável. A essa altura, as nossas energias já estavam da metade para abaixo. Nessa conquista resolvemos subir muito leve. Dois jogos de móvel, uma corda de 9,4mm, uma retinida de 6mm, furadeira, sem tênis, nem comida. Tudo isso numa única mochila, a da furadeira. 

Iury, orgulhosamente mostrando a P5 em móvel.

Mesmo leves e rápidos, o sol estava nos castigando mais do que o esperado. Poderíamos ter terminado a via ali, mas, logo acima, tinha um headwall que parecia ser muito interessante.

Assumi a ponta e fui para o headwall. Bati uma chapa, a terceira da via até então. Embrenhei num diedro estranho com proteções duvidosas até chegar na virada final. Bati a 4a chapa da via e fiz a montada final para ganhar o cume.

Chamei o Iury e conferimos o relógio: 12h45.

P6!
Iury chegando no final da via.

Como tínhamos subido fazendo paradas móveis, tivemos que abrir uma linha de rapel independendo para não descaracterizar a via.

Quatro rapéis depois, estávamos novamente no chão com o dever cumprido e a certeza de que havíamos conquistado mais uma das mais belas vias de Pancas.

Rapelando!

Batizamos a via de Maverick em homenagem ao carro novo do Iury. Estávamos bem criativos.

Sobre a via posso, posso dizer que é uma escalada muito variada com direito a fenda de mão, chaminé, agarrência, parada em árvore… Monotonia zero! Para quem gosta de escalar em móvel, com certeza será um prato cheio!

23h31, pronto! Vou dormir!

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Blog Viagem

Escandinávia

Uma introdução bem básica sobre modelo de exploração de petróleo no mundo: basicamente há três tipos de modelo: o privado, teoricamente sem a participação do Estado, como nos Estados Unidos; o modelo estatal onde o Estado detém o controle total, como na Venezuela e alguns países do Oriente Médio; e o modelo misto, com participação do Estado e da iniciativa privada, como no Brasil e na Noruega.

Outro resumo sobre a economia da Noruega dos últimos anos: até a década de 60, a economia da Noruega girava principalmente em torno da indústria da pesca, uma vez que apenas 3% das terras são cultiváveis. Foi a partir da descoberta do campo de Ekofisk, no offshore da plataforma continental e sucessivas novas descobertas, que o país se tornou um dos principais produtores de petróleo do mundo e o principal exportador de gás natural para Europa, ganhando mais força recentemente com a guerra na Ucrânia.

Tanto a Noruega, quanto o Brasil possuem algumas semelhanças geopolíticas na forma de gerir esse recurso, mas é sabido que o país nórdico goza de um dos melhores índices de qualidade de vida do mundo, enquanto o Brasil está numa posição bem mediana.

Nesse sentido, sempre me perguntei o que eles têm que nós não temos? O que precisamos para chegar lá? Não é preciso ir até lá para entender as diferenças, mas sempre tive muita curiosidade de conhecer um pouco mais sobre esse país, suas belezas naturais e compreender melhor o estilo norueguês.

Assim, no início de junho, Paula e eu embarcamos para Noruega para passar 10 dias entre cidades e fiordes noruegueses para tentar buscar algumas respostas.

Uma das coisas que os noruegueses apreciam muito é o contato com a natureza, principalmente durante o verão, quando há luz solar durante quase 20h por dia. Ali, tive a primeira lição norueguesa: assim que chegamos em sua capital, Oslo, entendi o quanto eles curtem a vida em sua máxima plenitude, principalmente após um rigoroso inverso e sabendo que em breve, aquele Sol da meia-noite irá dar lugar a escuridão do inverno. Nós brasileiros não temos esse problema e vivemos um verão de 365 dias e às vezes não damos o devido valor à finitude.

Sol da meia-noite.

Uma das formas que os noruegueses têm para aproveitar o curto verão é viajando pelo país em seus trailers. Inclusive, por lei você pode encostar o carro em qualquer lugar e pernoitar, respeitando claro, algumas regras básicas. A questão da segurança nem entra em cogitação num dos países mais seguros do mundo, então não há preocupação em encostar o carro num lugar ermo e pernoitar.

Para uma experiência mais autêntica, nós também alugamos um trailer para aproveitar melhor tudo que a Noruega tem a oferecer.

Caso alguém tenha caído nesse post em busca de informações sobre viajar pela Noruega de trailer, deixarei aqui um link de um blog bem completo, em português, com todas as informações sobre o assunto.

Viajar de trailer está longe de ser uma experiência econômica. Sai mais caro do que alugar um carro normal e ficar de barraca em camping. Mas tem algumas vantagens como o fato de poder dormir em qualquer lugar, poder se deslocar com rapidez e por não precisar ficar montando e desmontando barraca diariamente. Outra vantagem do trailer é a cozinha integrada que permite cozinhar em qualquer lugar a qualquer momento. Sem contar a experiência de dormir ao ar livre.

Falando em custos, a Noruega é um país caro, até para os europeus. Para nós brasileiros, com o Real se desvalorizando a cada ano, ter uma cozinha móvel foi uma economia significativa.

Dirigir pela Noruega é uma experiência que chega a ser tedioso! Estou acostumado a pegar estrada todo final de semana para escalar pelo interior do Espírito Santo e tenho a plena consciência de que passo mais perigo dirigindo do que escalando. O meu coração bate mais forte dirigindo do que num esticão!

Imaginem um lugar onde TODAS as regras de trânsito são respeitadas a risca, incluindo o limite de velocidade que não passa de 80 km/h! Imaginem a cena: você num Volvo de última geração, numa estrada perfeita, com asfalto impecável e todo mundo andando religiosamente a 80 km/h. A vida chega a ser chata… Conto nos dedos as vezes que vi alguém me ultrapassar e lembro apenas de uma vez alguém fazer uma ultrapassagem mal feita em 10 dias.

Falando em estrada, outra lição norueguesa foram os túneis! Nunca vi tantos túneis na vida quanto lá.

Quando comecei a estudar as estradas norueguesas me intrigou as longas retas em regiões montanhosas, mas não havia entendido que eram túneis, pois o tempo de deslocamento era padrão Espírito Santo: algo como 60 km por hora. Ou seja, por todos respeitarem os limites de velocidade, as viagens acabam ficando mais demoradas, mesmo com longas retas. Aliás, já tinha lido em algum lugar para não menosprezar as distâncias na Noruega.

Com isso em mente, posso dizer que a Noruega é um país enorme. Em 10 dias de férias, conseguimos pincelar rapidamente uma pequena parte do país.

O nosso roteiro começou pela capital Oslo, onde alugamos o nosso trailer que, na verdade, não foi bem um trailer, mas sim campervan. Seria algo como pegar uma van de carga e colocar uma cama com uma cozinha. Sem banheiro e sem chuveiro. Caso esteja buscando recomendações, alugamos pela Cabin Camper. Gostamos muito do serviço e da van deles. Sei que eles têm outras opções de campers, mais caras e mais simples também.

Nossa casa.

De Oslo rumos pela costa sul até a cidade de Stavanger que é uma espécie de Macaé na versão Noruega. Para quem não sabe, Macaé é uma cidade do litoral norte fluminense famosa por ser o principal hub do petróleo. Inclusive em Stavanger tem um museu do petróleo que conta um pouco a história desse recurso que foi uma espécie de bilhete premiado deles.

Tentei achar uma relação entre as infindáveis redes de túneis do país com o petróleo para saber se foi financiado por esse boom, mas não achei uma matéria sobre o assunto. No entanto, presumo que há alguma relação, até porque não é barato sair abrindo até 30 km de túnel no granito!

Em Stavanger fizemos a famosa caminhada de 8 km, ida e volta, até o mirante Preikestolen, de onde se tem uma vista privilegiada dos fiordes do sul.

Preikestolen.

Os fiordes da Noruega sempre alimentaram o meu imaginário. Os fiordes são grandes vales que se formaram pela passagem e recuo de uma geleira e que atualmente estão parcialmente inundados pelo mar.

Cachoeira Langfoss,
Sognefiord, o maior fiorde do mundo.

Estudei muito sobre os fiordes durante a graduação em geologia, sem nunca ter visto um de verdade até então! É como se um médico estudasse o coração somente nos livros, sem ter visto ou tocado um de verdade. Em outras viagens já tínhamos visitados alguns fiordes, mas sem dúvida, os fiordes da Noruega são os mais estudados e famosos.

A parte sul da Noruega foi OK. Não achamos nada lindo de morrer quando comparado com os fiordes do norte. Talvez por termos pego mais o final da primavera com dias frios e chuvosos. Nessa primeira parte, o anorak fez a festa e parecíamos que estávamos em pleno inverno.

De Stavanger fomos em direção à cidade de Flam, famoso ponto de parada dos navios cruzeiros com aposentados em busca de um pouco de aventura no passeio de trem pelas montanhas. Para nós, viajantes perdidos no meio de tantos aposentados, o objetivo era o passeio de barco para ver de dentro o fiorde mais estreito do mundo. Foi uma experiência congelante, mas valeu à pena ficar durante 2h no deck do navio quase virando pinguins!

Fiorde Naeroy, em Flam.
Casas típicas em Flam.
Mirante de Stegastein.

De Flam, seguimos para oeste, até a antiga capital, Bergen, a segunda maior cidade da Noruega.

Após passar alguns dias em meio a paz dos fiordes, chegar numa cidade grande foi bem impactante. A gente se desacostuma a ver gente.

Bergen é uma cidade bem simpática. Tivemos muita sorte, pois lá chove, em média, 285 dias por ano e chegamos num dos 80 dias ensolarados.

Bergem.

De Bergen seguimos para o norte em busca dos fiordes do norte.

Lá tive uma grata surpresa ao percorrer longos trechos de estrada nas partes altas ainda com neve do inverno passado.

Em toda Noruega há diversas estradas cênicas com uma vista mais linda que a outra, mas para isso é preciso sair das vias principais e rodar pelas estradas secundárias. Por sorte, durante uma estadia num camping conhecemos um casal de aposentados holandeses que nos apresentou o mapa das rotas cênicas da Noruega. Com isso pudemos sempre viajar pelas estradas mais bonitas da região. Esse mapa faz parte de um catálogo anual com a lista de todos os campings do país e pode ser encontrado gratuitamente na recepção dos principais campings.

Lago congelado.
Boayoyra.
Geleira de Boyabreen
Pista de ski cross country.

Nosso ponto mais setentrional da viagem foi a cidade de Geiranger, outro ponto de chegada de cruzeiros que sobem até ali pelo maior fiorde do mundo.

Geiranger também tem, o que é para mim, o mirante mais bonito da Noruega. Quando criança lembro de ter visto uma foto da Noruega desse mirante e aquilo ficou gravado na minha memória. Foi muito legal estar naquele mirante e conseguir reconhecer os elementos da foto. E para coroar, ainda pudemos ver a chegada de um enorme cruzeiro no fiorde, igual o da foto que havia visto na infância.

Mirante de Geiranger.

Entre fiordes e montanhas nevadas, não tem como não passar desapercebido pelas belíssimas igrejas nórdicas da Era Viking. Não sou cinéfilo nem entusiasta da mitologia nórdica, mas as igrejas são uma atração a parte que merecem uma atenção especial. Visitamos duas em especial, consideradas as mais importantes e originais da Noruega. A Lom stavkyrkje que fica em Lom. Essa funciona até hoje. E a de Borgund stavkyrkje em Borgund, onde tem um belo centro de visitante completo. Sem dúvida recomendo conhecer as duas, por serem únicas no mundo nessa arquitetura.

Igreja de Lom.
Detalhe do telhado em madeira.
Igreja de Borgund

A partir dali iniciamos a longa jornada de volta a Oslo. Foi uma longa viagem de 300 km a 80 km/h, perfeita para refletir toda experiência dos últimos dias e pensar um pouco mais sobre o que o Brasil precisa para ser uma Noruega.

Entardecer em Slovika

Sobre Oslo, posso dizer que tive uma boa impressão. Uma cidade limpa, organizada e muito agradável. O ponto alto foi visitar o famoso quadro “O grito” do pintor norueguês Munch. Quando o conjunto da obra foi exposto pela primeira vez no século passado, foi recomendado pela crítica que as grávidas evitassem a exposição por ser muito perturbadora. De fato, o quadro tem um quê perturbador, intrigante.

Sobre o povo local, no início tive um pouco de receio, sabia que era povo de país frio que, em geral, é mais frio no sentido figurado, mas no fim posso dizer que foi uma grata surpresa. Achamos o povo extremamente educado, prestativo e relativamente comunicativo. Embora a língua oficial seja o norueguês, lembra uma mistura de alemão com inglês, todos falam inglês.

Durante o nosso planejamento das férias, estudamos vários roteiros e no nosso plano original havíamos incluído outros países escandinavos, mas acabamos desistindo devido ao tempo. No entanto, a cidade de Copenhague, capital da Dinamarca, acabou ficando e visitamos na chegada e na volta. Vimos duas Copenhague: na chegada a cidade pareceu tranquila e calma, cheia de aposentados. Já na volta, encontramos uma Copenhague, cheia de vida e energia. As ruas estavam mais cheias e explodiam de vida. O céu já não estava mais carregado, muito pelo contrário, estava azul com algumas nuvens que indicavam a chegada do verão na Europa.

Copenhage

Nessas andanças tive a oportunidade de conhecer muitos países, cada qual com suas belezas e particularidades, mas duas viagens sempre me marcaram: o Japão e a Islândia. A primeira pela mistura de uma cultura milenar com a modernidade e a segunda pelas belezas naturais. E agora posso dizer que a Noruega entrou para lista, não só pelas belezas naturais, mas também como um exemplo de país a ser almejado.

Acampando em Espeland, perto de Bergem.
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Blog Esportiva

FFA da via Avalanche

No dia 31 de maio, a escaladora Janaina Bastos realizou a primeira ascensão feminina (FFA) e a 6a repetição da via “Avalanche” (9c), Calogi – ES.

Vale lembrar que em 2021 ela fez o FFA da via “Batida Macabra” (9a), também em Calogi e se tornou a primeira escaladora a mandar um 9a no Espírito Santo.

Desde então, ela despachou rapidamente os outros nonos do setor e começou a trabalhar a via Avalanche. Nos últimos tempos, ela aumentou o foco na via e a tão desejada cadena finalmente aconteceu no último dia de maio.

Acompanhando todo processo e vendo seu potencial, para mim estava claro que era uma questão timing, pois nos treinos demonstrava claramente que tinha a condição física necessária para mandar, mas faltava um alinhamento mental que, às vezes, é mais difícil do que o condicionamento físico. Também acho que o clima nos últimos meses não ajudou muito nesse processo. A Avalanche é uma via de agarras pequenas que exige escalar eficientemente, sem perder muito tempo passando magnésio.

Na seção crux da via.

Por hora, a lista dos repetidores está assim:

2011 – Naoki Arima

2012 – Caio Afeto

2013 – Felipe Alves

2020 – Alex Mendes

2023 – Eric Telles

2024 – Janaina Bastos

Digo por hora, porque a fila de gente trabalhando a via está grande. Deve ser a via mais frequentada nos últimos tempos em Calogi. Logo logo teremos mais repetições.

No crux final da via.

Segue uma pequena entrevista que fiz com a Jana depois da cadena, onde ela conta um pouco mais sobre a via, processo e desafios.

1- Jana, de onde e como surgiu a ideia de “projetar” a Avalanche?

Já tinha feito todos os nonos do primeiro andar, inclusive a Contra-avalanche que é um 9b. Todas saíram bem rápido. Daí surgiu a ideia de entrar na Avalanche. De cara, já percebi que ia ser bem dura e que o processo não seria tão rápido quanto foi com as outras vias. Agora, o fator que mais contou para eu projetar a Avalanche foi a minha idade. Comecei a escalar com 34 anos e se eu quisesse mandar alguma coisa difícil teria que ser por agora porque depois dos 40 tudo fica mais difícil, né?
Tenho total consciência que eu deveria escalar um volume maior de 9a e 9b antes de entrar num 9c. Mas, aqui não temos muitas opções. Então, devido a esse fator, mais o fator idade, resolvi encarar o desafio.

2- Você fez alguma preparação específica para via? Existe alguma característica específica que a via exige?

Venho treinando desde comecei a escalar. Gosto muito da rotina de treino. Para a Avalanche comecei a treinar mais resistência de força. Teve um momento que tive que pegar mais leve nos treinos por conta de uma epicondilite e quando voltei a escalar a via, percebi que estava com os dedos um poucos fracos e que seria interessante treinar força de dedos em agarras pequenas. Comecei a treinar finger em casa só na agarra de 10 mm e com lastro. Isso me ajudou muito, porque já não achava as agarras da via ruins e conseguia bater meu braço em vários trechos. Também treinei algumas remadas e nesse ponto o Moonboard deu aquele power.
Pra mim, a via exigiu muita resistência de força porque grande parte dos moves são bem dinâmicos para mim. Outro ponto é aceitar os descansos.

3- Fale um pouco sobre a sua rotina de treinamento.

Por mim eu treinava todo dia rsrs. Mas, descanso também é treino, né?
Costumo treinar mais de leve na segunda e quarta. Geralmente faço uma corridinha pra manter o cardio em dia, faço umas séries de finger e, de vez em quando faço uns abdominais. Terça e quinta é sagrado ir pra ACE fazer um treino completo. Daí costumo aquecer, fazer um fortalecimento e depois vou para o muro. Nesse ponto do treino, Felipe me ajuda muito montando algumas vias pra mim. Sexta é descanso absoluto e fim de semana é rocha. Nessas últimas semanas, fiz treinos mais leves para chegar descansada na Avalanche.

3- Ao longo do processo, você pensou em desistir?

Cheguei a pensar, mas logo desisti de desistir porque minha personalidade não me permite desistir de nada. Ainda mais quando é algo que quero muito e que sei que tenho condições de conseguir e que só depende de mim.

4- Imagino que o momento mais gratificante desse processo foi costurar a parada, e a momento mais difícil?

Foi bom demais costurar aquela parada. Chorei de emoção. Momento difícil, foram vários. Foi quando tive que dar um tempo da via por causa de uma epicondilite. Não conseguia nem pentear o cabelo. Foi o período mais difícil. Depois, foi encarar a frustração todo final de semana que eu não mandava a via sabendo que dava para ter mandado.

5- E agora? A temporada nem começou e já está sem projeto. Já projetou alguma coisa para 2024?

Vixe, tem várias vias que quero: Transmanchuriana, 4×4, todas as vias do Arapuca… Mas, queria muito experimentar a Transatlântico para aproveitar o embalo.

6- Vejo que a escalada feminina está crescendo no estado, o que o você diria para quem está ingressando nesse mundo?

Diria para treinar duro, ser persistente e não esquecer nunca de se divertir, afinal de contas é pra isso que a gente escala.

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Pedra da Alvina

Cada conquistador possui um estilo de conquista que acaba se tornando uma espécie de marca registrada da pessoa. Logo, numa mesma pedra pode ter vias com estilos diferentes (se conquistada por pessoas diferentes) que entregam experiências distintas aos repetidores porque cada um tem um estilo.

Pancas é uma espécie de profusão de estilos, pois muitos escaladores com diferentes bagagens conquistaram vias por lá. Logo, há muitas vias com estilos bem distintos. Cada um com sua assinatura. 

Gosto dessa variação de estilos. Gosto de provar vias com estilos diferentes. Por isso, um dos fatores que considero na hora de escolher uma via para repetir é saber quem são os conquistadores. Dentre as várias vias de Pancas, um casal sempre chamou a minha atenção. Alex e Cris Ribeiro. É uma dupla do Rio de Janeiro que andou bastante por aqueles lados e conquistou várias vias pela região, mas estranhamente não havia repetido nenhuma via deles.

Dentre as conquistas do casal, uma em particular sempre atiçou o meu imaginário, a via La Belle de Jour na Pedra da Alvina. É uma via relativamente fácil, 4o com IV SUP, mas bastante extensa, com 620m, a 5a maior via de Pancas. Clique aqui para ler o relato da conquista.

Sempre que estudava essa via, também almejava escalá-la em solitária por apresentar algumas peculiaridades que a tornam perfeita para esse estilo de escalada, mas tinha vários poréns…. Clique aqui para ver o croqui original.

A primeira delas era a graduação. Um IV grau capixaba é um pouco diferente do IV grau carioca. Em geral, o IV carioca é sempre mais difícil. Também sei da fama dos IV de Petrópolis, a cidade de origem do casal.

Outra questão era a localização da pedra. A Pedra da Alvina fica nos confins das montanhas de Pancas. Talvez umas das montanhas mais remotas com acesso bastante complicado. Sabia de história de gente que não conseguiu nem chegar na montanha. Uma rápida estudada no Google Maps já dava uma ideia da complexidade para chegar lá.

Mais uma vez, na semana que andei trabalhando nos croquis de Pancas, essa via caiu no meu colo e o antigo projeto veio à tona novamente. Dessa vez resolvi estudar a fundo. Contactei o conquistador, falei com Fabinho e estudei o croqui em detalhe.

Assim que entrou outra frente fria no final de semana, não pensei duas vezes e tratei de colocar o plano em prática.

A previsão mostrava que no domingo teríamos uma boa janela, sem possibilidade de chuva. Então resolvi ir a Pancas no final do dia de sábado porque estava bem receoso com a aproximação e queria ter uma boa margem de tempo para achar o melhor acesso.

O Google me deu três opções quando coloquei a montanha a partir do camping do Fabinho. A mais rápida já sabia que era furada porque passa por uma estrada que tem uma porteira fechada. A segunda seria por Lajinha, mas por lá, o Fabinho disse que seria furada, só com 4×4 e dos bons! A terceira opção era por Paranazinho. Ainda tinha uma quarta opção, também por Paranazinho, mas essa o Google nem mostrou.

Considerei a 3a opção razoável e escolhi essa. Acordei no domingo às 4h30 e às 5h30 sai do Fabinho rumo a pedra, via Paranazinho. Tudo ia bem até chegar numa descida de um vale. Gradualmente, a estrada foi perdendo qualidade e logo só tinha uma passagem para moto. A certa altura, a estrada embocou num vale mais estreito e comecei a não gostar, mas se eu conseguisse passar, sabia que à frente ficaria melhor. Num certo momento, após a curva, a estrada estava em um quarto de pista. Só moto passava ali. O resto da estrada, a chuva levou e deixou uma cratera. Nem se eu estivesse de Jimmy que é mais estreito conseguiria passar. Por sorte, muita sorte mesmo, 5m antes tinha um recuo suficiente para dar meia volta e sair dali quanto antes.

A essa altura minha adrenalina já estava a mil. Quase que fico na estrada.

Resolvi voltar para 4a opção que o Google não mostrava. A estrada parecia boa, mas quando ela me jogou para um lajeado de pedra seguido de uma travessia de rio fiquei bem preocupado novamente. Logo a frente, milagrosamente, a estrada voltou a ficar boa. Vi que a estrada fora acertada recentemente.

Segui pela estrada e me perdi. Não preciso nem dizer que no meio de tantas montanhas, não tem sinal de celular, logo não tem internet.

Voltei e acertei o caminho. Passei uma porteira e vi um senhor. Sempre que vamos para montanhas, desejamos não ver gente, mas ali, naquela situação, ver aquele senhor de camiseta surrada com um galho de café na mão me deu um conforto no coração. Apresentei me e expliquei minhas intenções. Perguntei como estava a estrada para frente e ele confirmou que a máquina havia passado recentemente. Aquilo foi música para os meus ouvidos. Agradeci pela informação e segui tranquilo até a ver a pedra pela primeira vez.

Não tem como não reconhecer a Pedra da Alvina. Ela é ímpar e imponente na paisagem. Fiquei muito feliz em vê-la pela primeira vez, mas, ao mesmo tempo, fiquei em dúvida se conseguiria subir aquele imenso monolito.

Pedra da Alvina

Vencida a primeira etapa, a próxima seria achar a base. Nas fotos parecia fácil, mas olhando para aquele mar de granito, não me pareceu tão trivial. Também descobri in loco que teria que subir um grande pasto até chegar na base da pedra. Pelas fotos parecia que era só descer do carro e dar dois passos para chegar na base.

Estudei a foto, mas não cheguei a uma conclusão. Nessa hora invoquei a mente do conquistador, fui para onde eu iria se tivesse que conquistar a montanha.

Subi até o ponto mais alto onde o pasto encosta na pedra e comecei a procurar os grampos. Achar um pedaço de ferro de 3/8 naquele mar de pedra parecia impossível.

Onde estão os grampos?

Pela foto parecia que a via estava mais à direita. Então resolvi fazer uma travessia pelo costão na esperança de tropeçar num grampo.

Após uns 60m, vi um grampo branco abaixo de mim, uns 10m. Achei a via! Mas eu já estava no meio da primeira enfiada. Alinhei com a via e segui assim até a P3, de mochila e tudo. Na P3 resolvi me encordar porque o croqui dizia que um IV grau me esperava. Encordei me, mas ainda segui de approach shoes para ganhar tempo.

Escalando a 4a enfiada.

Em 40 minutos já estava na P5, bem na base do trecho mais vertical da pedra. Fiz um descanso mais demorado, bebi uma água, comi alguma coisa e me preparei para o encarar a enfiada de IV grau.

uma pausa na P5.
Início da 6a enfiada.
Guiando a 6a enfiada.

Já havia notado que a graduação estava parecida com o padrão local e a via estava bem protegida, então fiquei bem mais aliviando nesse quesito.

A próxima enfiada, a 7a, era a continuação do trecho mais inclinado da pedra, também um IV. Se eu estivesse na conquista, tocaria pela esquerda para evitar o trecho mais inclinado, mas os grampos me jogavam para o pior lado. Logo descobri que a enfiada é cheia de agarras e batentes, um verdadeiro deleite de escalada. Sem dúvida a melhor enfiada da via!

7a enfiada.

Dali para cima a pedra voltou perder inclinação e segui até a 9a enfiada tentando escalar eficientemente.

A décima e a décima primeira enfiada eram uma incógnita. Durante os estudos não consegui visualizar a escalada, mas ao vivo, ficou bem óbvio, até porque a via segue o caminho mais natural, contornando a pedra pela esquerda para fugir do headwall negativo.

Por volta das 11h45 bati no cume, após 4h de escalada. Como o dia estava relativamente fresco, mesmo com sol, a escalada rendeu bem, mas acho que se fosse num dia normal, não sei se teria conseguido, pois estava com pouca água. A via fica sempre ao sol até a 10 enfiada. No final aparece umas árvores que trazem um pouco de sombra.

Pedra da Alvina

Uma vez no cume comecei a saga para achar os grampos da descida que são independentes até a P9. Fiquei um bom tempo procurando os grampos do rapel sem sucesso. No fim, acabei laçando uma árvore e logo em seguida encontrei a segunda parada. Dali para baixo, desci otimizando vários rapéis e em 50 minutos já estava no chão novamente!

Na hora de ir embora, tive uma ideia de girico e resolvi sair por Lajinha, em vez de dar meia volta! Nossa, que arrependimento! A estrada é bonita, ok! Mas passa por cada lugar… Adrenei mais na volta do que solando aquelas enfiadas de approach shoes! Se eu tivesse vindo por Lajinha não teria chegado até a pedra! Só consegui passar porque estava indo montanha abaixo!

Mesmo com todos esses percalços, posso garantir que a escalada vale muito a pena. Diria que é um prato cheio para quem gosta de escaladas longas ao melhor estilo Expresso Lunar. Aliás, se você já fez a Expresso Lunar, vai tirar essa de letra. Sem contar a vista que se tem do alto para toda região. Para mim, é a vista que melhor representa a região de Pancas e Águia Branca.

Por fim, meus agradecimentos, ao Alex Ribeiro pelas dicas e ao Fabinho pelo apoio logístico de sempre.

Segue o croqui atualizado sobre o original.

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Primeira mini ventana de 2024

Demorou, mas chegou! Finalmente, em pleno final de maio entrou a primeira “mini ventana” no Espírito Santo para marcar o início da temporada das paredes por aqui. Na verdade, durante a semana entrou a primeira frente fria, mas como não coincidiu com o final de semana não pude aproveitá-la.

Nos últimos dias tenho trabalhado na atualização dos croquis de Pancas para o XIII Encontro Capixaba de Escalada que irá acontecer nos dias 16 e 17 de agosto, mais um evento organizado pela Associação Capixaba de Escalada.

Por isso, nada melhor do que começar a temporada dando um pulinho lá. Até porque passei a semana inteira só “aguando” nos croquis de lá.

Dentre tantas vias novas em Pancas, mais de 90, uma chamou minha atenção: via Plano Avesso, conquistada pelo Baldin e Tesourinho na Pedra do Jacaré em 2018 e graduada em 5o, VI, E2, D2, 260m.

A história dessa via é que depois da conquista, o croqui se perdeu e mais ninguém ficou sabendo da via. Nem os conquistadores se lembram da via…

Assim, aliei o útil ao agradável e resolvi entrar em solitária para pegar a ventana e de quebra fazer o croqui para o Encontro!

Como a previsão não estava ótima, calor no sábado e domingo de ventana com chuva à tarde, resolvi ir para Pancas no sábado a tarde e entrar na via nos primeiros raios de luz de domingo para pegar a sombra e terminar antes da chuva prometida.

Acordei às 5h e às 6h, após uma aproximação de 10 minutos, já estava na base da Pedra do Jacaré procurando o início da via. Achar o início não foi muito difícil, pois sabia que ficava à direita da via Paredão Equinox, que tem uma árvore na P1. Descobri que a via começa uns 5m à direita, na parte alta da pedra, no meio de um platô descaído com vegetação.

Parceiro silencioso!

A primeira vista, a parede me pareceu bem a plumo e com uma boa quantidade de proteções fixas. Já tinham me dito que a via era bem protegida.

A primeira enfiada foi um misto de ansiedade, sono e bagunça no gerenciamento de corda. Sem contar a falta de familiaridade com o granito de Pancas depois de quase um ano.

A segunda enfiada já fluiu mais e consegui engrenar rapidinho ao estilo Pancas. Essa enfiada tem bastante agarras, coisa rara por aqui; por isso, é bem divertida.

No início da segunda enfiada.

A terceira enfiada prometia ser o crux, só pela mudança na inclinação da pedra.

Sempre que escalo em solitária, uso o Silent Partner, mas ele tem algumas limitações, principalmente para costurar no veneno. Então quando a escalada é mais vertical e se há necessidade de costurar rápido, prefiro usar o Gri-gri modificado.

Assim, entrei na enfiada crux de Gri-gri para não me atrapalhar. O lance do crux é bem específico, mas não é nenhum bicho de sete cabeça. O lance é bem protegido e a leitura bem fácil.

Escalando e gerenciando no crux.

Para mim, o perrengue foi mais acima, chegando na parada. Como os conquistadores esticaram até o talo a corda, não consegui chegar na parada. Em geral, quando há lances difíceis ou perigo real de queda em fator de queda, uso um dissipador de energia para minimizar o impacto em caso de queda. O lado ruim é que esse sistema consome um pouco mais de corda na montagem e foi justamente esses metrinhos que fizeram falta no final.

Não fiz como a Catherine Destivelle que num filme famoso se desencorda quando a corda acaba e sai solando. Fui mais comedido e estabeleci uma parada na última chapa antes da parada.

Dali para cima e escalada segue bem tranquila. Só uma burocracia para fazer o cume. No final, várias vias meio que convergem num ponto comum e pode causar um pouco de confusão porque começa aparecer chapeleta para todos os lados. Eu mesmo acabei finalizando pela Paredão Equinox para depois descobrir que a linha da via seguia pela direita.

Rapelando!

Em linhas gerais, a via é muito boa. O fato de agora ter um croqui e a via ser bem protegida deverá atrair mais pessoas. Assim espero!

Fiquem com o croqui da via e desde já estendo o convite para entrar na via! Parabéns aos conquistadores, bela linha!

Ah, a tarde, o tempo virou em Pancas e choveu! A previsão acertou direitinho!

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TRB e Aurora Tropical

Na última 5ª e 6ª feira, dias 9 e 10 de maio, aconteceu nas dependências do ginásio Toca em Vitória, o Toca Ranking de Boulder.

O evento foi dividido em dois dias: na 5ª feira a noite aconteceu o festival de boulder e na 6ª feira a noite, as finais das categorias Pro Masculino, Pro Feminino e a Copa UVV.

Ao total foram 84 participantes que provaram os 32 boulders montados pelos setters Alex Mendes e Luan Penna. 

Nas finais, os 6 melhores cada categoria tiveram que escalar mais 4 boulders montando no formato padrão de campeonato.

Na categoria Pro Feminina, a Jana mostrou supremacia absoluta “flashando” todos os boulders. Em segundo ficou a Alexandra e em terceiro a Luciola.

Já na Pro Masculina, dos 6 classificados, 3 eram de fora do Estado. No fim, o escalador baiano Cauí Vieira levou a melhor, seguido do Mário Henrique (CE) e Felipe Alves.

Da minha parte foi bastante nostálgico voltar ao isolamento. Acho que a última vez que entrei numa reclusão foi há 17 anos, no desafio do Hulk, no Rio de Janeiro. Já nos boulders, não fui muito bem e não consegui imprimir um bom ritmo. Senti me bastante cansando e sem resistência física para dar boas entradas consecutivas. Com isso, acabei ficando em 4?º lugar na classificação final.

Foto: P. Dariva
Foto: Matheis Vidal

Aurora Tropical

Já no domingo, a convite do André “Tesourinho” fui conferir uma pedra com potencial para vias esportivas na localidade de Fortaleza em João Neiva. A tal parede não se mostrou viável por falta de agarras, coisa bem normal por aqui. Então, aproveitando que já estávamos com a mão na massa, resolvemos conquistar uma fenda que fica ali na redondeza.

O único problema da tal fenda, depois da aproximação nos arranha gatos, foi o Sol que estava implacável. Já estamos em pleno maio, mas parece que esse ano a temporada irá tardar a chegar, pois o calor não está querendo dar trégua. O termômetro do carro marcou 33 graus Celsius nesse dia. Logo, na pedra deveria estar facilmente a uns 38 graus Celsius.

Falando de clima, não tem como não deixar de escrever sobre as chuvas e inundações que acontecem atualmente no Rio Grande do Sul, a maior catástrofe climática do Estado. Deixo aqui dois links relevantes para este momento. Um é esse: https://sos-rs.com que traz em tempo real a situação e as necessidades de cada abrigo que recebem os desabrigados. Lá tem uma lista de itens de primeira necessidade que faltam em cada abrigo. Outro link é esse do governo: https://sosenchentes.rs.gov.br/inicial. Ali também é possível fazer doações por PIX. Também vale lembrar que as agências dos Correios de todo Brasil estão recebendo as doações.

Face norte da Pedra da Fortaleza.

De qualquer forma, pelo menos, conseguimos conquistar o pequeno totem de uns 30m antes de sermos expulsos da parede. Até ali a via ficou muito interessante e dura com um crux bem definido no final. Ainda estamos avaliando a possibilidade de tocar para o cume. Aparentemente a parede não é muito alta, mas segue vertical e sem fendas.

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ATEES 2024 – Release

Aconteceu no último final de semana, dias 20 e 21 de abril, a 10a edição da Abertura da Temporada de Escalada do Espírito Santo na cidade de Castelo, um evento organizado pela Associação Capixaba de Escalada.

O evento deste ano teve 114 inscritos, batendo o recorde de 2014. Posso garantir que só não foi mais gente porque, nós da organização, fechamos as vagas no final por atingir a capacidade máxima da estrutura do evento.

Este ano, mais uma vez, a negociação com o São Pedro foi um sucesso, pois fomos agraciados com a chegada da primeira frente fria do ano. O lado ruim é que na 5a feira choveu bastante na região e a 6a feira não foi suficiente para deixar a rocha completamente seca para o sábado.

Oficialmente o evento começa apenas no sábado, mas já está virando tradição as pessoas subirem na sexta-feira para aproveitar melhor o final de semana. Eu mesmo fiz a peregrinação de 4h para subir na sexta-feira até a casa da tia do DuNada em Apeninos, onde rolou uma pequena concentração.

Parede de Apeninos.

Já no sábado, devido ao tempo instável, convidei o Léo e a Samira para voltarem à Pedra Nogueira para conquistar um totem que havíamos visto na semana passada. O plano inicial era para o DuNada e o Porko irem também, mas de manhã cedo, assim que todos entraram no carro para sair, o carro do Porko não “bateu arranque” e eles tiveram que ficar para resolver o problema da bateria.

Aproveitei a volta para entregar ao senhor Agostinho, o proprietário das terras, um exemplar da camiseta oficial do evento em agradecimento a todo carinho que temos recebido nos últimos finais de semana na região.

Entrega da camiseta.

A conquista do totem foi bem tranquila. Eu havia imaginado uns 40m de via, mas no final, ela ficou com 70m, dividida em duas enfiadas, onde batemos apenas duas chapeletas no final para o rapel. A via em si ficou fácil, com um crux de IV SUP na transição de um sistema de fendas para outra. Para o Léo, que começou a escalar no ano passado, essa foi a primeira tradicional móvel dele. Já para Samira, foi a estréia das novas peças recém-adquiridas. E também foi a primeira conquista da dupla.

Separando o material.
P1 da via.

Batizamos a via de “Meus novos amigos” em referência às novas peças da Samira. Amigos, friends…. Sacaram?

Samira na última enfiada.
Equipe!

Após a conquista, o Chuck e a Bella nos encontraram na base da via e descemos juntos até o Bar do Senhor Agostinho, onde a festa estava “pocando”, em bom capixabês! Assim como na semana passada, mais uma vez, fomos recebidos com muita festa e carinho após a conquista do totem. Comemos um pratão de churrasco, tiramos muitas fotos com o pessoal e fizemos aquela social importante.

A festa estava animada.

A noite, a concentração foi no lazer Furlan, onde foi servida a tradicional janta da Abertura. Depois tivemos a palestra do escalador e engenheiro Felipe Sertã que falou sobre as boas práticas na abertura de novas vias. Por fim, tivemos o sorteio dos brindes dos apoiadores.

Palestra do Sertã.
Sono e atenção na mesma foto.
Palestra.
Sorteio de brinde.

Domingo começou cedo, com café da manhã sendo servido na mesa às 7h e logo em seguida tivemos uma prática de yoga com a professora Tais Valle.

Amanhecer na região.
Café da manhã.
Prática de yoga.
Camiseta oficial do evento.

E para fechar a programação oficial, a super tradicional foto oficial do evento!

Foto oficial do evento.

Depois disso, uma turma começou a adiantar o retorno, enquanto outros foram queimar as calorias em Apeninos.

Todos de amarelo em Apeninos!
Jana trabalhando a clássica 4×4 (8c).

Venho participando desses encontros desde 2009, quando tivemos o primeiro Encontro em Castelo. A percepção que tenho é que por vários anos, os encontros foram entre “conhecidos”. E esse ano, pela primeira vez, tive a sensação de ver muitas caras novas entre os mais antigos. Isso é mais uma prova de que a escalada capixaba está vivendo uma fase de transição entre gerações de escaladores.

Outra prova disso é que a comissão organizadora desse ano também foi composta por “caras” novas, o que é muito positivo e renovador. Às vezes, me sinto cansado de ficar à frente desses eventos por tantos anos e acredito que outras pessoas também se sintam assim. Em várias ocasiões quis sair um pouco desse circuito, mas quando vejo gente nova querendo trabalhar, a motivação volta e acabamos postergando a aposentadoria por mais um ano.

Lazer Furlan com Forno Grande ao Fundo.

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O óbvio precisa ser dito

Na semana passada, na volta de Castelo, passei na região de São Manuel para conferir uma montanha que havia visto no Google Maps. Olhando de longe, e de drone, parecia bem promissora, com muitos veios, buracos e totens.

Chegando em casa, fui estudar um pouco mais sobre o achado e descobri um artigo científico sobre a geologia da região (Decol et al., 2021), e para meu desagrado descobri que a rocha é um granito tipo G5. Os granitos G5 são, em geral, granitos com textura bem fina e homogênea, ou seja, sem agarras. Mas quando vi de longe não parecia tão homogênea, muito menos parecido com os outros granitos G5 como a Pedra Azul, por exemplo.

De qualquer forma, na face norte dessa montanha visualizei uma linha fendada bem natural que levava ao seu cume. Parecia uma escalada rápida e fácil. Fenda, granito com muitas agarras aparentes e pedra pouco inclinada. Jogo rápido!

Assim resolvi dar um pulo no último final de semana para fazer essa conquista “expressa”.

Convidei o Graveto e o DuNada que logo toparam sem perguntar muito sobre as pretensões.

A previsão para o final de semana não era das melhores, uma forte instabilidade marítima prometia trazer muita umidade e chuva para o Estado. Mais uma vez estudei os mapas e entendi que essa frente não avançaria muito para dentro do Estado. E como a região de Castelo fica bem para dentro do Estado, teoricamente não seria tão afetada.

“Fichas na mesa” e pé na estrada! Saímos de Vitória às 5h da manhã sob chuva, mas assim que chegamos na região de Pedra Azul, a chuva cessou e o céu azul apareceu timidamente. Dali até a região de São Manuel foram mais 50km e nada de chuva pelo caminho. Aparentemente as nuvens se concentraram em volta do Pico do Forno Grande que estava funcionando como um atrator de chuva.

Pedra Azul com nuvens e céu azul.

Encontramos o DuNada no caminho e fomos direto até a propriedade do senhor Agostinho. Na semana passada, já tinha conversado com ele sobre a intenção de escalar a montanha anexa a Pedra da Nogueira, então a conversa fluiu bem. De início, o senhor Agostinho não parecia “botar muita fé” nas nossas intenções, mas mesmo assim foi bastante cortês em nos mostrar o melhor caminho para chegar na base da montanha.

Separando o material.

A aproximação foi tranquila e rápida. Logo encontramos a base do grande totem/fenda. A primeira coisa que vi ao tocar na rocha foi que o artigo científico estava certo. A rocha tinha uma textura fina, logo sem agarras. Segunda coisa que chamou a atenção foi que a fenda era uma chaminé larga. De drone parecia mais estreita, mas era o que tínhamos para hoje.

O tempo estava estranho, uma hora parecia que iria chover, outra hora parecia que iríamos fritar na pedra, mas no geral estava suportável, considerando a clima atual.

Começamos a conquista subindo um trepa-mato na esperança de encontrar rocha limpa logo acima. Subi uns 15m e já fiz um zig-zag na corda e tive que estabelecer uma P1 para cortar o atrito. Dali para cima uma chaminé larga com um afunilamento estranho me aguardava. Mais uma vez não consegui conciliar bem o atrito e tive que estabelecer outra parada a uns 15m acima, num segundo platô.

Dali para cima parecia que a fenda iria estreitar e a escalada se tornar mais interessante, mas antes tinha que passar por uma “provação”, uma seção de oposição em Camalot #4. Para mim, essa largura é a pior que tem junto com a fenda de #.75. Nessa largura, a minha mão não é grande o suficiente para entalar nem para enfiar o ombro e subir em fenda de meio corpo. Por isso, preciso usar as duas mãos para fazer um entalamento conjugado (stacking) e ir subindo, um suplício. 

Passado trecho de #4 estabeleci uma parada numa grande árvore e chamei os meninos. O Graveto subiu de segundo, em oposição, sem esboçar muita dificuldade. O problema de subir guiando em oposição é que fica difícil ver e proteger o lance. Em Indian Creek ouvia muita gente gritando “no lieback” quando alguém fazia isso em top rope, justamente por isso.

Lance do Camalot #4.

A próxima enfiada parecia melhor. Cada vez mais, a fenda ia diminuindo de tamanho. Agora, a minha preocupação era a fenda sumir e virar um diedro cego num granito liso, mas por sorte, por mais 30m, o diedro se mostrou imaculadamente perfeita.

Graveto limpando a 4a enfiada.

Estabeleci a P4 no final do primeiro sistema de fendas, onde bati as primeiras proteções fixas da via. Até então havíamos subido uns 80m sem precisar bater nenhuma chapa.

A essa altura, eu estava começando a entender que essa conquista não seria tão fácil quanto estava imaginando. A pedra estava mais inclinada do que o esperado e a fenda estava consumindo bastante tempo e energia. Para piorar, havíamos levado poucas chapeletas. Se quiséssemos fazer cume numa única investida, teríamos que ser mais rápidos e econômicos na via.

E para piorar, enquanto contava as chapas, por descuido, acabei deixando cair uma chapeleta! Agora teria que substituir a chapeleta faltante por coragem!

A próxima enfiada seria uma transição de um sistema de fenda para outro, passando por um longo trecho de aderência. Por sorte, a pedra deu uma trégua na inclinação e a transição foi relativamente fácil.

A essa altura, nós já éramos a atração dos moradores da região. Conseguia ouvir as pessoas comentando sobre a nossa escalada e dava para ver que muita gente estava acompanhando de perto a nossa conquista.

A travessia nos levou a um segundo sistema de fendas, dessa vez um pouco mais suja. Pelo menos a pedra era menos inclinada, o que facilitou a conquista.

DuNada limpando a 6a enfiada.

Carreguei dois jogos no rack e subi largando peças com força pela enfiada até esticar a corda. Como subi muito pesado, resolvi deixar a mochila com a furadeira na parada e içar somente se fosse necessário. Assim que a fenda acabou, pedi para amarrar a furadeira na retinida para puxar a furadeira. Puxei 55m de retinida que teimava em prender em tudo que encontrava pela frente. Quando finalmente a furadeira chegou, descobri que os dois inteligentes esqueceram de colocar as chapeletas na mochila. Logo estava com a furadeira, mas sem as chapeletas para fazer a parada. Devido à vegetação não tinha como jogar a retinida de volta para içar novamente. Sem muita opção, estabeleci uma parada móvel e chamei os dois desatentes. No meio da discussão sobre o esquecimento das chapas o Graveto largou:

– O óbvio precisa ser dito!

Pronto, já tínhamos o nome da via!

Parada móvel usando a retinida como fita porque já não tinha mais fita.

A essa altura, o horário estava bem adiantado. Também dava para ver que a chuva estava nos rodeando e a qualquer momento poderíamos ser sorteados, então o sentimento de urgência se fazia onipresente.

A partir desse ponto, também comecei a ficar preocupado com o nosso estoque de chapeleta, pois o rapel parecia complicado com tantos zig zagues. Talvez fosse necessário bater algumas paradas de rapel ao longo da descida, logo teria que considerar isso na conta.

Estiquei a próxima enfiada economizando chapas. Pensei em esticar uma corda inteira, mas assim que encontrei um headwall resolvi cortar a enfiada para facilitar a virada final. Não tentem emendar essa enfiada!

A essa altura o DuNada já estava com a bateria na reserva. Perguntou se a via não poderia terminar na base do headwall, mas ali não parecia um “cume” de montanha. Contei umas mentiras e tentei levantar um pouco a moral para ganhar o último trecho.

Assumi a ponta novamente e parti para conquistar o último tiro. A virada do headwall ficou bem aérea e bonita. A luz dourada do final do dia trouxe um pouco de inspiração e acelerei para cima. Bati a parada num pequeno platô e chamei os dois. O meu relógio marcava 16h30. Foram aproximadamente 6h30 de escalada para conquistar 8 enfiadas, iniciamos a conquista às 10h30. Mas ainda nos restava o longo caminho de volta. Ali, já sabíamos que a descida seria a luz de headlamp.

Vista do cume para os lados do Forno Grande (encoberto).
Foto no cume com Forno Grande ao fundo.

Descemos estabelecendo uma linha de rapel utilizando as últimas 4 chapeletas que sobraram. Enquanto descíamos concentrados, ouvi alguém lá de baixo gritando:

– Fulano, o pessoal está descendo! Venha ver!

Assim que chegamos na casa do senhor Agostinho, toda famíla veio nos receber e contar que passaram o dia vendo nossa escalada. Pelos detalhes do relato deu para ver que realmente passaram praticamente o dia inteiro acompanhando a nossa escalada. E de quebra, ainda fomos recepcionados com um saboroso mocotó que desceu redondo depois de tanto esforço.

Ainda passamos um bom tempo contando as histórias da conquista para o pessoal. Depois dali fomos direto para casa da tia do DuNada em Apeninos onde passamos a noite.

Uma das coisas mais legais dessas conquistas é quando há esse engajamento dos moradores locais com o nosso esforço. Dava para ver e ouvir que eles estavam torcendo pelo sucesso da nossa escalada e ser recepcionado desse jeito, depois de um longo dia de escalada, fez valer qualquer esforço e sofrimento.

Linha da via

No dia seguinte, após uma boa noite de sono, ainda demos uma passada na Parede de Apeninos para conferir dois projetos que abrimos na semana passada. Fiz o FA da “Joelho de Porco” e graduei em VI. E o Graveto ainda fez o FA da “A saída me condena”, sugerindo um 7a/b. E o DuNada ficou dormindo na rede!

Apeninos!

Para mim, a região de Castelo tem a paisagem e as montanhas mais bonitas do Espírito Santo. A maioria das pessoas que vem ao Estado escalar nem passa por lá e vão logo para região de Pancas que também é muito legal. No entanto, ainda acho que Castelo seja mais completo por possuir uma geografia bem ímpar, com várias gemas escondidas que estão apenas ao alcance das pessoas que desejam se perder pelas estradas vicinais da região!

Montanhas do complexo de Alto Chapéu.

Gratidão ao DuNada por mais essa conquista e ao Graveto por voltar às conquistas depois de tantos anos off. Acho que a última vez que nós três nos reunimos para conquistar foi há 10 anos, na conquista da via “Ascendência Térmica” em Itarana.

Largartixa.
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Apeninos trip

Lá por volta de 2010, quando começamos a desenvolver a parede de Apeninos em Castelo, sempre comentávamos que um dia tínhamos que ir lá só escalar, sem levar furadeira, e curtir um pouco o lugar… mas isso nunca aconteceu… Foi preciso esperar 14 anos para finalmente fazer isso no último feriado de Nossa Senhora da Penha.

Foram três dias de escalada sem compromisso, repetindo as vias clássicas e relembrando porque elas são clássicas, mesmo depois de 14 anos.

Éric trabalhando a via Terceira Faixa (7c)
Porko na via Castelo Ra Tim Bum (VI)

Para fechar com “chave de ouro” a estadia “curtição”, Porko, Eric e eu ficamos no Abrigo de Montanha de Apeninos- AMA, o primeiro abrigo de montanha do Espírito Santo que fica aos pés da pedra! Um luxo!

Abrigo de Montanha Apeninos.

Escalar com o Porko sempre é sinônimo de luxo e pouca escalada! Então o churrasco comeu solto! Não só na janta, mas também no almoço e quase no café da manhã.

Café da manhã.
Carne na brasa, ou no fogo?

Para não dizer que deixei a furadeira em casa, assim que os dois foram embora no domingo, conquistei uma via (projeto), à direita da via Contramão (7b), batizada de “Homem de 4 mil anos”. 

No sábado, enquanto me dirigia para Apeninos, dei um pulo na Gruta de Limoeiro que fica ali perto para conhecer o local. Na verdade, já tinha ido há 17 anos, mas agora o local ganhou mais infraestrutura e as visitas são guiadas. O guia Nícolas me apresentou a gruta e contou toda história do local, inclusive sobre a descoberta dos restos mortais de um indígeno da idade antiga, datado em 4 mil anos. Achei aquilo incrível, então resolvi fazer essa pequena homagem ao antigo morador da região.

Gruta do Limoeiro.

Já na segunda-feira, foi feriado estadual, conquistei uma via à esquerda do setor 4×4. Havia visto essa linha na Abertura da Temporada do ano passado. A linha segue por um grande diedro em arco para direita e me pareceu bem óbvia e promissora. Resolvi conquistá-la em solitária e em artificial, aproveitando a fenda, mas assim que coloquei a terceira peça, um Totem Preto, ela sacou com o peso porque a rocha se esfarelou e tomei um voo. Parei num Totem Amarelo e acabei machucando um pouco o joelho no impacto. Por causa desse incidente, no mínimo aterrorizador, batizei a via de “Joelho de Porco”. A via ficou Ok, a rocha é um pouco decomposta, mas diria que ficou interessante. Bati algumas chapas para melhorar a proteção, mas a via requer complemento com peças pequenas (até #.75).

Apeninos no primeiro plano e o Forno Grande ao fundo.

Assim que desci da via, visualizei uma linha à direita com potencial para ser uma escalada bem agradável. Bati as chapas e logo em seguida o Xerxes e a Lu apareceram no setor para prová-la. A via ficou ótima, mas a saída acabou destoando um pouco, por isso foi batizada de “A saída te condena”. O lance não foi isolado, mas deve ser um 7a. 

Lu trabalhando o projeto “A saída te condena”.

Na longa volta para Vitória, ainda passei novamente na região de Limoeiro para conferir o potencial para novas vias numa montanha que, no mínimo, é diferente geologicamente. Fico impressionado como tem pedra nesse lugar, um verdadeiro paraíso para quem gosta de conquistar!

Montanhas de Castelo, essa pedra tem pontencial!

Daqui a duas semanas estarei de volta, agora para Abertura da Temporada de Escalada, um evento super clássico do calendário capixaba. Espero que o São Pedro nos envie um pouco de frio, porque o calor está complicado por aqui!

Forno Grande ao amanhecer