Mês de julho

  • Foto: Yasmin

Por aqui, aos poucos “a poeira começou baixar” e as pessoas, inclusive eu, começaram a sair de suas tocas. O governo do Estado já liberou, com diversas restrições, várias atividades antes proibidas, tais como academias e shoppings. Inclusive, pela primeira vez na semana passada, a capital Vitória, saiu do status “alto risco” para “médio risco” dentro da matriz criada pela Secretaria da Saúde. É claro que a situação ainda não está sob controle, mas posso dizer que estamos tendo dias melhores.

Em julho, depois de três meses de isolamento, aos poucos fui saindo do confinamento e comecei a frenquentar o muro, assim como ir à rocha. Nesse momento, a preocupação é não levar o vírus para o interior, coisa que está acontecendo. Por isso, tenho tomando alguns cuidados quanto à escolha dos lugares, assim como os meios, evitando por exemplo, dar aquela parada costumeira para tomar um café na estrada. Outra preocupação se refere aos riscos envolvidos. Agora não é uma boa hora para dar entrada num hospital por qualquer que seja o motivo. Não só para não sobrecarregar o sistema, assim como pegar a doença no hospital. Está cheio de exemplo de pessoas que dão entrada no hospital por coisa simples, pegam a Covid e vêm a falecer em seguida.

Não quis ir escrevendo semanalmente sobre os acontecimentos para não incentivar as pessoas a sairem, pois rola um efeito manada quando fazemos isso. Só agora, me sinto mais a vontade para falar um pouco dos últimos acontecimentos. Também não quis passar em branco, sem registro, pois aconteceram fatos bem relevantes nos últimos dias e acho que no futuro isso será importante .

Então vamos lá!

Falésia Número Dois (Colatina)

No início de julho fui conhecer, meio que sem querer, a Falésia Número 2 em Colatina, uma pequena área de escalada esportiva localizada perto do perímetro urbano de Colatina. Segundo consta no livro Escalada Capixaba, esta área de escalada foi descoberta pelo escalador local Breno Salaroli no começo de 2011, quando perderam o setor “Rinha de Urubu” (o terreno foi vendido). A parede, também conhecida como Papa Amarela por causa de um jacaré que habita o lago ao lado, conta com 12 vias que vão do III grau até um 7b. A altura média das vias não passa de 10m e todas as vias estão protegidas com grampos de inox com as paradas duplicadas.

Quem me guiou para conhecer a área foi o escalador Iury que “conhece” bem o local, principalmente o acesso! Após alguns “perdidos”, peitadas no mar de espinhos e afundadas no charco, chegamos na pedra por volta do meio-dia, após 50 minutos de caminhada. Se você for pelo caminho certo e com uma pessoa que conhece a trilha, não levará mais do que 20 minutos. A caminhada é bem lógica, basta ir contornando o lago até encontrar a parede.

Entrei em cinco vias em menos de 3h, porque as vias são bem curtas e técnicas. Não dá nem tempo para tijolar. Inclusive, segui a recomendação do guia entrando nas vias “Colesterol de Cu é rola” (V) e Anos de Solidão (VI), ambas consideradas clássicas do local. Depois, entrei nas vias de 7o que são bem legais. Basicamente são vias técnicas de posicionamento em placa. Bom para treinar o à vista. Só achei a colocação dos grampos um pouco esticada. Eu acho que o Breno deve ter 1,90m de altura. Mas para contornar esse “crux”, assim que mandava uma via, descia equipando a via do lado! Fica a dica!

No mais, a parede é bem agradável para passar uma tarde, já que a pedra fica na sombra após o meio-dia. E o mais legal é que a parede é bem democrática com uma boa gama de dificuldade. Perfeito para quem está começando e escaladores intermediários. Só tem que gostar de placa!

Já a volta foi mais tranquila! Mas no dia seguinte tive que me entender com os carrapatos… Eu acho que, além do jacaré, tem capivara naquele lago…

Debutando nos sétimos.

Também tivemos a “cadena” da Yasmin na via Trem da Alegria (7b), Calogi. Se não me engano é o 1o 7o grau dela. Eu acho que quem escala sabe o quão especial é debutar num 7o grau. É aquele grau, onde para mandar você precisa suar um pouco mais, se entregar mais e acima de tudo, aceitar o desafio. A gente nunca esquece o primeiro 7o!

O legal que pude acompanhar todo processo de perto, desde os treinos específicos para via (reproduzimos o crux no muro), assim como a batalha física e mental para superar o crux. Não fui eu que mandei a via, mas sofri e fiquei nervoso junto. Escalada tem dessas coisas! Boa Ya!

Yasmin no início do crux da via “Trem da Alegria” (7b) – Calogi.

Além da Ya, a Amadinha também debutou no sétimo mandando a via “Tempo de Chuva” (7b) também em Calogi. Mais uma vez, tive a sorte de acompanhar um pouco o processo da cadena. Legal que no mesmo dia, o Breno também mandou a via “Batida Macabra” (9a) – Calogi.

Amanda na cadena da via “Tempo de Chuva” (7b).

Num outro dia, quando dei um pulo em Prosperidade (Parede do Tonho), assisti a Joyce também mandar o seu 1o sétimo, com a via “Pio da Coruja” (7a).

Eu acho que levo sorte!

Joyce na via “Piu da Coruja” (7a)

Um dia, li uma grande besteira de que quem abre via, faz isso para inflar o ego, para dizer que conquistou algo, para ter o seu nome na história… Para mim, mais legal do que abrir uma via é ver outras pessoas a repetirem e saber que, de alguma forma, aquela via que abri, fez a pessoa evoluir e se superar durante o processo.

Polese

Depois da “expedição” fracassada do início do mês, onde fomos procurar umas pedras na região de Linhares, o Iury resolveu explorar outra área perto de Colatina e achou um bloco bem interessante com vários atrativos “além da escalada”.

Dei uma olhada nas fotos que me mandou e achei que valesse uma visita. Assim, Iury, John e eu fomos conhecer o local que batizamos de “Bloco dos Polese’s” em homenagem aos proprietários do local.

O bloco não tem mais do que 12m de altura e um potencial para umas 8 vias, mas a pedra é de excelente qualidade com boas agarras em gnaisse, coisa rara por aqui. No entanto, o que torno o lugar mais incrível é o rio que corre na base da pedra e forma uma piscina mega convidativa, além da paisagem do entorno!

John equipando a via Poseidon.

Na primeira investida equipamos 2 vias e na segunda mais três, totalizando cinco vias até o momento.

A primeira via equipada foi a “Poseidon” um VI SUP de 6 proteções (inox) mais a parada. Depois, o Iury equipou a “Proteu”, outra via de VI de excelente qualidade. Já a terceira, batizada de “Triton” transcorre por uma aresta seguindo o mesmo estilo das outras duas. A 4a e a 5a via ainda são projetos, pois na conquista tivemos que reforçar duas agarras chaves e por isso não pudemos prová-las, mas certamente devem ficar na casa do 7o.

Do bloco dos Polese’s, olhando para o fundo do vale, a visão é naturalmente capturada por uma montanha ao fundo que aguça a imaginação: Uma via naquela montanha triangular ficaria incrível! A vista do cume deve ser linda!

Não tivemos dúvida, na investida seguinte resolvemos abrir uma via nessa montanha. De longe conseguimos rastrear algumas fendas e parecia que a pedra não era tão extensa. Assim, Iury e eu resolvemos atacar a montanha num estilo bem fast and light.

Depois de uma caminhada de 30 minutos entre costões e pasto sujo, chegamos na base da montanha. A caminhada em si já é um atrativo para quem curte aproximação em costão, pois há diversas passagens técnicas.

A via acabou ficando curta, uns 140m de extensão com lances de 3o e um crux isolado de IV. É uma escalada bem agradável e tranquila, mas o grande plus da via, além da paisagem estonteante, é a possibilidade de usar material móvel. Prova disso é que a via possui apenas 2 proteções fixas, tirando as paradas. O resto é protegida em móvel nas pequenas fendas que vão aparecendo pelo caminho. Por isso, a via requer um certo faro para buscar a melhor linha que tenha agarras e local para colocar as proteções.

Outro fato bem interessante foi a presença de um casal de Águia Chilena (?) que nos proporcionou belos rasantes. Inclusive, o nome da via “Ninho das Águias” foi em homenagem às aves, embora não tenhamos visto o tal ninho. Essa parte foi uma licença poética da nossa parte.

Iury conquistando em móvel a 1a enfiada da via.
Croqui da via. Outras infos sobre a via, aqui!

Tonho

E mais recentemente, dei um pulo em Prosperidade que tinha ido só uma vez em 2015. Depois disso, nunca mais voltei lá e nesse meio tempo, o pessoal achou outra parede ali perto, Parede do Tonho, e conquistou mais 8 vias. Além disso, aproveitei a ida para conhecer uma terceira parede que parecia bem promissora, mas essa, acabou não dando em nada.

Henrique na clássica “Pio da Coruja” (7a).

Já a Parede do Tonho me agradou bastante, como diria o Poul, um dos conquistadores dessas vias juntamente com o DuNada e o Dudu “Teto Preto”. O lugar é bem bonito com vários atrativos que tornam o local único por aqui.

Como tinha levado material de conquista para essa parede nova, aproveitamos o ensejo e DuNada e eu abrimos mais duas vias no setor: as vias “Falcão Negro” (8a) e Águia Dourada (7c). Sim, todos as vias do setor têm nome de pássaro.

Com mais essas duas, agora o setor conta com 10 vias e um potencial para mais umas 2 a 3 vias cascas.

Sou muito suspeito para falar, mas a Falcão Negro ficou um clássico do local. A visão que se tem da parada para via é algo que nós não encontramos com frequência por esses lados.

Se você está estava com saudades do Cipó, os mármores de Prosperidade ajudam a matar um pouco a vontade. Inclusive, com direito a carrapatos para experiência ficar mais realista!

Galera em Prosperidade. Foto: Henrique.

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Comentários

Uma resposta

  1. Muito feliz de ver essa mulherada nos sétimos, mais feliz ainda em saber do potencial que temos para chegar cada vez mais longe! Mês de julho está deu sorte à alguns e Naoki saiu distribuindo por onde foi! Valeu mestre!!

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