Missão oficial ao Forno Grande

  • Amanhecer no cume do Forno Grande (2039m).

Aconteceu na madrugada de sábado, dia 27 de julho, a escalada oficial ao Pico do Forno Grande (2039m) em Castelo com a presença do governador do Estado do Espírito Santo Renato Casagrande.

Até onde eu sei e andei lendo por cima, essa foi uma das raríssimas ocasiões  em que um chefe de Estado subiu uma montanha oficialmente. Numa das verões mais aceitas, em 1920, o Rei Alberto I da Bélgica subiu o Pico da Tijuca no Rio de Janeiro a convite do Presidente da República Epitácio Pessoa. Achei um registro no qual dizia que em 1870 a Princesa Isabel subiu o Pico das Agulhas Negras no Parque Nacional de Itatiaia. Depois disso, os prefeitos das cidades convidavam os montanhistas, principalmente do Rio de Janeiro, para conquistar alguma montanha e lá hastear uma bandeira. Assim foi a conquista do Pico do Itabira em 1947 e da Pedra do Penedo em Vitória. Nesses moldes, a história mais recente foi a conquista da Pedra do Barro Preto, a montanha símbolo de Itaguaçu em 2014, ocasião na qual foi conquistada a via “Princesinha de Itaguaçu”.

A abertura do Pico do Forno Grande ao público “montanhístico” marca uma das grandes reivindicações da nossa comunidade. Eu particularmente achava um absurdo uma montanha, dentro de um parque estadual, estar fechado aos escaladores, enquanto tínhamos que escalar montanhas fora do parque, em propriedade particular. Além disso, o Forno Grande é a maior montanha fora do conjunto da Serra do Caparaó e devido à localização central no Estado, é visível de qualquer outra montanha. A abertura do Pico do Forno Grande ficou a cargo da Associação Capixaba de Escalada (ACE), que em 2015 obteve a abertura da Pedra Azul junto ao Parque Estadual da Pedra Azul, e agora conseguiu articular o acesso à esta montanha. Além disso, a Associação Capixaba de Escalada trabalhou em conjunto com o parque como consultor técnico para realizar a sinalização, remoção dos antigos vergalhões e instalação das chapeletas de aço inox ao longo da via de escalada.

Assim, durante a abertura oficial, a Associação Capixaba de Escalada foi convidada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente (IEMA) para auxiliar na subida oficial com a presença do governador do Estado.

Como sócio da associação, coube a mim a missão de fazer o registro fotográfico do evento e auxiliar com os demais colegas na parte técnica, afinal de contas, para o evento inaugural, foram convidados vinte não escaladores para acompanhar o governador ao cume. Para quem tem uma noção mínima de escalada e organização, sabe que não é fácil levar tanta gente leiga para cima de uma montanha. E para complicar mais ainda, o próprio governador pediu para que a escalada fosse de madrugada para apreciar o nascer do Sol no cume.

Via Láctea e o Forno Grande.

Eu não participei diretamente das reuniões técnicas para decidir os detalhes da empreitada, mas confesso que fiquei muito preocupado com tamanha responsabilidade atribuída a nós, isso sem contar a responsabilidade de levar um governador.

A subida do Forno Grande não é uma caminhada, nem uma “escalaminhada”. Não é como subir o Mestre Álvaro ou o Pico da Bandeira. É como subir a Pedra Azul, mas três vezes pior. Uma dupla normal de escaladores levaria tranquilamente umas três horas entre caminhada, “escalaminhada” e trechos de escalada para chegar no cume da montanha, mais o mesmo tempo para descer até a entrada do parque, totalizando um dia cheio na montanha. Isso sem contar os imprevistos.

Por causa da complexidade desta empreitada, no dia anterior, o Sandro e o Zé Márcio foram ao parque e fixaram mais de 500m de corda fixa ao longo de todo trajeto nos trechos mais delicados. E na noite da subida, todos os participantes tiveram que subir equipados com cadeirinha, auto-segurança, freio e ascensor mecânico, material fornecido pela Polícia e pelos escaladores.

A escalada iniciou à 1:20h de sábado, após um breve briefing de segurança na sede do parque. O primeiro quilômetro da trilha é compartilhado com a trilha que leva ao mirante. Por isso, a caminhada, embora seja sempre para cima, é bem tranquila. 

Breafing de segurança.
Todos reunidos na sede do parque antes da subida.

A nossa comitiva foi composta pelo governador Renato Casagrande, alguns militares (bombeiros, segurança particular, policial do BOPE…), membros do parque, jornalistas, convidados (incluindo a equipe capixaba que fez o cume do Everest nesta temporada) e nós da Associação Capixaba de Escalada, totalizando 30 pessoas. Uma verdadeira comitiva no meio do mato!

Para organizar a subida, nos dividimos em sete grupos, onde cada escalador da ACE ficaria responsável por um grupo de pessoas. E na frente, iria o governador com seus assessores de confiança, Sandro e eu.

Luzes na trilha.

Eu sempre acho que a montanha tem a capacidade de “despir” as pessoas, pois é na montanha que as pessoas se revelam. A pessoa pode até se mostrar corajosa no dia-a-dia, mas quando é exposto às intempéries da montanha, ela mostra se é realmente corajosa ou uma falsária. Por isso, fiquei muito curioso para ver a reação do governador na montanha. Sabe como são os políticos, né?

Considero-me uma pessoa muito desligada da política, principalmente do Espírito Santo. Moro aqui desde 2008 e nunca transferi o meu título de eleitor para cá. Quando me falaram que o Casagrande iria subir o Forno Grande, tive que ir no Google para saber quem era ele. Mas confesso que fiquei bastante surpreso em relação ao governador. Antes mesmo de iniciar a escalada ficou claro que ele tem uma capacidade natural de liderança. É daquelas pessoas que você consegue distingir dos outros como um líder só pelas atitudes.

Governador Renato Casagrande e Sandro durante a caminhada.

Na montanha, na hora do pega para capar, mais uma surpresa em relação à preparação física dele em imprimir um bom ritmo na frente. Enquanto a galera do fundão pedia para fazer uma pausa, o governador foi tocando sem reclamar, puxando a comitiva. Em três horas de subida, fizemos apenas uma pausa no início do trecho mais íngreme, antes de usar as cordas fixas. Se um dia vocês forem lá, lembrem-se disso, para ter uma ideia do condicionamento do cara. Só para ter uma ideia, no meu pelotão tinha militar passando apuros para acompanhar o ritmo…

Uma pausa para foto durante a subida. Ao fundo, a Pedra Azul.

Chegamos no cume do Forno Grande às 5:40h, antes do Sol nascer. Sou um cara que gosto de ir em grupos pequenos para montanha, às vezes até sozinho, por isso, compartilhar um cume com tanta gente não faz muito o meu estilo, mas enfim, não estava lá para me divertir, estava trabalhando. A curtição vai ficar para uma outra ocasião. Nesse sentido, mais uma vez preciso tirar o chapéu para o governador. Para quem estava achando que ele foi ao Forno Grande à passeio com dinheiro público, fique sabendo que para ele aquilo era trabalho também. Assim que chegou no cume, ao invéz de sentar no chão e ficar descansando, entrou ao vivo nas redes sociais para anunciar a abertura da montanha e explicar sua importância. Depois deu entrevistas para os jornalistas, tirou fotos com as pessoas, recebeu de nós a camiseta oficial do evento, assinou o livro de cume e por fim iniciou a longa descida em série de rapeis até a entrada do parque onde ainda arrumou ânimo para inaugurar uma placa.

Amanhecer no cume.
Não é todo dia que vemos uma autoridade de cadeirinha, freio e jumar.
Apreciando a vista.
Névoa da manhã.
Montanhista Juarez Gustavo, primeiro capixaba a subir o Monte Everest.
Luzes da manhã.
Vergalhão original utilizado para subir o Forno Grande.
Chegando no cume.
Cume!
Zé Márcio fechando o grupo.
Fotografando na hora mágica.
Entregando a camiseta oficial da Abertura da Temporada de Escalada.
Governador Casagrande assinando o livro de cume.
Estreando o livro de cume.

“Alegria em participar da reabertura da trilha do Forno Grande. Vamos continuar preservando.”

Governador Renato Casagrande
Foto oficial.

À nós, só nos restou descer “cerrando a fila” e ir recolhendo todas as cordas fixas até a base.

Segundo os meus cálculos, chegamos na sede do parque por volta das 11h da manhã.

Voltando! Ao fundo o Pico do Forno Grande.

Faz-se necessário deixar registrado os meus agradecimentos a todas as pessoas envolvidas neste processo de abertura e fazer um apelo àqueles que irão usufruir deste espaço: o Pico do Forno Grande, embora seja uma montanha gigantesca, é muito sensível à presença humana. Inclusive, este foi o motivo para o seu fechamento há 20 anos. Qualquer passo fora da rocha, na vegetação, é prejudicial à montanha. Sempre pisem na rocha, não usem a vegetação como apoio, pois as plantas que lá vivem são raríssimas. A flora e a fauna do Forno Grande é única devido às particularidades geográficas. No topo do Pico, área de preservação, concentra-se uma mata com cerca de 300m que segundo o pesquisador Augusto Ruschi, trata-se da maior floresta de altitude do mundo.

Vida longa ao Forno Grande!

Leia mais aqui no site do Governo ES

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