O processo

Histórico

A via “Transatlântico”, localizada no Calogi, é uma variante da via “Avalanche” (9c) e foi equipada pelo Rebit e Felipe Alves em 2013. A via começa numa aresta com uma saída boulderística (V5?) e depois emenda na Avalanche passando pelo 2o e 3o crux. O nome da via, segundo o criativo Rebit, faz uma alusão à proa de um navio transatlântico quando vista da base. A primeira ascensão foi realizada pelo Felipe Alves em 2014 que propôs 10a para via. Já a primeira repetição aconteceu em 2020 pelo mineiro Alex Mendes que também confirmou a graduação. Até hoje é considerada a via esportiva mais difícil do Espírito Santo.

Por que nunca entrei na via?

Essa é uma pergunta bem frequente entre as pessoas próximas quando falo sobre a via. Considero me uma pessoa bem pragmática e muito focada nos meus objetivos. Para mim, cada escalada tem uma meta, que por sua vez, está atrelada a outra meta de médio prazo que está dentro de um grande plano! Em 2013, quando os moleques conquistaram a Transatlântico, eu estava finalizando “um grande ciclo” de 18 anos. Em junho daquele ano, fiz uma viagem à Itália e França com o Andres para escalar em Céüse, um pico que sempre sonhei conhece-lo desde que comecei a escalar em 1995. Em 2008, perdi a oportunidade quando chegamos na primavera e a pedra ainda estava molhada e tivemos que dar meia volta. Precisei esperar mais 5 anos para finalmente conseguir escalar naquele calcário místico. Para mim foi quase a realização de uma vida. Se eu tivesse que parar de escalar depois daquela trip não teria problema, porque estava plenamente realizado. Lembro que no dia que fomos embora, já dentro do carro, o Andres me perguntou se eu não iria olhar para Céüse pela última vez e eu disse que não, olhando fixamente para os Alpes Franceses a minha frente. Naquele dia, naquela hora, eu estava decidido a canalizar os meus esforços para escalar aquelas montanhas que estavam “logo ali”. E assim, nos anos seguintes, deixei as esportivas de lado para aprimorar a minha escalada nas tradicionais. Em 2014, fui para Yosemite fazer “um preparatório” e em 2015 fui para os Alpes com o Murilo para fazer um tour por aquelas montanhas que tinha visto de Céúse. Depois de lá, continuei me dedicando nas tradicionais, desta vez desbravando o interior do Espírito Santo. Segundo consta, foram mais de 50 vias tradicionais conquistadas por esse interior entre 2014 e 2020.

E ai chegou 2020! Quando estava me preparando para uma temporada com muitos planos, chegou o lockdown! E tudo virou um turbilhão de dúvidas. A medida que a crise ia se alastrando vi que a temporada estava “indo para o saco”. Ao mesmo tempo, para garantir a minha sanidade mental, foquei todas as minhas angústias e stress nos treinos, seja em casa, correndo ou no muro.

Quando a tempestade “passou” pensei: todo esse esforço não pode ter sido em vão. Dias, semanas, meses de treino recluso precisava ser canalizado em alguma coisa. A temporada das paredes estava perdida, mas das esportivas ainda tinha alguma chance. Assim, comecei a montar um plano a curto e médio prazo para pós pandemia. Primeiro, estabeleci que ainda esse ano chegaria ao meu 100o nono ou superior. Para isso, comecei fazendo uma limpa em Uliana, pois era um dos últimos redutos de nono que ainda não tinha passado. Depois estabeleci que mandaria a “Transatlântico”. De início, não estava me sentindo confiante, então resolvi começar repetindo todas as vias mais duras de Calogi para ganhar pele e confiança. Antes mesmo de terminar essa fase, comecei a entrar na via, em parte pela pilha da Ya que sempre me tirava da zona de conforto. Assim, em 26/09/2020 provei pela primeira vez o boulder da saída.

Durante esse processo, fiz um pequeno “diário” no celular ao final de cada dia. Segue a transcrição:

22/08/2020 – Kickoff

Primeira entrada na “Avalanche” depois de 8 anos. Aproveitei que o Alequinho estava entrando para relembrar os movimentos e sentir a via novamente. Cai no 2o crux! Desmandei a via… Toquei até o fim para relembrar toda via. Sem pele…

No início da via “Avalanche”. Foto: Tais Valle.

26/9/2020

Primeira entrada para conhecer o crux inicial da Transatlântico. Antes, saquei todas as costuras vindo de cima. Aproveitei que a furadeira estava lá, bati uma chapa no topo da pedra para o rapel e troquei a proteção do 3o crux (agora em inox). Consegui tirar a primeira parte com certa facilidade (V5?). Passei usando betas diferentes do Felipe e do Alex. Ya na segue.

Entrada no meio da tarde (2a entrada), não era a condição ideal, mas estava ansioso para entrar. Escalei com Sol na via. Cai uma ou duas vezes na saída e segui até o 2o crux sem queda. Lissandro na segue.

Segunda entrada na via. Foto: Yasmin.

Última entrada do dia (3a). Os dedos já não estavam legais, mas fui assim mesmo para assimilar a movimentação. Cai no 2o crux. Fui até o fim para desequipar. Ya na segue.

04/10/2020

Condições perfeitas para essa época do ano. Entrada de uma frente fria anômala. Muita expectativa e ansiedade.

Primeira entrada (4a entrada), sem aquecimento, com costuras pré-colocadas. Escalei bem até o segundo crux. Muito confiante. Cai porque cresci demais no crux e esqueci de trabalhar o pé.

Segunda entrada (5a entrada). Cai no 2o crux porque o pé escorregou e usei uma agarra de mão errada. Queda de “mirim”.

Terceira entrada (6a entrada): melhor entrada. Passei o 2o crux com novo beta e cai no 3o crux. Boa entrada para ganhar confiança e reascender a esperança. Escalei com esparadrapo nos dedos indicadores. Horrível, mas funcionou.

Segue da Ya em todas as tentativas do dia.

17/10/2020

Breve pausa de 2 semanas sem entrada. Bom para descansar a mente, o físico e treinar mais um pouco. Também trabalhei a alimentação nesse período e diminui o peso para ficar mais leve.

Dia nublado, chuvoso, sem vento. Temperatura de 22oC! Perfeito para outubro, mas muito úmido. As três últimas agarras estavam molhadas por causa da chuva matutina.

Primeira entrada (7a entrada). Cai novamente no segundo crux. Escalada horrível, muito tenso! Trabalhei o lance e descobri um beta novo: baixar o pé direito 30cm num nada. Detalhes… Agora vai! Ya na segue!

7a entrada, primeira entrada do dia. Foto: Alexandra.

Segunda entrada (8a entrada). Cadena!

Sabia que a melhor entrada do dia seria a segunda, pois a terceira sempre é sem pele e ardida. Escalei mais tocado, sem paradas longas nas agarras. Usei o beta do pé e passei fácil o 2o crux. No “descanso” tive dúvidas, pois estava um pouco cansado. Não fiquei muito no descanso porque estava tijolando, toquei no “all in” e dei gana. Nas agarras molhadas rezei para que estivessem mais secas e estavam! Done! Turbilhão de pensamentos invadiram a minha mente e ainda estou assimilando tudo que aconteceu nos últimos tempos. Que loucura!

Obrigado a todas as pessoas que me pilharam nesse período, tanto na pedra quanto no muro! Gratidão master a Ya por me pilhar sempre, a toda hora, a cada segundo! E muito obrigado pela segue precisa em todas as entradas.

Falando em Yasmin, nesse mesmo dia, mais tarde, ela mandou a via “Expresso da meia-noite” (8a) e entrou para o “clube dos oitavistas”. Se a minha memória não estiver errada foi na 3a entrada dividida em dois dias de trabalho. Mandou a “Expresso” bem expresso! Festa em dobro no Calogi! Não é sempre que sai um “18a”.

Yasmin na via “Expresso da Meia-noite” (8a). Foto: Eric Penedo.

Misto quente

Sempre que entrava na Transatlântico, a minha atenção devaneava para uma possível linha à esquerda, entre a Avalanche e a Contra-Avalanche. Por um momento pensei em deixar o projeto de lado e investir nesta conquista, mas estabeleci como meta só verificá-la depois de mandar a via. Como mandei a via no sábado, no domingo subi de furadeira e tudo mais para saciar a curiosidade.

Resumindo, a linha compartilha parte da via “Contra-avalanche” e no meio, sai à direita num lance boulderístico em agarras pequenas que culmina num lançamento de envergadura. Depois segue pela fenda em móvel até a parada. Não consegui isolar o lance, mas acho que vai ficar na casa do 9b. Já o trecho em móvel é bem “sussa” até a parada. Mas com certeza precisarei fazer um treino específico para isolar o lance.

Segue o croqui atualizado do setor!

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Comentários

14 respostas

  1. IUUUUUHHUUUUULL VALEU DEMAIS MESTREEEEE, dia de ficar na história !!! Vi dedicação treino, emoção, ansiedade e felicidade ali tudo junto!

  2. Venga, que relato massa mano, parabéns pela dedicação.

  3. Muitooooo Bom Japa sam! sempre se superando, mandou muito bem parabéns!

  4. é muuuuuuuuito foco! k’mooonnn, Naoki! inspirador!

  5. Sensei Naoki!!! Sempre inspirando, só temos a agradecer pelo seu exemplo…
    Agora aproveitando a vibe, bota um bordi de 2 dígitos nessa lista aê pra tu completar essa tríade 😉
    Abs, Claudio

  6. Incrível Naoki, obrigado por compartilhar os bastidores das tuas conquistas. Realmente inspirador! Tem algumas “pirâmides” do 8a.nu que eu acho exemplares, e a tua é uma delas. Evolução e continuidade ao longo dos anos e o foco no treinamento e metas. Parabéns por essa cadena e em especial por compartilhar tantas histórias e fotografias com toda nossa comunidade. Um abraço! Tiago

  7. Obrigado Ya por tudo! Foi muito legal aprender contigo!

  8. Mestre os regletes! Sim!!!! Já coloquei no radar essa possibilidade. 2021 será um ano incrível! Saudade de vcs!

  9. Grande Tiagão! Somos a velha guarda firme e forte! O que temos de idade, temos de experiência, e o que falta de força compensamos com a técnica! Seguimos para cima, sempre!

  10. Você é Inspiração demais Japa, vou pegar uns betas aqui e adaptar no meu processo 🙂 só faltou o 9? do teto do moreno pra fechar essas cadena einm, boraaaaaa!!!

  11. Incrível NAOKI, parabéns. E obrigada por.compartilhar com essa riqueza de detalhes todo o processo.

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