Passagem

Umas das coisas mais fascinantes nas conquistas são as “passagens”! Uma espécie de link entre duas sessões que só é possível graças a uma “passagem” ou até mesmo uma agarra-chave. Sem elas, não seria possível sequenciar as duas partes para formar uma via. Ao longo dos anos, após diversas conquistas, sejam “tradis” ou esportivas, sempre que encontro essas passagens, entro em êxtase, porque aquilo é quase um milagre, um capricho da natureza que permite unir sequências isoladas. No filme Dawn Wall isso é muito bem retratado pelo trabalho meticuloso do Tommy Caldwell durante a exploração desse parede. Também tem um vídeo do Chis Sharma em Céüse, que fala um pouco sobre isso.

Na maioria das linhas, talvez mais de 90% das vezes, sempre consigo “linkar” as sequências sem precisar abandoná-la ou até mesmo artificializar o lance, por isso, eu sou contra essa coisa de cavar agarras para viabilizar uma linha, pois a experiência mostra que sempre há uma saída, basta procurar com cuidado e usar a criatividade.

No último sábado, mais uma vez, deparei com uma dessas passagens durante a conquista da via “Coruja Murucututu” na parede do Tonho em Prosperidade com o DuNada. Em julho, quando estive pela última vez, já tínhamos namorado essa linha, mas parecia que faltava uma peça-chave para unir o quebra-cabeça entre o trecho inicial, mais vertical, e o teto final.

Assim que o DuNada fixou a corda, a primeira coisa que fui ver foi a tal “passagem”, pois queria saber se era possível linkar as duas partes para formar uma incrível via passando por um dos, senão o maior, teto do Espírito Santo. Como a parede era muito negativa, não consegui chegar direito na passagem chave, mas consegui ver que havia um abaulado chave que seria o elo de ligação. Quanta alegria! Acho que só quem conquista uma via tem a noção do que é achar uma agarra-chave. Só me restava saber se era possível usá-la para dominar a próxima agarra, mas tendo agarra, dominar era uma questão de força ou macetear o lance.

O DuNada bateu as chapas, sendo 2 no teto (!!!), e assim que ele pôs os pés no chão, já estava me encordando para isolar as passadas. Cheguei na “passagem”, estudei algumas possibilidades e logo consegui resolver o problema com um dinâmico estranho! Quanta alegria! Tirei o resto das passadas e desci. Quinze minutos depois, estava novamente na via. O cansaço de ter acordado às 5h30 da manhã, de ter dirigido 2h e meia até a pedra, de ter passado o dia escalando e ajudado na conquista não eram motivos suficientes, tamanha a motivação de ter encontrado a passagem e viabilizado a linha. Escalei a via com vontade e motivação não antes vista e bati na parada já no final do dia para liberar a via “Coruja Murucututu” (8b).

DuNada equipando a nova via na Parede do Tonho.

Para quem não sabe, todas as vias da Parede do Tonho possuem nome de pássaro. Aquele lugar parece um refúgio das aves, porque a quantidade e variedade de passarinhos que tem ali em volta é incrível. Nesse dia, enquanto nos preparávamos para equipar a linha, avistamos uma coruja diferente numa árvore. De início achamos que fosse uma águia, mas logo ficou claro que era uma coruja gigante. Tirei uma foto com a minha “tele” e fomos pesquisar na internet para saber o nome da ave e logo descobrimos que se tratava de uma coruja Murucututu de Barriga Amarela. Nem preciso dizer que o nome da via já estava definido antes mesmo de terminar a conquista.

Coruja Murucututu de Barriga Amarela que avistamos na parede do Tonho.

Segue o croqui atualizado!

Croqui atualizado.

Os homo sapiens

Além do DuNada, nesse dia estavam ainda o Lissandro e a Yasmin que foram comigo e o Iury e a Alaine que rodaram de Colatina (250km) para conhecer o pico.

O Lissandro à vistou a clássica “Piu da Coruja” (7a) e a Ya mandou a mesma via no “segundo giro”. Mais cedo mandei a via Eldorado que tinha equipado em 2015 e nunca tinha entrado. Recentemente, o Alequinho fez o FA da via graduando em 8b, mas achei uma sequência melhor e estou sugerindo 8a/b. Já no Tonho também mandei a “Sabiá sabia assobiar” (8a), outro clássico da parede que transcorre por um teto incrível em agarrões e agarrinhas… 

Yasmin, de sapatilha nova, mandando a via “Pio da Coruja” (7a).
Na sequência crux da via Eldorado. Foto: Yasmin.

Uliana

Na semana anterior, estive novamente em Uliana com a Ya, Poul e Dante. Dei um gás para voltar lá porque a partir do mês que vem, a parede fica ao Sol o dia todo até fevereiro e queria aproveitar o restinho da temporada. Nesse dia, a Ya mandou a via “No root” (7a) a flash e o Poul a “Café com Prosa” (8c/9a); e eu a Café Intenso (9b) e a Café Camocin (8b/c). A Café Intenso é considerada a via mais difícil de Uliana. No início, a via foi graduada em 9b/c, mas após algumas ascensões, ela baixou para 9b. Para mim, é a via que tem a sequência crux mais bonita de Uliana, mas ainda não ganha da via “Moagem Grossa” (9a/b) que é a mais incrível de todas. Já a Café Camocin dei um decote. Inicialmente estava graduada em 8c/9a. Depois o Alequinho deu 8c, mas eu acho que pode ser 8b/c porque passei com certa folga no flash.

Escalando em Uliana. Foto: Dante.

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Comentários

5 respostas

  1. Que massa Naoki, vimos a nova via, ficou irada demaiss!!! Estivemos lá esta semana, e vimos uma coruja branca com os olhos pretos muito linda, acho que não era a mesma dessa foto, Caio tem uma foto dela bem de perto. Acima da via Pio da Coruja tinha um rato morto, talvez estejam fazendo algum ninho por lá rs.
    E saiu mais uma via no setor, bacana demais . As vias ali no Tonho nos motivam a treinar mais, não tem nada de graça hahaha.

  2. Ah que legal! O Afeto me mostrou a foto sim. Parece filhote. Tonho está demais!

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