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Coentro Provençal

Estou há cerca de meia hora parado num engarrafamento sinistro de volta de feriadão entre as cidade de Ibiraçu e Fundão! O trânsito está tão parado que resolvi escrever para passar o tempo!

Preciso admitir que a volta das férias não está sendo fácil. Sair de um pequeno vilarejo com menos de 300 habitantes para uma cidade de 1 milhão de habitantes, num país que vive quase um apocalipse político; sem contar as cobranças do trabalho e as pilhas de demandas para ontem.

Pelo menos calhou que o final de semana seguinte coincidiu com um feriado prolongado.

A temporada por aqui, definitivamente, já era! As chuvas chegaram com força e a temperatura subiu para acima dos 30 graus Celsius. Para não dizer que não tem como escalar, fiquei sabendo que uma dupla de escaladores britânicos conquistou uma nova via na face sul da Pedra da Agulha, em Pancas. Ainda não consegui descobrir se são os mesmos que começaram uma via há uns anos ou se são outros que abriram uma nova linha. O fato é que o calor, pelo menos para os gringos, não é desculpa para não escalar.

Não tinha pretensões de conquistar mais esse ano, mas a volta das férias me fez reacender a vontade, mesmo sabendo de todas as dificuldades climáticas.

A gente sempre volta das férias com novas inspirações, motivações e ideias. E talvez estivesse precisando colocar tudo isso em prática e, de quebra, fugir um pouco desse caos político.

Uma das ideias que trouxe de Verdon para tentar colocar em prática aqui é buscar linhas mais verticais e difíceis nas paredes do Espírito Santo.

Naturalmente, copiar e colar simplesmente não funciona, pois o granito/gnaisse é muito diferente do calcário, mas lembrei de uma parede que poderia ter algum potencial para essa ideia: a Parede do Polese.

Há algum tempo atrás, quando fui com o Iury olhar uma cachoeira efêmera que tem lá, vi uma parede mais vertical que poderia dar alguma coisa. Na época achei vertical demais e talvez sem agarras, mas agora era justamente isso que estava procurando.

A conquista

Saí de Vitória sem pressa na segunda-feira, feriado de Dia das Crianças, pois eu sabia que não teria como escapar do sol. A parede fica na sombra pela manhã, mas antes do meio-dia o sol entra implacavelmente no melão. Poderia ter saído mais cedo, mas fiquei com preguiça e assumi a consequência.

Saí de casa umas 6h, ainda passei na padaria e só cheguei na parede por volta das 8h30.

Dei uma olhada na parede para confirmar a linha e logo fiz a aproximação. A grande vantagem dessa parede é que o acesso é muito prático, pois a estrada passa paralela à parede, bastando apenas cruzar o riacho para chegar na base da pedra. Quando se está sozinho e precisa levar todo o material sozinho, esse é o melhor dos mundos.

Fazendo a aproximação.

Rapidamente cheguei na base e vi que a parede era vertical como o esperado e, o melhor de tudo, com fartura de agarras.

Iniciei os trabalhos e, quando fui bater a primeira proteção, senti a verticalidade ao posicionar a furadeira. Por um momento achei que estava me metendo onde não devia, mas a conquista foi fluindo e logo bati 7 chapas em 30m. Talvez seja a recíproca da generosidade francesa.

Batendo a primeira chapa.
Estabelecendo a base com chapeleta removível. O fabricante não recomenda fazer isso.

Estabeleci a P1 após esticar 35m de corda. Em geral, estico mais, mas como já bati 7 chapas, achei que seria uma boa cortar a enfiada. Além disso, mais acima a pedra mudava de estilo, saindo do vertical e entrando num trecho mais rampado, mas ainda com muitas agarras e buracos, por isso achei que caberia uma parada.

Atualizando a minha posição no rastreador.

A enfiada seguinte, a segunda, segue o estilo padrão do local, com lances longos numa parede cheia de agarras e com baixa inclinação. Mais uma vez cortei a enfiada com 35m, onde a parede volta a ganhar inclinação. Todas as vias dessa parede seguem esse padrão: no meio da parede sempre tem uma espécie de headwall. Em geral, nas outras vias, é nesse trecho que fica o crux da via, com lances mais delicados.

Incrivelmente, nessa parte da parede, a linha se mostrou bem farta de agarras, proporcionando uma escalada agradável.

Concluí, ainda que sem evidências claras, que o fato de a linha passar no lado da cachoeira favoreceu a formação das agarras, pois há várias agarras polidas nesse trecho.

Aliás, tentei passar a linha da via fora do curso principal da cachoeira, mas é difícil ser assertivo, pois a conquista foi sob condições de cachoeira seca. Repetições futuras com alguma água na cachoeira poderão ter problemas com agarras molhadas. Por isso, recomendo escalar mais para o final da temporada.

Pausa na P2.
Lances mais longos da 2a enfiada.

Se até então a via seguia o estilo francês, na terceira enfiada, toquei coentro no molho e estiquei uma corda cheia até o talo para alcançar um platô decente quase no final da parede, ao melhor estilo da escalada capixaba. Isso porque, se nas primeiras enfiadas o sol estava agradável e tolerável, agora estava insuportável. Basicamente, toda vez que batia uma chapa, precisava tirar a sapatilha por causa do calor, deixando a conquista mais morosa.

Pausa para os pés. Saída da 3a enfiada.
Belíssima 3a enfiada.

Ao final da terceira enfiada, pensei seriamente em descer dali por causa do calor, mas eu ainda tinha água (ainda que quente) e chapeletas, então aguentei mais um pouco e toquei a última enfiada.

P3, e o sol castigando…

A quarta e última enfiada é mais um protocolo, mas tem lances legais, sempre em agarras, e a escalada segue mais perto da linha d’água. Tenho minhas dúvidas se tem como passar se tiver água, pois o espaço de rocha é restrito. De um lado a água e do outro a vegetação.

Conquistando de pés descalço por causa do calor.
Cume!

Cheguei no cume, mais uma vez, esticando a corda até o talo. Queria ter subido mais um pouco, mas não teve jeito: acabou a corda. Tive que estabelecer a parada na borda. Depois, resolvi subir escalaminhando o resto até o cume, porque eu queria ver o que tinha no topo: pasto com boi! A subida não foi trivial, pois, mais para o topo, ainda há água e a rocha fica muito lisa e escorregadia. Na descida, achei melhor montar um rapel numa árvore para voltar à P4.

Eu acho que, de todas as vias do setor, essa é a mais escalada em agarras. Logo, deve ser a mais bonita e agradável. Destaque para as enfiadas ímpares, que são as mais legais.

O único ponto de atenção é a cachoeira, que precisa estar seca, principalmente no final, onde a via chega mais perto da linha d’água e as proteções são mais espaçadas.

Descanso pós conquista.
O entardecer…

Ah, sobre o engarrafamento: levei 3h para voltar de João Neiva até Vitória! Normalmente faço esse trecho em 1h.

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Pé na água e Pancas

Tem dias em que a gente sabe que não vai dar bom, mas, mesmo assim, insistimos. Se de um lado está a ciência com a previsão do tempo, do outro está a crença de que há esperança, de que a ciência esteja errada e de que o tempo irá se firmar.

Assim, com base na minha fé e ignorando a ciência, parti para a cidade de Pancas no sábado, em busca de novas pedras.

Tudo estava dando certo. Parecia que a ciência estava errada e a minha crença, correta, até eu chegar a Colatina — o divisor de águas que separa o norte do sul. Ali descobri que a ciência estava certa e que a minha crença não fora forte o suficiente. O limpador de para-brisa trabalhava incessantemente e o horizonte estava branco. Normalmente consigo ver as montanhas à frente, mas, dessa vez, não via nada além do branco.

O bom senso dizia que eu deveria pegar o próximo retorno e ir para outra direção, mas ele me falta, então sigo em direção à massa branca.

Por um instante, o limpador cessa. A esperança surge, o céu se abre e consigo ver as pedras. Sigo motivado.

Mas, quando chego à região de Pancas, a ciência dá um banho na minha crença e o limpador entra em ação novamente. Estaciono o carro para pensar sobre a situação, olhando para o para-brisa molhado.

Resolvo aproveitar o tempo ruim para checar algumas pedras, já que nunca arrumo tempo para isso.

Primeiro alvo, que era o objetivo do dia: Pedra do Cruzeiro de Lajinha de Pancas. Escrevo assim porque o que mais existe no Espírito Santo é a tal da Pedra do Cruzeiro. Pelo visto, não sou só eu que tenho muita fé neste estado.

Pedra do Cruzeiro da Lajinha de Pancas.

Entro no vale entre a Pedra do Cruzeiro (que fica no distrito de Lajinha) e a Pedra da Mula, um lugar de beleza única de que eu nem sabia da existência. Procuro a face que estava vislumbrando e, naturalmente, ela estava bem molhada, mas acho uma possível linha.

Vou à procura do dono para garantir que poderia voltar no futuro. Conheço o senhor Oliveira, um homem de meia-idade, simples, da roça, que mostra com orgulho as belezas da terra. A casa dele fica no final do vale, onde três nascentes alimentam o rio que desce para Lajinha. A água é limpa e cristalina, algo muito raro por esses lados. Em geral, os rios daqui são muito poluídos com pesticidas para o café. Eu mesmo não tenho coragem de me banhar neles, mas ali era diferente. A conversa foi proveitosa e sem pressa, do jeito que precisa ser no interior.

Despedi-me com a promessa de voltar outra hora para escalar a Pedra do Cruzeiro. Na volta, fiz mais um reconhecimento dela e calculei que a parede deve ter uns 500 metros de altura, algo super normal por aqui.

Havia mais um curioso além de mim.

Dali, resolvi ir até outra pedra, esta já na divisa entre Pancas e Colatina. Eu sempre vou a esse local, pois namoro há tempos uma pedra que fica na beira da estrada. O problema é que não sei quem é o dono das terras. Pelo estado da cerca, imagino que seja alguém de posse. Dessa vez, finalmente encontrei uma família perto da pedra e resolvi abordá-la para descobrir mais alguma coisa. Soube que a pedra pertence a uma pessoa que mora em Governador Lindenberg, uma cidade ao lado. Consigo o nome do proprietário e fico sabendo que, vira e mexe, ele anda por ali. Outro dia voltarei e, quem sabe, terei mais sorte.

Vou para o terceiro alvo, ali perto, mas dessa vez já em Colatina. Aparentemente, a pedra não tem nome. Pelo mapa geológico, não é o mesmo tipo de rocha de Pancas, o que me deixou mais curioso. Está mapeada como Suíte Ataléia, um grupo de rochas do qual tento manter distância por ser muito difícil de abrir via. Nessas rochas, é preciso acertar o veio de agarras, ou você irá sofrer nas paredes lisas e homogêneas.

A parede é enorme. Se fosse no Rio de Janeiro ou em São Bento do Sapucaí, já teria umas dez vias, mas é a tal da Suíte Ataléia. Não me senti atraído o suficiente e resolvi dar meia-volta. Essa vou deixar para a próxima geração.

Dali, resolvi pegar o rumo de casa, pois, além de a parede estar babada, o mormaço pós-chuva estava terrível. Pensei em passar por João Neiva para checar uma pedra que o Tesourinho havia comentado. No caminho, passando de volta por Colatina, paro para almoçar no Restaurante Portal, que fica na beira do asfalto. Esse é um lugar muito estratégico para bater um bom prato. Isso já eram 11h da manhã.

De barriga cheia, sigo rumo a João Neiva. No caminho, lembro da Parede Polese e surge a ideia de abrir uma via. Para o horário avançado de uma conquista tradicional de vários esticões — já que passava do meio-dia —, Polese parecia a opção ideal. A aproximação ali é ridícula e a parede é relativamente baixa, com uns 200 metros. Além disso, como havia chovido apenas pela manhã, o vento e o mormaço já deveriam ter secado a rocha.

A Parede Polese é algo realmente ímpar. Há uma estrada que segue paralela à parede, então, até para escolher a linha da via, dá para fazer andando de carro. Ridículo!

No final da parede, um pequeno totem chamou minha atenção. Ele era pequeno, não tinha mais que 10 metros, mas parecia um lugar natural para começar uma via.

Estacionei o carro a apenas 15 metros da rocha. A única coisa que me separava da base era um riachinho — que, ironicamente, sempre se torna o primeiro crux de quase todas as vias.

Olho para o relógio e vejo que são 12h30. Lembro que o sol se põe às 17h. Como estava sozinho, coloco como meta baixar antes do anoitecer, independentemente de quanto estivesse avançada a conquista.

Separo o material rapidamente e cruzo o rio. Vejo um pequeno banco de areia que poderia servir de base, mas, assim que piso, meus pés afundam na areia molhada. Calço o tênis de volta do jeito que dá e subo uns 3 metros, com mochila e tudo, até um platô.

Cruzando o riacho.

Dali, olho melhor para o totem que tinha visto do carro e descubro o primeiro erro logístico do dia: eu havia trazido apenas peças pequenas de proteção móvel, quando na verdade a fenda exigia peças grandes. Sem chance de passar aquele lance solando.

Sem muita escolha, volto até o carro para pegar os cams maiores. Atravesso o rio de volta, subo até a base e começo a me arrumar. Olho de volta para o carro, de relance, e vejo que deixei o rastreador por satélite esquecido no teto. Havia deixado ali porque tinha acabado de mandar minha posição para a minha esposa.

Sob condições normais, teria deixado lá em cima, mas o carro estava exposto na beira da estrada, com gente passando toda hora. Além disso, como a região não tinha sinal de celular, aquele rastreador seria a minha única garantia em caso de qualquer eventualidade.

Mais uma vez, cruzo o riacho e vou buscar o aparelho.

Cruzando o riacho pela enésima vez.

Após os contratempos, finalmente começo a conquista. Entro no diedro e vejo que é muito tranquilo; a única coisa com que tinha de tomar cuidado eram alguns blocos soltos.

No entanto, observo que meu sistema de autoseguro, usando o Silent Partner, não estava fluindo como de praxe. No meio da via, paro para fazer alguns testes e vejo que a corda agarra muito na polia. O Silent Partner é extremamente sensível ao diâmetro e à umidade do ambiente. O sol já estava a pino, mas a corda tinha ficado no porta-malas e absorvido um pouco da umidade da chuva da manhã. Com isso, ela estava ligeiramente úmida, o suficiente para travar o sistema na progressão.

Sabia que, com o calor que estava fazendo, a corda secaria logo, então segui escalando.

A primeira enfiada ficou estranha. Um misto de sistema que travava com uma parede mais lisa e desprovida de agarras. Em geral, a primeira enfiada de todas as vias dessa parede é bem fácil e cheia de buracos, mas ali não era assim.

No diedro da 1a enfiada.

Uma rápida olhada em volta e logo desvendei o mistério: a camada da rocha tinha um mergulho estrutural. O ponto onde comecei a primeira enfiada correspondia, na verdade, à altura da segunda enfiada das vias ao lado. De fato, a segunda enfiada das outras linhas costuma ter menos agarras.

Estabeleci a P1 após esticar uma corda inteira. Desci para limpar a enfiada e subi de volta pela corda fixa.

A segunda enfiada parecia bem mais inclinada, mas sabia que seria de boa porque conseguia visualizar muitos buracos. A Parede Polese é incrível justamente por causa dessas feições. Às vezes, parece que se está escalando em um calcário, mas com a aderência e textura do granito.

Estiquei mais 60 metros e, dessa vez, a escalada fluiu muito melhor. A corda secou ao sol e o Silent Partner voltou a responder normalmente. Consegui estabelecer a P2 em um platô confortável.

Abandonando as peças na P1.

Dei uma conferida no relógio e vi que o tempo estava no limite; não teria margem para mais do que uma enfiada. Independentemente do resultado, o plano de segurança ditava que eu teria que baixar depois dela.

Esticando a corda.

A terceira enfiada parecia fácil. Um trecho um pouco mais vertical na saída e, depois, parecia perder inclinação. Mas havia uma surpresinha me esperando no final.

Na parte alta, bem no topo da parede, há um grande teto. Ele se formou pelo desprendimento de uma grande placa abaixo, um fenômeno geológico bem comum. Mas, justamente por causa desse desabamento antigo, a parte final ficou mais lisa e cheia de pequenas lacunas e placas soltas, que exigiam muita atenção e um trabalho constante de pés.

As lacas, nem sempre confiáveis da 3a enfiada.

Diria que é o tipo de enfiada que o escalador ama ou odeia. É uma escalada peculiar e psicológica que eu aprecio bastante, mas sei que muita gente não curte, justamente por ser um terreno muito instável.

Estiquei a corda gerenciando o atrito e praticamente cheguei à base do grande teto. Como a ideia original da investida era ir exatamente até ali, resolvi encerrar a conquista naquele ponto e iniciar os rapéis.

O retorno foi tranquilo e correu estritamente conforme o planejado: consegui pisar no chão exatamente às 17h, minutos antes de o sol sumir no horizonte.

Não estava nos planos abrir uma via na Polese naquele sábado, mas, no fim, acho que nasceu uma linha muito interessante e divertida. Com essa conquista, a parede agora conta com 6 vias que totalizam quase 1.200 metros de escalada. Está começando a ficar interessante para a comunidade tentar um big 1.000 local!

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Sobek

Em 2012, os escaladores Oswaldo Baldin, “Soldado”, “Tatu” e Samuel Amaro conquistaram a via “Terceiro Elemento” na face sul da Pedra do Jacaré (ou Trono do Jacaré) em Pancas, ES. A via possui 530m de extensão e está graduada em 4º, V, E3/E4, D2.

Em 2016, o proprietário das terras que levam à base da montanha fechou o acesso, e a via acabou ficando inacessível.

Sempre que vou ao Vale do Palmital, olho para aquela parede e fico pensando em como contornar esse problema. Já cheguei a cogitar uma conversa com o proprietário para ver se ele revogaria a proibição, mas, conversando com o Fabinho, ele achou que não surtiria efeito.

Recentemente, conversando novamente com o Fabinho, que é proprietário do Camping Cantinho do Céu, perguntei sobre a face noroeste do “trono” na Pedra do Jacaré. Pensei: se o proprietário não deixa acessar a via, a solução seria abrir uma nova linha usando outro acesso, pelo lado oposto da montanha, pela propriedade do Fabinho.

Pedra do Jacaré à direita e o Trono do Jacaré ao centro.

O Fabinho explicou que já havia rondado por aquele lado com o Baldin e que inclusive iniciaram uma via por aquela face (via Poracaso), mas acabaram deixando o projeto de lado pela complexidade do acesso à base.

Analisei algumas fotos de drone e achei uma possível linha passando pelo lado esquerdo da via Lua de Mel até o cume da Pedra do Jacaré, conectando depois com a via Terceiro Elemento na altura da 7ª enfiada.

Ideia na cabeça, pé na estrada! Saí de Vitória, sozinho, no domingo rumo a Pancas. Até a cidade de Colatina o tempo estava ótimo, mas, quando cheguei no colo que separa a região norte da área ao sul pelo Rio Doce, vi uma densa neblina nos vales cobrindo toda a região de Pancas. Em geral, quando há neblina nos vales, isso indica que a chuva do dia anterior foi bem forte. À medida que fui mergulhando na névoa, comecei a observar que havia muitas poças d’água pelo caminho. Logo, tentei focar o olhar nas montanhas ao redor para ver se havia escorridos de água nelas, mas a visibilidade estava muito restrita.

Amanhecendo no Rio Doce.

Quando estava mais perto das montanhas de Pancas, encostei o carro em um local seguro e resolvi levantar o drone para avaliar a situação, pois do chão não dava para ver nada. Assim que o aparelho subiu, ficou claro que as paredes do entorno estavam secas, sem linhas de água. E, pelo andar da carruagem, logo a neblina iria se dissipar com o calor e o sol iria imperar na região.

Desci o drone e, mais tranquilo, segui viagem até o camping do Fabinho.

Cortina de nuvens.

Expliquei as minhas intenções a ele. Como estava indo sozinho, detalhei o meu plano mais do que o habitual, pois aquela região não tem sinal de celular. Como a parede ainda estava na sombra e a vegetação molhada da chuva do dia anterior, fiquei ali conversando sem muita pressa.

Névoa da manhã.

O Fabinho me passou algumas dicas preciosas de aproximação e fui de carro até o ponto indicado. Dentro da mata, a vegetação ainda seguia muito úmida, mesmo com a chegada do sol da manhã.

Iniciando a caminhada.

A ideia original era atingir um rampão pela aresta da pedra para ganhar altura, mas a mata se mostrou bem ruim de caminhar. Comecei a entender por que o Baldin havia deixado o plano de lado.

Desisti do rampão e fui em direção à via Lua de Mel para pegar a rocha mais de baixo. Não estava nos meus planos começar a conquista tão do início da pedra. Para essa empreitada, havia levado apenas 30 chapeletas para uma parede de 300m.

Como esperado, nos metros iniciais, a pedra estava molhada e com musgo. Pela posição do sol, não seria hoje que iria secar. Como o trecho era relativamente curto, resolvi encarar do jeito que estava. A ideia era sair dos musgos, atingir um platô e depois buscar um segundo terraço para iniciar a conquista em si.

Claro que, quando alcancei o primeiro platô, “descobri” que não daria para chegar ao próximo platô em solo. Tenho essa mania feia de cometer esse erro, e em várias vias fica essa coisa estranha.

Vi que a rocha ainda estava um pouco úmida, então resolvi gastar mais um tempo ali antes de iniciar a conquista. Do platô, à direita, consegui ver as primeiras chapas da via Lua de Mel, mas, pelo que notei, não teria como acessar a base por lá.

Iniciei a conquista um pouco tarde para os padrões locais (9h20) e para o objetivo do dia, mas na natureza a gente não escolhe, a gente se molda às condições.

A primeira enfiada ficou bem fácil, talvez um III grau com 60m e duas proteções fixas. Estabeleci a parada entre dois platôs de mato. Resolvi fugir deles para evitar o pisoteio da vegetação, que era bem exuberante.

Na P1 da via, ao lado da vegetação.

Acima de mim, um pequeno vertical me aguardava, mas resolvi contornar pela esquerda para ganhar tempo e poupar chapeleta. Com isso, cheguei a um grande terraço de mato que havia visto de baixo. A ideia era chegar até esse ponto solando, mas, como se viu, não deu certo. Essa segunda enfiada ficou com apenas 30m e possui apenas uma chapa que bati para orientar a corda. Deve ser um III também, e a parada foi estabelecida em uma árvore.

Dali para cima, uma bela parede mais aprumada me aguardava. Parecia ter uns 60m até o próximo platô, que seria o mesmo da P4 da via Lua de Mel. Como vi que a peleia seria boa, resolvi fazer um descanso maior antes de dar continuidade à conquista.

Surpreendentemente, a terceira enfiada se mostrou muito prazerosa. Belos lances em agarras com poucas passadas de aderência e trechos interessantes em lacas. Infelizmente, as lacas eram cegas e não aceitaram peças. A enfiada ficou com 55m e protegida com 5 chapas. Por pouco não consegui chegar ao platô, mas acho que as futuras repetições conseguirão tocar direto, passando a parada. Na conquista em solitário, a ponta da corda fica amarrada em uma ancoragem da base e, às vezes, isso acaba consumindo um pouco de corda. Nesse caso, tive que amarrar a corda em uma árvore que estava um pouco mais distante da base, o que consumiu uns 5m que fizeram falta no final.

Descansando na P2
Iniciando a conquista da 3a enfiada.

A essa altura, o sol já estava dando as caras e a parede estava completamente seca. A rocha apresentava uma textura agradável e o clima estava ótimo, mas comecei a me sentir cansado. Resolvi fazer mais um descanso no platô, aproveitando as comodidades do espaço.

A minha mochila estava muito pesada com o material de conquista, incluindo móvel, mais os 3L de água que eu estava levando.

A próxima enfiada se mostrou bem tranquila. Na verdade, foi uma escalaminhada (II grau) até chegar a um pequeno headwall. Tentei contornar pela direita para evitar a parede, mas comecei a me embrenhar nos espinhos e resolvi voltar. Poderia ter insistido, mas, pensando nas futuras repetições, achei melhor seguir pelo headwall, que seria mais interessante.

Escalaminhada da 4a enfiada.

Ainda não sei por que fico achando que as pessoas irão repetir as vias. De qualquer forma, voltei para o headwall e superei o lance (III SUP). Bati duas chapas nesse trecho para ajudar na orientação e estiquei 30m até estabelecer uma parada em duas árvores, a uns 10m do cume.

Vencendo o vertical da 4a enfiada.

Cheguei ao cume e pensei em descer dali. Seria tão fácil baixar por alguma via do Jacaré e deixar o projeto de lado. Eu sabia que ainda faltavam uns 200m de escalada e o peso da mochila estava cobrando o seu preço. Além disso, o sol seguia me castigando em banho-maria.

Outro agravante seria o vara-mato que me aguardava com a mochila pesada pelo cume. Pensei em fazer o porteio em duas etapas para diminuir a carga, mas fiquei com preguiça e soquei tudo na mochila. Puxei o facão que havia levado pensando na vegetação e comecei a picar uma trilha. Tentei deixar a trilha aceitável, pensando na minha volta e nas futuras repetições (doce ilusão).

Achei, sem grandes dificuldades, o colo entre a Pedra do Jacaré e o Trono do Jacaré.

Mais um descanso para me recompor e, dessa vez, resolvi comer algo decente, pois até então estava à base de gel energético e água.

Abri uma lata de atum com seleta de verduras. Notei que havia líquido no atum. Aquilo desceu redondo e me trouxe um pouco de ânimo. Estava poupando água ao máximo, então aquele líquido no fundo pareceu uma água extra que não estava no planejamento.

Descansado, fui procurar uma fenda que havia visto pelo drone. Sabia que havia duas fendas, sendo a da direita a que me levaria diretamente à P6 da via Terceiro Elemento.

Achei a tal fenda, que na verdade se mostrou uma fissura frontal cega; mas, como havia bastantes agarras por fora e a parede era pouco inclinada, parecia tranquilo. Mais acima, após um platô, consegui ver a fenda que me levaria à P6 da via.

Pensando nisso, levei um jogo bem enxuto de peças: do #.5 ao #3, e o resto iria resolver na coragem. Mas confesso que, quando vi o tamanho da fenda, começou a me faltar coragem e fiquei um pouco receoso. Bateu aquele arrependimento, pois o trecho tinha uns 30m e era mais inclinado do que o esperado.

Logo na saída, mais uma vez pensando nas repetições, bati uma chapa na fenda cega para ajudar na orientação. Quando cheguei na base do grande diedro, vi que a fenda estava molhada em alguns lugares, mas pelo menos as peças que eu tinha pareciam que iriam servir. Por sorte, havia muitas agarras por fora, o que ajudou na subida. Em 30m, consegui colocar 4 peças das 5 que havia levado. Sucesso total!

A grata surpresa da 2a parte.

Assim que cheguei ao cume do totem, sem dificuldades, achei os dois grampos do Terceiro Elemento. Nunca foi tão bom achar um grampo de alguém durante uma conquista.

As próximas três enfiadas me pareceram tranquilas, mas, como eu estava bem cansado, tive que redobrar a atenção para não fazer nada errado.

Toquei as próximas duas enfiadas, uma de IV e outra de III, embora achasse as duas iguais em termos de dificuldade.

Na P8 da via Terceiro Elemento.

A terceira e última antes do cume fiz em solo para ganhar tempo, um II grau. 

Cheguei ao cume às 15h45h, após quase 6h de escalada e totalizando 500m de escalada. A vista de lá é algo impressionante, sem dúvida, uma das melhores da região. Está pau a pau com a vista do topo da Pedra da Cara.

Cume!
Vista do cume!

Procurei o livro de cume e vi que a última repetição escalando foi a de 2016, exatamente dez anos atrás. Depois, algumas pessoas subiram caminhando pelo outro lado e assinaram o livro, sendo o último registro em 2025.

Livro de cume.

Como havia um longo caminho de volta, uns 450m de desnível até a base, tratei de agilizar o retorno. Estava um pouco preocupado, pois só teria 1h30 de luz e tinha algumas dúvidas sobre o rapel.

Cheguei ao colo de volta às 16h30 e fiz mais um descanso. Empacotei tudo na mochila e voltei para o vara-mato.

Em vez de descer pela própria via, resolvi descer pela via Paredão Lacoste. Eu já tinha descido por ela em 2024, durante o Encontro de Escalada, mas tinha um pouco de dúvida sobre qual árvore usar para abrir o rapel.

Achei a tal árvore sem muita dificuldade, pois é bem característica. Iniciei o rapel às 17h, com o sol já se pondo atrás das montanhas. Como deixei o carro em um ponto e estava descendo pelo outro, sabia que, depois de terminar o rapel, ainda teria uma boa caminhada para chegar até ele. Mas, naquele momento, tratei apenas de focar nos procedimentos sem cometer nenhum erro.

O rapel foi rápido e, às 17h30, cheguei ao chão. Enquanto descia o rampão final, vi de longe o Fabinho na moto. Parecia estar indo para a cidade, mas, de repente, ele virou no cafezal e começou a vir em minha direção. Que alívio! Após passar o dia sem falar com ninguém, foi ótimo conversar um pouco.

O Fabinho me levou de moto até o carro, me poupando de uma caminhada marota no final. Dali, foi pé na estrada até Vitória: mais 3h de carro.

Sobre o nome da via, batizei de Sobek, uma divindade da mitologia egípcia retratada como um homem com cabeça de crocodilo, fazendo uma alusão à Pedra do Jacaré.

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Stigmatodon, liberação

O dia estava muito agradável: temperatura amena, um vento sul gelado e ar seco. Com esses ingredientes, definitivamente, a temporada de escalada tradicional está começando!

Estava no meio da terceira enfiada da via Stigmatodon, uma linha que abri em solitário na temporada passada. Agora, me encontrava nela novamente, de forma igualmente solitária, para liberar todas as enfiadas.

À medida que ia subindo, ficava pensando na graduação proposta.

— Isso não é um V, talvez no máximo um IV. Preciso arrumar o croqui!

De repente, me peguei tateando a parede em busca de agarras. Varri tudo que estava ao meu alcance e não achei nada. O jeito foi subir os pés, acreditando em uma saliência, sem usar as mãos, pensando por que não havia uma chapa ali ao lado. Também nessa hora entendi por que propus V grau para essa enfiada. Fechei a cara e segui sem grandes problemas.

O dia começou cedo, muito cedo. Acordei às 3h45 e peguei a estrada saindo de Vitória. Quando saí de casa, ainda estava escuro. Na capital, o termômetro do carro marcava 24 °C, mas, à medida que ia saindo do centro urbano e entrando no interior, a temperatura ia despencando, até chegar a 18 °C em alguns pontos. Já sabia de tudo isso, pois vinha monitorando a frente fria durante a semana. Sabia que no sábado teríamos o dia perfeito para fazer uma parede.

A semana foi muito cansativa. Meu desejo era escalar no domingo, mas sabia que o melhor dia seria o sábado. Se eu ficasse em casa no sábado, iria me arrepender de perder um dia tão clássico.

Cheguei ao Fabinho às 6h30, após 2h30 de estrada. Não falava com ele desde a temporada passada. Havia muita conversa para botar em dia, mas o tempo estava correndo e deixamos o resto para depois.

Subi em direção à base da via, que fica ao lado da via  Supercanaleta, no Morro do Camelo. Uma caminhada curta, bem sinalizada e tranquila, de uns 20 minutos me levou à base da via. A última vez que havia subido por ali foi justamente durante a conquista da via. Naquela ocasião, estava carregado, pesado. Não foi uma subida fácil! Mas, dessa vez, pareceu tão simples e agradável.

Na base da via.

Iniciei a escalada por volta das 8h da manhã. Um pouco tarde, mas como a temperatura estava agradável e com muitas nuvens, não me preocupei muito. Também não me apressei, pois sabia que a escalada seria trabalhosa.

Primeira enfiada.

A primeira enfiada é, sem dúvida, a mais clássica da via. Uma escalada mais vertical em agarras, com proteção regular (E2) e muito desfrute, do início ao fim. Não há uma passada crux definida, mas a escalada é constante. Deve ter umas 8 chapas em 50m. Confirmei o IV SUP que dei na conquista, mas é difícil dar IV SUP com 8 chapas… Não é comum…

Como estava em solitário, tive que descer para limpar a enfiada e depois subir pela corda recolhendo tudo. Assim que voltei à P1 após a limpeza, num momento de descuido, em vez de soltar a presilha do peitoral da mochila, abri a presilha da cadeirinha peitoral. O minitraxion que estava preso nela se soltou e desceu pedra abaixo. Fiquei perplexo olhando-o cair por 50 metros enquanto tentava me concentrar para ver onde ele iria parar.

Sem muita opção, tive que montar um rapel e fazer o resgate. Menos mal que não foi mais para cima, pois aí o estrago seria maior e poderia comprometer a escalada.

Achei o minitraxion exatamente onde esperava encontrar e logo estava de volta à corda fixa para jumarear mais uma vez os 50 metros da primeira enfiada.

A partir dali, escalei toda a via com atenção redobrada para minha mão de alface não largar mais nada.

A segunda enfiada tem um trick na saída e depois a pedra perde inclinação. Acho que o IV SUP está bem redondo.

A terceira enfiada é um pouco mais dura. Logo na saída tem um esticão longo, mas nada difícil. Depois de escalar a primeira enfiada bem protegida, essa dá um certo contraste, mas, no fim, lembramos que o padrão local é esse mesmo!

Início da 3a enfiada

Quase decotei a enfiada, mas acho que o V seja bem justo.

A 4ª enfiada também está cotada como V. Lembro que, durante a conquista, havia um lance mais técnico logo na saída e depois em um trecho de veio de cristal. De fato, esse trecho final é mais técnico e requer uma boa leitura; senão, o lance de V vira VI.

Limpando a enfiada.
Pausa para o lanche.

Para mim, essa e a 1ª são as enfiadas mais bonitas da via.

Crux!

A essa altura, a temperatura começou a aumentar e o dia foi ficando mais quente. Senti a sapatilha incomodar um pouco mais e vi que a água estava acabando. Levei apenas 2L para essa atividade, uma quantidade baixa para uma escalada solitária, na qual o esforço é quase triplicado.

Num dado momento, um drone sobrevoou o local, quebrando o silêncio do vale. Até então, eu escalava ouvindo diversos pássaros que estavam nas árvores mais abaixo. Tirando um grupo que caminhava na Pedra do Camelo, eu era o único escalando no Morro do Camelo e, provavelmente, em toda a região. Um dos maiores privilégios que se tem escalando no Espírito Santo.

A última enfiada foi só protocolo e logo já estava no cume. Acho que essa foi a primeira vez que cheguei ao topo com o clima mais ameno. Sempre chego por volta do meio-dia, quando o “maçarico” está ligado e mal consigo curtir o visual. Dessa vez, mesmo chegando nesse horário, a temperatura estava bem agradável e consegui ficar mais tempo admirando a vista.

Descendo para limpar a enfiada.

Pelo livro de cume, essa foi a primeira escalada no Morro do Camelo em 2026. Depois, conversando com o Fabinho, ele confirmou essa informação.

Livro de cume.

Como tinha um compromisso à noite em Vitória, não pude estender a estadia e tive que descer para pegar a estrada.

Fazer propaganda da própria via é sempre questionável, mas acho que ela ficou muito legal por ser uma escalada bem variada e numa pedra que fica pertinho do camping. Fica a recomendação!

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Tigre de Schelleberg

O conceito

Se existe uma coisa fascinante no mundo das conquistas, é achar uma pedra nova. Achar uma linha nova é muito legal, mas nada se compara a achar uma montanha! É o ápice de horas de trabalho, pesquisa e muito estudo. 

Esses dias, achei uma! Na verdade, eu não a achei; ela sempre esteve lá, estava apenas faltando eu juntar as peças do quebra-cabeça. 

Durante a pesquisa, descobri que a pedra tem até nome, o que não é muito comum. Em geral, descobrimos o nome das montanhas quando chegamos à localidade e perguntamos aos moradores. Quando não sabem, ou não tem, nós mesmos acabamos batizando. Com isso, às vezes descobrimos mais tarde que a pedra já tinha nome e acabamos “batizando por cima”. Por exemplo, a Pedra da Freira, que conquistamos em Afonso Cláudio, é conhecida pelos locais como Pedra da Broa. 

A pedra em questão se chama, pelo menos na carta, Pedra Schelleberg. Depois, vi que eu já havia passado por ela em 2017, quando fui com o Cosme para os lados de São Roque do Canaã, mas na ocasião a vi pela face sul, o qual é muito mais intimidadora. 

Agora, cheguei a ela a partir de uma foto tirada de uma rampa de voo livre, que mostra a face leste, uma face mais amigável e interessante. Após alguns estudos, concluí que teria potencial para uma via mediana. O único ponto de atenção foi o aspecto geológico: ao consultar o mapa geológico do Espírito Santo elaborado pela CPRM, vi que a montanha foi mapeada como parte da Suíte Ataléia. 

De forma super simplificada, a Suíte Ataléia compreende um grupo de rochas que fica entre o tradicional gnaisse de Pancas (Suíte Carlos Chagas) e os paragnaisses de Viana (Suíte Nova Venécia). Em termos práticos, esses gnaisses tendem a formar paredes com textura bem homogênea e desprovida de agarras, onde predomina o estilo de escalada em aderência, sensu stricto. 

A conversa

Fui conferir a pedra sozinho no sábado. Saí às 5h de Vitória, sem pressa, pois sabia que a face ficaria na sombra à tarde. Cheguei sem dificuldades e fui direto a uma propriedade que presumi pertencer ao dono das terras onde está a montanha. Conheci o senhor Adilson, um homem de meia-idade, típico morador do interior de origem pomerana ou italiana. Apresentei-me e expliquei o motivo de estar ali. Esse contato inicial é sempre cercado de certa desconfiança; afinal, não faz muito sentido alguém dirigir duas horas para “simplesmente subir uma pedra”. E de graça? Será que está atrás de ouro? Será um caçador?

A conversa com o senhor Adilson não foi diferente. Senhor de poucas palavras, ficava olhando para a pedra em silêncio. Nessas horas, o ideal é ficar quieto mesmo; bombardear com informações não ajudaria. De repente, ele caminhou para os fundos da propriedade e me levou até os limites do terreno. E disse:

— É só seguir a estrada até o pasto e depois subir. Vou seguir com a minha ordenha!

E foi embora. 

Voltei ao carro e levantei o drone. Assim que o drone subiu, uma feição na rocha capturou minha atenção: uma série de bandas verticais escuras alternadas com bandas amareladas. Pensei serem bandamentos por diferença de composição, algo incomum no estado, mas, independente da explicação, pareciam as melhores linhas para uma via. Escolhi a banda da direita, que parecia menor e mais fácil. 

Pousei o drone e me preparei. Pensei em dividir a carga, pois a mochila estava muito pesada e meu joelho não está 100%. Após voltar do Chile, uma ressonância indicou uma pequena fratura na patela. Não precisará de cirurgia, mas ainda dói e limita alguns movimentos. No fim, resolvi ir devagar, levando tudo de uma vez. 

Mais um osso fraturado para minha coleção, dessa vez na patela.
Iniciando a caminhada.

A subida pelo pasto foi tranquila. Na base do costão, fiz um descanso prolongado; o sol de abril estava castigante. Após beber água, encarei o costão. De baixo parecia trivial, mas, ao subir, mostrou-se trabalhoso. A rocha era homogênea e granulada; se a inclinação aumentasse e a rocha não melhorasse, eu estaria em apuros para conquistar em livre. 

Subi 150m de costão interminável até achar uma sombra providencial onde a rocha ganhava ângulo. Até ali, foi uma hora de caminhada desde a casa do senhor Adilson. Sem sinal de celular, aproveitei para ler um livro e esperar a parede entrar na sombra. 

Estudando a parede de perto, vi que as bandas eram calhas de água. Onde a água descia, a rocha era preta/cinza; onde não descia, era amarelada. E justamente na parte amarela, a rocha formava chorreras perfeitas. Bingo! 

A conquista

Iniciei a conquista e a escalada se mostrou tranquila. Às vezes as chorreras sumiam, mas restavam discos de rocha mais dura saltando da pedra, conhecidos como “pátinas”. Estiquei 60m de corda, com um crux de IV no final. A primeira enfiada ficou com oito proteções e é, sem dúvida, a melhor enfiada da via. 

Iniciando a conquista.

A próxima parecia mais fácil e com ainda mais agarras e muitas pátinas. Ao olhar para aquelas faixas que lembram marcas de garra de felino e lembrando da conversa com o Adilson, surgiu o nome para a via: Tigre de Schelleberg! Segundo ele, Schelleberg era o nome do antigo dono das terras. Juntei isso à outra história que o Adilson me contou sobre um grupo da igreja que desistiu de acampar no cume após encontrar marcas de onça. Com um pouco de licença poética, troquei a onça pelo tigre e surgiu Tigre de Schelleber!

P1 da via.

Estabeleci a P2 em um platô confortável e sombreado. Se não fosse por essa sombra, eu teria desistido. Na hora de limpar a enfiada, rapelei descalço e quase ganhei bolhas, de tão quente que a rocha estava. Voltei para a P2 e tentei comer um cuscuz, mas a boca estava seca demais. A água estava racionada (levei 3L para o dia). Sem opção, voltei ao livro e peguei no sono. 

Cara da segunda enfiada com as chorreiras e o desejado platô com sombra mais acima.

Quando acordei, havia mais vento e nuvens. As condições melhoraram, embora o relógio marcasse meio-dia. Por outro lado, percebi que a parede não entraria totalmente na sombra à tarde. Sem opções, encarei o pequeno headwall. Ali as chorreras sumiram, restando apenas pequenas ondulações para testar a confiança nos pés. O lance ficou interessante; consegui liberar na conquista e estimo um VI (ou um V sup carioca). Depois, a pedra perdeu inclinação até o início da mata. Bati a parada final e iniciei a descida. 

Saída da 3a enfiada.
Visão para os lados de Colatina e região noroeste.

Preocupei-me com o rapel, pois as chorreras formam bicos onde a corda poderia prender, mas a recuperação foi limpa. Cheguei à base às 16h. Na volta, encontrei novamente o senhor Adilson. Dessa vez, a conversa fluiu muito melhor; o homem de poucas palavras da manhã revelou-se falante, e trocamos boas ideias sobre a vida no campo. 

Linha da via. Aparentemente parece que há uma outra via conquistada pelos escaladores de Itaguaçu na esquerda.

Editado em 09/05/26 – Uma semana depois, conversando com o Iury, concluímos que a via da esquerda é a Estica e Puxa. Como no livro Escalada Capixaba, essa via fica numa pedra chamada Pedra da Lage numa coordenada que jogam para outra pedra, o que acabou causando uma confusão inicial.

A via não será um clássico, mas as duas enfiadas de chorreras são algo ímpar que vale a visita, algo que nunca vi no Espírito Santo. Quem sabe, no futuro, eu não volte para tentar as outras linhas!

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A primeira ventana!

A primeira “ventana” do ano é um fenômeno muito aguardado pelos escaladores, pois marca o início da temporada de parede no Espírito Santo. Em geral, essa janela vem acompanhada de chuva. Então, se quiser surfar essa primeira onda, é preciso escolher bem a parede para não entrar em roubada.

Teoricamente, ainda não estou 100% por causa da lesão no joelho nas férias, mas o vento gelado entrando de sul na cozinha de casa é um convite muito tentador.

Pensei em algumas possibilidades, considerando as grandes chances de chuva, além da minha condição debilitada. No fim, escolhi a via “Tesouros do A2”, em Ibiraçu.

Essa via foi conquistada pelos escaladores Fred “Ibiraçu” e André “Tesourinho” em 2010, após cerca de cinco investidas, à moda antiga, na marreta. É uma via bem popular, com muitas repetições, mas eu mesmo nunca a tinha escalado. Sempre que passo entre Ibiraçu e João Neiva, olho para a parede, que fica à beira da BR-101, e lembro que preciso prová-la. Porém, todas as vezes estou indo ou voltando de alguma escalada e nunca consegui encaixar a oportunidade.

Mas tudo tem o seu tempo e agora parecia uma boa ocasião.

O início da temporada também é uma boa oportunidade para dar aquela desenferrujada nos procedimentos de escalada solitária. Essa modalidade tem muitos detalhes técnicos que a gente acaba esquecendo por falta de prática. Por isso, gosto de começar a temporada em uma via mais fácil, para relembrar os macetes e evitar cometer erros em escaladas mais difíceis depois.

A Pedra do A2 fica a apenas 60 km de Vitória e está ao lado da BR-101, bem em frente a um motel chamado A2. A aproximação é bem íngreme, por um pasto, mas tranquila, principalmente se o dia estiver nublado e com bastante vento, como foi o caso. Sem vento e sob sol, imagino que seja bem desagradável.

Segundo alguns relatos, o crux é encontrar o primeiro grampo da via. Há até uma história famosa de um escalador que entrou em uma via inacabada ao lado e só percebeu o erro após esticar toda a corda. Ele precisou ligar para um amigo trazer um batedor e uma marreta para sair da situação.

Além disso, a descrição mais completa no livro “Escalada Capixaba” está um pouco desatualizada, já que as árvores e a vegetação cresceram bastante. Para piorar, como era início de temporada, a mata estava muito verde e alta devido às chuvas de verão.

Com isso, acabei utilizando uma aproximação um pouco diferente, fazendo uma grande travessia para a direita, a partir do pasto limpo. Fica a dica para quem quiser evitar a mata fechada, mas é importante estar confortável com o grau, pois o lance é um pouco aéreo.

A via começa em um platô mais alto, no meio da parede. Caso inicie pela base, acredito que seja necessário dividir a primeira enfiada em duas, utilizando uma parada dupla intermediária para rapel, pois, a partir do platô, a primeira enfiada já consome uma corda inteira.

A primeira enfiada é bem tranquila, com muitas agarras em uma parede mais positiva. A segunda já é mais interessante, com um pequeno trecho mais inclinado, em uma parede cheia de buracos que lembra o calcário, mas com textura de granito. Particularmente, achei essa a melhor enfiada da via.

Buscando o primeiro grampo.

A terceira enfiada é o crux, mas nada muito difícil. Olhando de baixo, assusta um pouco, mas, à medida que se avança, surgem agarras e buracos perfeitos que facilitam a progressão. A última enfiada é mais protocolar, apenas para finalizar a via.

Na segunda enfiada.
Voltando para P2 após guiar a terceira enfiada.

Essa via me lembrou bastante as escaladas da parede de Polese. Fica a dica para quem busca escaladas nesse estilo, com mais agarras.

Na última enfiada.
Livro de cume.

Segundo meus registros, iniciei a escalada às 11h e alcancei o cume às 13h30, totalizando 2h30 de atividade. Escalei sem solar e descansei nas paradas, além de fazer uma breve pausa por causa da chuva, que deu o ar da graça quando cheguei à P3. Ainda assim, foi apenas uma garoa leve, que não comprometeu a escalada.

Chuva!!!

Segue alguns links sobre a via:

Relato da primeira repetição da via;

Relato do DuNada e Chuck na via;

Croqui na croquiteca da ACE;

Livro Escalada Capixaba.

 

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Império do Sol

Na escalada, principalmente na esportiva, somos condicionados a ir até o limite. Enquanto estiver no jogo, não pode desistir — mesmo com o cotovelo na orelha e sabendo que não vai muito mais longe. Já na escalada tradicional, essa regra exige algumas ponderações, pois há riscos envolvidos, sobretudo em caso de queda. Por isso, é importante saber quando desistir antes de se machucar e quando colocar para jogo, aceitando os riscos e as consequências.

Como vim da escola esportiva, ainda levo um pouco dessa essência para a escalada tradicional, e por isso sempre fico me policiando para não ultrapassar a tênue linha.

No último domingo, por volta das 14h, lá estava eu, sozinho, insignificante, em meio a um mar de granito de 600 m, testando meus limites e protelando o inevitável. O sol de inverno parecia um maçarico queimando a minha nuca e o granito preto parecia uma chapa de fritar hambúrguer. Escalava alguns metros, batia uma chapa e tirava a sapatilha que explodia no pé. Repeti o processo umas oito vezes até me convencer de que estava na hora de descer. A ficha caiu quando olhei para baixo e notei que havia batido três chapas em sequência, a cerca de dois metros de distância entre elas.

A ideia dessa escalada surgiu um mês atrás, quando fui a Pancas e, já indo embora, o Fabinho quis me mostrar a face norte da Pedra Cará. De um mirante na estrada, ficamos observando aquela muralha e logo entendi porque não havia vias naquela face: a parede era imponente, vertical e, o pior de tudo, recebia sol o dia inteiro.

Pensei muito sobre investir — ou não — nessa parede. Ainda não entendo por que, nem como, a gente acaba escolhendo subir uma determinada montanha, mesmo sabendo que será uma grande roubada.

O fato é que, no último domingo, lá estava eu, sozinho, batendo na porta do Fabinho às 7h da manhã, pedindo para ele me levar até o início da trilha.

Assim que chegamos ao fim do cafezal, antes da mata, lancei o drone para estudar a aproximação e observar a pedra de mais perto. Logo percebi que a aproximação seria trabalhosa. O ponto que escolhi para começar a via ficava no fundo de um vale entre a Pedra Cará e a Pedra do Garrafão. Como geólogo, sabia que a trilha seria difícil, pois esses vales são verdadeiros depósitos de blocos de pedra que caem das montanhas adjacentes. Além disso, havia um bom ganho de altimetria (140m).

Entrei na mata e logo ficou claro que a aproximação seria parte da escalada: terreno difícil, orientação complicada e caminhada cansativa. Tentei gravar o máximo de pontos de referência para não me perder na volta, mas já sabia que, se descesse à noite, não teria a menor chance. Por segurança, precisava retornar de dia. Ou seja, por volta das 15h eu teria de estar de volta à base da via.

A caminhada não foi longa — cerca de 40 minutos —, mas com a mochila pesada e um facão nas mãos, tudo se tornou muito cansativo. Além disso, havia o estresse mental de decorar a trilha, pensando na volta.

Uma pausa para anotar os pontos de referência no celular.

Cheguei a um ponto que tinha visto pelo drone, uma espécie de colo, um lugar natural para início de via. Não sei o porquê, mas fiquei pensando que, caso houvesse futuras repetições — que quase nunca acontecem —, seria mais fácil localizar esse ponto na mata.

A visão da parede a partir do colo era amedrontadora. Parecia que ela iria me reduzir a migalhas. Há dias em que me sinto mais intimidado pela pedra, e nesse dia eu estava me sentindo especialmente acuado.

Na base da via, ao fundo, a Pedra do Garrafão.

Tentei escolher a linha menos inclinada possível. Um mar de Stigmatodon no meio da parede indicava que ali a coisa ficaria feia para o meu lado.

A primeira enfiada foi somente protocolo. Daria para solar — de fato, solei, pois não bati nenhuma chapa —, mas precisei fixar a corda para subir com todo o material de conquista.

A segunda enfiada parecia a continuidade da primeira, só que mais inclinada. Estiquei cerca de 30 m até a pedra ganhar ângulo e os Stigmatodon começarem a aparecer. Essas bromélias só ocorrem onde a parede é vertical — um excelente bioindicador de crux!

Iniciando a 2a enfiada.

Após 55 m, bati a parada em um pequeno platô. Dali para cima, parecia que o negócio iria encrespar até o infinito. Quando ficamos diante de um problema sem perspectiva de fim, bate um grande desânimo. Parecia que cada chapa seria conquistada na raça pelos próximos 200 m.

Concentrei-me em dar um passo — ou uma chapa — de cada vez e subir sem pensar no quanto faltava. O progresso foi lento e trabalhoso. No meio da enfiada, a pedra ganhou ângulo e não sabia se conseguiria passar em livre. Para poupar peso, decidi não levar meus cliffs, que seriam primordiais nesse trecho. Mas, quando cheguei mais perto do lance, encontrei uma passagem e consegui vencer o vertical, estabelecendo a P3.

Tamanho do problema!

A essa altura, as nuvens da manhã já tinham se dissipado e o sol imperava na parede. O cansaço acumulado de fazer tudo sozinho e o desgaste emocional de estar naquele ambiente intimidador começaram a pesar. Para piorar, a parede seguia ganhando ângulo sem perspectiva de melhorar.

A 4ª enfiada foi na insistência, na raça. Não consegui impor o ritmo costumeiro. Senti-me acuado, com medo, cansado e fraco. Cada chapa foi conquistada com muita resiliência, até chegar ao meu limite. Precisava alcançar um falso platô a uns 10 m para estabelecer a parada, mas não consegui. Joguei a toalha. Estava exausto e sabia que não poderia ir até o limite físico, pois estava sozinho e ainda havia todo o caminho de volta — incluindo a caminhada na mata com todo o peso.

Descanso para os pés!

Desci sem concluir a enfiada e, por volta das 15h, estava de volta à base da via. Tomei toda a água que tinha, empacotei o equipamento e iniciei a caminhada pela mata. Tentei refazer exatamente o mesmo caminho, mas, no fim, me perdi e acabei saindo muito longe do carro. Custei a encontrá-lo, mas fiquei feliz por ter saído ainda de dia, pois sabia que, se tivesse saído à noite, estaria realmente encrencado!

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Stigmatodon

Há quase um mês, quando estive em Pancas pela última vez e escalei a via Canaleta Joinvile, no Morro do Camelo, notei que entre ela e a via Supercanaleta, havia um trecho de parede sem vias. Como esse pedaço é mais vertical e com bastante vegetação, o pessoal acabou deixando de lado e meio que caiu no esquecimento, assim acho, pelo menos.

No último final de semana resolvi voltar a Pancas para dar uma conferida mais de perto essa possibilidade e quem sabe conquistar uma via em solitária.

Pedra da Agulha em Pancas.

Cheguei no sítio do Fabinho sábado à tarde, de olho na sombra da tarde. Como a previsão previa um dia quente, quis fazer o porteio e conquistar pelo menos uma enfiada no final do dia para pegar uma condição mais favorável.

Plantas.

A viagem foi bem cansativa, mas às 14h já estava no camping e às 15h na base do Morro do Camelo procurando uma linha no meio daquela parede de granito intimidadora.

Amanhecer em Pancas.
Papagaio verde.

Visualizei três possibilidades entre as duas vias: uma perto da Supercanaleta, mas essa descartei de início pela proximidade com a mesma; outra mais para os lados da Canaleta Joinvile, mas achei a parede muito quebrada com muitos platôs; no fim, acabei indo pela linha do meio, por uma brecha de rocha desprovida de vegetação.

Pela inclinação da rocha, presumi que a saída seria o crux da via, então fui preparado para sofrer. Tinha mais de duas horas de luz para resolver essa pendência, então subi sem pressa. Mas logo a escalada se mostrou mais tranquila do que o esperado graças aos sucessivos buracos que foram surgindo na sequência. Assim, em menos de 1h consegui esticar 55m de corda até um local razoável onde estabeleci a P1. Aproveitei o restinho de luz para subir todo material até a P1 e desci com a enfiada fixada para o dia seguinte.

Separando o material na base.
Máxima concentração para me equipar corretamente.
Iniciando a conquista.

A noite no camping foi caótica. O Fabinho já tinha me avisado que seria barulhento. O ideal seria nem ir, mas a vontade de escalar foi maior. Às 4h da madrugada, começou a verter gente por todos lados para um rapel comercial que iria ter na Pedra da Boca e o Camping seria o ponto de encontro dessa galera.

Não preciso nem dizer que às 4h 30 eu já estava em pé por falta de opção e às 5h já estava na trilha a luz das lanternas para fugir daquela bagunça sem fim. Depois falam que os escaladores não gostam dos rapeleiros e não sabem o porquê…

Cheguei na base da via e com as primeiras luzes da manhã e logo subi pela corda fixa até a P1 escutando os rapeleiros gritando para fazer a trilha. Muito insano!

A segunda enfiada começava num trecho ainda vertical e depois parecia perder inclinação. Passado o lance inicial, a enfiada fluiu bem e estabeleci rapidamente a P2 onde a corda esticou.

Iniciando a segunda enfiada.

A terceira enfiada parecia ser o crux da via. Ao final do rampão a parede ganhava inclinação e dessa vez, parecia que não teria os buracos salvadores. De fato, peguei uma sequência bem trabalhosa nesse trecho mais inclinado. Quando se está em solitária, a gente não tem direito a alguns luxos, como voltar o lance com uma queda controlada. Então tinha que subir de forma muito controlada e calculada porque não tinha volta.

Estudando a enfiada seguinte.

A 4a enfiada parecia igualmente intimidadora, principalmente no trecho final. Pensei em algumas alternativas para fugir do lance mais inclinado. Eu já estava sentido o cansaço da noite mal dormida e o esforço da terceira enfiada. Além disso, o sol estava começando a castigar lentamente e tudo começou a ficar mais desafiadora.

Outra questão que me preocupava era o quantitativo de chapas e bateria. Estava com 3 baterias mais 60 chapeletas. Teoricamente daria com certa folga, mas comecei a ficar preocupado.

A 4a enfiada saiu com certa facilidade, principalmente depois que achei um belo veio de quartzo com agarras. Esse trecho deu um bom adianto no trecho inclinado.

Indo para 4a enfiada.

Da P4, já dava para sentir o que o cume estava logo alí. As stigmatodon tinham sumido indicando que a pedra perderia inclinação e pelos meus calculos, faltava pouco para o cume. Depois explico o stigmatodon.

A 5a enfiada foi só um protocolo e por volta de meio-dia e trinta estava pisando no cume do Morro do Camelo.

Cume!

A essa altura, o sol estava fritando, então sai correndo para baixo de uns arbustos para me abrigar. 

Fiquei ali 15 minutos cronometrados, mas foi o suficiente para beber uma água e ainda conseguir dormir um pouco.

Descanso na sombra.

Iniciei a descida pela via Supercanaleta levando todo peso no haulbag. Eu tinha rapelado por essa via há um mês e notei que as paradas estavam bem ruins. Então nesse meio tempo, conversei com os conquistadores do Rio e solicitei para que eu pudesse substituir as malhas por chapeletas de argola, facilitando a recuperação e diminuindo o atrito. Com isso, a descida acabou demorando um pouco mais, mas pelo menos consegui melhorar 4 das 5 paradas de rapel. Somente a P1 ficou sem a argola porque a chapeleta estava girando e não tinha como desrosquear. Então só dei uma melhorada acrescentando uma malha extra.

Considerando as vias que escalei no Morro do Camelo, acho que essa ficou uma via mais variada em termos de estilo. Além disso, tem um pouco de navegação, pois às vezes não tem como ver a próxima proteção da anterior.

Sobre o nome da via, batizei de Stigmatodon por causa dessas bromélias que tem ao longo da parede. Essas bromélias, endêmicas do Brasil,  tem a particularidade de ocorrer somente onde a superfície rochosa é mais inclinada. Aprendi isso com a Fabiula durante uma palestra que ela deu no último encontro de escalada em Pancas.

Stigmatodon.

Por fim, preciso deixar meus agradecimentos ao Fabinho pelo apoio logístico de sempre. E também as escaladoras do Rio por compartilhar bons momentos de conversa durante a janta comunitária.

Amanhecer em Pancas.

Isso fez me lembrar como os montanhistas de verdade se diferem de escaladores normais e pessoas comuns. Na montanha, aprendemos a ajudar os outros sem esperar nada em troca e a dividir as coisas pelo bem comum vivendo dentro do mesmo espaço em comunidade.

Tucano.

 

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Corpus Christi

No último post, escrevi sobre retorno ao Totem de Lajinha (Pancas) e sobre a conquista da via “Mamãe não deixa”. Pois bem, no último sábado, voltamos, Iury e eu, novamente ao setor para tentar livrar a via.

Infelizmente, quando cheguei na P1 da via, descobri que o diedro da segunda enfiada seguia molhada. Na verdade, mais molhada do que da semana passada. Então, não tivemos outra escolha senão conquistar as outras duas fendas que estavam “caindo de maduro”.

Começamos por um grande diedro, à direita da Racha Cuca. A fenda parecia feia, suja e com muita vegetação, mas não é todo dia que achamos um setor com uma fenda no lado da outra, então resolvemos entrar, mesmo não sendo muito convidativa. Como a ideia era fazer um setor esportivo tradicional, propus subir os primeiros 30m e ali estabelecer uma parada para facilitar as futuras repetições. A conquista foi lenta devido à limpeza, mas uma vez limpa, a via começou a se mostrar bem estética. No trecho da chaminé estreita, tive que bater duas chapas por conta da largura da fenda e da qualidade duvidosa da rocha. Pelo menos o lance ficou bem protegido e divertido.

Uma vez limpa a via, desci sacando as peças e logo em seguida entrei para mandá-la. Presumo que a via seja um VI grau. Poderia dar V SUP, mas acho que seria muito sandbag.

Para repetir a via, levar: 2x Camalot #.4-#3. 3x #4 e 1x #5.

“Mamãe eu quero”. Foto: Iury.

Logo em seguida, fomos para o diedro ao lado. Essa linha parecia a mais dura de todas. Diedro de dedo em arco, garantia de sofrimento e muita dor na lombar.

Bati uma chapa logo na saída para proteger o lance e logo entrei no diedro. A fenda não é contínua, mas por sorte há muitas agarras por fora, o que ajudou bastante na progressão. 

Lá pelo meio da via, a rocha começou a ficar mais branda. Hesitei bastante, mas acabei batendo uma chapa porque achava que as peças não segurariam uma queda. Toquei mais uns metros e assim que achei uma boa quebra de sequência, estabeleci a parada.

Na descida, examinei novamente o lance da chapeleta e concluí que daria para passar sem ela. Então, resolvi sacar a chapeleta.

Descansei uns minutos e fui para o red point. O lance da chapa, resolvi com dois nuts que ficaram bons. Depois, foi só ir tocando.

Tecnicamente, a via não é dura, mas alguns esticões exigem uma certa confiança.

Para mim, é a via mais bonita do setor. E talvez uma das enfiadas mais bonitas e técnicas de Pancas. Inclusive, o nome “Gran Reserva” é uma alusão à qualidade e por ter deixada para o final.

Mais uma vez, seria um V SUP sandbag, mas como achei um pouco mais difícil do que a via Demolidor no Morro do Moreno, acho que VI seja de bom tamanho.

Gran Reserva (VI)

Para repetir a via levar: 1x #.3, 2X #1 e #2 e 3x #.4 – #.75. Além de dois nuts (usei offset) médios.

Quinta-feira

Na 5a feira, feriado de Corpus Christi, começou no Morro do Moreno, o Moreno Boulder, evento organizado pelo ginásio de escalada Toca que, além de trazer escaladores de fora do estado, trouxe diversas palestras e workshop. 

Participei somente no primeiro dia, onde conheci alguns dos boulders novos e clássicos antigos que ainda não conhecia. Destaque para o boulder Esmerilhando Dedo (V6)!

Jana mandado o boulder Esmerilhando Dedo (V6).

Domingo

Amanhecer em Pancas.

De sábado para domingo, fiquei no camping do Fabinho. A última vez que o vi, ele estava me carregando na maca pedra abaixo, então foi muito legal reencontrá-lo novamente.

Devido ao feriado prolongado, o camping estava cheio de escaladores, tanto do estado, quanto de fora (Minas e Paraná), então a noite foi bem animada.

No domingo, antes de ir embora, resolvi repetir em solitária a via “Canaleta Joinville” no Morro do Camelo. Escolhi essa via por ser mais curta e por curiosidade. Essa via foi conquistada em 2015 por um trio de escaladores de Joinville, SC. A via não é muito popular, mas ocasionalmente alguém repete.

Entrei meio tarde na via. Sai do camping às 7h45 e as 8h15 estava na base da via. O Morro do Camelo é uma das pedras mais frequentadas de Pancas, então a trilha está bem demarcada com totens, o que facilitou bastante a navegação. 

Na base da via.

Comecei a via por volta das 8h30 e toquei até a P3 num único tiro. Na P4 me encordei e toquei a enfiada das “dominadas”. Ali ficou claro que a pessoa que conquistou essa enfiada é bem mais alta do que eu. Sempre que chegava na agarra de costura, faltava envergadura para sacar a costura. Tinha que fazer mais um lance, sempre delicado, para conseguir colocar a costura na chapa. 

Enfiadas iniciais.

Quando repito uma via, tento entrar na mente do conquistador e imaginar no que ele estava pensando durante a conquista. Isso ajuda muito na navegação, mas confesso que nessa via tive um pouco de dificuldade para ler a mente do conquistador.

Na quarta enfiada, não consegui achar a 2a chapa da enfiada e acabei pulando ela. Fiz um balão pela esquerda porque simplesmente não consegui achar a chapeleta. Na descida para limpar a enfiada, achei a chapeleta num lugar que para mim não era muito óbvio, mas vida que segue.

Saída da 4a enfiada.

Dali para cima, a via voltou a ficar fácil e às 11h estava no cume do Morro do Camelo, após 2h30 de escalada. A essa altura, mesmo no inverno, o sol estava castigante e nem parei no cume porque a minha água estava no final. Fui direto para linha de rapel pela via Supercanaleta e às 11h40 cheguei na base, onde encontrei uma sombra providencial.

No cume!

Não sei se foi porque pulei uma chapeleta, mas achei a via um pouco exposta. Na terceira enfiada, tem umas dominadas de balcões que são estranhas, sempre com um platô descaído embaixo.

De qualquer forma, é mais uma opção de via para quem busca um D1 de meio-turno, sem precisar de móvel.

A volta para Vitória foi um suplício, levei mais de 4h por causa do feriadão, D2!

Amanhecer na estrada.

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Aghá

Durante o 11o Encontro dos Montanhistas em Caçapava do Sul, no sábado a noite, enquanto esperava o churrasco ficar pronto, me aproximei da churrasqueira porque a noite estava bem fria. Assim que me aprocheguei, vi uma moça sentada numa cadeira fazendo o mesmo que eu. E de repente, ela me viu e perguntou:

– Tu não tem medo de ficar traumatizado do acidente?

Na noite passada, antes de começar a palestra, falei um pouco sobre o acidente que havia sofrido.

Na hora, quase a deixei um vácuo, pois fiquei sem reação. Não consegui elaborar uma resposta à altura e simplesmente falei que não. Imaginei que ela também poderia ter sofrido um trauma e estava tendo dificuldade para superar ou algo assim, e achei mais incentivador falar que eu estava bem.

Mas aquela pergunta me pegou de jeito. Eu realmente não sabia se iria ficar traumatizado. Até porque eu nem havia voltado a escalar para saber. Depois, fiquei pensando: será que perdi a minha coragem? Será que vou ficar com medo das lacas? Será que não vou me sentir à vontade nos esticões? Será?!

Para saber a resposta, só voltando para a rocha para saber como me sentiria depois de um voo épico.

Assim, no último sábado, resolvi fazer um teste em solitária na rocha para saber como estava a minha cabeça. 

Durante a semana, no muro da ACE, peguei uma conversa pela metade de que o “Brejauba” iria repetir uma via no Monte Aghá, em Piúma. A via em questão se chama Sapore di Mare (4o, V, D2, E3, 350m) conquistada pelo Baldin e Ghiany no final de 2020. Aquila via parecia bem interessante para fazer o teste psicológico. Grau confortável, extensão interessante e uma boa oportunidade para conhecer o famoso Monte Aghá.

 O Monte Aghá é um maciço granítico (charnoquito) de aproximadamente 350m de altura em relação do nível do mar. Até onde lembro, é um dos únicos picos de escalada, junto com o Morro do Moreno, onde se escala muito perto do mar. O Espírito Santo, embora seja um estado montanhoso, a maioria das montanhas está no interior, longe do mar.

Monte Aghá, Piúma.

Como o Brejauba repetiu a via na 6a feira com o Baldim e mais um escalador, peguei os betas quentinhos. No dia seguinte, ainda consegui me orientar pelas marcas de magui deles! Que por sinal, foram muito úteis, principalmente na 6a enfiada, onde o croqui que eu tinha não batia com a linha da via.

Comecei a escalada tarde, por volta das 10h30, pois eu tinha o beta de que a via ficaria na sombra à tarde. Pensei em entrar quando a via  ficasse na sombra, mas achei arriscado, pois poderia ter que pegar a trilha à noite e, se acontecesse alguma coisa, eu não teria uma boa margem de segurança.

Preparando.

Já na primeira enfiada, tive um problema! A corda não deu para chegar na P1. Quando se escala em solitário, aquela dica de sair em simultâneo não funciona. Com isso, tive que parar uma chapa antes da parada e montar uma parada improvisada. Devido à proximidade com o mar, as chapeletas galvanizadas estão bem oxidadas, mesmo a via tendo menos de 5 anos. Então, tive que gastar um tempo para montar uma parada decente.

Saída da via.

Como a primeira enfiada ficou capenga, a segunda também ficou faltando. Só consegui me ajeitar na 3a enfiada que é mais curta, assim consegui emendar parte da 2a enfiada com a terceira.

A essa altura, a via já estava na sombra, e um vento sul frio ajudou a melhorar a sensação térmica, mas mesmo assim, estava me sentindo um pouco cansado e sem energia. Não consegui imprimir um bom ritmo, mas não estava muito preocupado com a velocidade, pois estava ali para testar os meus medos.

Em algum lugar da 2a enfiada.

Confesso que me senti bem confortável. Não tive medo de me expor e nem fiquei com medo das lacas quebradiças da via. Parece que a autoconfiança estava em dia novamente. Com isso, pude escalar a via curtindo a solitude e a chegada da primeira frente fria do ano que marca o início da temporada.

Descansando e curtindo a vista.
Esticando mais uma corda.
Preparando na P6.
Esticando a última enfiada.

Cheguei no cume por volta das 14h45, após 4h 15min. de escalada. Encontrei três voadores no cume, esperando o vento acalmar para poder voar. 

Cume!

Como eu havia levado somente uma corda, não tive outra opção senão descer pela trilha. Acho que levei aproximadamente 45 minutos do cume até o campo de futebol, onde deixei o carro. A trilha é bem tranquila, mas no final, as minhas pernas estavam cansadas da escalada.

Sobre a via, posso dizer que é uma via muito cênica. Escalar vendo o mar é outro astral. Tem até um cheiro de mar no ar. A via é bem protegida, sem lances longos ou expostos e os cruxs bem tranquilos. A única coisa que poderia atrapalhar quem não está acostumado com esse tipo de escalada seriam os lances de aderência. Há alguns lances, onde é preciso ter um bom trabalho de pé para vencer os abaulados. Outro fator complicador seria achar as chapas que, com a oxidação, estão da cor da pedra.

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Give me adventure!

Existe uma coisa melhor do que um bom dia de escalada tradicional: dois dias de escalada!

Bem-vindo ao paraíso

Sábado! Aquela rotina de sempre: acordar cedo, pegar estrada, ver o nascer do sol e curtir as infinitas curvas que te levam a Pancas. Ou melhor, nesse caso a Colatina!

Uma pausa na estrada para ver o sol nascer.

Durante a semana vi que a previsão estava marcando a chegada de uma bela frente fria. Aquela janela perfeita para ir a Pancas. Passei a semana acompanhando a previsão e estudando o Google Maps a procura de alguma oportunidade para o sábado.

Após algumas vasculhadas, cheguei numa pedra que fica na porção meridional da cadeia de montanhas que compõe os Pontões Capixabas. É tipo a primeira montanha de todo complexo que se estende até Nova Venécia.

Complexo sul dos Pontões Capixabas.

Identifiquei uma anomalia bem interessante na face sul dessa pedra e resolvi arriscar as fichas para uma conquista em solitária.

Cheguei numa casa que já tinha mapeado para pedir passagem e o proprietário foi bastante solicito.

Fiz um sobrevoo de drone para confirmar a possibilidade e logo de cara fiquei maravilhado com a longa fenda que vi na parte superior. Já a parte inferior parecia fácil, então nem me preocupei. Queria saber da fenda!

A aproximação foi sofrida como sempre. Duas cordas, dois jogos de móvel, furadeira e 24 chapeletas.

Abre parenteses:

Comprei uma furadeira nova. Uma furadeira da marca Kress de 20V com 1,7J de força de impacto, sem escova de carvão, e funciona com uma bateria de 2 amperes. Modelo KUC 50. Ultimamente andei pesquisando mais sobre marteletes mais leves para investidas desta natureza. Quando se vai sozinho, qualquer quilo a menos faz toda diferença. A outra furadeira é incrível, uma Bosch 18V sem escova de carvão. Sem dúvida uma grande furadeira, pois tenho a mais de 10 anos e segue firme sem titubiar. Mas queria uma furadeira mais leve. Essa pesa 1,6kg enquanto a da Bosch o dobro, com a mesma potência. O único ponto de dúvida era essa marca Kress, mas logo descobri que é uma marca alemã com alguma tradição na área, então resolvi arriscar e a levei para essa conquista.

O martelete fez um furo em 19 segundos no gnaisse usando uma broca SDS de quatro canal, nova. Achei a pedra um pouco macia, mas 19 segundo é um bom tempo. A Bosch também leva esse mesmo tempo. Com uma única carga fez 18 furos, mas acho que faria mais 2. No entanto, troquei de bateria no meio da conquista para não ficar empenhado. No geral, fiquei bem satisfeito. Só espero que dure uns 10 anos como a outra Bosch.

Fecha.

Mais uma vez esqueci o facão no carro e sofri para abrir a trilha no meio dos espinhos…

Olhando de baixo, a pedra parecia muito fácil. Por um momento achei que pudesse escalar a pedra toda em solo. Cheguei a procurar uma linha mais difícil, mas achei melhor seguir o caminho mais natural, sem forçar a amizade.

Comecei subindo com tudo e de tênis. Parecia muito fácil, mas 30m acima, achei melhor ser mais prudente, até porque estava sozinho naquele lugar. Bati uma chapa num platô de gravatá e resolvi me encordar.

A primeira enfiada ficou com 60m e uma proteção. Nunca havia visto uma pedra tão cravejada de agarras em Pancas!

Logo acima, a pedra ganhou inclinação e resolvi fugir pela direita, mas vi que a pedra seguia no mesmo estilo. Lembrei que eu tinha apenas 24 chapeletas para essa investida, então resolvi seguir pela direita buscando umas fendas e algumas árvores.

Saída da 3a enfiada.
Terceira enfiada.

Estabeleci a P3 numa árvore e dali resolvi seguir pela direita, pegando uma parede mais vertical e buscando um diedro mais acima, até de ganhar um grande platô.

Início da 4a enfiada.

O platô da P4 foi uma benção, pois cheguei um pouco cansando. Olhei para o relógio e ainda eram 10h30 da manhã. Olhei para cima e não gostei do que vi. Então resolvi esfriar a cabeça um pouco, comer alguma coisa e me hidratar.

Pensei em abandonar a linha e procurar uma continuação mais fácil; pensei em vencer o trecho com furo de cliff, mas no fim resolvi me arriscar em livre. Assim que tirei os pés do chão, a pedra se mostrou outra pedra e as agarras começaram a brotar do nada. O que antes parecia lisa se mostrou uma parede cheia de agarras. Progredi bem nesse trecho e logo estabeleci a P5 na base da cereja do bolo.

Saída da 5a enfiada.

Estava feliz! Havia chegado na base da grande fenda frontal. Sabia que dali para cima seria só curtição. A paranoia de poupar chapeleta havia acabado.

A 6a enfiada foi um deleite. Desejei muito que a pedra fosse um pouco mais inclinada, mas estava bom. Estava feliz! Estiquei a corda até o talo e estabeleci a P6. O cume estava logo ali.

Fenda da 6a enfiada.

Desci para limpar a enfiada e logo em seguida já toquei a enfiada seguinte até o cume. Descobri que ainda tinha um vara mato se eu quisesse chegar no cume da pedra, mas achei que não valesse a pena. A vista dali estava incrível e resolvi ficar ali brincando de identificar as montanhas do entorno.

Cume!

Batizei a pedra de Pedra do Portal pela posição geográfica e a via de “Bem vindo ao Paraiso” se referindo a todas as montanhas que ficam ao norte até onde a vista alcança.

Sobre a via posso dizer que é uma via ímpar, por mesclar escalada em agarra e lances em fenda. O rack para repetir a via é bem enxuto. Meio jogo de peças médias a grande é mais do que suficiente. O crux deve ser a travessia da 4a enfiada que, por sinal, é em aderência. Outra vantagem, a via fica na sombra à tarde! A vista não preciso nem falar…

Desci da via e cheguei no carro por volta das 15h30. Aproveitei que ainda tinha bastante luz e resolvi explorar a região em busca de mais linhas e curtir um pouco mais a paisagem da região que, por sinal, estava um verdadeiro espetáculo da natureza.

Sunset.
A lua!
Por do sol com a Pedra da Agulha.
Gavião carrapateiro.
Entardecer na Pedra do Camelo.

Inveja mata

A noite, como de praxe, passei no camping do Fabinho, junto com os geólogos gaúchos que estavam de passagem pela região e subindo para o Enegeo.

No dia seguinte, o Iury apareceu pontualmente às 7h para mais um dia de exploração pela região.

A ideia era checar uma pedra na região da Lajinha. Rodamos uns 40 minutos até achar a tal pedra. Mais uma vez passamos o drone e confirmamos que daria uma linda via. Tentamos procurar o dono das terras, mas aparentemente a região estava em festa e não encontramos ninguém na região. Achamos mais coerente deixar a conquista para outro dia. Não é legal entrar nas terras dos outros sem pedir permissão.

Seguimos procurando outras pedras pela região até voltar a Pancas perto das 10h30.

Rodando pela região

Quando estávamos quase desistindo, falei para o Iury de uma pedrinha que fica entre a Pedra da Agulha e a Pedra do Gorila. Pelo fato de estar cercada por dois monstros, essa pedra parece um nada, mas sabia que tinha pelo menos uns 100m de altura.

Pedra da Agulhinha com a Pedra do Gorila ao fundo.

O Iury topou a ideia e fomos em direção à pedra. Fizemos mais um sobrevoo de drone para confirmar a linha e partimos para aproximação.

Chegamos na última propriedade e solicitamos passagem. Explicamos as nossas intenções e perguntamos sobre o melhor caminho. O senhor simpático olhou pelo lado para o nosso carro e perguntou se era traçado. Falei que sim. E ele disse que o jeep dele passava, mas não sabia se o Maverick passaria pela ravina.

Agradecemos a autorização e nos despedimos.

Logo a frente, chegamos na tal ravina. A essa altura, o Iury já estava muito adrenado porque um pouco antes ficou com o carro em duas rodas no ar e horas antes tinha perdido parte da proteção do fundo num buraco.

Resolvemos deixar o carro por ali e seguir a pé. O cenário não era muito animador, mas não tinha muito que fazer.

Mochila nas costas e mais uma hora de trilha.

Chegamos na base da pedra por volta de meio-dia e trinta.

Dei uma olhada na linha e vi que a única opção seria pela fenda mais óbvio.

Estiquei 60m de corda conquistando uma enfiada digna de muita aventura e emoção. A primeira enfiada ficou um misto de escalada técnica, lances de comprometimento, alguns espinhos e uma pitada de trepa mato.

Saída da via.

Dali para cima a via parecia seguir no mesmo estilo. Havia a opção de sair pela placa lisa, mas teríamos que bater muitas chapas. Mais uma vez tínhamos poucas chapas e apenas uma bateria. Optamos pela linha adventure, um misto de rocha com mato. Estiquei mais 60m até chegar numa bela árvore que serviu de parada.

Iury chegando na P2.

O Iury pegou a última enfiada varando mato até chegar no cume da pedra de onde se tem uma visão privilegiada da Pedra da Agulha.

Aliás, batizamos a via de Inveja Mata justamente por causa dessa visão.

Cume!
Vista do cume.

Acho que essa via não será tão popular. Primeiro, porque as pessoas não gostam de escalada aventura. E segundo porque a via, embora fácil, requer uma boa base de escalada móvel. O lance da saída é bem exigente e não permite erro, por ser difícil de conseguir uma boa colocação. Inclusive a recomendação para repetir a via é levar dois jogos para usar a técnica do “ninho de peças”.

Por fim, meus agradecimentos ao Fabinho pelo apoio logístico de sempre; aos gaúchos geólogos pela janta de sábado; e ao Iury por colocar o carro para jogo e tocar para cima na agulhinha ao melhor estilo fast and light!

Entardecer em Pancas.
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Via Sacra

Uma vez perguntaram para o escalador Keita Kurakami por que escalava em estilo solitário e ele respondeu: porque é desconfortável.

Sem dúvida foi uma boa resposta! O termo desconfortável não se restringe ao desconforto físico, mas também ao psicológico que essa modalidade traz. Muitas vezes, gosto de pegar uma via fácil e repeti-la em solitária só porque nesse estilo, o jogo muda totalmente. Tudo fica mais complexo, comprometedora e sem dúvida “desconfortável”.

Falando dele, essa semana perdemos o Kurakami em decorrência de um problema de saúde. Tem uma matéria bem interessante na Climbing sobre o assunto. Lembrei dele, porque no último domingo iniciei a conquista de uma nova via, em solitário, na Pedra do Pelado em Aracruz.

A Pedra do Pelado, também conhecida erroneamente como Monte Serrat, é um maciço granítico que fica uns 100km da capital Vitória. Em seu cume há uma pequena capela construída por um morador local da década de trinta e hoje é destino de peregrinação de evalngélicos e aventureiros de final de semana.

Pedra do Pelado

Em 2010, foi conquistada a única via da montanha, a via Capela, pelo Baldin, Tesourinho e Raul. Em 2014, repeti essa via com o Graveto e o DuNada e numa mais voltei.

Esses dias comecei a revirar algum projeto de inverno e lembrei dessa pedra. Resolvi estudar um pouco mais a pedra e vi uma boa oportunidade na face leste, à direita da via Capela. Em 2014, quando fui lá, não visualizei nenhuma oportunidade interessante. Lembro também que uns anos depois, passei por lá novamente procurando um setor esportivo, mas por falta de agarra acabamos descartando a área.

A ideia era ir com o único escalador local de Aracuz, o Tesourinho, mas ele acabou pulando fora de última hora, então resolvi ir sozinho mesmo. Estava precisando me sentir “desconfortável”.

Início da trilha.

Para ter uma margem de segurança, quando vou sozinho, gosto de ir cedo, então sai do domingo às 4h20 de Vitória. Por volta das 6h já estava estacionando o carro na última propriedade para pedir passagem.

A caminhada foi relativamente curta, mas com a mochila pesada foi mais sofrida. Às vezes, faço duas viagens devido ao peso, mas dessa vez fiquei com preguiça e joguei tudo na mochila… Duas cordas, dois jogos de móvel, furadeira, 26 chapeletas, 3L de água… Desconfortável!

Aproximação pelo pasto.

Mas assim que cheguei na base, o cansaço deu lugar à alegria ao ver que a fenda que havia visto numa foto era um enorme diedro de uns 60m, toda limpa! Para não dizer que era perfeito, ele era um pouco mais larga do que o desejado e pareceu um pouco instável em alguns pontos.

Arrumei tudo e comecei a conquista por volta das 7h30. Como tinha poucas peças grandes, tive que espaçar bem as proteções. Também descobri que, devido à largura da fenda, era difícil escalar se entalando, então tive que escalar por fora e usar a fenda apenas para proteção.

Ao final de uns 30m achei um bom platô fora da fenda e resolvi estabelecer a P1 ali, já que meu rack estava bem vazio para tocar mais 30m até o final da fenda.

Quem não tem peça, estica!
Estabelecendo a P1.

A segunda parte da fenda se mostrou mais exigente. A rocha também não era lá grandes coisas. Parecia que a qualquer momento iria tomar um voo épico com um bloco na mão. Ao final da fenda, uma travessia, protegida por uma chapa, me levou a um grande platô, devidamente ocupado por uma família de macacos.

Início da 2a enfiada.
Enfim, uma peça decente!

A essa altura, eu já estava muito “desconfortável”. A fenda sugou muita energia e o Sol estava implacável. Mesmo estando no auge do inverno, esse ano a temporada está sendo muito quente. Meu desejo era beber toda água que havia levado em um único gole, mas precisava poupar água.

Fiz um descanso mais prolongado no platô e parti para 3a enfiada. Ali havia visto duas possibilidades: seguir por uma fenda/chaminé da esquerda ou encarar uma placa lisa pela direita. Pela foto não estava claro se era uma fenda ou chaminé, mas assim que cheguei lá descobri que era uma chaminé. Daria para seguir pela chaminé, mas ela levava a um beco sem saída. Depois, teria que tocar uma travessia de uns 60m para voltar para linha ou seguir varando o mato até o cume. Já a placa lisa tinha esse problema, ser lisa… Sem muita opção, sai para placa.

Fiz um pequeno solo de uns 30m até onde o tênis permitiu e bati uma parada, a P3. A partir dali o bicho iria pegar. A placa parecia “desconfortável”. O Sol estava me fritando, mas parecia que, logo ali, logo depois, em breve, a pedra iria dar uma aliviada.

Estiquei 30m e o alívio não chegava. Assim que achei um platô, estabeleci a P3, pois parecia que o desconforto não iria acabar tão cedo quanto imaginava.

Pior do que tocar a placa lisa foi voltar para trazer a mochila. Tinha uma esperança de que iria sair por cima no final do dia, então subi com tudo, incluindo os dois jogos de móvel. Inclusive, a inspiração para o nome Via Sacra vem dai!

Esticando a 4a enfiada.

A próxima enfiada parecia a cópia da enfiada anterior, logo ali, depois da virada, tudo parecia ficar mais fácil, pura ilusão, puro desconforto. No entanto, dessa vez consegui esticar uma corda inteira. A essa altura, a parede já estava na sombra, o que deu uma boa moral.

Estabeleci a P5 num lugar horrível. A parede não oferecia nenhum lugar decente, então tive que parar onde a corda meio que acabou.

Acabou a coragem, hora de bater uma chapa!

Olhei para cima, estudei as possibilidades, contei as chapas que eu ainda tinha, vi a quantidade de água e conclui que não iria conseguir sair por cima. Eu tinha mais 5 chapeletas para tocar mais uns 90m e sabia que não tinha trechos com fenda para cima. Poderia arriscar uma aventura épica, mas como estava sozinho achei melhor deixar uma margem de segurança.

Como ainda estava com tempo, resolvi tocar mais uma enfiada para deixar pronta para próxima investida. A 6a enfiada se mostrou bem tranquila. Bati uma chapa para orientar a via e toquei até o segundo de 4 platôs da via. Dali, o cume parecia muito perto, mas sabia que isso era uma ilusão. Estudei a próxima enfiada para o retorno e iniciei a descida. Descer sozinho é sempre muito assustador.

Um auto retrato antes de iniciar a descida.

A descida foi tranquila. Cheguei na base em menos de 1h. Empacotei tudo e fui puxar a corda. Após puxar uns 20m a corda prendeu. Tentei de todas as formas e nada. A outra ponta já estava uns 15m do chão. Sem muita opção, tive que voltar a vestir a cadeirinha e subir pela corda rezando para que ela não resolvesse se soltar no meio da subida. No último rapel tinha usando um sistema que não gosto muito justamente porque poderia acontecer o que aconteceu. Subi praticamente 60m e finalmente consegui desembolar e liberar a corda.

Até então posso dizer que a via está ficando muito legal. A fenda de 60m é ótima e o trecho que agarrência será um bom testpeace. A parte que falta parece seguir trechos de agarrência fácil com platôs. E o gran finale será chegar bem no cucuruto da capela para coroar a escalada.

Morro do Pelado ao amanhecer
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Pedra da Alvina

Cada conquistador possui um estilo de conquista que acaba se tornando uma espécie de marca registrada da pessoa. Logo, numa mesma pedra pode ter vias com estilos diferentes (se conquistada por pessoas diferentes) que entregam experiências distintas aos repetidores porque cada um tem um estilo.

Pancas é uma espécie de profusão de estilos, pois muitos escaladores com diferentes bagagens conquistaram vias por lá. Logo, há muitas vias com estilos bem distintos. Cada um com sua assinatura. 

Gosto dessa variação de estilos. Gosto de provar vias com estilos diferentes. Por isso, um dos fatores que considero na hora de escolher uma via para repetir é saber quem são os conquistadores. Dentre as várias vias de Pancas, um casal sempre chamou a minha atenção. Alex e Cris Ribeiro. É uma dupla do Rio de Janeiro que andou bastante por aqueles lados e conquistou várias vias pela região, mas estranhamente não havia repetido nenhuma via deles.

Dentre as conquistas do casal, uma em particular sempre atiçou o meu imaginário, a via La Belle de Jour na Pedra da Alvina. É uma via relativamente fácil, 4o com IV SUP, mas bastante extensa, com 620m, a 5a maior via de Pancas. Clique aqui para ler o relato da conquista.

Sempre que estudava essa via, também almejava escalá-la em solitária por apresentar algumas peculiaridades que a tornam perfeita para esse estilo de escalada, mas tinha vários poréns…. Clique aqui para ver o croqui original.

A primeira delas era a graduação. Um IV grau capixaba é um pouco diferente do IV grau carioca. Em geral, o IV carioca é sempre mais difícil. Também sei da fama dos IV de Petrópolis, a cidade de origem do casal.

Outra questão era a localização da pedra. A Pedra da Alvina fica nos confins das montanhas de Pancas. Talvez umas das montanhas mais remotas com acesso bastante complicado. Sabia de história de gente que não conseguiu nem chegar na montanha. Uma rápida estudada no Google Maps já dava uma ideia da complexidade para chegar lá.

Mais uma vez, na semana que andei trabalhando nos croquis de Pancas, essa via caiu no meu colo e o antigo projeto veio à tona novamente. Dessa vez resolvi estudar a fundo. Contactei o conquistador, falei com Fabinho e estudei o croqui em detalhe.

Assim que entrou outra frente fria no final de semana, não pensei duas vezes e tratei de colocar o plano em prática.

A previsão mostrava que no domingo teríamos uma boa janela, sem possibilidade de chuva. Então resolvi ir a Pancas no final do dia de sábado porque estava bem receoso com a aproximação e queria ter uma boa margem de tempo para achar o melhor acesso.

O Google me deu três opções quando coloquei a montanha a partir do camping do Fabinho. A mais rápida já sabia que era furada porque passa por uma estrada que tem uma porteira fechada. A segunda seria por Lajinha, mas por lá, o Fabinho disse que seria furada, só com 4×4 e dos bons! A terceira opção era por Paranazinho. Ainda tinha uma quarta opção, também por Paranazinho, mas essa o Google nem mostrou.

Considerei a 3a opção razoável e escolhi essa. Acordei no domingo às 4h30 e às 5h30 sai do Fabinho rumo a pedra, via Paranazinho. Tudo ia bem até chegar numa descida de um vale. Gradualmente, a estrada foi perdendo qualidade e logo só tinha uma passagem para moto. A certa altura, a estrada embocou num vale mais estreito e comecei a não gostar, mas se eu conseguisse passar, sabia que à frente ficaria melhor. Num certo momento, após a curva, a estrada estava em um quarto de pista. Só moto passava ali. O resto da estrada, a chuva levou e deixou uma cratera. Nem se eu estivesse de Jimmy que é mais estreito conseguiria passar. Por sorte, muita sorte mesmo, 5m antes tinha um recuo suficiente para dar meia volta e sair dali quanto antes.

A essa altura minha adrenalina já estava a mil. Quase que fico na estrada.

Resolvi voltar para 4a opção que o Google não mostrava. A estrada parecia boa, mas quando ela me jogou para um lajeado de pedra seguido de uma travessia de rio fiquei bem preocupado novamente. Logo a frente, milagrosamente, a estrada voltou a ficar boa. Vi que a estrada fora acertada recentemente.

Segui pela estrada e me perdi. Não preciso nem dizer que no meio de tantas montanhas, não tem sinal de celular, logo não tem internet.

Voltei e acertei o caminho. Passei uma porteira e vi um senhor. Sempre que vamos para montanhas, desejamos não ver gente, mas ali, naquela situação, ver aquele senhor de camiseta surrada com um galho de café na mão me deu um conforto no coração. Apresentei me e expliquei minhas intenções. Perguntei como estava a estrada para frente e ele confirmou que a máquina havia passado recentemente. Aquilo foi música para os meus ouvidos. Agradeci pela informação e segui tranquilo até a ver a pedra pela primeira vez.

Não tem como não reconhecer a Pedra da Alvina. Ela é ímpar e imponente na paisagem. Fiquei muito feliz em vê-la pela primeira vez, mas, ao mesmo tempo, fiquei em dúvida se conseguiria subir aquele imenso monolito.

Pedra da Alvina

Vencida a primeira etapa, a próxima seria achar a base. Nas fotos parecia fácil, mas olhando para aquele mar de granito, não me pareceu tão trivial. Também descobri in loco que teria que subir um grande pasto até chegar na base da pedra. Pelas fotos parecia que era só descer do carro e dar dois passos para chegar na base.

Estudei a foto, mas não cheguei a uma conclusão. Nessa hora invoquei a mente do conquistador, fui para onde eu iria se tivesse que conquistar a montanha.

Subi até o ponto mais alto onde o pasto encosta na pedra e comecei a procurar os grampos. Achar um pedaço de ferro de 3/8 naquele mar de pedra parecia impossível.

Onde estão os grampos?

Pela foto parecia que a via estava mais à direita. Então resolvi fazer uma travessia pelo costão na esperança de tropeçar num grampo.

Após uns 60m, vi um grampo branco abaixo de mim, uns 10m. Achei a via! Mas eu já estava no meio da primeira enfiada. Alinhei com a via e segui assim até a P3, de mochila e tudo. Na P3 resolvi me encordar porque o croqui dizia que um IV grau me esperava. Encordei me, mas ainda segui de approach shoes para ganhar tempo.

Escalando a 4a enfiada.

Em 40 minutos já estava na P5, bem na base do trecho mais vertical da pedra. Fiz um descanso mais demorado, bebi uma água, comi alguma coisa e me preparei para o encarar a enfiada de IV grau.

uma pausa na P5.
Início da 6a enfiada.
Guiando a 6a enfiada.

Já havia notado que a graduação estava parecida com o padrão local e a via estava bem protegida, então fiquei bem mais aliviando nesse quesito.

A próxima enfiada, a 7a, era a continuação do trecho mais inclinado da pedra, também um IV. Se eu estivesse na conquista, tocaria pela esquerda para evitar o trecho mais inclinado, mas os grampos me jogavam para o pior lado. Logo descobri que a enfiada é cheia de agarras e batentes, um verdadeiro deleite de escalada. Sem dúvida a melhor enfiada da via!

7a enfiada.

Dali para cima a pedra voltou perder inclinação e segui até a 9a enfiada tentando escalar eficientemente.

A décima e a décima primeira enfiada eram uma incógnita. Durante os estudos não consegui visualizar a escalada, mas ao vivo, ficou bem óbvio, até porque a via segue o caminho mais natural, contornando a pedra pela esquerda para fugir do headwall negativo.

Por volta das 11h45 bati no cume, após 4h de escalada. Como o dia estava relativamente fresco, mesmo com sol, a escalada rendeu bem, mas acho que se fosse num dia normal, não sei se teria conseguido, pois estava com pouca água. A via fica sempre ao sol até a 10 enfiada. No final aparece umas árvores que trazem um pouco de sombra.

Pedra da Alvina

Uma vez no cume comecei a saga para achar os grampos da descida que são independentes até a P9. Fiquei um bom tempo procurando os grampos do rapel sem sucesso. No fim, acabei laçando uma árvore e logo em seguida encontrei a segunda parada. Dali para baixo, desci otimizando vários rapéis e em 50 minutos já estava no chão novamente!

Na hora de ir embora, tive uma ideia de girico e resolvi sair por Lajinha, em vez de dar meia volta! Nossa, que arrependimento! A estrada é bonita, ok! Mas passa por cada lugar… Adrenei mais na volta do que solando aquelas enfiadas de approach shoes! Se eu tivesse vindo por Lajinha não teria chegado até a pedra! Só consegui passar porque estava indo montanha abaixo!

Mesmo com todos esses percalços, posso garantir que a escalada vale muito a pena. Diria que é um prato cheio para quem gosta de escaladas longas ao melhor estilo Expresso Lunar. Aliás, se você já fez a Expresso Lunar, vai tirar essa de letra. Sem contar a vista que se tem do alto para toda região. Para mim, é a vista que melhor representa a região de Pancas e Águia Branca.

Por fim, meus agradecimentos, ao Alex Ribeiro pelas dicas e ao Fabinho pelo apoio logístico de sempre.

Segue o croqui atualizado sobre o original.

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Primeira mini ventana de 2024

Demorou, mas chegou! Finalmente, em pleno final de maio entrou a primeira “mini ventana” no Espírito Santo para marcar o início da temporada das paredes por aqui. Na verdade, durante a semana entrou a primeira frente fria, mas como não coincidiu com o final de semana não pude aproveitá-la.

Nos últimos dias tenho trabalhado na atualização dos croquis de Pancas para o XIII Encontro Capixaba de Escalada que irá acontecer nos dias 16 e 17 de agosto, mais um evento organizado pela Associação Capixaba de Escalada.

Por isso, nada melhor do que começar a temporada dando um pulinho lá. Até porque passei a semana inteira só “aguando” nos croquis de lá.

Dentre tantas vias novas em Pancas, mais de 90, uma chamou minha atenção: via Plano Avesso, conquistada pelo Baldin e Tesourinho na Pedra do Jacaré em 2018 e graduada em 5o, VI, E2, D2, 260m.

A história dessa via é que depois da conquista, o croqui se perdeu e mais ninguém ficou sabendo da via. Nem os conquistadores se lembram da via…

Assim, aliei o útil ao agradável e resolvi entrar em solitária para pegar a ventana e de quebra fazer o croqui para o Encontro!

Como a previsão não estava ótima, calor no sábado e domingo de ventana com chuva à tarde, resolvi ir para Pancas no sábado a tarde e entrar na via nos primeiros raios de luz de domingo para pegar a sombra e terminar antes da chuva prometida.

Acordei às 5h e às 6h, após uma aproximação de 10 minutos, já estava na base da Pedra do Jacaré procurando o início da via. Achar o início não foi muito difícil, pois sabia que ficava à direita da via Paredão Equinox, que tem uma árvore na P1. Descobri que a via começa uns 5m à direita, na parte alta da pedra, no meio de um platô descaído com vegetação.

Parceiro silencioso!

A primeira vista, a parede me pareceu bem a plumo e com uma boa quantidade de proteções fixas. Já tinham me dito que a via era bem protegida.

A primeira enfiada foi um misto de ansiedade, sono e bagunça no gerenciamento de corda. Sem contar a falta de familiaridade com o granito de Pancas depois de quase um ano.

A segunda enfiada já fluiu mais e consegui engrenar rapidinho ao estilo Pancas. Essa enfiada tem bastante agarras, coisa rara por aqui; por isso, é bem divertida.

No início da segunda enfiada.

A terceira enfiada prometia ser o crux, só pela mudança na inclinação da pedra.

Sempre que escalo em solitária, uso o Silent Partner, mas ele tem algumas limitações, principalmente para costurar no veneno. Então quando a escalada é mais vertical e se há necessidade de costurar rápido, prefiro usar o Gri-gri modificado.

Assim, entrei na enfiada crux de Gri-gri para não me atrapalhar. O lance do crux é bem específico, mas não é nenhum bicho de sete cabeça. O lance é bem protegido e a leitura bem fácil.

Escalando e gerenciando no crux.

Para mim, o perrengue foi mais acima, chegando na parada. Como os conquistadores esticaram até o talo a corda, não consegui chegar na parada. Em geral, quando há lances difíceis ou perigo real de queda em fator de queda, uso um dissipador de energia para minimizar o impacto em caso de queda. O lado ruim é que esse sistema consome um pouco mais de corda na montagem e foi justamente esses metrinhos que fizeram falta no final.

Não fiz como a Catherine Destivelle que num filme famoso se desencorda quando a corda acaba e sai solando. Fui mais comedido e estabeleci uma parada na última chapa antes da parada.

Dali para cima e escalada segue bem tranquila. Só uma burocracia para fazer o cume. No final, várias vias meio que convergem num ponto comum e pode causar um pouco de confusão porque começa aparecer chapeleta para todos os lados. Eu mesmo acabei finalizando pela Paredão Equinox para depois descobrir que a linha da via seguia pela direita.

Rapelando!

Em linhas gerais, a via é muito boa. O fato de agora ter um croqui e a via ser bem protegida deverá atrair mais pessoas. Assim espero!

Fiquem com o croqui da via e desde já estendo o convite para entrar na via! Parabéns aos conquistadores, bela linha!

Ah, a tarde, o tempo virou em Pancas e choveu! A previsão acertou direitinho!

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Apeninos trip

Lá por volta de 2010, quando começamos a desenvolver a parede de Apeninos em Castelo, sempre comentávamos que um dia tínhamos que ir lá só escalar, sem levar furadeira, e curtir um pouco o lugar… mas isso nunca aconteceu… Foi preciso esperar 14 anos para finalmente fazer isso no último feriado de Nossa Senhora da Penha.

Foram três dias de escalada sem compromisso, repetindo as vias clássicas e relembrando porque elas são clássicas, mesmo depois de 14 anos.

Éric trabalhando a via Terceira Faixa (7c)
Porko na via Castelo Ra Tim Bum (VI)

Para fechar com “chave de ouro” a estadia “curtição”, Porko, Eric e eu ficamos no Abrigo de Montanha de Apeninos- AMA, o primeiro abrigo de montanha do Espírito Santo que fica aos pés da pedra! Um luxo!

Abrigo de Montanha Apeninos.

Escalar com o Porko sempre é sinônimo de luxo e pouca escalada! Então o churrasco comeu solto! Não só na janta, mas também no almoço e quase no café da manhã.

Café da manhã.
Carne na brasa, ou no fogo?

Para não dizer que deixei a furadeira em casa, assim que os dois foram embora no domingo, conquistei uma via (projeto), à direita da via Contramão (7b), batizada de “Homem de 4 mil anos”. 

No sábado, enquanto me dirigia para Apeninos, dei um pulo na Gruta de Limoeiro que fica ali perto para conhecer o local. Na verdade, já tinha ido há 17 anos, mas agora o local ganhou mais infraestrutura e as visitas são guiadas. O guia Nícolas me apresentou a gruta e contou toda história do local, inclusive sobre a descoberta dos restos mortais de um indígeno da idade antiga, datado em 4 mil anos. Achei aquilo incrível, então resolvi fazer essa pequena homagem ao antigo morador da região.

Gruta do Limoeiro.

Já na segunda-feira, foi feriado estadual, conquistei uma via à esquerda do setor 4×4. Havia visto essa linha na Abertura da Temporada do ano passado. A linha segue por um grande diedro em arco para direita e me pareceu bem óbvia e promissora. Resolvi conquistá-la em solitária e em artificial, aproveitando a fenda, mas assim que coloquei a terceira peça, um Totem Preto, ela sacou com o peso porque a rocha se esfarelou e tomei um voo. Parei num Totem Amarelo e acabei machucando um pouco o joelho no impacto. Por causa desse incidente, no mínimo aterrorizador, batizei a via de “Joelho de Porco”. A via ficou Ok, a rocha é um pouco decomposta, mas diria que ficou interessante. Bati algumas chapas para melhorar a proteção, mas a via requer complemento com peças pequenas (até #.75).

Apeninos no primeiro plano e o Forno Grande ao fundo.

Assim que desci da via, visualizei uma linha à direita com potencial para ser uma escalada bem agradável. Bati as chapas e logo em seguida o Xerxes e a Lu apareceram no setor para prová-la. A via ficou ótima, mas a saída acabou destoando um pouco, por isso foi batizada de “A saída te condena”. O lance não foi isolado, mas deve ser um 7a. 

Lu trabalhando o projeto “A saída te condena”.

Na longa volta para Vitória, ainda passei novamente na região de Limoeiro para conferir o potencial para novas vias numa montanha que, no mínimo, é diferente geologicamente. Fico impressionado como tem pedra nesse lugar, um verdadeiro paraíso para quem gosta de conquistar!

Montanhas de Castelo, essa pedra tem pontencial!

Daqui a duas semanas estarei de volta, agora para Abertura da Temporada de Escalada, um evento super clássico do calendário capixaba. Espero que o São Pedro nos envie um pouco de frio, porque o calor está complicado por aqui!

Forno Grande ao amanhecer
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Samba no pé

Domingo

Domingo de Carnaval amanheceu ensolarado. Pela janela do quarto olhei em direção ao Calogi e vi algumas nuvens. Sabia que durante a madrugada tinha chovido de leve. Lembro de ter acordado com o som da chuva.

A mochila já estava pronta!

Passei na padaria e pé na estrada para conquistar mais uma via em Calogi, dessa vez em solitária.

No ano passado, quando fiz um sobrevoo de drone pelo Calogi, observei uma linha bem interessante à esquerda da via “Quebra Coco”, na face nordeste. Essa é uma face que fica um pouco escondida e com bastante vegetação, mas graças ao drone pude ver uma linha interessante passando por um totem suspenso.

No final do ano passado foi inaugurada a rodovia “Contorno do Mestre Álvaro” que desvia a saída norte de Vitória por fora do perímetro urbano da Serra. Para nós que vamos direto ao Calogi, esse contorno foi uma benção. Agora saio de casa, coloco o carro no piloto automático e só desligo na estrada de chão! Sem radares e semáforos!

Assim que entrei na estrada de chão vi muitas poças de água pelo caminho. Tudo indicava que de madrugada choveu bastante. Mesmo assim, mantive o plano. Calogi tem fama de repelir a chuva.

Chegando mais perto, constatei que a chuva pegou em cheio na pedra. Muitos escorridos de água, principalmente na face nordeste. Mesmo assim resolvi fazer a aproximação, só de facão, para estudar a saída da via.

Assim que cheguei no colo, pulei uma cerca e ao passar por cima de um tronco seco fui atacado por uma abelha que me picou na mão esquerda. Uma segunda abelha foi para minha mão direita e mais uma picada! Corri para me afastar do enxame, mas o estrago estava feito.

Segui para base da pedra e constatei o óbvio: estava molhada, encharcada seria a palavra mais adequada.

Num momento de insanidade achei que pudesse escalar mesmo assim. Ensaiei uma saída de tênis, mas lembrei que estava sozinha na montanha. Seria imprudência demais…

Resolvi voltar para casa e deixar para outro dia. Melhor cuidar das picadas que estavam me incomodando.

Terça-feira

Voltei ao Calogi na 3a feira de Carnaval. Acompanhei o tempo mais de perto e tudo indicava que a pedra estaria seca.

De fato, a pedra estava seca. Mas agora, o mesmo Sol que secou a pedra estava querendo me fritar no granito preto. O termômetro estava marcando 32 graus Celsius. Na pedra, facilmente chegaria aos 35 graus. A chapa iria esquentar.

Preparando os equipos. Pesado!

Por volta das 10h30 iniciei os preparativos e comecei a conquista. Passei pelo trecho outrora molhada. Ainda bem que não subi no domingo. O início é bem estranho.

Pedra estranha, agarras estranhas e tato estranho. Lembrei que em 2022 escalei em solitária a via do lado, Quebra Coco, e passei por um trecho bem parecido.

Saída da via.

Cheguei numa árvore, lacei e segui. Estiquei para esquerda e de repente senti um tranco na corda. O Silent Partner travou! Tentei destravar, mas algo não estava certo e não consegui destravar. Meio sem opção e no perrengue bati uma chapa para tentar resolver o problema. O sol estava castigante, precisava de sombra para ver melhor o que estava acontecendo. Resolvi descer para estudar melhor na sombra.

Tentei de todas as formas destravar, mas o aparelho emperrou e não tinha solução. Para não perder a viagem, resolvi usar o Gri-gri. Uma pequena adaptação aqui e logo estava de volta à primeira chapa para dar sequência a escalada.

Bati mais 3 chapas e estiquei toda corda até chegar num platô onde estabeleci a P1. Sem dúvida foi a enfiada mais sofrida devido ao calor. Sempre que batia uma chapa tirava a sapatilha para dar um respiro.

Pelo menos a P1 tinha uma meia sombra e um pouco de vento, mas o calor seguia implacável. Sabia que a via tenderia a contornar a pedra para leste, seguindo contra a direção do sol, por isso sabia que logo logo entraria na sombra.

A segunda enfiada saiu rápida. Terreno fácil, apenas uma chapa fixa para orientação e o resto em móvel e proteção natural. A P2 era mais confortável que a P1 e o melhor de tudo, na sombra.

Final da segunda enfiada.
Sombra!!!!
Sombra!

A terceira enfiada seria pela lateral do totem. Tudo indicava que seria mais uma enfiada desfrute e toda protegida em móvel. Na saída rolou um lance um pouco mais difícil e depois a escalada seguiu por um mar de agarras com muitas opções para peças.

Saída da 3a enfiada. Muito gerenciamento de corda.

Assim que cheguei na P3 a parede estava totalmente na sombra e o vento do final do dia soprava com bastante intensidade. Era tudo que eu desejava e estava precisando para terminar a conquista.

A 4a enfiada era para ser só um protocolo, mas a saída se mostrou mais difícil do que o esperado e mais acima, a rocha mudou de textura e as agarras sumiram. Tive que bailar, ou sambar na aderência para ganhar os lances.

Saída da 4a enfiada.

Nessa enfiada bati 3 chapas. E após esticar uns 40m cheguei numa clareira que havia mirado de longe para finalizar a via.

Dali, uma pequena caminhada para direita me levou diretamente para parada final da Quebra Coco, por onde desci até o totem e do totem até a base.

Vista do cume com a sombra do Calogi e o Monte Mestre Álvaro ao fundo.

Cheguei na base do totem por volta das 17h45. De longe foi o pior tempo para uma conquista, mas devido ao calor não tinha como ir mais rápido.

Em linhas gerais, posso dizer que a via ficou bem aventurosa. Não tem nada muito difícil, mas requer um pouco de navegação. Diria que é uma excelente opção para um meio turno de escalada num dia de verão.

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“O que for pra ser, será!”(Repetição)

No último domingo fiz a primeira (?) repetição da via “O que for pra ser, será” (D3, 3o, V, E2, 480m) na Pedra da Tartaruga (Pancas) em estilo solitário.

Essa via, localizada logo na entrada, no lado direito do Vale de São Luis, um vale paralelo ao Vale do Palmital, foi conquistada pelos escaladores cariocas Pedro Bugim e Laura Petroni em setembro de 2020. O relato da conquista pode ser lido aqui!

Amanhecer em Pancas.

Essa via já tinha entrado no meu radar faz um bom tempo. Parecia ser uma via ideal para escalar em solitária por uma série de fatores. Além disso, já tinha escalado uma via do casal com Iury, a Cavalo Velho e gostado bastante do “serviço”. Para quem não sabe, a dupla tem várias vias conquistadas na região de Pancas. Veja o blog deles para saber mais sobre as outras vias.

Pedra da Tartaruga.

A escalada

Para escalar a via, adotei o que o meu amigo Murilo chamaria de “hero plan“. Bate volta de Vitória em dia de volta de feriado prolongado.

Sai de Vitória às 4h 30 de domingo para tirar o máximo de proveito do frescor da manhã. Às 7h já estava conversando do com o Sr. José Maria, proprietário das terras para solicitar passagem. Fiz a aproximação de uns 10 minutos pelo cafezal e rapidamente achei o início da via, marcado pela primeira chapeleta num grande rampão. A manhã estava um pouco úmida e com bastante nuvens, deixando a pedra com um aspecto liso, nada muito agradável para quem estava planejando esticar até a P4 sem auto seguro.

Pedra da Tartaruga de onde fica o carro.

Por volta das 7h30 iniciei a escalada. No início, a pedra é bem esfarelenta, mas logo acima, a pedra fica mais firme e a escalada flui bem melhor. Em 15 minutos cheguei na P4, garantindo uma boa economia de tempo que seria fundamental no final.

No início da via.

A partir dali, a via toca numa diagonal à esquerda por um grande veio de rocha. No croqui está descrito como “cristaleira”, mas, na verdade, está longe de ser uma cristaleira, muito pelo contrário, é um veio liso.

Aula de geologia: veio é uma designação genérica para chamar uma rocha de dimensão pequena que corta uma rocha mais antiga e que possui composição diferente da rocha “hospedeira”. Alguns veios podem formar cristaleiras, o que chamamos geneticamente de pegmatito. Por outro lado, alguns veios podem ser formados por rochas de textura mais fina que a hospedeira. Para esse tipo de veio, usamos o termo aplito, como na 5a enfiada.

Organizando o rack na P4.

A via segue exatamente pelo veio de aplito, ou seja, exatamente pela parte mais lisa da rocha, deixando a escalada mais interessante. Se é que vocês conseguem me entender!

Já na 6a enfiada, a via abandona o veio que tende à esquerda e puxa uma grande diagonal à direita para tentar endireitar a via. Mas a cereja do bolo é a 7a enfiada. Descrita como: um IV grau constante.

Esticando a corda na 7a enfiada.

Uma das motivações para escalar essa via foi calibrar a graduação com o pessoal do Rio. Classicamente, o grau daqui é mais soft em relação ao Rio, em geral, uma letra. O mesmo acontece para o grau de exposição. Os conquistadores deram E2 para via, mas eu facilmente daria E3, principalmente porque há potencial de queda em platô em alguns lances. O crux da via tem um fator de queda 2 em platô. Embora V seja relativamente fácil, nada impede de uma agarra quebrar.

Após escalar uns 20m entendi o que era o tal IV grau constante. É uma coisa que não é difícil, mas também não é fácil. Não tem agarras boas, nem platôs onde você pode descansar os pés. Você apenas escala e fica pensando: por que não pegaram aquelas chapas das primeiras enfiadas e colocaram aqui? Por quê?

Já a última enfiada é uma burocracia para ganhar a linha de vegetação. A via não acaba no cume da montanha, mas sim na linha de vegetação com uma vista espetacular da região. Aliás, outra motivação para repetir a via foi a vista. Lá no blog tem umas fotos da Laura escalando com vista para Pedra do Camelo que é incrível.

Esticando a última enfiada.

Cheguei no final da via às 10h20, após 3h de escalada. Aproveitei para descansar um pouco e contemplar a vista que é de tirar o fôlego!

Fim!

O rapel foi tranquilo, mas bem cansativo. O único ponto de atenção onde errei feio foi o rapel da P6 para uma parada intermediária que fica no meio da 5a enfiada. Passei pelo lado errado de uma árvore que tem no meio do rapel e tive que voltar uns 20m de prussik para direcional o rapel corretamente.

Às 11h20 bati no chão novamente e fui direto no bar pegar um refrigerante! Tem um bar onde se deixa o carro!!!

À tarde fiquei dando rolê pela região procurando sarna para coçar e ainda deu tempo para passar no Fabinho para dar um abraço e de quebra encontrar o Fred “Ibiraçu” e seus amigos de Juiz de Fora que estavam pela região aproveitando o feriado.

Macacos no Camping do Fabinho.

Já a volta foi um longo jogo de paciência… Levei mais tempo para voltar de carro do que para escalar a via…

Dronando pela região da Pedra da Agulha.
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Solitude

No último sábado escalei a via “Expresso Lunar” (4o, V, E3, D2, 740m) na Pedra da Onça, Água Branca em solitária. A via foi conquistada pelos escaladores André “Tesourinho”, Fred “Ibiraçu”, Joyce, Aurelio e Baldin em 2015 após quatro investidas.

Esse era um antigo projeto que eu vinha procrastinado faz um tempo. A escalada em si não é considerada difícil, embora tenha um crux de V, mas o que mais me preocupava era a extensão da via. Ela é considerada a 4a maior via do estado, com 740m de extensão. Até então, a maior via que já escalei em solitária foi a “Princesinha de Itaguaçu” na Pedra do Barro Preto em Itaguaçu, com 520m de extensão.

Embora a via tenha mais de 700m dividida em 13 enfiadas, sabia que a metade poderia subir em solo, o que seria um grande adianto, mas uma coisa é a teoria, outra coisa é ter coragem na hora do vamos ver e aguentar a puxada!

Mais uma vez, uma janela de um dia se confirmou para o último sábado. Uma pequena frente fria sem chuva estava a caminho do estado, baixando a temperatura e trazendo vento gelado. Era a oportunidade que estava faltando para colocar o plano em ação.

Só para contextualizar: para nós, frente fria de inverno é 25 graus Celsius ao meio-dia! Porque nesse inverno, os termômetros estão marcando 30 graus!!!

Pedra da Onça, à esquerda e Bico da Coruja, à direita.

Tão grande quanto a via, seria a programação do dia: sair de casa às 4h15, rodar 200km até a base da pedra, escalar 740m, descer outros 740m e rodar mais 3h até Vitória no mesmo dia.

Cheguei no curral onde se deixa o carro às 7h30 e às 8h10 iniciei a escalada após uma rápida aproximação.

Deixando o carro no curral.
Equipando me na base da via.

Como as primeiras enfiadas são mais fáceis, fui até a P5 em solo, exceto na 3a que tem um lance de IV. A escalada é fácil nesse trecho, mas não contava que a via passava por dentro de uma calha d’água onde as agarras são mais polidas. Wasabi!

Cheguei na P5 às 9h sem grandes percalços. Tirando a pedra lisa e o peso da mochila, o resto estava Ok. O tempo estava colaborando com muita nebulosidade e o vento gelado da frente fria ajudando a resfriar os neurônios.

Fiz um descanso para me alimentar porque o café da manhã não tinha descido bem. Sempre tive dificuldade para comer pela manhã.

Pausa para o café da manhã.

A partir dali, a via segue em diagonal à esquerda, com a pedra ganhando inclinação progressivamente. Sem dúvida, a parte mais legal da escalada.

Início da 6a enfiada.
Início da 8a enfiada.

Cheguei na P9 às 11h30. Teoricamente tinha passado os lances mais difíceis e dali para cima seria só um protocolo. De fato, olhando para cima, depois de uma virada, parecia que a pedra ficava mais tranquila. Fiz outra pausa, pois a bateria estava baixa e começando a sentir o cansaço de escalar, rapelar e jumarear repetidas vezes.

Entrei na 10a enfiada despreocupado. Costurei o primeiro grampo e fui atrás do próximo. A via me jogava para esquerda, então fui à esquerda, segundo a linha mais natural, mas nada de achar o grampo. Quando vi, tinha pulado o próximo grampo e sem chance de voltar para costurar. Fui atrás do próximo, mas não achei. Então resolvi ir para uma árvore à esquerda com uma laca ao lado de uma grande calha d’água para estabelecer uma parada improvisada. Se tudo desse errado poderia subir pela calha.

Saída da 10 enfiada.

Desci para limpar a enfiada e na volta achei o 2o grampo que eu tinha pulado e consegui me orientar novamente na via. Na verdade, o segundo grampo fica escondido atrás de um gravatá e não tem como ver de baixo. Só indo e sabendo que a via é por ali. O problema é que a linha natural te joga para esquerda…

Da parada improvisada fui para P10 e dali para cima a pedra ficou mais amigável e subi em solo novamente até o cume. A minha única preocupação nesse trecho foi encontrar as paradas que seriam necessárias na descida. 

Última!
Croqui com algumas anotações. Para maiores detalhes, vide o livro Escalada Capixaba.

Por volta das 13h estava finalmente caminhando em direção às duas árvores isoladas que marcam o local onde fica o livro de cume. A essa altura, o calor estava mais intenso e o cansaço cobrando seu preço. Fiz uma parada cronometrada de 20 minutos para comer mais alguma coisa, assinar o livro de cume e descansar um pouco. Embora tivesse chegado relativamente cedo, eu ainda tinha 13 rapeis para fazer sozinho.

Assinando o livro de cume.

Do pouco tempo que fiquei lá, guardo a lembrança de que aquele cume tem uma energia especial. Com certeza é um lugar especial.

Das duas árvores onde fica o livro de cume.
Mar de Canela de Ema e ao fundo os Três Pontões de Águia Branca.
Vista do cume.

Para ganhar tempo, desescalei os 2 primeiros rapéis e comecei a descer com corda a partir da P11. 

A descida foi tranquila até chegar na P5. Ali, ao recolher a corda, ela se moveu 20cm e travou! Puxei a outra ponta e mesma coisa! Na hora soube que o nó da corda tinha passado pelo olhal do grampo e ficado entre os dois grampos. Como uso uma corda de 10mm e outra de 6mm para o rapel, o nó fica pequeno. E o olhal do grampo é maior que o nó, então a corda acabou correndo para dentro.

Sem muita opção, tive que subir 60m pela corda fixa para resolver o problema. O que são mais 60m para quem já jumareou o dia todo!?

A partir dali fiquei mais esperto e bloquei a corda com um mosquetão simples para não acontecer o mesmo problema.

Cheguei na base por volta das 15h20 após 2h de rapel. Sem dúvida, puxar 10 rapéis foi a parte mais difícil e cansativa do dia.

Dali, mais 3h de carro até Vitória com uma parada para comer pastel e beber caldo de cana em Ibiraçu! Clássico!

Cheguei em casa às 19h30 e desmaiei!

Dicas

  • Face noroeste com sombra pela manhã;
  • Aproximação: 10 minutos;
  • O início da via fica subindo a laje (drenagem seca) até encontrar os blocos soltos.
  • É possível subir até a P5 em simultâneo e da 11a enfiada até o cume;
  • Na 6a enfiada, o croqui diz 3 grampos, mas aparentemente só há dois;
  • Na nona enfiada, a escalada começa pela direita na rocha clara e depois segue à esquerda onde está o primeiro grampo.
  • Na 10a enfiada, após o primeiro grampo, a via segue à direita. O próximo grampo está atrás de um gravatá;
  • A última enfiada segue contornando pela direita;
  • Há relatos de cordadas que escalaram a via em 2h;
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“Trem Fantasma” em solitária 

Em 2017, quando escalei a via Locomotiva 269 na Pedra do Túnel, do seu cume visualizei um projeto: escalar a via “Trem Fantasma” (5o, VIIa, E3, D2, 350m) em solitária. Foi uma ideia idiota alimentada pelo calor e emoção da hora, mas isso ficou na mente, guardada numa caixa onde ficam as ideias que de lá nunca deveriam sair.

O tempo passou e vire e mexe quando abria a “caixa proibida” aquela ideia surgia para me perturbar.

Escalar em solitária é, antes de mais, nada um jogo mental. Por isso, o primeiro passo sempre é se preparar mentalmente e ir apenas quando estiver com a “cabeça boa.

Ao longo da última semana comecei a me mentir confiante e fui construindo a ideia mentalmente. Nessa fase, o mais difícil é dominar o teu cérebro que constantemente tenta te sabotar criando mil desculpas para não ir.

Eu já tinha repetido essa via com a Afeto em agosto de 2008. Foi a minha primeira tradicional no Espírito Santo, mas eu não tenho muitas lembranças desse dia. Lembro que desescalei quase 50m porque entramos num lugar errado e que guiei uma aderência branca sem agarras. Infelizmente não fiz uma descrição detalhada da escalada no blog… o que poderia ter me ajudado muito nessa empreitada.

Pedra do Mosteiro em Ibiraçu.

A escalada

Sai de casa por volta das 8h20 da manhã de sábado. Como a parede fica voltada para leste, as melhores condições são à tarde, quando a via fica na sombra. Segundo o meu relato incompleto, diz que fizemos a via em 4h30. Ou seja, numa tarde, mas quando se escala sozinho, o ritmo é outro e sabia que iria levar mais tempo. Por isso teria que iniciar a escalada ainda pela manhã se eu quisesse chegar no cume com luz.

Por volta das 9h30 estacionei o carro ao lado do trilho de trem e fiquei procrastinando mais um pouco, na esperança de algumas nuvens esparsas se unirem para fazer uma sombra pra mim. O termômetro do carro marcava 30o graus Celsius e o dia prometia ser quente e abafado. Uma pequena brisa ajudava a disfarçar o calor. A previsão do tempo sugeria uma virada do tempo para o dia seguinte, com a chegada de uma frente fria avançando ainda no sábado, mas por hora nada de vento gelado.

Assim que me enganei que estava mais nublado, resolvi adiantar a caminhada. A aproximação é relativamente curta, mas tem um trecho final de mata suja que costuma dar muito trabalho. Não é à toa que algumas cordadas nem acham o início da via.

Dica: olhando a pedra de longe, tem três saias de vegetação na mata suja. A via começa à esquerda da segunda saia da direita para esquerda, a partir da cerca que separa a área suja do pasto limpo. Inclusive a dica é subir pelo pasto limpo e depois entrar à esquerda na mata suja. Levar facão!

Na base da via fiz mais um descanso à espera de um milagre das nuvens. Quando me enganei novamente de que estava nublando, iniciei a escalada. Isso deve ter sido por volta das 11h15.

Eu tinha planejado fazer as 3 primeiras enfiadas ao Sol e depois pegar as outras cinco na sombra. Assim adiantaria a parte fácil e reservaria as melhores condições para as enfiadas mais difíceis.

Embora a 1a enfiada fosse fácil (IV SUP) foi uma escalada difícil. Sol, calor, ansiedade e cansaço… Um misto de emoções que atrapalhou a minha concentração.

Pausa na P1.

Já na segunda, tirando o calor, fui conseguindo colocar a cabeça nos eixos e consegui fluir um pouco mais. A P2 é, sem dúvida, a parada mais desconfortável de toda via. Fica no meio da parede num trecho vertical. Por isso tratei de sair quanto antes, pois a P3 parecia mais promissora.

Saída da 3a enfiada.

Cheguei na P3 por volta das 12h30. A parada já estava na sombra e finalmente pude sair do Sol!!! A essa altura estava tão extenuado do calor que pensei em descer.

Resolvi fazer um descanso cronometrado de 20 minutos sem fazer nada para me recompor. Na escalada solitária não existe ficar sem fazer nada, pois sempre terá alguma coisa para fazer. Por isso é uma escalada sem descanso, mas precisava respirar um pouco. Tentei comer alguma coisa, bebi com parcimônia o pouco de água que tinha levado e tirei um cochilo falso.

A partir da 4a enfiada a via começa de verdade. Dali até o cume todas as enfiadas são mais exigentes e verticais.

Na saída da 4a enfiada há um crux de VI numa placa vertical com potencial de “carimbar” o platô. Quando se escala em solitária não tem como pedir para o Silent Partner deixar curta a corda. Como o sistema funciona por aceleração, como um cinto de segurança de carro, não há garantias de que o mecanismo acione no tempo desejado.

A 4a enfiada leva à base do que é descrito como a “enfiada da aderência”. Essa é a única enfiada que tenho alguma lembrança da escalada de 2008. Justamente por causa disso, sei que naquela ocasião eu peguei as enfiadas ímpares e o Afeto as pares. Cheguei na aderência crux meio desleixado e entrei meio de qualquer jeito. No segundo passo entrei numa “sinuca de bico” e tive que desescalar 2 movimentos. Desescalar foi mais difícil do que fazer o crux depois… 

Saída da 5a enfiada.

Cheguei na base da 6a enfiada. A próxima seria o crux da via. Em 2008 lembro que o Afeto pediu para guiar essa porque na 1a investida ele tinha caído. Um detalhe que gostaria de ter esquecido das lembranças. O crux de 7a da 6a enfiada é basicamente um boulder onde o difícil é subir o pé na mão. Para quem está acostumado a escalar no Morro do Moreno, o lance é bem tranquilo.

Passar o primeiro 7a ajudou a revigorar o ânimo, mas não ajudou a diminuir a sede. A essa altura, eu já tinha consciência de que havia errado feio no planejamento da água. Eu tinha levado 2L de água para passar o dia.

Descansei novamente na P6 que fica num platô confortável. A 7a enfiada é conhecida como a “enfiada do teto” por ter uma virada num pequeno teto. Por outro lado, essa é a enfiada que tem mais grampos na via, praticamente o dobro em relação ao resto. Nove grampos em 40m era um luxo! Quase padrão Céüse! A enfiada é bem de boa, um V de agarras abundantes. O teto é o crux da enfiada. Mais assusta do que parece.

Na virada do teto da 7a enfiada.

A P7 é disparada a mais confortável! Cheguei ali às 16h30. Eu sabia que em 1h o Sol iria começar a se por. Se descesse dali, chegaria no carro com luz, se fosse até o fim, certamente desceria no escuro. Tratei de decorar bem a caminhada de volta e toquei para última enfiada.

A última enfiada é a “cereja do bolo” da via. Conquistada em artificial e liberada posteriormente, é graduada em 7a. O crux é mais leitura do que força. A dica é ir pela esquerda e voltar para direita para costurar. Para mim o crux foi sacar essa costura. Depois a enfiada facilita, quando começam a surgir pequenos buracos perfeitos estilo Céüse. É uma das coisas mais impressionante que já via numa via. Parece que os buracos foram cavados porque formam uma sequência perfeita que leva ao fim. Se a via passasse 2m para o lado não teria esses buracos e o “buraco estaria mais abaixo”. O croqui descreve um lance exposto nesse trecho, mas com esses buracos é até divertido e o esticão fica bem tranquilo.

Cheguei na vegetação final às 16h45, após 5h30 de escalada e comecei a procurar a parada. Caminhei de um lado ao outro e nada. Achei o livro de cume e assinei sem ter costurado a parada. O tempo corria, o Sol já estava mais fraco e em pouco tempo escureceria. Procurei mais um pouco e nada. Resolvi subir mais para montar um rapel nos galhos e descer até o último grampo. Assim que comecei a descer achei a parada!!!!

Livro de cume original. Conquista de 1999.

Dica: a parada fica à esquerda de um diedro, acima do livro de cume. 

Iniciei a descida por volta das 17h.

Sempre que posso descer caminhando, prefiro essa opção devido aos riscos envolvidos no rapel, principalmente quando se está sozinho, cansado e no escuro, mas dessa vez não tive escolha.

Desci sem pressa e com atenção redobrada. Cheguei na base por volta das 18h para encarar a mata fechada novamente.

Uma parada para agradecer pela escalada.

Segue o croqui atualizado. No livro Escalada Capixaba tem esse croqui também, mas carece de informações e a metragem não está correta. Na croquiteca da ACE tem o croqui original da conquista, mas também está incompleto.

Por fim, é preciso registar a minha admiração a coragem dos conquistadores Zé Márcio e Renato que abriram essa via em 1999 a base de martelo e muita disposição. Mesmo sendo uma via antiga, é sem dúvida, uma via bem atual que ainda exige muita coragem e técnica atualmente.

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Carna climb

Durante o feriado prolongado de Carnaval rolaram algumas escaladas interessantes pelo Espírito Santo:

Polese

No domingo de Carnaval tentei repetir em solitária a via “Montanha Russa” (5o, VI, E2, D1, 180m) no Vale Polese em João Neiva.

Faz quase um ano que não escalo em solitária. A última vez foi em março do ano passado, quando abri a variante “Teoria das Cordas”. Então resolvi dar uma desenferrujada e aproveitar para colocar em práticas algumas técnicas novas que andei estudando.

Parede Polese.

Por aqui, o calor anda acima da média, com os termômetros passando facilmente a casa dos 30 graus Celsius logo pela manhã. Por isso, resolvi entrar na via no início da manhã para escalar ao máximo na sombra.

Sai de casa às 4h15 e às 6h já estava olhando para parede com certo receio. Receio de que a via estivesse molhada na parte final. Como antes da onda de calor andou chovendo muito, nem todas as paredes secaram ao longo da semana. Com binóculos em mãos, tentei descobrir se a linha da via estava molhada, mas não consegui ver os grampos finais da 2a enfiada. Aparentemente a via passava à direita do trecho molhado, então resolvi entrá-la. Até porque eu não tinha muita opção.

A 1a enfiada foi de boa. A segunda deve ser o crux com uma bela diagonal à esquerda bem protegida no final que me levou diretamente para o trecho molhado. Ainda na travessia crux já peguei uns trechos molhados, mas a última enfiada estava totalmente na água. Cogitei dar um balão pela esquerda, mas teria que pular pelo menos 3 proteções. Como estava sozinho, achei melhor não arriscar e deixar a última enfiada para uma ocasião mais oportuna.

Estudando a 2a enfiada.
Saída da 2a enfiada.

Quebra Coco

Na terça-feira de Carnaval fiz mais uma investida solitária usando a mesma estratégia de domingo, saindo cedo para escalar no frescor da manhã.

Dessa vez resolvi entrar na via “Quebra Coco” (3o, V, D1, E3, 160m) no Calogi. Por incrível que pareça essa é uma via que teoricamente não completei até hoje, pois na única investida (2011) fui somente até a P3 para fazer umas fotos e não tocamos a 4a enfiada.

Mais uma vez sai às 4h de casa e às 5h estava estacionando o carro na parte baixa. Como o trecho final tem 5 porteiras para abrir, resolvi deixar o carro na casa azul para fazer um aeróbico e não ter que ficar abrindo as porteiras sozinho.

Amanhecer .

Em 20 minutos cheguei na base da via, ainda no escuro. E por volta das 5h45 iniciei a escalada. Depois fui ver que entrei meio atravessado na via, pulando o primeiro grampo e indo direto no segundo grampo. Nesse trecho, cometi um erro de gerenciamento de corda e minha “dead rope” prendeu num mosquetão e tive que desescalar até o chão. A escalada solitária tem uns detalhes que são cruciais e como estava sem prática acabei cometendo esse erro primário.

Conceito de “Dead rope”.
Montando o sistema.
Iniciando a escalada antes do amanhecer.

Resolvido o problema, segui tocando. Passei o crux da primeira enfiada e uns 3m acima do último grampo, o “dead rope” prendeu novamente. Eu não estava acreditando… Tentei de todas as formas soltar a corda sem sucesso. No fim, tive que desescalar o crux e voltar até o chão para resolver o problema. Na escalada solitária, um bom gerenciamento de corda é fundamental para evitar esse tipo de problema. Acho que foi uma boa lição aprendida para ficar mais esperto. Dessa vez só tive que desescalar um III (IV seria mais justo), então até que saiu barato.

Limpando a 3a enfiada.

Dali para cima, apenas tratei de imprimir ritmo na escalada e toquei até a P4 sem grandes problemas. Bati na P4 às 7h30, após 1h45 de escalada.

Na descida ainda encontrei a galera chegando no Calogi enquanto eu tomava o rumo de casa.

Cume! Ou final da via.

Segue o croqui atualizado!

Soído

Já na 4a feira, Alekinho e eu voltamos novamente à Parede de Soído para conquistar mais algumas vias.

Eu queria escalar a via “Exército de um homem só” que eu tinha conquistado na primeira investida e abrir uma variante à esquerda. Já o Alekinho tinha como meta abrir outra via à esquerda do projeto que tinha aberto.

Carga pesada!

De cara, tentei fazer o FA da “Exército”, mas sucumbi no “flash pumping” e cai no crux. Ai deixei a via bonitinha para o Alekinho fazer o FA em flash da via. Sobre o grau, ele sugeriu um 8b sólido.

Saída da via Exército de um homem só.
Alekinho fazendo o FA da via.

Depois, cada um voltou aos seus projetos e passei a manhã conquistando uma variante à esquerda que termina um pouco acima da “Exército”. Aparentemente ficou mais fácil que a “Exército” e também usa mais peças em móvel, incluindo um #5. Bati duas chapas mais uma parada. Batizei a via de “300”, do filme aquele…

Separando os equipos para conquista.

Não vou negar que me inspirei muito no estilo de escalada de Piraí para conquistar essas vias, onde o uso de material móvel é levado à risca e colocando chapas restritamente onde é necessário. É claro que o nosso granito não é um arenito fraturando, então tive que fazer algumas adaptações à realidade capixaba. Inclusive, nenhuma das proteções móveis são em fendas de verdade, na verdade são buracos ou calhas no veio da rocha, mas elas ficam “bomber”.

À tarde conquistei mais uma via, dessa vez partindo de uma saída independente e juntando na parada da “300”. Essa via já tem mais chapas, 8 no total, mas ainda assim requer um #3.

Seção final da “Ronin”.

Eu sei que ninguém vai ler isso e muito menos ir para lá, mas essa via, batizada de Ronin, precisa receber reforço de Sika em algumas agarras do crux, pois sem elas inviabiliza a escalada. Por isso, não entrem!

Já o Alekinho passou o dia equipando a nova linha, ainda sem nome, mas segundo ele, deve ser um nono. Depois gastou um bom tempo reforçando as agarras chaves da via. Infelizmente o canto onde ele está trabalhando é mais quebradiço e requer um trabalho extra.

Alekinho trabalhando seu projeto.
Croqui do setor

No final do dia, o jovem Alekinho ainda quis ir para Gruta de Soído para dar um pega no projeto dele. Eu não estava nem conseguindo caminhar direito, mas ele estava bem motivado e convicto, então fui me arrastando até a Gruta. Mas a vida é sincera, como diz uns amigos e o projeto segue em pé.

A Parede de Soído está longe de ser um pico popular, mas tem seus encantos. Até mesmo conquistar lá não é fácil, as linhas não são óbvias e há muito problema de conexão entre as linhas. É um quebra-cabeça onde você precisa passar muito tempo tentando ler a pedra. Por outro lado, eu acho que já vale a visita por causa da via “Exército de um homem só”. Para mim, é sem dúvida, um dos melhores 8b do estado!

Segue o vblog do dia!

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Maratona de escalada

Depois de passar alguns finais de semana só fazendo esportiva, estava precisando sofrer um pouco. Isso deve ter uma boa explicação científica! Por que buscamos a felicidade no sofrimento? Por que precisamos levar o nosso corpo ao limite para nos sentir realizado? E o pior: quando estou no “olho do furacão” sempre penso: basta! É a última! Só que não…

O domingo começou bem cedo! Às 4h30 cai da cama e às 6h da manhã estava estacionando o carro no início da “trilha” que dá acesso à via “Independência ou Sorte”, na Pedra do Encruzo, em Santa Leopoldina. Essa via foi conquistada em setembro de 2020 pelos escaladores, André “Tesourinho”, Sarah Cantarino e Zé Márcio. A via possui 7 enfiadas, totalizando 380m. Além do cume bonito, essa via tem como diferencial o uso constante de material móvel, uma coisa bem rara por aqui. Então, desde a conquista sempre tive gana de repeti-lá em solitária.

Lendo os relatos dos conquistadores e de repetições posteriores, vi que poderia fazer uma variante pela esquerda, pegando o diedro da 3a enfiada mais de baixo. Assim evitaria a travessia crux em “agarrência” (Vsup) e poderia usar mais material móvel!

Conversei com o “Tesourinho” sobre a possibilidade e questionei porque não optaram por essa saída e ele me falou que era por causa do “vara mato”. Ponderei a situação e considerei que valia a pena o “vara mato”. Lembra do primeiro parágrafo? Pois é…

Peguei um “beta” master furado do Eric no site da ACE sobre o acesso e fui por umas “quebradas”, passando por lugares bem estranhos para acessar a base da via. Eu sei… quando conquistamos, não gostamos de falar sobre aproximações trabalhosas para não afugentar a freguesia… Ninguém tinha me falado que o acesso era ruim. Ainda mais se estiver levando tudo sozinho.

Por volta das 6h30 da amanhã comecei a escalada. A essa altura já tinha entendido que o dia seria tórrido e que os 2L de água não seriam suficientes. Toquei até o inicio da variante numa puxada só para ganhar tempo e por volta das 6h40 já estava na base da fenda me preparando para iniciar a escalada em si.

A variante, batizada de “Teoria das cordas” ficou com apenas 30m de extensão, mas ficou bem legal, pois está toda em móvel com boas colocações, e lances bem técnicos, com direito a fenda de meio-corpo. Bom, pelo menos foi assim que consegui passar o lance. Talvez role fazer em oposição, mas achei mais seguro me espremer do que ficar por fora.

Montei a parada móvel numa árvore e a partir dali entrei novamente na via “Independência ou Sorte” até o fim.

No trecho da variante.
A sombra

A essa altura, mesmo sendo cedo da manhã, o Sol estava me castigando com força, o meu termômetro marcava 34 graus Celsius e nem eram 9h da manhã ainda. Por um momento pensei em descer, pois da 4a enfiada em diante a via perdia muita inclinação e chegar no cume seria somente um protocolo. Mas lembram do 1o parágrafo?

Na fissura da 3a enfiada.

Pensei sobre o assunto, mas resolvi ir até o fim. Dei um gás final para ganhar tempo e por volta das 9h20 estava pisando no cume. Dei uma volta no cume, assinei o livro e tratei de descer logo! Queria sair o quanto antes daquele lugar quente.

Vista do cume para o Mestre Álvaro.
Uma foto no cume!
Livro de cume.

Quando cheguei na P6, me ancorei na parada que já tinha deixado montada com a minha auto e puxei a corda. Peguei a ponto da corda de 10mm e fui passar nos grampos. Como a parada estava um pouco mais longe, dei um “leve” e passei a corda. Quando fui sentar novamente na cadeirinha para puxar a corda, só ouvi o som do mosquetão estourando e vi que a auto tinha saído da parada e estava totalmente solto. Por sorte, muita sorte, ainda estava segurado na corda e não aconteceu nada, mas se eu tivesse sentado direito, com certeza teria caído para um lado da montanha onde não teria nenhuma chance.

Tudo aconteceu de forma muito rápida, mas foi o suficiente para me sentir muito mal. Pensei muito em tudo que estava fazendo, nos riscos envolvidos, nas coisas que eu tinha feito durante a escalada e entendi que era uma aviso para eu “frear” um pouco. A partir dali, desci muito mais atento e voltei a usar duas autos para não incorrer ao mesmo erro. Em geral, gosto de descer com uma auto curta e uma mais longa que uso de backup. Basicamente “clipo” em qualquer coisa para evitar esse tipo de situação, mas dessa vez não estava fazendo isso. Pensando agora, tenho certeza do que o calor e consequente cansaço ajudaram para que isso tivesse acontecido. Além de claro, estar sozinho. Quando estamos sozinhos, o double check é entre você e você mesmo. E às vezes, é difícil você ver o erro, mesmo checando duas vezes, principalmente se estamos cansados.

Desci os outros 6 rapeis com atenção redobrada e por volta das 11h estava de volta no carro para o “segundo turno”.

Croqui da via.

Segundo turno

Voltei até a capital e fui direto para Vila Velha pegar o João Vitor para escalar a via “Lidio Alvarenga” no Laje de Pedra em Guarapari. Eu já tinha prometido essa escalada desde 2019 e nunca conseguimos conciliar as nossas agendas, principalmente porque 2020 foi um ano complicado.

Chegamos na pedra por volta das 14h e logo descobrimos um cadeado na entrada, o que nos obrigou a deixar o carro mais longe do que o habitual.

Como a via fica na sombra pela tarde, a melhor estratégia para escalar essa e outras vias é chegar à tarde e escalar rápido para descer antes do anoitecer. Outra dica é entrar na via quando estiver ventando de nordeste porque ai, além de escalar na sombra, escala com vento gelado! Quase perfeito!

Por volta das 14h30, a via entrou na sombra e o João Vitor abriu os trabalhos. O João é um escalador da nova safra de escaladores Capixabas que chamo de “escaladores universitários”, pois tem uma galera dessa mesma faixa etária que começou ao mesmo tempo. Ele mesmo tem apenas 3 anos de escalada e desde sempre se mostrou muito interessando em aprender novas técnicas e aprimorar a escalada.

Iniciando a escalada.

No início botei terror falando que ele iria guiar todas as 4 enfiadas, mas sabia que o mais justo seria ir alternando, até porque a via não é muito dada e exige certa atenção em alguns pontos. Além disso, as proteções não estão lá grandes coisas, mesmo depois da regrampeação. Ainda há muito grampo enferrujado.

Peguei a 2a enfiada que é o crux da via e a 3a voltou a cair no colo do João, mas ele acabou sucumbindo nas canaletas, onde você precisa pegar no nada, acreditar no atrito e subir olhando para o grampo enferrujado.

João na 2a enfiada.

Depois de fritar por quase uma hora num lance mais longo, trocamos de ponta e tocamos a escalada até o cume para tentar chegar antes do anoitecer.

3a enfiada.

Para mim essa foi a minha 3a repetição. Embora não seja uma obra prima da escalada, gosto da via, do estilo e do visual. Sem contar que fica a apenas 1h da capital.

Ao João ficou a pendência de voltar à via, talvez com uma sapatilha melhor, para repetir a via guiando todas, ainda mais agora que ele conhece cada detalhe da canaleta e onde estão todas as 6 agarras da via!

Croqui da via.
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“Só o homem penitente passará”

Eram por volta de meio-dia e trinta, a essa hora, o Sol já estava a pino, “fritando o meu melão”. Eu tinha acabado de conquistar em solitária uma enfiada de aproximadamente 35m ao melhor estilo “cata milho”. A próxima enfiada seria por um belo diedro todo protegido em móvel, mas eu não estava com os móveis… Mais cedo, na hora de separar os equipamentos, optei por deixa-los no carro para poupar peso… Amadorismo total… 

Início da enfiada “Cata Milho”. Gopro.

Ainda agora fico pensando: por que eu cometi um erro tão primário? Eu tinha visto o tal diedro de longe e sabia que iria precisar das peças. A experiência me ensinou que quando tem um totem, as laterais, os diedros, em geral, aceitam peças grandes e, se tiver fenda no dorso, peças pequenas.

Se por um lado, a decisão de deixar os móveis no carro me fez baixar mais cedo da parede, por outro pude chegar mais cedo no sítio da família Bragatto, localizado aos pés da montanha, onde passaria a noite conforme combinado previamente.

Durante a semana, enquanto procurava um lugar para passar a noite de sábado, achei no site “Blog Destinos ES” do meu bruxo João Olavo, o contato de um sítio na região de Empoçado que atendia os meus anseios. Entrei em contato com o Roberto, expliquei as minhas intenções e prontamente ele me arrumou um lugar no sítio.

Quando cheguei no sítio, logo descobri que a Dona Ceia, a tia do Roberto, que cuida do sítio, tinha convidado alguns amigos e parentes para um churrasco de sábado no jardim. Imaginem descer de uma parede e ser recebido com churrasco e cerveja? Aquela frustração de ter deixado os Camalot´s no carro passou na hora. Sem contar a receptividade típica dos italianos do interior, em particular do senhor Orlando, o proprietário, com mais de 80 anos de idade e cheia de vivacidade.

Sítio Bragatto. Xpro2

O sábado começou cedo. Por volta das 8h já estava na região do Empoçado em Afonso Cláudio munido de um binóculos catando uma linha interessante numa pedra anexa à Pedra da Lajinha. Estava procurando um projeto que fosse acessível, pois seria uma investida em solitária, mas também queria algo que fosse grande o suficiente para me manter ocupado por 2 dias. Infelizmente, o granito da região é muito compacto, sem praticamente nenhum sistema de fendas. Após uma varredura mais minuciosa, achei um projeto que estava dentro do meu “orçamento” físico. A linha começaria com uma longa aproximação por um costão que, a medida que ia subindo, ganhava inclinação e me levaria à um totem suspenso. Depois, a um segundo totem e por fim, o cume.

Linha da via. Ao fundo à esquerda, a Pedra da Lajinha.
Escolhida a linha, hora de separando os equipos., Gopro.

Na escalada solitária, 90% do trabalho é ralação e o restante, 10%, diversão. Aliás, a hora que você está escalando (10%) é a parte mais tranquila, porque o resto… Além disso, se você está descansando, não acontece nada, só o tempo passa. Por isso, não tem descanso. Sempre terá uma corda para puxar, um equipo a separar… De tudo isso, a parte mais pesada, que demanda mais tempo, é o transporte do material. E quando se está conquistando, o peso praticamente dobra. Furadeira, chapeletas, cordas, material de conquista, móvel, água, comida, a lista é quase interminável e o peso então…

Porteio de material. Levando a primeira mochila. Gopro.

Para poupar a lombar, resolvi fazer o “porteio” do material em duas partes. Fiz duas mochilas e levava uma até um certo ponto, deixava lá, descia, pegava a segunda e levava até o primeiro. Poderia levar tudo numa única tacada, mas como estaria encarando longos trechos de costão que por vezes precisavam ser escalado, achei mais seguro subir mais leve para ganhar agilidade. Com isso, tive que praticamente subir, descer e subir toda aproximação.

Como a pedra ia ganhando inclinação progressivamente, ficou difícil definir onde a via começaria de fato. Lances de I e II fiz em solo para ganhar tempo. Alguns trechos mais difíceis também toquei em solo. Somente na enfiada final, antes da enfiada dos “cata milho” resolvi me encordar por precaução.

Organizando os equipos na parada. Gopro.

Todo esse trabalho de levar os equipos pelo costão me consumiu bastante energia e tempo, o que acabou custando uma bolha na sola do pé direito! Para não comprometer da investida, tive que improvisar uma bandagem para minimizar a dor e seguir os trabalhos.

Bolha na sola do pé. Gopro.

Quando descobri que precisava dos móveis, resolvi descer deixando todo material por ali mesmo, assim, no dia seguinte, poderia subir leve e rápido para dar continuidade à conquista.

Entardecer na Pedra da Lajinha. Xpro2

Depois de encher a barriga no churrasco, por volta das 19h acabei capotando na cama e só fui acordar no dia seguinte ao som do despertador.

Domingo

Às 4h o despertador tocou, peguei o carro e fui até a base da pedra. Ainda sonolento, no breu da noite, perdi o ponto duas vezes, até me achar e estacionar o carro para um café da manhã expresso.

É difícil ter apetite a essa hora da manhã, mas não teve jeito, “saco vazio não para em pé”. Botei a mochila com os Camalot´s e à luz do headlamp comecei a aproximação. Caminhar a noite, sozinho e indo em direção a uma montanha que parece que vai te engolir é aterrorizador. Caminhar sozinho no escuro muda muito a percepção e os sentimentos, mesmo sabendo que em pouco tempo o Sol iria trazer luz e um pouco de conforto.

Sob a luz do luar. Xpro2

Dessa vez subi rápido, mas fiquei impressionado com alguns trechos que subi em solo no dia anterior. É impressionante como a nossa mente muda com o meio. No dia anterior, motivado e focado subi com peso vários trechos sem hesitar. E agora, no escuro, tudo parecia muito mais difícil e aterrorizante.

Por volta das 5h da manhã cheguei na enfiada do “cata milho”. Como não deixei corda fixa em nenhuma lance, tive que provar o próprio veneno. Mas era a oportunidade que eu tinha para fazer a “cadena” da enfiada.

Estudando a enfiada. Ao fundo a estrada onde ficou o carro. Gopro.

O “cata milho” foi relativamente tranquilo, principalmente por causa das agarras marcadas do dia anterior.

Depois da enfiada do “Cata milho”. Gopro.

Agora eu estava preparado para encarar o diedro. Estava com um jogo completo até o #5, mas o meu desejo era ter mais alguns peças grandes repetidas, pois estava claro que iria fazer falta. Da parada, conseguia ver apenas a primeira metade da enfiada, o resto era uma incógnita. Por isso, na início, poupei ao máximo as peças com receio de encontrar terreno mais “hostil” acima. Por sorte, a medida que ia subindo no diedro, a fenda ia afinando cada vez mais, permitindo variar bem as peças. Terminei a enfiada no topo do totem numa posição que facilitasse o rapel onde bati a parada. 

O diedro com um belo veio de pegmatito cheio de agarras. Assim fica fácil. Gopro.

Dali para cima, eu teria duas opções: uma pela direita passando por um diedro sujo ou pela esquerda buscando uma fissura frontal pelo dorso do segundo totem. O problema da fissura era uma virada de um “teto” que parecia, no mínimo, desafiador. 

Como o diedro estava sujo demais, resolvi arriscar o tetinho e rezar para encontrar uma fissura boa no dorso.

Estiquei uma travessia, coloquei o meu único #2 numa colocação bomba e rezei para não precisar dela mais acima. O tal teto, por sorte, se mostrou bem fácil, mas depois, na fissura frontal, precisei do #2. Aliás, a fissura era imaculadamente homogênea e só aceitava #2. Sem muita opção, coloquei um #1 “bangela” e fui tocando na esperança de encontrar algo melhor acima. Não sei quanto estiquei porque não olhei para baixo, mas de repente apareceu uma colocação bomba para o meu #.75 e consegui respirar aliviado. Bati a parada no topo do totem, desci para limpar a enfiada e jumarei de volta limpando a fenda para que futuras repetições desfrutem a fenda.

Dali para cima, tudo indicava que o cume estava perto. Um trecho mais inclinado e depois um rampão parecia que me levaria ao cume. A essa altura, o Sol estava virando e começando a mostrar sua cara. Toquei a última enfiada esticando uma corda cheia de 60m protegida com 3 chapas até o cume da pedra (9h). Na verdade, ali não era bem o cume. Ainda tinha uma escalaminhada fácil até o cume em si. Resolvi dar uma volta por ali mesmo e para minha surpresa, achei vários cacos de vidro, sugerindo que eu não era a primeira pessoa a chegar neste ponto. Dessa vez, nem dei tanta bola nesse detalhe, pois era plausível alguém chegar caminhando pelo outro lado.

Cume!
Cacos de vidro no cume.

Por volta das 9h30 iniciei o longo processo de descida levando todo equipamento até o carro. Como diz o provérbio: “para baixo todo Santo ajuda”, então a descida, mesmo pesada, foi bem tranquila.

Ainda passei mais uma vez no Sítio da família Bragatto para um banho e um almoço de domingo.

Deixar os Camalot´s para trás foi um erro, mas no fim, se mostrou uma escolha acertada, pois com isso tive a oportunidade de conhecer a família Bragatto e poder compartilhar bons momentos, tanto no sábado quanto no domingo. Eu nasci no interior, na roça, vivi e cresci no meio do mato. E agora que vivo na “selva de concreto”, sinto muito a falta dessa vida pacata do interior. Das coisas simples, das conversas descompromissadas e do convívio que se perdem no dia-a-dia agitado da cidade. Por isso, sou muito grato à família Bragatto por resgatar um pouco esse passado e me remeter à infância.

Sítio Bragatto.

Aos que se interessarem, o sítio da família Bragatto está à disposição para quem desejar passar um final de semana ou realizar um evento. O local é uma casa à moda antiga com cinco quartos, cozinha, banheiro e churrasqueira. O seu entorno é caprichosamente decorado com muitas árvores, folhagens e flores coloridas que dão um belo ambiente de acolhimento. Aos interessados, deixo aqui o telefone do Roberto que cuida dessa parte da reserva: (27) 99843-8299.

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Pelo Empoçado

O mês de outubro marca o início das chuvas e o fim da temporada de escalada na região sudeste do Brasil, mas alguns escaladores, como eu, sempre acham que dá para dar uma esticadinha extra.

Passei a semana monitorando três sites para ver as condições para o final de semana: Windy, Cemadem, Incaper e as redes sociais. O Windy é um site (tem app também) que traz um monte de informação crua e ajuda a fazer um bom prognóstico, recomendo! Já o Cemadem, mostra as condições do tempo, principalmente chuva, em tempo real, baseado em diversos pluviômetros espalhados pelo país; O site de Incaper, que já foi melhor, ajuda a dar uma noção bem básica do tempo, mas nada muito preciso; Já as redes sociais são uma excelente ferramenta para ver o tempo, pois sempre tem alguém postando, chuva, sol, vento ou coisas assim.

Com base nessas informações conclui que o tempo estaria meia boca no sábado e domingo mais firme. E que a instabilidade viria do mar, de norte para o sul. Ou seja, se for para algum lugar teria que ser para dentro do Estado e de preferência na metade sul.

Assim, escolhi a cidade de Afonso Cláudio para dar um rolé nos dois dias. Como não tinha nada em mente fui preparado para tudo. Desde repetir uma via a conquistar uma parede em móvel.

Sábado

O sábado amanheceu bem chuvoso. De Vitória até Afonso Cláudio tudo estava molhado, indicando que a noite foi bem chuvosa. Cheguei em Afonso Cláudio com o tempo nublado e tudo ainda bastante molhado da noite anterior. Como a previsão era melhor para o domingo, resolvi gastar o dia para conhecer melhor a região do Empoçado em busca de novas oportunidades.

Amanhecer de sábado na região serrana. Fuji Xpro2.

Assim que cheguei à região notei que todas as pedras vertiam água, exceto uma, a Pedra do Empoçado. Imaginei que o fato de ter pouca vegetação tivesse contribuído para não estar escorrido e logo pensei: Se a pedra secar mais um pouco, rola entrar na via “Los Hermanos” (4o, IV SUP, E2, D2), uma via de aproximadamente 300m toda protegida com grampos que foi conquistada pelos escaladores locais em 2004.

A via “Hermanos” passa pela parte central da montanha, transcorrendo a maior extensão da parede. Fuji Xpro2.

Dei mais uma volta para passar o tempo e por volta das 10h fui até a base da pedra. Quando fui pedir passagem ao dono da propriedade, perguntei se tinha chovido muito na noite anterior e ele me respondeu:

– Ontem no final do dia, armou um temporal que saiu arrancando tudo, mas a chuva passou pelo lado e não choveu aqui. Só deu uma garoa e ficou nisso.

Agora eu tinha entendido porque aquela pedra em particular não estava molhada. Não estava molhada porque simplesmente não choveu ali. 

Entrar numa parede de 300m, em solitária, às 10h da manhã não era a melhor estratégia, mas como o tempo estava nublado e com bastante vento, conclui que daria tempo e não iria sofrer muito com o calor. 

Separei os equipos, fiz um Miojo para armazenar energia e por volta das 10h30 iniciei a escalada. Das 6 enfiadas da via, a primeira é a mais diversificada, com lances em chaminé e uma passada mais atlética em agarras. O restante, para cima, é bem parecido.

Preparando para entrar na parede. Gopro.

Regra número um: não caia!

Segundo o croqui, a 4a e a 5a enfiada são as mais difíceis, IV SUP e IV respectivamente. A 4a enfiada é, sem dúvida, uma das melhores da via, com  lances constantes numa rocha mais vertical. O problema, dessa e de toda via, são as lacas muito suspeitas. A via é basicamente em lacas e batentes, com alguns lances em agarrência. As placas são sempre bem  duvidosas, embora a maioria não tenha quebrado, mas sempre é preciso avaliar cada agarra, testar a integridade e decidir se vai ou não usá-la. Tudo isso consome bastante tempo e a escalada fica mais demorada. E quando se escala em solitária, cair, mesmo que a via seja bem protegida, não é uma opção. No manual do usuário do Silent Partner está escrito bem grande na primeira página:

Croqui da via.
Uma pausa na P2. Gopro.
Buscando coragem para encarar a 4a enfiada. Gopro.
Início da 4a enfiada. Gopro.

Às 15h30, após 5h de escalada, cheguei no final da via. Não fiz um tempo muito bom, mas como estava cansado e as lacas deram mais trabalho do que o esperado, tive que imprimir um ritmo mais lento.

Segundo o croqui, dali para cima seria uma escalaminhada fácil até o cume, mas como vi que não seria uma desescalada fácil para sair em solo, abortei a missão. Além disso, estava muito preocupado com a descida. Descer 300m por uma via cheia de lacas que agarram a corda com facilidade, por uma via onde vários grampos estavam mal batidos e que facilmente poderiam capturar uma corda me deixou bem preocupado. Sem contar que o vento estava muito forte, jogando constantemente a corda para fora da linha da via.

Cume! Ou melhor, final da escalada! Gopro.

Como desço com uma retinida de 6mm emendada na corda de escalada, eu sempre preciso puxar a corda fina e caso a corda fique presa na hora de puxar, ficaria só com a fina para resolver um problema sem solução. 

Fiz dois rapeis de 60m nas enfiadas que considerei seguras e depois fiz uma série de rapéis de 30m nos trechos que poderiam prender a corda. Como a via está com paradas intermediárias a cada 30m, essa parte foi bem tranquila, mas demandou mais tempo. Faltando 60m para o chão, fiz um último rapel de corda cheia, já que se acontecesse algum problema, pelo menos, já estaria no chão.

Cheguei no chão por volta das 16h30 e fui direito para um mirante natural que tem ali perto para ver o por do Sol.

Assim que cheguei no mirante fiquei impressionado com a sujeira do local. Não é comum encontrar tanta sujeira nesses locais, mas ali estava demais. Algumas pessoas vão ali para curtir a vista e aproveitaram para deixar o lixo produzido por ali mesmo, pois deve ser muito longe caminhar 50m até o carro com a sua garrafa de cerveja ou o salgadinho. Preciso admitir que fiquei muito triste com a falta de conscientização das pessoas que ali frequentam… 

Por do Sol visto do mirante. Fuji Xpro2.

A noite, como de praxe, fui pedir janta e pouso no Cantinho dos Três Pontões. Sempre é muito bom rever o Itamar e família para conversar um pouco. Para quem não conhece, o Cantinho dos Três Pontões é um empreendimento de turismo rural que oferece chalés, uma área de camping, janta, café da manhã e chuveiro quente. Para quem deseja fazer uma imersão rural ou escalar os Três Pontões é a melhor opção da região.

Fui dormir vendo o céu estrelado e fui acordado de madrugada com o som da chuva. De início, não acreditei que fosse chuva, pois a previsão que eu tinha era que de o tempo iria se firmar no domingo…

Domingo

O dia amanheceu com chuva e todas as montanhas do entorno estavam mais molhadas do que no sábado, mas eu sabia que até o meio-dia o tempo iria melhorar e que tudo estaria seco. Assim, às 6h levantei acampamento e voltei novamente até o Empoçado para checar uma montanha que tinha visto do mirante.

Amanhecer na região dos Três Pontões. À direita, a Pedra do Tubarão. Fuji Xpro2.
Três Pontões. Fuji Xpro2.

Ao lado da Pedra da Broa, onde em 2015, Gillan, Robinho, Roberto e eu abrimos a via “Freira de Biquini” uma pedra sem nome chamou a atenção na paisagem. Na época da conquista, o Robinho já tinha me falado que o cume não era virgem e já tinham subido lá, provavelmente pela aresta Sul que tem uma longa crista de quase 1km. Não sabia por onde os conquistadores subiram, mas essa aresta parecia ser o caminho mais natural, exceto por um lance mais inclinado que talvez fosse acessível apenas com corda.

Como estava cansado de lacas suspeitas, resolvi tirar o dia para subir por essa aresta e descobrir se de fato seria escalável sem corda. Além disso, a vista do cume parecia incrível.

Dei uma estudada no Google Maps e fui de carro até o início da aresta. Como não sabia se o lance seria solável, resolvi levar o material de escalada mais o de conquista. Além disso, a montanha ainda estava molhada e o tempo ruim. Eu imaginava que o tempo iria melhorar com o passar da manhã, mas eu não tinha certeza. E como estava sozinho, achei prudente subir um pouco mais pesado por precaução.

Montanha fumegando enquanto espero ela secar um pouco mais para subir. Fuji Xpro2.

Na primeira subidona do pasto tive vontade de jogar fora a furadeira, a corda e as chapeletas. No trecho do costão, a rocha ainda estava úmida e bastante escorregadia. Na região de Afonso Cláudio, tem um tipo de líquen que quando molha, nem que seja pouco, a pedra fica super escorregadia. Nem o meu Guide que segura tudo consegue grip nesse líquen. No ano passado, durante uma conquista nesta região, fiquei preso num costão desses porque choveu 5 minutos e a pedra ficou tão escorregadia que precisei ficar parada até a pedra secar para sair dali.

Com muito custo venci o primeiro contraforte até chegar na longa crista que leva até o cume da montanha. A vista desta crista é de tirar o fôlego. Sem dúvida, uma das mais incríveis da região. Segui pela crista até chegar no trecho que de longe parecia ser a mais inclinada, mas a medida que ia me aproximando vi que tinha várias agarras e que facilmente daria para passar em solo.

Pedra da Broa vista da trilha. iPhone.

Sobre as fotos. Esses dias troquei de celular e agora o meu iphone novo tira fotos em .dng, o mesmo formato das minhas câmeras. Fotografar em formato nativo tem muitas vantagens em relação aos formatos processados, como o .jpg. Por isso, sempre que posso, uso raw. Como uso Lightroom Moble no celular, posso fotografar e editar diretamente no app, o que garante maior fluidez no trabalho. Sem contar que as fotos são sincronizadas automaticamente com o meu notebook. Baita mão na roda!

Assim que venci o trecho, conclui que qualquer pessoa com vontade poderia chegar no cume, mas quando olhei para o headwall final, identifiquei um último lance mais inclinado que não tinha visto de longe. Ali sim, só com segurança para subir! Será o cume virgem?

Assim que cheguei nesse lance identifiquei um fio de arame vindo do cume até a base onde estava preso na rocha com cimento!!!!

“Ferrata” de arame que leva ao cume. iPhone.

Pronto, se eu tinha alguma dúvida que alguém tivesse subido, ela fora esclarecida quando vi aquele arame velho. Logo, conclui pelo improviso que foi algum morador da região. Mas nunca duvide da capacidade desses locais. Aliás, história do montanhismo no Brasil foi feita por pessoas simples que tinham mais determinação do que conhecimento técnico.

Como o arame estava muito velho e não sabia como estava preso no cume, achei mais prudente solar o lance que era relativamente fácil. Só não podia cair. Embora o lance seja bem exposto, a dificuldade não deveria ser mais do que um III grau.

Cheguei no cume e vi o arame preso a um vergalhão de ferro cimentado com a data 27/11/1997 e o nome das três pessoas que conquistaram a montanha: Elinho, Eugênio e Dreivison.

Ancoragem e placa do cume. iPhone.

Do cume, fiquei imaginando como eles fizeram para chegar aqui. Pensei: quem seria o corajoso que guiou aquele lance exposto para ganhar o cume e bater o vergalhão? Depois fiquei tentando entender como fizeram com o cimento. Não sei se todos sabem, mas o cimento leva um bom tempo para dar cura. Coisa de pelo menos 24h. Tipo, colocaram o cimento e fizeram o que? Ficaram esperando para poder descer? Desescalar o lance estava fora que estão, pois era mais difícil do que a subida.

Cume!!! Gopro.

Como estava com o material de conquista, e o arame estava em péssimas condições, bati uma chapa de inox ao lado do grampo cimentado para deixar o rapel mais seguro e na base do arame, onde está preso com cimento, bati outra chapa para proteger o lance da saída, assim caso o guia caia, pelo menos não vai levar o segue para o abismo. O esticão de III grau deixei exposto para preservar o lance de coragem do conquistador.

A essa altura, o céu já tinha limpado e o Sol imperava. A descida, já com a rocha bem mais seca, foi mais tranquila, mas também mais castigante. Mas no fim, mesmo não tendo conquistado a montanha e levado peso extra, achei a escalaminhada muito agradável. Para quem curte esse tipo de rolé é um prato cheio. Uma pessoa faz tranquilamente em 1h e 30 a subida, mais 30 a 45 minutos a descida. Vale lembrar que, por causa do arame fora de uso, faz se necessário levar o material básico de escalada para subir com maior segurança o último lance.

Panorâmica da cadeia de montanha vista do contraforte durante a descida quando o tempo já estava bem melhor. iPhone.

Fico imaginando que se essa montanha estivesse em qualquer lugar da Europa ou Estados Unidos, seria, sem sombra de dúvida, uma atração muito frequentada, mas por sorte, ou azar, no interior do Espírito Santo ela fica quase esquecida. Bom para mim que passei algumas horas na montanha sem ver uma alma.

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Pancas em dois atos

Ato 1 – “Boca Seca”

O sábado começou com o Fred (Ibiraçu) me encontrando no Sítio Cantinho do Céu em Pancas. O Fred, para quem não conhece, se chama Frederico. E Frederico para quem não tem cultura inútil é o nome do Kiko da série Chaves. Na verdade, a mãe do Kiko, a Dona Florinda, chama o Kiko de “Tesouro”. Por isso, o “BFF” do Fred Ibiraçu, o André “Tesourinho”, chama ele de “meu Tesouro” e assim nasceu a dupla “Tesouro e Tesourinho”.

Essa cordada nasceu durante a semana quando o Fred, Kiko, Tesouro me procurou no Whatt para perguntar sobre uma lanterna de cabeça e emendou no final:

– E no sábado?

E respondi:

– Tô indo para Pancas, partiu?

– Partiu!

Eu gosto de gente assim, que aceita sem perguntar onde está se metendo!

Na última vez que estive em Pancas, visualizei uma linha em móvel na Pedra do Tubarão. De longe parecia uma escalada bem promissora, pulando de um sistema de fenda para outro até o cume, mas restava confirmar de perto para saber se as fendas eram fendas ou apenas uma linha na pedra.

Pedra do Tubarão.

Como o Fred é um mateiro experiente e bom carregador de peso, resolvemos investir nesta pedra. Largamos o carro na beira da rodovia e saímos abrindo picada por entre os lajeados morro acima. Faltando alguns metros para chegar na pedra, finalmente conseguimos confirmar que todas as fendas eram de verdade. Na verdade, eu estava um pouco preocupado com um trecho em particular que era mais vertical, onde uma boa fenda seria fundamental para conectar a parte de baixo com o topo.

Após uma mata bem chata no final da aproximação, chegamos na base por volta das 9h, já com o Sol a pino ao melhor estilo Pancas.

Aproximação com as mochilas pesadas.
Tudo sob controle.

Cheguei em Pancas na noite anterior. Sai do trabalho às 17h e peguei a estrada na pior hora e no pior dia da semana. Logo, uma viagem que duraria 2h30 me consumiu 4h de estrada. Cheguei no camping por volta das 21h e me surpreendi com o frio. Conversando com o Fabinho, ele me falou que durante a semana chegou a 10 graus!

Quando alguém fala das escaladas em Pancas, duas coisas vem à mente de todo mundo: aderência em granito preto e calor, muito calor. Por isso, chegar em Pancas e ter que colocar um casaquinho foi no mínimo estranho.

O sábado também amanheceu bem frio, com o termômetro marcando a casa dos 14 graus, mas assim que o Sol apareceu a temperatura deu um salto e foi para casa dos tradicionais 25-30 graus, mas por causa da frente fria, o ar ficou muito seco, deixando uma sensação constante de “boca seca” que não passava tomando água. No início, achei que fosse por causa da gripe que eu peguei na semana, mas o Fred também reclamou do mesmo desconforto.

Começamos a conquista tocando uma fenda em diagonal até ganhar um grande platô na base do trecho mais vertical da rocha. Embora não fosse obrigatório, bati uma chapa na saída para facilitar a identificação da via e toquei o resto em móvel até a P1, em árvore. Da P1 finalmente consegui ver de perto a fenda que na verdade era um diedro de meio corpo que se estreitava a medida que ia subindo. Por sorte levei um Camalot #5, mas na hora da verdade descobri que a fenda não era páreo para o #5, tinha que ser o #6, que ficou em casa… Fui arrastando o #5 totalmente aberto na fenda para o psicológico até achar um lugar minimamente decente e deixar ele para trás. Depois a fenda foi se estreitando e pude curtir mais a escalada. Uns 50m depois, cheguei num outro platô onde montei outra parada em móvel para chamar o Fred.

Fred limpando a 1a enfiada.

Dali para cima a conquista estava ganho, mais uma enfiada de 50m toda em móvel passando por uma fenda frontal, mais um platô e um trepa-rampa fácil nos levou diretamente à parada final da via “Dupla Face” que vem pela aresta da direita. Chegamos no cume da pedra por volta do meio-dia, tiramos umas fotos, assinamos o livro de cume , comemos alguma coisa e tratamos de sair o quanto antes dali, pois o calor estava castigante e a secura constante. Alias, por causa dessa sensação incômoda que nos acompanhou a escalada, batizamos a via de “Boca Seca”.

Fissura frontal da 3a enfiada.
Fred chegando na P3 da via.
Cume!
Livro de cume.
Uma foto antes da descida.

Na descida, acabamos batendo mais duas chapas na P2 para o rapel, totalizando 3 proteções fixas em 200m de escalada. Ou seja, a via ficou um prato cheio para quem curte escalada em móvel de boa qualidade. Para mim, o mais legal dessa via é que no final da 1ª  e 2ª enfiada, há um longo trecho de escalada em lacas finas que me lembrou muito as escaladas de Tuolumne Meadow (EUA). As lacas são tão finas que não segurariam uma queda, então o jeito é ir tocando no “flow” sem proteger.

Croqui da via.

Ato 2 – “Minha Casa”

Na última vez que estive em Pancas, conversando com a Dona Joana sobre assuntos aleatórios, ela olhou para uma pedra e disse:

– Pois é, faz tempo que ninguém escala a “minha casa”.

Fiquei pensando: minha casa? Que via é essa? Como ela falou olhando para Pedra do Jacaré, logo entendi que “Minha Casa” era uma referência à via “Casa da Mãe Joana”, uma via conquistada pelo Baldin e CIA em 2011 (relato da conquista).

Pedra do Jacaré.

Ela me falou aquilo com um certo sentimento de tristeza que prometi a mim mesmo que voltaria para repeti-la!

Mais uma vez, o domingo amanheceu gélido. Com muito esforço sai do saco de dormir às 6h30, mesmo contra todas as vontades. O frio, a semana cansativa, a conquista do dia anterior, a gripe, a dor no corpo, tudo conspirava para continuar deitado.

Na noite anterior, a mistura de sol, esforço, ar frio e imunidade baixa, me pegou de jeito e pensei que não rolaria escalar no domingo. Fui dormir cedo com a estratégia de se no dia seguinte acordar mal, arrumar as coisas e voltar para casa para descansar um pouco, mas após uma boa noite de sono, acordei relativamente bem.

Cardápio da noite: “Massa com o que tinha na geladeira”.
Um chá para comemorar a gripe!

Como o Fred tinha compromisso para o dia seguinte, ele foi embora no sábado mesmo, então eu escalaria a via em estilo solitário.

Às 7h30, após uma aproximação rápida, iniciei a escalada. Como as duas primeiras enfiadas são bem fácies, toquei em solo de tênis mesmo para ganhar tempo. Estabeleci como meta, fazer as duas enfiadas de sexto na sombra e o restante com Sol. A 3ª enfiada é um 6ª grau de 55m com 5 proteções. Separei as 5 costuras para facilitar as contas e parti! Primeira lição do dia para levar para vida! Não experimente novas técnicas de escalada numa enfiada de 6º grau! Julguei que poderia otimizar a escalada usando uma técnica que nunca tinha testado antes e me enrolei todo na escalada. Não bastasse a escalada difícil ainda tive que lidar com a bagunça da corda, mas no fim, a enfiada saiu sem maiores problemas.

Vendo o tamanho da encrenca…
Gerenciando a corda.

A enfiada seguinte, segundo o croqui seria a enfiada crux da via, com outro lance de 6º grau numa enfiada em diagonal à direita. Estudei bem o croqui e memorizei que entre a 3ª e 4ª chapa em diagonal seria o crux. Costurei a 3ª chapa e não consegui ver a 4ª chapa. Como o croqui sugere que a 4ª chapa está perto de uma vegetação, julguei que poderia estar escondido. Mais uma olhada para cima e visualizei uma vegetação bem sugestiva. O lance parecia difícil, digno de 6º grau, então resolvi arriscar até a vegetação. Toquei um longo esticão em diagonal até a mata e quando cheguei nela descobri que a chapa não estava lá!! Olhei para o lado e vi uma chapeleta a uns 3m à esquerda. Comecei a fazer as contas e conclui que: ou eu pulei uma chapa, ou a contagem estava errada. Como estava com pressa, toquei para cima até a P4. Na descida para recuperar a corda, descobri que eu tinha saído da linha da via e pulado uma proteção. Na verdade, o croqui está desenhado errado. A 4ª proteção não está à direita como mostra o desenho, mas sim à esquerda.

Saída da 4a enfiada.

A 5ª enfiada era para ser fácil, IV grau, 50m, duas proteções fixas e um Camalot opcional, mas quando olhei para enfiada fiquei um pouco preocupado. A parede continuava vem à pique e cheia de vegetação. Conforme e descrição do croqui, achar 2 chapeletas naquele mar de tufos de terra seria o crux da enfiada. Depois eu achei pelo menos dois relatos na net de pessoas que se perderam nessa enfiada (aqui e aqui). Acreditei no IV grau e fui tocando no instinto. Num lance de sorte achei a 1ª chapa. Toquei mais um pouco e logo o Sol virou e não conseguia enxergar bem a parede. Toquei mais um pouco e consegui ver a 2ª chapa na sorte. Depois, achei a fenda e a parada sem maiores problemas.

Na P5, descansei um pouco num pedaço de sombra que achei e depois toquei a última enfiada até o cume.

Cheguei no cume às 10h30, após 3h de escalada e fui procurar o livro de cume junto à árvore vermelha, mas parece que ele foi consumido…

Croqui atualizado.

Bebi o restante do meio-litro de água que tinha levado e iniciei a descida. Durante a escalada fiquei um pouco preocupado com o rapel da P4 para P3. Nesse trecho, o rapel passa por um platô de mato e fiquei com medo de a corda ficar presa em alguma coisa. Por causa disso, resolvi descer pela via “Presente da Águia” que fica ao lado. Em 3 rapéis já estava no início do rampão e desci o restante caminhando para ganhar tempo.

Vista do cume!
Cume!

Antes do meio-dia, já estava na sombra do camping me hidratando e comendo o resto da janta. Ninguém merece esse Sol de Pancas…

Antes de ir embora, passei na Dona Joana. Dessa vez ela estava feliz da vida por alguém ter repetido a “Minha Casa”. Ela me falou que acompanhou toda escalada da janela de casa.

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Tentando me aposentar

Receita para aposentar:

Separe uma chapa de granito preto de uns 500m com a face voltada para norte (tipo a Pedra do Barro Preto em Itaguaçu), de tal forma que fique ao Sol durante o dia inteiro, garantindo uma fritura homogênea. Melhor ainda se for num dia atípico de inverno com o termômetro marcando 30 graus e sem vento para deixar tudo mais saboroso.

Escolha entrar nessa via em estilo solitária, para levar o dobro de peso e trabalhar em triplo.

Repita o seguinte processo nove vezes:

Guiar, rapelar e jumarear!

E para finalizar, desça tudo até a base da via.

Ah, para deixar a “pasta” mais seca, leve pouca água!

Metáforas à parte, essa foi a roubada do último domingo que quase me aposentou das paredes. A escalada em si, não foi nada difícil, mas as condições impostas deixaram a simples escalada bem complicada. A partir da P1 até a P9 o Sol foi implacável comigo e para piorar sem nenhum vento e nuvem para dar uma aliviada. Eu já sabia da fama desta pedra, mas achei que no inverno as condições fossem melhores, #sqn.

P1, a essa altura o Sol já estava fritando.
Saída da segunda enfiada.

Pela primeira vez pensei em desistir por duas vezes. Na primeira vez, assim que cheguei na P5, junto ao colo (vide croqui) pensei em abortar a escalada e sair pelo colo, pois estava me sentindo muito cansado. Descansei um pouco, respirei fundo e segui. Já na segunda vez, na última enfiada, pensei em descer dali sem fazer cume. A essa altura a minha água estava na reserva, a pedra escaldante e não estava conseguindo ver a 1a chapa da enfiada. Mais uma vez, fiz um descanso maior, me concentrei e fiz a última enfiada com a atenção redobrada para não cometer nenhum erro.

P6 ou P7.

Cheguei tão cansado no cume que não tive ânimo para procurar o livro de cume, nem para dar uma volta pelo topo. Tirei uma foto e já sai montando o rapel, pois, além de cansando, estava preocupado com as paradas (um grampo e uma chapa com argola fina). Quem já rapelou nesse tipo de parada sabe o tamanho do atrito…

Por volta de 13h30 cheguei de volta no colo e uma hora depois no carro, após uma longa e extenuante caminhada.

Por causa do calor acabei escalando mais devagar do que a média. Comecei a escalar às 8h da manhã e cheguei no cume às 13h, após 5h de escalada. Mas valeu o esforço!

Croqui da via com algumas correções.

Atualização sobre a via: no site da ACE, há um croqui desenhado pelo Zudivan com algumas informações levantadas em 2014, ano da conquista. De lá para cá algumas coisas mudaram em relação ao acesso. Agora é preciso passar na casa do Sr. Vantoil que fica depois da casa do Chicão. É uma casa azul em estilo enxaimel. É preciso falar com ele para pegar a autorização para entrar nas terras dele. O local é vigiado com câmeras e o proproietário se encontra em Vitória, por isso é importantíssimo que passe antes para falar sobre as intenções.

No que tange ao croqui da via, aparentemente na 2a enfiada a quantidade de chapas não bate com o croqui original. O croqui original fala que tem 4 chapas mais a parada, mas eu contei apenas 3. Isso é importante, pois ao final das 3 ou 4 chapas é preciso fazer uma travessia à direita. Outro ponto que me causou um pouco de confusão foi na 7a enfiada. O croqui original não deixa claro que parte da enfiada passa muito perto do grande totem que é uma referência. Como a enfiada não tem nenhuma proteção fixa, é um pouco difícil achar a parada. A última enfiada também causa um pouco de confusão no croqui original, pois a 1a chapa não é visível. A linha da via segue pela esquerda, paralelo a um diedro, por uma face vertical e não reto para cima como sugere o croqui.

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Pancas, o retorno

Sábado, 2h da madrugada, acordo sem sono e não consigo mais voltar a dormir. Maldigo jetlag! Essa é a 3a noite mal dormida! Todas as noites acordo por volta das 2h e quem disse que consigo voltar a pregar os olhos.

Às 5h30 me levanto, pois não aguento mais rolar dentro do meu carro e vou preparar o café da manhã. Por volta das 6h15, já com os primeiros raios de luz, começo preguiçosamente a caminhar em direção à Pedra do Camelo, em Pancas. O objetivo do dia: Escalar a via Supercanaleta (3o, IV SUP, E3, D1, 300m) em solitária pela manhã e à tarde, a via “Bote os seus dreadlocks para balançar” (5o, V SUP, E3, D1, 105m), na Pedra da Boca, também no mesmo estilo.

A via Supercanaleta foi conquistada pelos membros do Clube Excursionista Carioca (CEC) em 2015 e a via “Bote os seus dreadlocks para balançar” pelo Kapacho e o Victor Beal em 2013.

Pedra do Camelo ao amanhecer.

Por volta das 6h30, em menos de 20 minutos, chego à base da pedra e acho sem maiores problemas o início da via, graças aos totens que facilitam a identificação.

Às 7h da manhã, já com os primeiros raios de Sol batendo na pedra inicio a silenciosa escalada. A escalada transcorre sem maiores dificuldades. Vou apenas curtindo a escalada e redobrando a atenção nos procedimentos de segurança. Na 5a enfiada, o croqui dá uma “devaniada” e fico um pouco perdido na contagem das chapas, mas como a via transcorre por dentro de uma canaleta não tem muito erro e sigo escalando à procura da parada que acontece após uns 65m de escalada. Por sorte, ou azar, acabei levando a corda de 70m, o que “salvou a lavoura”.

Iniciando a escalada.

No dia anterior, na 6a feira, não tinha menor ideia de para onde ir no final de semana. Só às 16h decidi que iria para Pancas e fui arrumar as coisas de última hora. Ou seja, tudo errado! Na hora de pegar a corda, instintivamente peguei a corda fina (9.4m) de 70m em vez da 10mm x 60m. Segundo a recomendação do fabricante, o Silent Partner foi fabricado para ser usado com corda de 10mm ou 11mm, por isso, tenho uma corda específica para isso. Quando me dei conta do erro, já estava no camping do Fabinho em Pancas. De início fiquei um pouco preocupado, mas depois li que algumas pessoas usam corda de 9.4mm para este fim e estão vivos. Menos mal, pois os 10m extras fizeram a diferença nesta via.

Uma pausa para uma selfie em alguma parada.

Às 10h, após 3h de escalada bati no cume da pedra e a essa altura, o Sol estava castigando com  força. Refugiei-me numa pequena vegetação que tem no cume, fiquei olhando para Pedra da Boca que fica no outro lado do vale e pensando no meu “hero-plan”. Eu ainda teria que descer caminhando a montanha, já que não trouxe uma segunda corda para o rapel, atravessar o vale e escalar a “Boca”…

Assinando o livro de cume.
Recolhendo a corda e o Sol pegando.

É claro que quando cheguei no camping abortei o plano e resolvi deixar a via para o dia seguinte. Com muitas desculpas mentais, resolvi fazer uma massa de almoço e descansar um pouco. Quem sabe dormir mais um pouco.

No meio da tarde, a Ghiany e o Baldin apareceram no camping. Eles estão participando do Desafio 10k, promovido pelo site Puro Montanhismo e vieram fazer uma kilometragem por aqui. Com certeza, não há melhor lugar no Estado, e quiçá no Brasil, do que Pancas para isso.

No final do dia, ainda dei um pulo da Rampa de voo de Pancas que ainda não conhecia para curtir o por-do-sol. Preciso confessar que a vista do cume da Pedra do Camelo ou da Cara é mais legal do que essa vista, mas valeu para conhecer.

Entardecer em Pancas.
Rampa de voo de Pancas.

Como eu já tinha visto que a Pedra da Boca fica na sombra pela manhã fui dormir sem preocupações.

Mais uma vez, às 2h da madrugada, acordo totalmente sem sono e pronto para escalada. Segundo as estimativas, vou precisar de 2 semanas para ajustar o sono. De acordo com os estudos, para cada hora de fuso à oeste é necessário um dia para recuperar…

Rolei no carro até às 6h e quando a luz do Sol clareou o dia, sai meio que sem opção para fotografar e matar o tempo.

Por volta das 8h da manhã, me despedi da Ghiany e do Baldin que foram para Pedra do Jacaré e fui sem pressa para Pedra da Boca. Como no dia anterior escalei quase 300m de aderência, a ideia era variar um pouco e escalar algo em móvel. E dentre todas as vias que estavam dentro da minha “zona de conforto”, a via “Bote os seus dreadlocks para balançar” parecia atender os meus anseios.

Como a via começa no alto de uma vegetação, no meio da parede, resolvi começar a escalada pela via “Amigo Imaginário” até a P1 e depois, conquistar uma pequena variante à esquerda até acessar o platô de mato da Dreadlock.

Segundo consta, acho que essa seria a primeira repetição da via conquistada em 2013, então não tinha muitas infos, somente o que está no Guia Capixaba de Escalada. Segundo o guia, a enfiada filé seria por um diedro de uns 50m todo em móvel, mas quando cheguei na base da enfiada, descobri que o diedro tinha só uns 15m e o resto, só aderência, e sem chapa, já que a via é toda em móvel.

Sem muita opção, já que não tinha mais como descer, levei novamente só uma corda de 70m, resolvi encarar o runout de 30m rezando para não ter um lance de V sup no meio até chegar na base do diedro e encarar 15m de desfrute que se mostraram mais fácil do que o grau proposto pelos conquistadores.

Início da Dreadlock e a primeira proteção só na base do diedro.

Dali para cima, o croqui dizia uma coisa, a descrição outra e a realidade não condizia com nada. Resolvi tocar reto por uma parede bem fácil, na esperança de pular a P4 e ir direto na P5, mas logo vi que não teria como emendar e fui obrigado a fazer a P4 em móvel num lugar um pouco estranho.

Parada quadruplicada porque a rocha é estranha.

Dali, uma pequena travessia me levou ao final da via e após uma breve caminhada cheguei no cume da Pedra da Boca por volta das 11h.

Na escalada solitária, o rapel é um ponto bastante crítico, por causa do cansaço e também porque uso uma retinida de 6mm como segunda corda. Se alguma coisa acontecer, como a corda agarrar, acabo ficando em apuros. Por isso, sempre que possível, evito rapelar e desço caminhando, mesmo que a volta seja grande, como neste caso.

Dei uma respirada no cume, juntei tudo, desci caminhando pela aresta noroeste até o camping e depois pé na estrada até Vitória.

Descanso no cume.
Partiu para baixo!

Quanto à via, batizei a variante de “Dreadlock Imaginário” (3o, IV, D3, D2, 240m). Para repetir a via é preciso um jogo de Camalot (#0.5-#4) e 3 costuras.

Leia mais sobre a via aqui!

ATUALIZAÇÃO 1 – Não deixe de ler nos comentários a história por trás da conquista da via “Bote os seus dreadlocks para balançar” contada por um dos conquistares da via, o Victor Beal.

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Stairway to heaven

Não, não é post repetido!

Sim, eu voltei novamente à Pedra do Pontal.

Na verdade, quando fui pela primeira vez no final de julho, eu vi duas linhas bem interessantes nessa pedra: uma na face norte, onde depois saiu a via “Tempestade Solar”e outra linha na face leste. A “Tempestade Solar” foi Ok, uma conquista legal e tranquila que serviu de “termômetro” para o que viria pela frente na face leste. Esta, sim, uma escalada de consistência.

Naquela ocasião, usando um binóculo, consegui montar um pequeno quebra-cabeça de sistema de fendas interconectadas que transcorre pela face, praticamente da base até o topo, passando por alguns trechos sem fenda. Mentalmente a via estava na minha cabeça, mas era preciso se lançar à pedra para materializar o plano. Assim, no sábado, bem cedo, lá estava eu novamente na base da montanha para colocar em prática o plano.

Comecei o dia fazendo dois “porteios” de material até a base da via. Vinte minutos de caminhada, 10 minutos para voltar e mais 20 minutos para levar a última leva. E em menos de 1h já estava com tudo na base da via. Achar a base da via foi moleza, difícil foi achar o caminho entre o mar de boulders da base.

Separando os equipos.
Um descanso entre os porteios.

Por sorte, mas bota muita sorte, um grande diedro e uma fenda frontal paralela “nascia” da base da pedra até a base de um grande diedro, facilitando o começo da via. Em geral, o início dessas paredes é sempre complicado com muita vegetação ou rampão liso, mas dessa vez eu estava com sorte. Pensei em solar esse primeiro trecho com o material nas costas, mas pensei melhor e achei mais prudente subir com corda e fixar uma linha. Quando se está sozinho ficamos mais corajosos, ou menos disciplinados.

A fenda frontal de II me levou à base de um grande diedro. De longe, parecia inofensivo, mas a medida que aproximava, mais apreensão me causava devido a sua extensão.

Durante uma pausa, antes de encarar o diedro, recebi pelo Zap a triste notícia de que o Sr. Ronaldo, um dos donos do Calogi havia acabado de falecer. Eu o encontrei algumas vezes nos últimos anos, sempre em encontros bem difíceis para ouvir esporro e querendo fechar o Calogi devido à atitude de algumas pessoas. Mas mesmo assim, eu tinha muito respeito e um pouco de pena dele devido à saúde bem debilitada. Quando se está na montanha sozinho, num local isolado, exposto a todo tipo de medo, notei que a gente fica muito mais sensibilizado.

Sob condições normais aquela notícia não me afetaria tanto, mas ali, naquele ambiente, fiquei muito sentido a ponto de comprometer a minha coragem. Mesmo assim me lancei no diedro. Tentei me concentrar ao máximo na escalada e fui tocando enquanto observava o meu rack ir esvaziando e nada de o diedro acabar. Faltando uns 10m para a corda acabar, visualizei um bom platô onde poderia ser a P2. Só que para o meu desespero, para poupar peso, acabei deixando todos os Camalot #3 e #4 na parada, justamente as peças que iriam me proteger no lance final. Troquei o Camalot por coragem e toquei o trecho final até dominar o platô estranho e ali estabelecer a P2 com duas chapas.

O grande diedro e a seção superior da via.

Quando olhei para baixo, me dei conta do que havia acabado conquistar e logo, tive a certeza de que abri o diedro mais lindo de todos os tempos. 55m do mais puro diedro de dedo todo protegido em móvel por um terreno que vai ficando gradualmente mais inclinado. Pensando agora, não lembro de ter escalado uma fenda assim por esses lados, talvez só lá na gringa.

Desci para limpar a enfiada e voltei à P2 para dar continuidade à conquista. A essa altura, o dia estava ficando cada vez mais quente  e começando a me incomodar. Aliado a isso, a semana de trabalho foi muito cansativa e ainda não havia conseguido descansar decentemente. A conjunção dos fatores começou a pesar para o meu lado e tive muita dificuldade para me decidir o que fazer na próxima enfiada. Poderia seguir pela direita dominando um teto e seguir por uma fenda com mato, ou me lançar à esquerda pela face buscando uma laca mais acima. No fim, a preguiça de me embrenhar na mata me fez decidir ir pela esquerda. Por esse lado, evitaria a vegetação, mas, por outro lado, iria encarar uma parede mais vertical. Catei 5 chapas, alguns móveis pequenos e fui à luta.

Quando se conquista em solitária, a hora de escolher o que levar para cima é crucial. O ideal é levar tudo, mas aí fica tão pesado que um mísero lance de V grau vira um suplício devido ao peso. Se for muito leve, com pouco material, pode passar necessidade (medo).

Como escolhi mal o que levar para cima, acabei passando muita necessidade nessa enfiada. Deveria ter levado mais chapas e algumas peças médias. Progredi pela face vertical batendo 4 chapas espaçadas pelo tamanho da minha coragem até chegar a base da laca que havia visto da parada. Quando cheguei na laca, para minha infelicidade, descobri que a laca era cega e que não iria entrar nenhuma peça. Fiquei ali um bom tempo fritando ao Sol e pensando o que fazer. Resolvi abandonar a laca e tocar para direita, por fora da laca em direção a algo que parecia ser outra fenda. Bingo! Três metros depois da última proteção, uma fenda perfeita. Mas é claro que eu não tinha as peças necessárias para protegê-la. Mais uma vez, aquela permuta, Camalot por coragem e fui tocando até dominar um degrau mequetrefe e ali, já quase no final da corda, puxei a furadeira para fazer o furo e colocar a minha última chapa que eu tinha (e o medo de deixar cair?). Quando fui martelar o bolt, errei a mira e acabei martelando o meu dedo indicador… Eu estava tão cansando que cometi esse erro primário. Acho que já bati mais de mil chapa na minha vida, mas essa foi a primeira vez que consegui acertar o meu dedo. Passei a minha infância com martelo e prego na mão. Então esse tipo de erro é quase que inaceitável. Na infância, meus pais não tinham dinheiro para comprar brinquedo para mim, então tudo que eu queria tinha que fabricar. Carrinho, avião, bumerangue, casa na árvore, tudo era na base de martelo, serrote e prego. Além disso, ajudava os meus pais fazendo caixa de madeira para colocar uva.

No calor da hora nem senti muito a martelada, mas assim que terminei de limpar a enfiada, notei que a unha estava bem roxa. A sensação era de que o coração estava na unha. Mas a essa altura, a unha era o menor dos meus problemas. Conquistar a 3a enfiada foi muito cansativo mentalmente, então estava destruído. Tão cansando que me pendurei na parada e tirei um cochilo de alguns minutos. Não sei quanto tempo apaguei na parada, mas quando acordei devido ao desconforto, virei para o outro lado e dormi mais um pouco.

Um pouco mais descansado, olhei para cima e consegui visualizar o que seria o final do grande sistema de fendas do totem. Convenci a mim mesmo que iria tocar mais uma enfiada e depois descer, pois eu não estava nos meus melhores dias. Selecionei um rack leve com poucas peças e toquei para cima (não aprendo nunca). Logo na saída, descobri que o dedo martelado não poderia ser mais usado. Senti me um pouco Tommy Caldwell que não tem a ponta do dedo indicador.

Errei o alvo…

A 4a enfiada foi até tranquila comparado com o resto. Toquei uma longa diagonal à esquerda passando por algumas fendas até ganhar um pequeno platô no topo das lacas, onde bati a parada dupla. Dali, fiquei um bom tempo olhando para cima e vendo o que me aguardava. Um misto de alegria, apreensão, medo e incerteza tomou conta de mim. Inclusive foi ali, olhando para aquele mar de granito vertical, que veio à mente a inspiração para batizar a via de “Stairway to heaven”. Como a galera daqui tem a tradição de usar somente nome em português para via, traduzi para: Escadaria para o Paraíso.

Dá um play ai para continuar lendo…

Da P4, quatro rapéis me levaram ao chão. A ideia original era dormir por ali mesmo e no dia seguinte dar sequência à conquista, mas depois da martelada e do meu estado de cansaço, achei melhor abortar o plano e procurar outra sarna para se coçar.

Pensei em várias possibilidades para o domingo, mas antes era preciso achar um lugar para dormir. Logo, me deu uma vontade de comer uma boa comida caseira para “afogar a minha tristeza” e lembrei da deliciosa janta da esposa do Itamar, em Afonso Cláudio. Liguei para certificar que teria comida e pé na estrada até Afonso Cláudio para jantar e pernoitar por lá.

No domingo, após uma noite mais do que merecida de sono, dormi das 18h até às 20h30, jantei e depois dormir das 21h30 até às 7h de domingo, dei um rolé pela região para procurar mais algumas pedras. Sempre é bom ter algumas opções de conquista na região.

As montanhas de Itarana.
Pedra Paulista.
Pedra da Onça.

Parti sem rumo e compromisso, rodei por onde deu vontade, o que acabou me levando, perto do meio-dia, à região de Santa Teresa. Ali, lembrei que há uma unidade de conservação que sempre quis conhecer, a Reserva Biológica Augusto Ruschi. Essa UC possui uma área de aproximadamente 3500 hectares e é um dos últimos resquícios de Mata Atlântica preservada da região.

Assim como a maioria das unidades de conservação do governo, essa, também encontra-se praticamente à mercê da sorte. A sede estava fechada para visitação e aparentemente só há um escritório administrativo funcionando. Não há controle de acesso, muito menos placas indicativas bem claras. Para o visitante, há apenas uma estrada que corta a unidade na longitudinal e na transversal para “visitação” de carro.

Aproveitei a calmaria do local para fazer um almoço e arriscar um banho numa pequena cacheira à beira da estrada, enquanto ouvia o canto de uma dúzia de pássaros na região. Além a Mata Atlântica preservada, outro aspecto de chama muito a atenção é o canto dos pássaros. É um “gritedo” sem fim muito impressionante, coisa que não percebo em outras regiões, onde a mata nativa foi totalmente destruída pelo homem e só sobraram as plantações de café.

Pausa para o almoço.
Cardápio do dia: arroz, strogonoff e carne moída.
Buscando coragem para enfrentar a água.
Cachoeira geológica.

Vale lembrar que 90% de todo Estado do Espírito Santo era coberto pela Mata Atlântica antes da colonização e atualmente restam apenas 8%. Durante a década de 60, o Estado foi um dos principais fornecedores de madeira para construção da capital Brasília. Durante esse período, havia no estado, aproximadamente 1500 serrarias. Já na década seguinte, com a chegada de novos polos industriais na região, principalmente celulose, ocorreu o plantio massivo de eucalipto, principalmente na região norte do Estado, agravando mais ainda a destruição.

Só para se ter uma ideia da riqueza da Mata Atlântica, estima se que numa área de 100m x 100m há mais de 400 espécie de árvores. Garanto que você não saberia me dizer nem 10 espécies de árvores da Mata Atlântica. É uma riqueza imensurável que estamos perdendo todos os dias…

Mata Atlântica preservada.
Folhas.

Enfim…

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“Tempestade Solar”, investida final

No início de agosto comecei uma via na face norte da Pedra do Pontal na localidade de Santa Joana em Itaguaçu. Na ocasião, aguentei conquistar 6 enfiadas até ser expulso pelo forte calor característico da face norte.

Enquanto batia em retirada pensava comigo mesmo: preciso voltar à via o quanto antes, antes que eu me esqueça de todos os detalhes das enfiadas chaves e de preferência num dia bem nublado.

Na quinta-feira passada, entrou uma frente fria atípica de inverno trazendo muita nebulosidade para o Estado, era o sinal que eu estava esperando!

No domingo, após um sábado bem chuvoso, parti naquele horário clássico de 4h45 da matina rumo ao norte do Estado. De Vitória até Baunilha a estrada estava toda molhada devido à chuva, mas foi bater em Colatina que tudo estava seco, conforme os dados do Cemadem.

Uma densa névoa cobria os vales da região, indicando o dia seria muito quente. Como se diz lá no Sul, “cerração que baixa, sol que racha”. Tanto é que errei duas vezes a entrada da pedra devido à cerração que fez a pedra “sumir do mapa”.

Cheguei no estacionamento por volta das 7h45, troquei uma ideia com dono das terras e às 8h30 já estava na base da via. Como ainda estava com a memória fresca, tratei de repetir o mais rápido possível as 6 enfiadas para garantir o máximo de tempo disponível para dar sequência à conquista.

Depois da névoa, neve, cerração, lubrina… o Sol!
Um auto retrato que não deu certo…

Cheguei na enfiada crux, 6ª enfiada, por volta de meio-dia, ou seja, na pior hora do dia para encarar a enfiada mais dura. Aquela história de tempo nublado devido à frente fria não se confirmou, e àquela altura, o Sol estava só esquentando a chapa.

Se eu quisesse encadenar a enfiada era preciso subir rápido, antes que o inchaço do pé por conta do calor me deixasse impossibilitado, mas subir rápido uma enfiada de 60m de aderência é quase uma contradição. Por sorte ainda estava com todos os movimentos frescos na cabeça e consegui escalar de forma bem eficiente e fechar a enfiada mais bonita da via.

Sexta enfiada da P6.
P6.

Cheguei na P6 meio-dia e meia. Logo, eu tinha a tarde inteira para completar a via. O próximo lance parecia ser o crux isolado da via, uma parede mais vertical e depois um rampão fácil. Catei um punhado de chapa, me enchi de coragem e fui à luta. A viradinha foi emocionante. O segredo é não ficar olhando para parada! Já no rampão, foi só alegria. Estiquei sem grandes dificuldades 60m de corda até chegar na faixa horizontal de pedra clara que é bem visível de longe. Como geólogo e escalador aquela faixa sempre foi bem enigmática para mim, pois nunca havia visto uma feição dessas antes. De longe parecia uma fenda, o dono das terras disse ser um platô onde as cabras andavam, não acreditei, mas no fim, o dono estava certo. Era um grande platô cheio de cocô de cabra. Já a coloração alaranjada era devido à diferença da composição do granito que ali era mais “cracochenta”.

A P7 me deixou na base de um grande headwall, mas a àquela altura do campeonato não estava disposto a encarar uma muralha vertical. A minha água (2L) já estava na reserva e eu tinha apenas 16 chapeletas para terminar a via.

Por sorte, à tarde, a nebulosidade e o vento aumentaram e o clima ficou mais agradável.

A 8ª enfiada foi um solo de III grau fazendo um grande balão à direita para ganhar a base de um grande platô. Dali já dava para sentir o cheiro do cume. Era mais uma “subidinha”, uma “viradinha” e cume!

Dito e feito, a nona enfiada foi mais um trepa pedra dominando uma série de platôs estranhos até ganhar o rampão final do cume. Como não achei nada que pudesse servir de parada final, tive que bater mais duas chapas para fazer a parada final da via. Dali até o cume, mais uma escalaminhada e lá estava eu na base das antenas!

P9 pronta, mochila arrumada, hora de descer!
As antenas da Pedra do Pontal.
Fiz um esforço para fazer uma selfie, mas não deu para esconder a cara de cansado.

Cheguei tão exausto no cume que nem consegui curtir muito. Eu já estava sem água e ainda precisava descer toda montanha. Da parte que consegui curtir, consegui ver desde os Três Pontões de Águia Branca até os Três Pontões de Afonso Cláudio. Talvez essa seja um dos poucos lugares do Estado onde é possível ver toda cadeia de montanhas do norte e do sul de um único lugar.

Eu tinha a opção de descer rapelando pela via ou voltar caminhando contornando a pedra. Descartei a possibilidade de descer pela via devido ao meu cansaço. Rapelar 9 enfiadas requer muita atenção aos procedimentos para não fazer cagada. E como eu sabia que tanto o tempo de caminhada quanto de rapel era o mesmo, achei mais seguro descer a pé. A caminhada é bem tranquila, sempre para baixo, por estrada e trilha bem demarcada, mas quando se tem um haul bag de 30kg, tudo fica mais dramático. Ainda mais se está sem água. Prevendo todos esses perrengues, na 1ª investida perguntei sobre a trilha com o dono das terras e ele me deu dicas preciosas. Além disso, perguntei sobre a qualidade da água naquela região. Em geral, evito ao máximo pegar água de córrego aqui no Espírito Santo, pois a terra é muito contaminada com agrotóxicos usados no cultivo do café. Mas dessa vez o senhor disso que essa água era limpa e era usada para o consumo local. Por sorte, na descida consegui achar a nascente do córrego e pude me “esbaldar” com água.

Namorando as montanhas do entorno.
Não aguentei descer num “tirão” a descida. Quando ví o vale e o lugar onde estava o carro, joguei a toalha, ou melhor o haulbag.

Para ler mais sobre a via, clique aqui!

Quando vou para o lado norte do Estado, tem uma coisa que nunca abro mão. Parar no Paradouro Califórnia em Ibiraçu para tomar um caldo de cana e comer um pastel de queijo com palmito. Essa paradinha é muito clássica. E para dar mais dramaticidade, gosto de chegar sempre na “seca”, no limite, pois quando mais baixa a taxa glicémica, mais gostoso é o caldo.

Naturalmente, tomei o meu caldo e o pastel e pé na estrada novamente para encarar mais 80km até Vitória. Quando sai do paradouro, uma senhora de idade me ofereceu doce de polvilho. Sempre a vejo quando paro ali. Cordialmente declinei a oferta e fui para o carro. Quando entrei no carro, a senhora perguntou se eu não poderia dar uma carona até Nova Carapina. Em geral, não dou carona devido aos perigos associados, mas aquela senhora de idade estava longe de me oferecer perigo.

A volta foi bem agradável na companhia da senhorinha. Eu nunca tive avó por perto na minha infância, pois os meus avós viviam no Japão, então, nem que seja por algumas horas, foi bem divertido conversar com ela. E avó é tudo igual, ela me deu várias “dicas de avó”, como não usar talher enquanto estiver relampeando na rua ou virar o espelho para não atrair raio.

Deixei a senhorinha a parada de ônibus e segui o resto da viagem até Vitória e por volta das 19h30 já estava em casa, morto!

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Tempestade Solar

^ Pedra do Pontal em Itaguaçu.

Tento, em vão, achar qualquer protuberância na rocha que possa ser usada como agarra de mão. No desespero, tateio a rocha, pois para os meus olhos, tudo é liso. A minha mão esbarra, sem querer, em alguma coisa que lembra de longe, uma saliência. Tento procurar algo melhor, mas logo concluo que aquela saliência é “o que tem para hoje”. Olhos para os pés e idem, tudo liso. “Chapo” o pé na aderência e tento me convencer de que aquilo é uma agarra de pé e me puxo na esperança de encontrar algo melhor mais acima. Estico-me até o ponto sem volta, subo a mão livre e como num toque de mágica, acho uma agarra salvadora e volto a respirar novamente. Dou mais uma dominada, nem olho para baixo porque não quero saber onde ficou a última proteção e rapidamente puxo a furadeira para bater a parada e fechar uma enfiada cheia de 60m de pura emoção. Na segurança da parada, olho para cima e “jogo a toalha”, eu estava no meu limite. Considerei razoável descer dali mesmo e deixar a conquista do cume para próxima investida, afinal de conta, ainda tinham 4 rapeis, uma aproximação e mais 3h de estrada até Vitória. E tudo isso sozinho.

À procura do nada…

O dia começou cedo, para variar 4h45 estava na estrada rumo ao norte do Estado passando pela cidade de Colatina até a localidade de Santa Joana. A região é bem familiar para mim. Nesse conglomerado de pontões de granito há diversas vias tradicionais e algumas fendas de excelente qualidade. O objetivo do dia era conquistar em solitária uma via na face norte da Pedra do Pontal, um monólito de aproximadamente 650m de altitude em relação ao nível do mar e que no seu cume há diversas antenas de telecomunicação. Já tinha visto esta pedra em outras idas à região, mas sempre a considerei uma “pedra secundária”, principalmente porque a face mais fácil era enorme e voltada para o Sol. Mas dessa vez, criei uma teoria idiota e considerei que seria plausível conquistar uma via ali. A final de conta, estamos no auge do inverno e o clima está bem agradável nessa época do ano, a ponto de conseguir ficar o dia inteiro na pedra “chapando” (???)

A caminho da pedra! Rio Doce e a cidade de Colatina ao fundo.

Conforme estudo prévio no Google Maps, fui direto a uma propriedade que dá acesso à base da pedra. Apresentei me e expliquei as minhas intenções ao dono:

– Bom dia, meu nome é Naoki e gosto de subir nas pedras nos meus tempos livres. Gostaria de saber se posso passar pela propriedade do senhor para acessar a pedra.

O senhor que esqueci o nome, sem entender bem, prontamente liberou o acesso e completou:

– Você pode subir por aqui até o curral. Estou indo para lá agora e posso te acompanhar.

Ótimo, assim me poupa de sair varando mato, pensei! Peguei o haulbag lotado de material de conquista e fui com o dono. Ele estava apenas com um balde vazio na mão foi a mil na frente. E eu com aquele peso nas costas me esforçava para acompanhá-lo. O meu orgulho não deixava pedir arrego e dizer: O senhor pode ir mais devagar que a minha mochila de 30kg está me matando?

Acompanhá-lo já era difícil, mas mais difícil ainda era manter a cara de serenidade no rosto para conversar com ele. Tentava responder à bateria de perguntas sem aquela voz ofegante. Assim que chegamos no curral dei graças a Deus. Despedi-me dele e pude seguir o restante da caminhada no meu ritmo, de tartaruga paralítica.

Cheguei na base da montanha pela crista da pedra até ela ganhar bastante inclinação. Dei uma boa descansa e comecei a conquistar o primeiro trecho. Era um trecho que daria para ir de tênis, mas se eu caísse, iria rolar por uma das vertentes até o fundo do vale e com uma mochila pesada, achei que fosse mais prudente fazer do jeito mais conservador. Estiquei até a P1 sem bater nenhuma proteção e fiz o mesmo na segunda enfiada. O meu objetivo era buscar uma grande fenda à esquerda que estava a uns 150m da base. Na 3ª enfiada, dei uma guinada e conquistei uma longa travessia em direção à base do diedrão, batendo apenas uma chapa no meio da horizontal para auxiliar no retorno.

Travessia da 3a enfiada.

Cheguei na base do diedro e logo descobri que a fenda era mais vertical do que o desejado e de qualidade suspeita. Espertamente montei uma parada numa pequena sombra e ali fiquei um bom tempo dando uma respirada e me preparando psicologicamente para enfrentar a fenda. Como a fenda tinha uns 70m e alguns desvios, resolvi dividi-la em 2 enfiadas. A primeira foi um misto de chaminé, aderência e oposição. Tipo, se uma técnica não desse certo partia para outra e assim ia revezando… Assim que a pedra mudou de ângulo e o estilo da fenda mudou, bati uma parada. A 5ª enfiada era a continuação da fenda, mas dessa vez por uma sequência mais tranquila em oposição constante até ela sumir de vez. Bati a P5 no final da fenda e ali fiquei. Cheguei bem cansado na parada, em parte porque o sol estava bem forte, mesmo sendo inverno. Além disso, o desgaste psicológico de conquistar em solitária estava cobrando seu preço. E para piorar, dali para cima era uma aderência eterna que só ia ficando mais inclinada.

Visão do que me aguardava. Início da 4a enfiada.
A quarta enfiada de cima, na altura da metade da enfiada.
P4. Bomber!

Descansei um pouco, peguei exatamente 10 chapeletas e fui à luta. Mirei uma virada e fui conquistando, chapa após chapa. A medida que ia progredindo, a rocha ia ficando cada vez mais inclinada na mesma proporção do meu cansaço e inchaço nos pés devido ao calor.

Mesmo com todas as dificuldades da conquista, a 6ª enfiada ficou muito bonita e consistente com muitas passadas de leitura e um belo crux de 5º SUP no final para coroar a enfiada.

Devido ao calor e do cansaço desci da 6ª enfiada, faltando conquistar mais duas ou no máximo mais 3 enfiadas para bater no cume. Poderia conquistar mais uma enfiada, mas àquela altura a escalada já não estava mais sendo agradável e como a montanha não sairá de lá, resolvi descer e agilizar a volta até Vitória.

Conquistando a 6a enfiada.
Tentando me proteger do Sol.

Batizei a via de “Tempestade Solar” que o nome dado a um fenômeno de interação eletromagnética provocada pelo Sol na Terra e que tem como uma das consequências, causar interferência no sistema de telecomunicação. Sol, calor, antenas no cume da pedra… Tem lógica né?

Traçado da via.
Casa ao estilo enxaimel.
Pedra do Pontal.
Rio Doce ao entardecer.
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Onde os amigos têm vez

^ Pancas depois da chuva. À direita, a famosa Pedra do Camelo.

Na semana passada, enquanto repetia a via “Onde os fracos têm vez” na Pedra do Córrego em Pancas, com um olho ficava procurando as agarras da via e com o outro, “namorando” uma linha paralela à via. Ficava imaginando: “caramba, ali sai uma linha perfeita, por que não tem nada ali?”

E agora, no último final de semana, resolvi voltar lá para tirar a limpo essa história e abrir uma via ao lado.

Sábado, primeiro dia

Como de praxe, choveu no dia anterior e tudo estava bem molhado. Então, no sábado de manhã, usando a mesma estratégia da outra vez, resolvi sair mais tarde do Camping Cantinho do Céu para deixar o sol secar melhor a pedra.

Cantinho do Céu ao amanhecer.

Camper, agora com forro para deixa-lo mais apresentável.

Por volta das 9h30 fui até a pedra para começar os trabalhos. Como estava sozinho novamente e não estava a fim de carregar 30kg de equipamento morro a cima, resolvi dividir o “porteio” em duas partes. A estratégia era subir primeiro levando as duas cordas e a furadeira para achar a  base da via e depois levar o haulbag com o resto das coisas.

Usei a mesma aproximação da via “Onde os fracos têm vez”, mas logo descobri que a pedra tinha pregado uma peça em mim. A pedra deu uma falsa sensação de que a base era logo ali, quando na verdade, ela estava bem mais longe do que o esperado. Estava tão além que resolvi descer novamente, pegar o carro, dar a volta e estacionar num outro ponto do cafezal. E tudo isso sob um sol típico de Pancas.

Melhorei o acesso e dessa vez resolvi ir cortando por um costão, assim não teria que abrir mato no peito. Estudei de longe a via e logo descobri que ao lado a linha que estava imaginando tinha uma linha melhor ainda, passando por um sistema de fendas mais interessante.

Face noroeste da Pedra do Córrego.

Fiz o primeiro porteio, achei a base e voltei para o carro para pegar o resto do material. O que era para ser uma coisa tranquila, no fim das contas se mostrou bastante exaustiva, pois a aquela altura já tinha subido e descido três vezes em função de achar a base e levar as coisas para cima. E quando começou a melhor parte do dia, a minha bateria já estava pela metade e para piorar, o calor estava ficando cada vez mais forte. Nada de nuvens para fazer uma sombra ou uma brisa para refrescar um pouco o melão.

Primeira enfiada da via.

Equipando para entrar na via.

Comecei a conquista esticando 60m de corda, abrindo uma enfiada muito bonita e variada com direito a escalada em “agarrência”, proteção mista, fenda e coroando com uma bela chaminé no final.

Fazendo um molhinho de proteção.

Chaminé final da 1a enfiada.

Deste ponto para cima, ou seguiria por uma fenda de punho frontal ou voltaria para chaminé. É claro que não pensei duas vezes e segui pela fenda, mas como alegria de escalador dura pouco, 5m a cima a fenda acabou e tive que voltar para chaminé!  Logo acima, na primeira oportunidade que tive pulei fora daquele esfrega-esfrega e toquei em diagonal à esquerda em direção ao cume de um pequeno totem onde bati a P2 da via. Essa enfiada acabou ficando um pouco mais curta, 30m, mas por causa do atrito, acho que ficou bom assim.

Bati a parada por volta das 13h30, ou seja, na pior hora do dia para estar em qualquer lugar de Pancas. A essa altura, a minha bateria estava entrando na reserva, assim como a minha água. Para piorar, não tinha uma única sombra no totem onde pudesse me refugiar por alguns instantes.

Olhando a 3a enfiada da P2.

P2 da via.

Cansado e mentalmente perturbado, tive dificuldade para escolher uma linha a seguir. A linha mais natural pela fenda levava para um beco sem saída, num lance bem vertical e sem fenda que teria que ser passado em artificial. A linha da esquerda pela face parecia que ia bem, mas mais acima também ficava bem vertical e sem agarra.

Na dúvida, escolhi o meio termo, fui pela face, bati uma chapa, dei um esticão irresponsável, bati outra chapa e cai para fenda. A cada metro que subia, a minha reserva de energia baixava mais um pouco. Aquele sol estava me castigando brutalmente! Mesmo sabendo que a fenda iria sumir logo a cima, fui tocando por ela “na espera de um milagre”. Milagrosamente no trecho mais vertical havia exatamente as agarras necessárias para fazer a virada e seguir em diagonal por um misto de oposição com chaminé. Na viradinha crux bati uma chapa e quando fui fazer “o movimento”, a agarra do pé direito explodiu e fiquei só pelas mãos! Senti o gosto do coração na boca!

Nuts para proteger os lances.

Aquilo me deixou com nervos à flor da pele e fiquei bastante abalado emocionalmente. Perdi toda confiança que eu tinha e escalei o resto da enfiada com “aquilo” na mão! Agora, parecia que todas as agarras iriam quebrar e para piorar, nenhuma peça que eu colocava na rocha me transmitia confiança. Para complicar, nos metros finais, um platô altamente suspeito crivado de cactos me separava do platô onde poderia ser a P3 da via. Não aguentei a pressão e tive que bater uma chapa para fazer esse lance protegido. Mesmo assim, eu sabia que se eu caísse iria voar muito, pois já está tinha esticado quase 50m de corda.

Passei os cactus e o que sobrou de mim chegou à P3. Olhei para cima e vi o que seria a cereja do bolo da via, um grande teto em diagonal com uma fenda na base a sumir de vista. O lado ruim dessa brincadeira era que a parede era mais vertical do que o esperado, mas era bem “escalável” e “protegível”.

Segundo os meus cálculos, era “só” vencer essa diagonal de uns 50m e tocar outros  50m em rampa que estaria feito. Mas o meu corpo estava um bagaço só que achei prudente descer e deixar o resto para o dia seguinte.

A essa altura do dia, por todos os lados que eu olhasse na região, havia uma meia dúzia de foco de chuva e era apenas uma questão de tempo (e azar) para que um desses me pegasse de jeito. Resolvi desequipar toda via, sem deixar nenhuma corda fixa para o dia seguinte. Apenas peguei todo material e escondi num lugar protegido da chuva para não fazer todo  porteio no dia seguinte.

Chuvas isoladas na região.

Desci da montanha e fui direto a um posto de gasolina me abastecer de água, Cola-Cola, isotônico, enquanto via de camarote a chuva cair com força na região.

Chuva! Vendo de camarote!

A segunda noite no Cantinho foi com a galera da “Ilha” que se reuniu para fazer uma reunião sobre o Festival de Montanhismo que irá acontecer em setembro e com um alemão perdido (Cris) que foi caminhar na região.

Como de praxe choveu bem na região durante o início da noite, logo se eu quisesse fazer qualquer coisa no dia seguinte, teria que fazer o mesmo esquema do dia anterior.

Amanhecer no camping.

Bananeiras.

Gotas de chuva.

Domingo, a volta dos mortos vivos

Acordei no domingo e parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim. Levantei um caco de pessoa. Da sola do dedão até o último fio de cabelo doia. A aquela altura, já não estava achando ruim a pedra estar molhada, pois era a desculpa que estava precisando para não ter que voltar aquele campo de batalha.

Tranquilamente, ou me arrastando, tomei um café da manhã preguiçoso, arrumei as coisas e por volta das 9h fui ver a pedra na esperança de encontra-la molhada, sqn…

Aquela pedra parecia o Calogi! E lá estava ela, sequinha da Silva, só me esperando. Fiz todo processo do dia anterior e repeti as três enfiadas até a P3. Como estava me sentindo cansado emocionalmente, escalei com um pouco de medo e sem muita confiança. Além disso, a minha movimentação estava bem lenta, como se eu estivesse fugindo daquela escalada.

Por volta das 13h30 iniciei a quarta enfiada pelo grande teto. A movimentação inicial na fenda foi para acabar com a lombar de qualquer um. Quem já escalou uma oposição em diagonal sabe o que é não conseguir respirar direito naquela posição. Logo acima, vi um um pequeno escorrido, um olhar mais minucioso e descobri que um trecho de quase 5m estava totalmente molhado, pois vertia água por baixo da fenda. A contragosto, tive que entrar em artificial nesse trecho. Aquilo foi a gota d’água que me botou para baixo. Dei uma brochada geral na via. E para piorar, começou a chover! Fiquei um bom tempo parado sem me mexer, só pensando em tudo que estava fazendo e acontecendo. A chuva também se tornou uma preocupação real, pois a media ia fazendo a travessia, estava complicando a minha volta caso fosse necessário bater em retirada. Além disso, o meu estoque de chapeletas também estava bem baixo. Não teria chapas suficientes para descer abrindo uma linha de rapel em fuga.

Depois de esticar uns 25m, as minhas peças acabaram e tive que fazer uma parada no meio do teto para recolher as peças (P4). Limpar aquela diagonal foi, com certeza, o crux da enfiada. Quando retornei à P4, arrumei uma injeção de ânimo e botei na cabeça que se continuasse nesse ritmo não chegaria ao cume hoje. Enchi-me de motivação e acima de tudo, de coragem e parti para abrir a 5a enfiada com sangue nos olhos. Fui tão determinado que conquistei a próxima enfiada em menos de 30 minutos, finalizando a enfiada ao final do grande teto, num platô relativamente confortável.

Quinta enfiada.

Eu sabia que dali para cima era só tocar uma corda cheia em diagonal que encontraria a parada final da via “Onde os fracos têm vez” e poderia usa-la para descer, em vez de descer pela via que estava conquistando. Se já estava motivado, agora, vendo a luz no fim do túnel fui mais focado ainda e sai atropelando os últimos 60m até encontrar a parada da via.

Nunca foi tão bom ter chegado no cume de uma montanha! Que alívio, quanta alegria! Mas a luta ainda não tinha acabado. Já eram 16h30 e tinha apenas mais uma hora de luz para descer 200m e caminhar até o carro que a essa altura estava na casa do caraio. Apressei o passo e desci sem perder tempo pela via e caminhei varando o mato no peito como um trator com todo equipamento nas costas até o carro.

A via ficou com 240m de extensão e predominantemente protegida com material móvel (friends = amigos). A via possui apenas 6 proteções fixas (tirando as paradas), e pelo fato de estar ao lado de uma via chamada “Onde os fracos têm vez”, batizei a nova via de “Onde os amigos têm vez”.

Essa foi sofrida e suada.

Assinando o livro de cume novamente!

Na minha humilde opinião, a via ficou muito legal por ser uma escalada bem variada e com uma boa dose de escalada aventura, mas sem muitos perrengues.

Agora é esperar a época da estiagem para secar os 5m do teto e liberar a via na íntegra, pois a única enfiada que não ficou com cadena foi a 4a enfiada.